quarta-feira, 31 de julho de 2013

RETRATO DE MULHER TRISTE

Como terão adivinhado que hoje acordei assim?



Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles, in Poemas (1942-1959)

1 comentário:

  1. Muito triste, mas muito belo. (Ele há tantas mulheres destas assim tristes! Infelizmente...)

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