quinta-feira, 4 de abril de 2013
IRREVERÊNCIA
quarta-feira, 3 de abril de 2013
A IDA AO MÉDICO
sábado, 15 de outubro de 2011
O TICO E O TECO
As minhas bonecas nunca tiveram nome. Foram simplesmente as minhas bonecas. Com a maior de que me lembro, comprada pelo meu pai, porque muitas outras tive antes e depois, usava a meias a linda touca cor-de-rosa que a madrinha Elisa me confeccionou em tricote. Finou-se a boneca, que pelo desenho do cabelo até seria um boneco, com o primeiro banho que lhe dei. Era em cartão, como grande parte das outras e do que aconteceu à touca nem tenho memória.
Só muitos anos mais tarde, já adulta e mãe, cuidando do afecto e do imaginário de duas criancinhas, senti necessidade de dar nome às coisas. O canário que celebrava a nossa entrada em casa, cantando enquanto subíamos as escadas do rés-do-chão até ao primeiro andar, chamava-se Chiquinho Pirilau. O relógio impiedoso que nos punha fora da cama todas as manhãs foi carinhosamente apelidado de Joquinha, era lindo, cor de laranja, com duas enormes campânulas. A Soneca e Tonico formaram o casal de piriquitos de quem estoicamente limpei o lixo anos a fio. Esqueci o nome dos peixes e de tudo o mais.
As crianças cresceram, mas o hábito mantém-se.
O GPS é o “Jaquinzinho”. Passeamos juntos muitas vezes, mas não são raras as alturas, lá pela capital, em que me diz que vire à direita e tenho de voltar à esquerda, no sítio indicado… Homens!
E até os dois únicos neurónios que possuo estão personalizados: o Tico e o Teco.
O Tico e o Teco são dois amigos inseparáveis. Moram porta com porta e não vivem um sem o outro.
Nasceram para pensar. As mãos, os ouvidos, o nariz, a boca e os olhos estão sempre a fazer perguntas, muitas, muitas perguntas e nem se apercebem que as fazem, porque o Tico e o Teco são muito, muito rápidos a responder.
As pessoas quando falam connosco também exigem respostas mesmo que não façam perguntas. O senhor passou e disse: “Bom dia” E o Tico e o Teco disseram à boca que a resposta seria “Bom dia” e não outra coisa qualquer.
É isto que é pensar. Encontrar as respostas para as perguntas que a vida nos está sempre a colocar mesmo quando se esquece do ponto de interrogação.
Ah! Mas não se pense que isto de encontrar respostas é assim tão fácil como parece. Às vezes, mesmo muitas vezes, custa mais entender as perguntas do que dar as respostas.
Pois o Tico e o Teco, quando se viam atrapalhados quer com as perguntas quer com as respostas, ordenavam imediatamente aos cantos da boca que se levantassem para que esta sorrisse, pois mal por mal chegaria eles andarem “às aranhas” sem saberem resolver a situação, não era preciso a cara… ficar com cara de pau.
E, entre um riso e outro, a cara convencia-se que estava contente e o Tico e o Teco arranjavam um tempinho extra para entender as perguntas, consultar as enciclopédias da cabeça, remendar o coração e dar respostas acertadas às questões.
Mas outro dia… Sabem o que aconteceu outro dia?
A vida ameaçou com um pinote, coisa pequena, de somenos, mas o Tico e o Teco estavam em dia não.
É que nem todos os dias são iguais. Há dias em que estamos de seda, muito frágeis, muito sensíveis, com o coração à flor da pele e mal se carrega dói logo. É tal e qual como quando se espeta o indicador numa nódoa negra: ”Dói-te aqui?” E dói que se farta!
O Tico e o Teco estavam num desses dias. O Tico encolheu-se muito dorido, ficou pequenino, pequenino, quase sumiu, só lhe apetecia chorar e o Teco só refilava, refilava “que não podia ser” “que estava farto” “não faltava mais nada”. Um perfeito desatino.
Assim o Tico e o Teco ficaram em curto-circuito, de tão amigos e certinhos, deram em desafinar. Cada um a puxar para seu lado, faziam lembrar aquela história dos burros teimosos presos num ponto equidistante de dois fardos de palha diametralmente opostos. Até que a dona da cabeça, farta de tanta confusão num copo de água, resolveu acabar com a barulheira: “mas afinal o que é isso comparado com o RAIO da terra?”
O Tico e o Teco quando ouviram a palavra raio pronunciada daquela maneira puseram-se logo em sentido com medo que estivesse prestes a ribombar um trovão.
“Quero juízo na cabeça!” – disse a dona da cabeça que já tinha os miolos a ferver.
O Tico e o Teco olharam um para o outro e sorriram. “É mais fácil sorrir do que andar zangado” disse o Teco “e até é mais bonito” disse o Tico.
A Isabel, que era a dona da cabeça, foi comer marmelada sem pão.
E acabou a confusão.