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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

SEMPRAUDAZ - ASSOCIAÇÃO CULTURAL


Sonhei com lúcidos delírios
À luz de um puro amanhecer
Numa planície onde crescem lírios
E há regatos cantantes a correr.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Uma mulher comprometida com o conhecimento sonhou. Sonhou transmitir o saber para além dos anos para os quais a sua profissão de professora de Filosofia lhe permitira fazê-lo, no ensino público. Incapaz de permitir que a vida se esvaísse no corredor da esperança, Helena Moreira Duarte Carvalhão, figura incontornável da história de Leiria, na segunda metade do século XX, soube imprimir movimento ao sonho e, após a aposentação, fundou no início de 1999 a primeira Academia Sénior da cidade de Leiria. Nascendo assim, da sua vontade férrea e do voluntariado de várias professoras e professores amigos a Academia de Cultura e Cooperação, com o apoio da Câmara de Leiria e da Misericórdia de Leiria, entidade que cedeu as instalações onde, durante treze anos, funcionaram as diferentes atividades que, entre vários objetivos, tinham o fim de arrebatar ao isolamento, mantendo ativas e fazendo sentir-se úteis pessoas com idade superior a cinquenta anos. 

Com a promessa de uma sede própria formou-se posteriormente uma nova associação. Em 13 de Outubro de 2012, a Câmara Municipal de Leiria, através do Presidente Dr. Raul Castro, assinou com a Dra. Helena o protocolo de cooperação e atribuiu como sede própria o Edifício - Praça Eça de Queiroz à instituição recém-criada: Sempraudaz - Associação Cultural, da qual a Dra. Helena Carvalhão é a Presidente.


Dois anos são passados. A festa aconteceu segunda-feira. Do programa constou a conferência sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, proferida pela Professora Teresa Vieira, a declamação de poemas pelo grupo de teatro e a partilha do bolo de aniversário, entre os convidados e associados.

Para a Sra. D. Helena, a quem admiro o extraordinário dom de antecipar o futuro e que por motivos de saúde não pode estar presente, deixo, com os sinceros votos de rápidas melhoras, as palavras de Sophia:

Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida.
Isabel Soares
Jornal de Leiria, 16 de Outubro de 2014, modestamente na página 18.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

DÚVIDAS

Numa qualquer sexta-feira, fui ao médico.

“Não estou doente.” – disse ao clínico, um jovem pela idade da minha filha mais velha ou talvez nem tanto.  Ele levantou os olhos do PC. Agora os médicos interagem mais com os computadores do que com os doentes. E eu, para que não me tomasse por arrogante, ou presumida, ou como me quisesse chamar, emendei: “Bom! Penso que não estou doente. Isso terá de ser o doutor a avaliar, pois recai no âmbito das suas competências. O médico voltou a interessar-se pelo PC.

“Venho por uma questão que se prende com a qualidade de vida” – continuei – “nem tão pouco sei se poderei encontrar o que pretendo numa caixa de comprimidos.” O médico escrevia e eu desfiava o rosário das minhas ideias, pretensões, dúvidas, ou lá o que se queira chamar ao discurso que ininterruptamente proferia.

Quando me calei, o doutor desviou o nariz do PC, olhou-me, e num tom surpreendido sentenciou: “É uma senhora castiça, característica a que sabe muito bem aliar a inteligência.”

Eu sorri à leitura subjetiva que fiz do que acabava de ouvir, que não vem ao caso e lá vim com uma receita de pílulas que continuo na dúvida se devo ou não adquirir. No fim paguei setenta e cinco euros de consulta.

Conclusão: Castiça poderei ser, quanto à inteligência… tenho sérias duvidas. Pregar aos peixes ter-me-ia saído muito mais barato.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

SMS

Hoje está uma linda tarde de sol. Os vinte e nove graus centígrados embalados por uma leve brisa lembram o verão que ainda vem longe.

Renegando o hábito, sentei-me a uma mesa, noutra esplanada. Há por onde escolher. Tento alterar uns hábitos, mantendo-me fiel a outros. As obras de remodelação do Chico Lobo descaracterizaram o espaço e eu, como não tenho contrato assinado que me obrigue a fidelização, mudei de lugar no mesmo espaço. Repete-se a Praça Rodrigues Lobo, mas agora vejo-a numa rotação de cento e oitenta graus. 

A sensação é de conforto. Este lado da praça é mais abrigado. Nem se sente a leve brisa que agita as folhas das árvores junto à esplanada do Chico Lobo. Rodeia-me gente nova brincando com computadores e telemóveis ente goles de cerveja. Não gosto da mesa a que escrevo. Faz-me sentir absorvida pela multidão que me rodeia. A cadeira balança devido à irregularidade do piso e, de vez em quando, aproveito o embalo. Gostaria de apreciar melhor o desenho do pavimento da praça que me chega em farrapos dispersos entre pedaços de gente e que o tolo que todos os dias se arrasta por aqui discursando junto de quem por piada o anima, tolos também, mas de tolices outras, se calasse.

Detenho-me... Parece que a vida moderou o passo e segue lentamente, sem pressa de chegar seja onde for. 

Alguém me pergunta por SMS: “Estás a curtir este dia já com algum calor?”, forma simpática de me perguntar onde estou. “Saboreio a vida.” – Apressei-me a responder e alongo-me pela folha da agenda, improvisado bloco de notas, aberta à minha frente. As palavras que vou tecendo esbarram noutras que haviam chegado antes: “Durmo e acordo. Frio e silêncio. A tua ausência.” Sorrio. Copiara para a agenda, para voltar a tropeçar nele, o pedacinho de ternura com que alguém numa noite de insónia me lembrara. “Olho e não vejo. Sol ameno e brisa leve. A tua lembrança.” Seria, neste momento, a resposta que não seguiu.

Quantos chás prometi sem que os bebêssemos?!
E fechei a agenda disposta a partir…


sábado, 29 de março de 2014

AS PALAVRAS TRAEM-NOS


Há tempos, há atrasado, como diz a minha amiga IA, num lindo e calmo linguarejar nortenho, meti um amigo em trabalhos. Aliás, ele é que se deixou meter. Convenci-o, facilmente, diga-se em abono da verdade, a participar num concurso de poesia que decorreu ao longo de dez semanas. Só que o meu amigo, independentemente da sua atividade no âmbito da escrita, já estava mergulhado de corpo e alma num outro trabalho de grande responsabilidade, a concluir até final de dezembro. O tempo de que dispunha era pouco.

O meu amigo é um purista da língua, na linha de Vasco Graça Moura com um leve toque do surrealismo de O’Neil, embora garanta que tendo começado por ser neorrealista, hoje escreve livre de tendências e escolas. É também um contemplativo. A sua poesia tem um refinado sabor a serenidade. Usa preferencialmente os verbos no passado. E eu leio-o e sinto a confortável sensação de me debruçar na janela, numa tarde amena, admirar os dias que já foram, saboreando minuto a minuto aquilo que vivi; ou que me sentei à beira do regato a vê-lo, não fluir para a foz, mas alongando o olhar no sentido da nascente. O tempo parou e eu rebobino a vida, com a doce sensação de quem come un petit gâteau  e quando este  chega ao fim, tem hipótese de voltar ao princípio para voltar a saborear o mesmo petit gateau e usufruir o mesmo paladar, vezes sem conta, até se saciar da ternura da vida.

Durante o concurso, os temas sobre que se deveria escrever, eram sugeridos semana a semana e o poema urdido deveria ser enviado, obrigatoriamente, até às zero horas de domingo. Numa qualquer semana, o poema, sempre até às vinte e cinco linhas, teria de conter cinco vezes a palavra “toque”. O meu amigo escreveu um desencadear lindo de versos, que me pediu que lesse em primeira mão. Falava de tempo e da espera da amada, certo de que ela vinha e ia sonhando, acariciando a textura dos lençóis onde se deitara, os passos que quebrariam o silêncio da tarde, pisando o saibro do caminho. E no suave encantamento das palavras quase se conseguia ouvir o pensamento do poeta, até ao último verso que, devendo conter toda a intensidade poética do poema, resultara frouxo.

“Não precisas de esperar. Adivinha-se que tens a amada junto a ti.” Escrevera eu no email de resposta, onde dei a sugestão de alteração. E de facto o meu amigo vive uma relação calma e harmoniosa há alguns anos. Isso estava ali, claramente expresso no último verso daquele poema.

Por essa altura, eu andava muito triste, tinha morrido a minha madrinha de casamento, que mais do que isso fora um dos fortes pilares do templo onde me acoitei enquanto crescia e nem sei se na cabeça, se no coração, ou mesmo nos dois lados, era Saúl Dias que me lembrava:

Havia
na minha rua
uma árvore triste.

Quebrou-a o vento.

Ficou tombada,
dias e dias,
sem um lamento.

(Assim fiquei quando partiste...)

E o último verso, contendo tão elevada carga poética, que sem ele nem haveria poema, trouxe-se me à lembrança o trabalho do amigo. “Até a minha sugestão é mole” – pensei.

Ia a caminho de Lisboa, a Rita estava doente e eu acelerava na autoestrada como já não fazia desde o acidente da Z.. Diminui o andamento e envie-lhe um sms com nova sugestão.

Ele ligou. “Quase não tiveste tempo de ler o sms… “ – comentei. Que não, que não tinha recebido nada. Fora por acaso que se verificara a sequência. Já em Lisboa percebi porquê. A mensagem não lhe fora endereçada. Como utilizo sms antigos para enviar mensagens mais rapidamente, escolhera um, carreguei em “responder”, só que não fora num dele e lá seguiu a recado para quem estava a seguir… A conduzir, nem reparara na troca.

Debatemos o assunto e o final terá (ou não) sido alterado… Nunca me preocupo em saber.

Posteriormente, de outra pessoa, recebi um sms: “Sim, eu sei como é difícil não pensar que sou uma sonsa dissimulada…”  Seguindo o mesmo tipo de raciocínio, pergunto: a quem lembraria escrever tal coisa?

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

OUTONO

Tinham acabado de me sangrar o braço para as análises anuais que habitualmente faço em setembro e que este ano foram adiadas para outubro. O tempo passa cada vez mais depressa e eu sem vontade de lhe acompanhar a passada vou aprendendo a procrastinar, como diria o meu querido e saudoso amigo C. P. que foi capaz de procrastinar tudo, menos a morte. Como ele adorava esta palavra! Procrastinar! Que verbo! – brincava eu – só pela trabalheira que dá a conjugar, mais vale não adiar nada.

O casal chegou sorridente, não eram novos, mas o sorriso contradizia a idade que, tenho a certeza, o Cartão de Cidadão teima em lembrar. Indecisos olharam as mesas, acabando por se decidirem por uma situada na esplanada. Não admira, a madrugada acordou meio friorenta, mas o sol brilha já animado e disposto a aquecer quem, por volta destas dez horas e trinta da manhã, se permite ao luxo de parar o tempo e sentar-se.

A senhora lê o relatório dos exames que terá ido buscar à Cedile e o senhor espreita com um sorriso de gaiato a informação do topo da caixa dos sapatos, que o saco de plástico garante terem sido comprados na sapataria Guimarães. Ela guarda os relatórios. Deve estar tudo bem, não se alterou o ar de felicidade do seu rosto. Ele chama-lhe a atenção para qualquer pormenor. Ela debruça-se sobre o saco de plástico, espreita e lê o que ele lhe sugere. Sorri. Trocam impressões. Voltam a sorrir. Bebem o café. Ele come um bolo, enquanto ela fuma um cigarro e vão rindo e conversando. Pagam e partem ainda conversando de nada e rindo de coisa nenhuma, ou será ao contrário?

É o outono da vida acontecendo no outono do tempo.


No “Aldeia dos Sabores”, com o paladar dividido entre um copo de leite morno e meia torrada do melhor pão da Praça, dou comigo a pensar que só o senhor Marques fala inverno o ano inteiro.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

VOU SURPREENDER-TE

Manhã,  toca o telemóvel. Mal tivera tempo de acordar e ir à varanda espreitar a ipomeia, que a cada amanhecer, continua a saudar-me efusivamente em azul.

A “patroa” a esta hora?! Ri-me. Sai trabalho extra para a tarde. Atendo: “Bom dia. Como está? Precisa de alguma coisa?” Pois claro que precisava. “Pode contar. Fique descansada.” “Obrigadinha, Isabel”.

Lembrei-me do Dr. Silvério, Diretor da Escola do Magistério Primário: “A culpa é sua. Na tropa não se pode ser bom sargento.” Muitos anos mais tarde o Professor Bruto da Costa disse-o de forma académica: “É muito orientada para a tarefa”…

Porque será que, tantas luas contadas, ainda não consegui ser promovida a oficial? Tantos anos depois, ainda continuo a sofrer de excesso de orientação? Não haverá chá, mezinha, comprimido, xarope, benzedura que cure a doença?

A esperança é em mim uma teimosia. Uma manhã, alguém telefonará: “Isabel, veste roupa prática e calça sapatos para todo o terreno. Traz os teus olhos de mata-borrão e a alma vestida de sorrisos. Passo aí a pegar-te. Hoje vou surpreender-te."

E vamos… vamos por aí, nem que seja a “caldo verde” pentear macacos, como dizia em bebé a minha filha mais velha.

domingo, 5 de maio de 2013

OBRIGAM-ME


NOTA PRÉVIA
Há dias, numa qualquer madrugada, publiquei o pequeno texto que se segue. De imediato recebi ordem de um amigo de que o apagasse.

O meu amigo, um conhecido intelectual cá do sítio, com obra dada à estampa e prémios literários no currículo, é daqueles de que não me consigo livrar, nem quero (confesso em abono da verdade), há mais de meio século, com tal ordem levou-me a concluir o que eu já desconfiava: “O texto é pouco ortodoxo.” E lá entrámos nós numa conversa no chat no Facebook, que eu, para além de adorar conversar até sobre coisa nenhuma, também gosto de trocar opiniões sobre algo oportuno.

Afinal estava enganada. O meu amigo achou o texto engraçado e pretendia que eu concorresse com ele a um concurso de “short story” que está a decorrer, facto pelo qual o dito texto não poderia ser publicado, pois a concurso só seriam aceites textos inéditos.

Fiquei deveras sensibilizada com a simpática ideia do meu amigo e mais ainda com a confiança que mostrou depositar nos meus hipotéticos dotes de escrevinhadora, mas já me dou por feliz com a alargadíssima meia centena de pessoas que por aqui me lê (tantas vezes mais que cinquenta… outras vezes menos…). Acho que, mesmo dos que não conheço, já sou um bocadinho amiga. Chega-me a vossa simpatia. Por isso o texto aqui está. Não preciso de tentar qualquer outro reconhecimento.

OBRIGAM-ME

Fui à depilação. Ritual que de vez em quando as mulheres cumprem, felizmente para mim, muito “de vez em quando”. Muitos sorrisos, muitos cumprimentos, beijinhos e todas aquelas gentilezas a que Ana me habituou: ”Já tinha saudades, não a via desde Janeiro” “Pois aqui me tem, aproveite e vingue-se da ausência”.

Lá fui para o gabinete decorado agradavelmente e aquecido, usufruindo de música ambiente. Chega Ana e começa a desempenhar o seu trabalho… “a senhora, que é tão moderna, deveria fazer uma tatuagem, agora usa-se”. “Tatuagem não. Sou incapaz de sofrer até mesmo uma picadela de alfinete para ficar mais bonita, mas se tiver uma caneta de feltro, não me importo que desenhe um coração e escreva aí: amor de mãe”

Eu não quero dizer tolices, mas obrigam-me…

sábado, 4 de maio de 2013

APETECIA-ME


Hoje cheguei ao Lar e a minha mãe estava nas instalações sanitárias. Enquanto aguardava dirigi-me ao bar. A D. Irene, a voluntária que aí faz serviço, justificou o fim da conversa que mantinha com um utente fora do local de trabalho:

- Vou atender esta senhora, que nem sei quem é - depois riu-se e acrescentou - só nos conhecemos há quarenta e um anos.

- Impossível - declarei eu – só tenho trinta e cinco de idade.

- Mas a sua filha mais velha deve ter um pouco mais.

Rendi-me à verdade dos factos. A D. Irene, uma mulher da minha idade, era funcionária da Escola do Magistério Primário de Leiria quando aí fui colocada como professora, mudou-se depois, tal como eu para a Escola Superior de Educação, voltei a encontrá-la quando como aluna frequentei o curso de Solicitadoria na Escola Superior de Tecnologia e Gestão e não sei por que sortilégio persegue-me ainda, no Lar Emanuel, onde já aposentada, faz serviço voluntário.

A minha filha mais velha e o seu são da mesma idade, pois na altura em que nos conhecemos, estávamos as duas irremediavelmente grávidas. Hoje, ela só não lembrou o meu vestido amarelo. Eu tive no verão em que a minha filha nasceu, um vestido de linho amarelo, enfeitado a azul, comprado em Madrid (tempos idos em que havia dinheiro para ir a Madrid, agora nem há para comprar um vestido), que eu usava bem curto, apesar da enorme barriga, equilibrada em cima de uns sapatos brancos às tirinhas, compensados e altíssimos. Se eu caísse do alto dos sapatos, morria antes de chegar ao chão… Aos vinte e um anos eu era uma rapariga elegante e engraçadota (a modéstia é uma coisa maravilhosa…) apesar da barriga estilo bombo de festa e o vestido amarelo era mesmo bonito e sobretudo, embora de grávida, fora do vulgar. A D. Irene sempre que refere esses tempos costuma dizer com voz ternurenta “parece que ainda estou a ver a senhora com o vestido amarelo”, mas hoje escapou-lhe e eu tive pena que lhe tivesse escapado.

Apetecia-me o mimo…


terça-feira, 9 de abril de 2013

NOSSA SENHORA DOS PRAZERES





A Festa de Nossa Senhora dos Prazeres realiza-se no domingo de pascoela, na terra de onde é oriunda a família da minha avó materna, os Leitão, gente simples, humorada, de bem com a vida. Dos Quintino, do lado de meu avô materno, oriundos de Ribaldeira, uma aldeia perto, disseram-me que só nós restávamos e eu respeitei isso, embora sempre achasse estranho haver tantos de um lado, primos de primos que já nem primos são e do outro não haver ninguém e dar-se a coincidência de numa localidade próxima haver pessoas com o mesmo apelido e não serem da família. Mistérios. E nunca pus em causa, nem estou a pôr a explicação que me deram e que acabo de referir.


Sempre foi hábito ir à festa da Caixaria. É assim que se chama a aldeia que se situa na freguesia de Dois Portos, concelho de Torres  Vedras, 39º 3’ 0’’ N e 9º 12’ 0’’ W. 


Primeiro era a prima Conceição que reunia a família. Chegávamos a ser cinquenta em volta de uma mesa enorme que ela tinha do andar de cima, na adega, durante três dias. Depois a prima Conceição adoeceu e todos deixaram de ir à festa. Íamos visitá-la fora desse período para que não ficasse triste, por não nos poder juntar. Depois morreu e foi o Joaquim António que herdou a tarefa de juntar uns e a Graça outros. 






Domingo, dia 7, atravessei parte da aldeia e mal cheguei perto da igreja (os meus primos moram a cerca de três metros) telefonei ao meu primo: ”tirando o bolso, onde te parece que posso meter o carro?” “boa pergunta” – respondeu ele. E veio de imediato, mas eu já tinha estacionado embora pelas ruas estreitas se vissem muitas viaturas e os lugares fossem escassos. 





Pormenores do adro da igreja visto da esquerda para a direita




Acesso a uma rua, que se vê ao fundo deste pequeno largo coberto


O canário aproveitava o sol dessa tarde de festa.


Ouvi a banda e desci apressada a Travessa do Relógio de Sol.


Eu ouvia e olhava, mas a banda ainda vinha longe.


Como a igreja esta aberta fui ver a santa: Nossa Senhora dos Prazeres.
Falta o ceptro na mão direita, como se pode ver em outras imagens semelhantes.

Só o andor de Nossa Senhora dos Prazeres estava na igreja, os outros andores estavam na casa da catequese.


O altar sem as imagens, todo coberto de flores.


Finalmente aproximavam-se os festeiros (como por lá se diz)


E a Banda da Arruda dos Vinhos tocava atrás. Fiquei pasmada. Este ano não era a Banda da Ribaldeira...


Tocavam bem.


Mesmo muito bem.


Cumprimentava-se a santa. E assim se inauguravam os festejos em honra de Nossa Senhora dos Prazeres


Findo o concerto de inauguração, seguiu-se o almoço. O deles e o meu.

A minha prima Adelaide tem uma paciência de santa e faz comida ao gosto de todos. Um dos cunhados quer bacalhau com natas, o genro gosta de açorda de marisco, a sobrinha prefere lombo de porco  e eu e o meu primo só comemos o prato tradicional da região: borrego com umas espetaculares batatinhas que só ela cozinha como a minha avó Isabel. Éramos só treze à mesa, mas como ela cozinha para todos as preferências de cada um a banda poderia ter ido almoçar lá a casa. E as sobremesas? Só me atrevi a comer um bocadinho de torta de amêndoa recheada com doce de ovos e fiquei a chorar pelos outros doces que havia. 

Conversámos, brincámos, rimos e quando foram horas da procissão agarrei-me ao braço de meu primo: "Este ano o milagre da Senhora dos Prazeres é tu ires à procissão. Anda daí comigo que eu quero ir de braço dado com um rapaz jeitoso como tu (ele é muito mais velho do que eu). Fazes favor de não me deixar ficar mal e de me avisares sempre que vires um primo ou uma prima que eu deva cumprimentar, os que forem na procissão e os que estiverem às janelas ou às portas a vê-la passar, para que fiquem os cumprimentos feitos". E lá fomos nós com mais umas primas que logo encontrámos à saída da porta.

Ora tendo em conta que a minha mãe é filha única, imaginem a quantidade de primos que eu não tenho na Caixaria... Mas tenho mesmo primas e primos adoráveis, que gostam de ser minhas primas e meus primos e eu gosto de ser prima deles. Ah! E há velhos muito velhos:"Então não me lembro da Isabel Quintina?! Até me lembro do seu avô. Quem é que não conhecia o Quintino da Ribaldeira? E a minha avó morreu há quase cinquenta anos e eu nem sequer conheci o meu avô...

E venho para Leiria e volto à vida cheia de mimo.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

AH, AS AMIGAS!


Estacionara no Largo da República e seguia passeio fora, desgrenhada, cheia de frio, tão enrugada, tão triste, “tão fora de esperar bem”, tão necessitada de que me engomassem… Pensava no dia vinte de Março “Ah! Onze horas e dois minutos?! Mas que prima terá chegado? A vera não foi de certeza. Por onde andará a primavera?”

E o vento soprava fortemente… e os meus cabelos, acabados de pentear na cabeleireira, digladiavam-se irados sem que se vislumbrasse qualquer hipótese de trégua e eu continuava agarrada à parka mais leve que vestira, saudosa da mais quente que deixara em casa.

“A Ilda só não falhará Bach, porque sabe a música de cor”- pensei, sentindo-me a Madame Mim da banda desenhada e lembrando o concerto desta noite onde a minha amiga Ilda Coelho, atuará num palco baixo, havendo a hipótese de encarar as pessoas que a escutarão.

 Cruzo-me com a A.V. “Isabel, nem te conhecia, cada vez estás mais nova. Estás mesmo boa.”E não perguntava, afirmava. “Mulher, tira os óculos” – proferi azeda - ela seguia, tal como eu, de óculos escuros. “Não tiro não, que vejo muito bem. Estás ótima. Adorei encontrar-te.”

Ah! Não há como as amigas para nos levantarem o astral! Sobretudo nos dias de vento gelado quando seguimos, passeio fora, mal agasalhadas.
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quinta-feira, 21 de março de 2013

DIA MUNDIAL DA FELICIDADE




Ontem, regressara do concerto de Jazz, que aconteceu uns decibéis acima do recomendado para a sala intimista que é a do Teatro Miguel Franco e chegada a casa, ficara em ameno cavaqueio com um amigo no chat do Facebook. Ele reconhecido intelectual cá do burgo concedeu-me o privilégio de ler, em primeira mão, um dos seus poemas, acabado de escrever:

- Meu Deus! Estás triste? – quis saber. Como resposta enviou-me um poema de amor:

- Zangas-te se “mandar bocas”? – perguntei, achando estar a falar de amor “sob as tílias” quem talvez nunca tivesse amado em tal sítio.

Sugeri algumas alterações, deixando espaço e tempo para que quem lesse o poema se apoderasse dele e saboreasse o beijo como lhe apetecesse.

- E a mancha gráfica?

Eu disso gostava, mas não enjeitei a ocasião de referir que detestava o fim que entretanto lhe acrescentara, confessando humildemente que quem sabe, escreve e quem não sabe, opina acerca daquilo que os outros escrevem.

- Deixa-te de merdas – escreveu ele – conhecemo-nos há anos de mais para cerimónias. Se não quisesse a tua opinião não perguntava.

De facto somos amigos desde garotos, mas eu naquele momento não sabia se o meu amigo queria mesmo a minha opinião, se a minha companhia, num momento de solidão que talvez não lhe apetecesse  e se não perguntaria só para me manter ali, conversando mais uns minutos . Daí o meu pudor opinativo.

E neste vai e vem de versos deitei-me às duas horas da manhã.

Invariavelmente, acordo um pouco antes das oito e assim aconteceu hoje. Como era quarta-feira, dia da Carma vir limpar a casa, deixei-me ficar na cama até que a ouvi abrir a porta da rua. Então, pulei fora da preguiça.

Acordara com o "mar nos ouvidos", um cansaço enorme na alma e uma vontade ainda maior de me “atirar ao rio”.

- Hoje não pode ser – garantiu a Carma – temos de ir a minha casa buscar um saco de terra para os vasos e tem de me ajudar a mudar as flores.

E quem pensa que na minha casa mando eu, que se desiluda. Quando a Carma dá ordens, refile eu o que refilar, não me resta senão obedecer. O temporal levara as malvas-rosas das floreiras da varanda e a ela decidira substitui-las por amores-perfeitos que trouxera do viveiro da prima. “E toca andar que a manhã é curta” - não disse, mas pairou implícito e eu obedeci.

A tarde, passei-a debruçada sobre a má disposição, fechada em casa, a receber mensagens lembrando a vinda a Leiria de António José Seguro e só por volta das dezanove horas fui ao Continente às compras, para depois jantar e ir ouvir o líder.

O P da C veio cumprimentar-me mal me viu aproximar da entrada de ESECS e eu brinquei:

- Não precisavam de vir todos receber-me.

- Bastava vir eu, não era?

Entrei, atravessei o átrio, cumprimentando sem me deter e dirigi-me ao anfiteatro onde pacatamente tomei assento, esperando o início da sessão.

Era o Dia Mundial da Felicidade, mas eu não sou feliz por decreto.

sexta-feira, 1 de março de 2013

FOI HOJE


Há muito que me apetecia sol e mar, cumprir a lonjura no marulhar fininho das ondas, caminhando pela areia, desafiando-lhes a espuma, que se desfaria a meus pés.

Não aconteceu terça-feira, por conta da Rita. Foi hoje. Ainda pensei convidar uma amiga, mas desisti. A amiga atravessa uma fase diferente da vida e é daquelas pessoas que enquanto não se adaptam, hostilizam quem as rodeia. Compreendo-a e aceito isso, pacientemente. Espero que lhe passe. Ela há de descobrir o ponto de equilíbrio. Eu hoje queria harmonia, precisava da harmonia daquela forma arredondada, tão recetiva da baía, qual útero materno, capaz de abrigar, para depois parir para as incertezas da vida todos que a ela se acolham, por aquela cloaca enorme que a barra, lá longe, onde ruge o mar, nos sugere, falando de incerteza, de desconhecido.

Conduzindo pela autoestrada, pareceu-me que a orla marítima estaria enublada mas, em vez de desanimar, mantive-me expectante. Galgava a distância em busca da luz, apetecia-me o reflexo do sol sobre o mar, tal como naquele poema que a adolescência escrevera: “Quero perscrutar o teu olhar e ver-me nele como o reflexo do sol sobre o mar”. Sonho de menina que se alongou no possível: este mar espelhado, vestido de prata, numa tarde de sol.

Desde Leiria, percorri os cerca de cinquenta quilómetros na companhia de Rodrigo Leão. Ah, aquela faixa dez! E eu imagino-me a abrir essa "Janela", estendendo os olhos por uma seara de trigo salpicada de papoulas e malmequeres. Deixo a janela aberta ao sol e saio, embrenhando-me campo fora. Ao que vou, não sei, talvez apanhar malmequeres e papoulas para florir a espiga dos Maios da minha infância. E a faixa tocou uma e outra vez e a seara ondulava ao sopro da minha imaginação…

Eis S. Martinho ensolarado, numa tarde magnífica. Arrumei o carro na marginal e dei a mão a Praxágora. As duas fizemo-nos à areia, caminhando pela borda da concha, naquele diálogo inventado quatro séculos antes da contagem dos que vivemos e ainda assim tão atual. “Ah! – desabafei – se conseguir cumprir-te nos dez ensaios de que disponho, considero-me a maior atriz da minha rua.” Praxágora riu-se: “Não há lá mais nenhuma…” “Por isso mesmo. Não pretenderias que insultasse, fosse quem fosse, com a minha fragilidade cénica e a ausência da professora”.

Sentei-me depois na esplanada do Bohémia e merendei. “Tenho de ir embora” – pensava – “mas tenho de ir embora porquê? Tenho algum compromisso, para além das rotinas inconsequentes com que entretenho o tempo?” Não, não tinha.

E deixei-me ficar até que o vento frio me mandou embora.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

ACABARAM-SE AS PAGELAS


Depois de dias a fio em que a chuva teimosamente caiu, o dia amanheceu radioso e eu desci até à margem do rio. A água corria num turbilhão e detive-me a olhá-la junto ao açude, local que tantos passeios mereceu a meu pai, em busca do meu irmão adolescente, com o fim de o desmobilizar dos banhos naquela zona perigosa, onde tantos morreram afogados. “Se um dia te apanho a tomar banho no rio, pego na roupa e, para tua vergonha, atravessas a cidade todo nu, à minha frente” Pois bem, o meu irmão nunca foi apanhado, mas lá que tomava banho no rio com os amigos, era inegável, até há uma foto que confirma o facto.

O humor não era dos melhores. Estava num daqueles dias em que me apeteciam palavras, palavras que me mimassem a alma. Mesmo assim brinquei comigo: “dizes tantas vezes que te apetece atirar ao rio, por que não aproveitas hoje?” “Pois! Agora não me apetece. Amanhã. Pode ser que então conjugue a ocasião com a vontade. Além de que molharia o cabelo e acabaria descabelada no jantar dos Rotários.”

Continuei o passeio, agora considerando-me sem imaginação para me arranjar para o jantar dessa noite, onde teria de representar a associação por impedimento da presidente e estendendo os olhos pelo Marachão, ainda do outro lado da estrada, divisei as apóstolas de Jeová. “Para que nada me falte…”- remoí antipaticamente entre dentes.  

Caminhando em sentidos diferentes, depressa nos cruzámos. “Gosta de ler?” – sem que respondesse concluiu que sim e em vez da pagela ofereceu-me a revista-. “Não é a filha da dona Amélia?”- perguntou a mais velha acercando-se sorridente.  “Sim, esse é o nome de minha mãe”, “não me diga que é a Isabel”, exclamou a outra. Sim, eu era a Isabel, que jurava afincadamente nunca ter visto as duas pessoas que me interpelavam . “Ah! Eu sou a Clara”- e eis-me apertada num abraço daqueles que nos fazem expelir os pulmões pela boca – “Ah, és a Isabel!”- e afrouxou o abraço para me olhar – “ Deixa-me tratar-te por tu” – e vá de me apertar de novo.  Sorri. Teria hipótese de não deixar? Mas isso também não me preocupava, o que era o tratamento por tu depois daquele abraço?! E os neurónios em curto-circuito: Quem eram?

“Não consigo lembrar-me de si, Clara…” “Ah! E da Joaquina lembras-te?”, “Se lembro… Se é que estamos a falar da mesma pessoa. Quantas birras me aturou!” – respondi recordando a primeira empregada doméstica a trabalhar em casa de meus pais, de que tenho memória e mulher incontornável na minha vida, que um aneurisma levara-a cedo. “Eu sou a irmã mais nova. Adorava a tua mãe. Sempre que ia a tua casa ela dava-me de comer e uma moeda.” Como poderia lembrar-me?! Os seis anos que tem a mais que eu, eram à época muito tempo. A vida obrigara-a a trabalhar cedo, enquanto eu passava o tempo a brincar no quintal. Conversámos um bocado e fiquei também a saber que a companheira que com ela apostolava era viúva de um funcionário da CP, dos que compõem a linha.

Voltei a casa, ironizando: “não te apetecia mimo? Pois hoje não te podes queixar que te faltasse…” e ria pensando que a minha amiga T.V. pagaria para ter assistido à cena e até seria útil, para comprovar que  eu não conheço toda a gente, como ela assegura, que, na verdade, o que acontece é que muita gente me conhece, alguns por mérito meu, a maioria por conta de minha mãe, outros por conta da Carma, como haveria de descobrir posteriormente.

Dias depois, numa tarde de sol, voltei ao rio. Elas lá estavam no Marachão, desta vez sentadas num dos muitos bancos distribuidos ao longo do rio. Lanchavam. Beijinhos para aqui, beijinhos para acolá, “A mãe como está?”, “Queres bolachas? Come aqui connosco.” E insistiam. Eu que não, muito obrigada, nem me apetecia, queria andar e depois de dois dedos de conversa, afastei-me.

Caminhava sem conseguir furtar-me à triste conclusão de que aquelas duas criaturas não me tendo perguntado se gostava de ler, não me tendo oferecido a revista, nem sequer a pagela, já me sabiam um caso perdido. Iria para o inferno, irremediavelmente.

“Deixa lá…  - consolei-me - Acabaram-se as pagelas, mas há bolacha Maria. Já só falta o chá.”

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

E DE NOVO O SR. FIALHO


Todos os dias, se me encontro em Leiria, visito a minha mãe, no Lar Emanuel. Desde o último internamento hospitalar, que a deixou muito debilitada, que opto por entrar pela porta principal, em vez de ir pelo jardim, passando primeiro pelo quarto, por admitir a hipótese de que poderá não estar bem e permanecer deitada. Quando aí a encontro, já não desço até à sala de convívio, mas se não está deitada eu sei que é aí que a encontrarei e para lá me dirijo. Na sala de convívio, passo obrigatoriamente pelo senhor Fialho e a esposa sempre sentados à mesma mesa, perto do bar. Este, muitas vezes tem alguma coisa para me dizer para além de retribuir os votos de boas tardes que vou proferindo em todas as direções.

“A senhora, que é professora… “ Começa sempre assim, saboreando o facto de me ir trapacear, tal e qual como uma criança perante a visão de um rebuçado que sabe seu. E repete “ a senhora que é professora…” e degusta outra vez. Eu já estou de sorriso aberto, presa às palavras que tardam em chegar. “Então a senhora que é professora, sabe que todos os carros têm rodas de borracha, as bicicletas também e até os motociclos têm as rodas de borracha. Todos os veículos têm rodas de borracha.” Eu concordo, que sim, que tem razão. “Então explique-me, se faz favor, por que razão as rodas do comboio são de ferro.”

E eu começo a inventar razões porque sim, mais porque também e o senhor Fialho escuta-me e olha-me com um sorriso misto de ironia e condescendência e deixa que eu diga todas as tolices possíveis e imaginárias, bloqueada pelo excesso de intelectualização e por manifesta falta de inteligência prática e concluiu:

"Então a senhora que é professora" – e saboreia de novo a frase, fazendo uma pausa, como quem gulosamente lambe os lábios – não sabe que a borracha apaga as linhas?! Como andaria o comboio, com as linhas apagadas?! E eu ri com vontade, enternecida por aqueles noventa e três anos plenos de alegria e acabei a contar a histórias às amigas mais velhas, num qualquer encontro de café.

Hoje fui eu que o provoquei: “então senhor Fialho, não tem questões para me atrapalhar?” Que não, que hoje não havia “Ah, mas o seu marido está doente!” – comentei para a esposa que, sentada ao lado, seguia atentamente a conversa. O senhor Fialho retocou o seu ar sério com uma pincelada de santidade “não, hoje não há piadas, mas vou contar-lhe a notícia de uma coisa que aconteceu na Madeira - disse-me ele com falinhas mansas - Apareceu por lá um insete, que punha toda a gente doente. Deram a notícia na TV e um miúdo que ouviu perguntou à mãe: ó mãe, o que é um insete?” – por esta altura eu pensava que o senhor Fialho não pronunciaria corretamente a palavra inseto e condescendentemente continuei  a ouvi-lo sem o emendar- não sei, pergunta ao teu pai, que ele deve saber- continuou o senhor Fialho – e o pequeno assim fez. Quando o pai chegou correu a perguntar-lhe: Ó pai, o que é um insete? O pai sugeriu que perguntasse à professora, porque ele também não sabia. Na manhã seguinte o petiz assim fez. Se fosse a si que ele perguntasse o que lhe diria? E eu vá de explicar o que é um insete: um invertebrado, com quitina - e tratei de explicar os conceitos, coisa a que vos poupo, agora  – que tem o corpo dividido… Nada disso - atalhou o senhor Fialho- um e sete são oito!

Não sei de quantos anos de vida disporei ainda, mas na eventualidade de vir a ser muito velha, adoraria, por essa altura, ser assim, uma doçura de pessoa, bem-disposta e atenta à vida, como o senhor Fialho. Será difícil porque eu sou um bicho-do-mato, que a cegonha por engano, largou no colo de minha mãe, uma mulher eminentemente social, que sempre adorou ver-se rodeada de gente, de muita gente. Só aprendi a conviver para não soçobrar.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

HÁ UM DIA ESPECIAL PARA TUDO


Ultimamente não tenho dormido bem. Entenda-se por dormir bem adormecer e dormir direitinho e profundamente, para acordar, fresquinha que nem uma alface, no outro dia de manhã, sem memória de sonhos. Há várias noites que acordava preocupada, quase de hora a hora pensando que era manhã. Pois esta noite dormira cinco horas seguidas e tendo acordado cedo, como é hábito, deixei-me ficar na cama à espera da Carma. Era quarta-feira. Logo que a ouvi enfiar a chave na fechadura, pouco passava das oito horas, levantei-me.

Os cumprimentos habituais, “como vai a mãe?”, conversa de circunstância e ala para o banho e vá de me cuidar. Tinha assuntos a tratar de manhã e antes tinha de fazer o almoço.

“Quero provar isso” –disse a Carma de nariz enfiado na frigideira em que salteava os marmelos com que tencionava acompanhar a carne que estufava. “Queria… se eu lhe desse”- brinquei. Os marmelos eram dos que me oferecera e não transformara em marmelada. Estufei a carne, fiz o arroz de cogumelos com brócolos porque, descuidada, acabara as ervilhas e não me lembrara de comprar mais e fiz-me ao caminho.

Entre outros assuntos a tratar, pretendia, por uma questão de boa educação, dar conta do estado de saúde de minha mãe e encaminhei-me para o escritório da senhora com quem pretendia falar. Não estava. E já tinha carregado no botão do elevador para a procurar noutro andar quando lhe ouvi o martelar dos saltos no pavimento. Vem lá, não preciso de descer – pensei sem me enganar. Conversámos, de uma forma que eu costumo classificar com uma expressão de gíria que não tenho coragem de escrever aqui, sem que a senhora, a dois passos do gabinete me mandasse entrar, ou entre um sorriso e outro revelasse grande interesse. Claro que o estado de saúde de minha mãe é importante para mim, não para ela, embora eu achasse que também deveria ser… Saí do edifício a remoer o que considerara uma falta de educação.

Almoço. Hospital. Ida à Câmara, agendada de antemão, para esclarecimento de uns assuntos da Sempraudaz – Associação Cultural e as duas secretárias do Sr. Vereador, avisadas por este da minha ida a receberem-me e à tesoureira da Associação, a quem, pedira para me acompanhar, de pé… Não sabiam responder às minhas dúvidas, menos ainda resolver o assunto e chamaram a funcionária que tratara dos ditos documentos. A menina entra linda, simpática e sorridente, aliás os sorrisos não faltavam por todo o lado, e começa a atender-nos, de pé… Aqui eu achei que já tinha a minha conta. Afivelei o meu sorriso de onze centímetros e disse: “Minha querida, eu já sou muito velha e relha para tratar consigo do que aqui me traz, de pé, com os papéis a voarem por todos os lados. Arranje sítio onde possamos falar calmamente e sentadas, de preferência em volta de uma mesa. Creia que o Sr. Vereador se aqui estivesse também nos receberia condignamente”. Encontrado o sítio no gabinete do Sr. Vereador, expliquei ao que ia, para tornar a adiar o assunto e saímos.

Reunião da Direção da Sempraudaz: pegava de novo nos malfadados papéis, quando um jovem abre a porta e pergunta para a Sra. Dona H.: “Você sabe… “ “A senhora, quer o jovem dizer” – Ah! Mas aquele “a senhora” deve ter saído num tal tom professoral que o rapaz olhou-me, deu as boas tardes e seguiu viagem.

Há um dia especial para tudo. Hoje foi o dia especial da má educação.

domingo, 13 de janeiro de 2013

AS TULIPAS

Eu fora ao hospital dar o almoço a minha mãe. Pouco passaria das catorze horas. “Agora vou eu almoçar”. Despedi-me de minha mãe e desci.

Percorri o longo corredor. Havia fila na Receção, seriam talvez pessoas a reclamar o respetivo Cartão de Acompanhante, mas eu não precisaria de esperar, bastava colocar no balcão o cartão que já levava na mão.

A jovem "segurança" de serviço, atendia com um sorriso divertido a primeira pessoa da fila. Um jovem, não teria trinta anos, carregava na mão esquerda um saco de plástico onde eram visíveis duas garrafas de água e, com a mão direita, religiosamente erguido e encostado ao peito, segurava um ramo de tulipas cor-de-rosa vivo. “Onde terá desencantado tão lindas tulipas?” – questionei-me, surpreendida pela beleza daquele ramo das minhas flores preferidas.

“Então não sabe onde está o seu filho?!” - pude ouvir à "segurança" na rapidez do meu gesto. “Não” – disse o jovem; “e que idade tem o seu filho?”, “nasceu ontem” e sorriu.

E foi um sorriso tão terno, tão doce, um sorriso tão luminoso, que as tulipas perderam a cor...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

OS CARACÓIS


Em pequeninos brincaram com caracóis? Eu brinquei. A minha memória recua até aos cinco anos. É normal. À época, eu residia com meus pais e irmão no primeiro andar esquerdo de um prédio de quatro fogos que tinha, em frente, pelo lado da entrada, depois de um espaço cimentado, um terreno de que o meu pai cuidava a meias com o vizinho do primeiro direito por desinteresse do que habitava o rés-do-chão direito. Por baixo de nós não morava ninguém.

Na metade da responsabilidade do meu pai, o Coquelimoque (tenho pena, mas não sei o verdadeiro nome do homem) cuidava de uma pequena horta e de um ainda mais pequeno jardim. Também havia árvores de fruto. Lembro-me bem do pessegueiro aonde, um dia, fiquei pendurada pelo cós do bibe novo que vestia. Na outra metade do terreno que não era da responsabilidade do meu pai, nem dependia do trabalho do Coquelimoque, eu estava proibida de pisar.

Havia também uma pequena casa de madeira, que o meu pai que, embora com pouca habilidade sempre adorou pregar pregos, construiu, penso que com ajuda de alguém entendido (estava bem feita de mais para ser só obra dele), para guardar as ferramentas e alfaias.

Nesse espaço, eu brincava livremente, sobretudo depois do almoço, período em que a minha mãe se dedicava à leitura e não gostava de ser interrompida.

Era então que eu dava um jeito nas couves. As acabadas de plantar estavam sempre tombadas, tristes e eu tentava endireitá-las, alegrá-las, mas, defeito do Coquelimoque que as plantara mal, ou excesso de zelo meu, aquelas em que mexia acabavam invariavelmente na minha mão. As que sobreviviam aos meus desvelos, ganhavam folhas aonde se deleitavam caracóis.

Eu gostava dos caracóis, daquele deslizar verde, lento e silencioso, pela couve rugosa com os pauzinhos ao sol. E queria ajudar. Achava que na borda do tanque de lavar roupa, superfície lisa de cimento, já tão polida pelo uso, deslizariam melhor. Levava-os para lá. Os caracóis, mal lhes tocava, encolhiam-se na concha e não havia jeito, nem modos de os fazer sair.

“Caracol, caracol, põe os pauzinhos ao sol…” e ele não punha, por muito que insistisse.

Há pessoas assim. Quando nós pensamos que deslizam calmamente na nossa direção, que nos desnudam a alma e permitem a nossa aproximação, enconcham-se. Ora, se se enconcham é porque não confiam, ou porque não querem que os conheçamos, ou porque sim (a melhor de todas as razões para tudo). Não há nada a fazer, a não ser respeitar os seus avanços e recuos, a sua forma de deslizar pela vida. 

Na verdade também sou assim (haverá alguém que não seja?). Desnudo a alma umas vezes e escondo-a muitas mais. Ainda há dias, há noites, para ser mais precisa, um amigo, um velho amigo, que me apanhou a espreitar, fora de horas, no Facebook, me enviava um poema noturno seguido de uma mensagem: "Também podias escrever uns poemas noturnos, quiçá marcados pela insónia." “Lá poder, podia... (respondi eu) É por pudor que não o faço. Gostaria que o melhor da minha alma fosse para um homem. Para o meu homem. Depois, também tenho uma certa caridade por quem me pudesse ler. Acho que nunca escrevo suficientemente bem para encantar os outros. Problemas de autoestima”.Fechei o PC e deitei-me. 

O caracol de todo esticado na folha de couve, recuara apressadamente para a concha. Depois fiquei com remorsos. “Por que razão fora tão intempestiva?” Bastaria dizer que não sofro de insónia. Que sofro de lonjura. Que às vezes a minha alma é um mar tempestuoso e que eu, barco de papel, em noite de breu, agarrada ao leme, vogo assustada nesse imenso oceano, sem carta de marear, nem bússola com que defina a rota.

Quisera possuir a força de que me julgam feita. Não passo de fraqueza reciclada. 



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O SEGREDO


Em menina, viajava muito de comboio. Obviamente! O meu pai era ferroviário. E só gostava de viajar em primeira classe, confortavelmente sentado naqueles estofos aveludados de cor granate protegidos por panos brancos aonde poderíamos, confiadamente encostar a cabeça. A minha mãe, que sempre gostou de se ver rodeada de gente, detestava o isolamento das carruagens de primeira classe e sacrificava o conforto do assento ao contacto com as pessoas. Normalmente o meu pai cedia, mas quando a enchente era grande cedia a minha mãe.

Eu era uma garota tímida, pouco faladora, que olhava tudo muito atenta a pormenores. Quem me conhece agora, rir-se-á descrente, mas, na verdade, sou uma tímida que aprendeu a comunicar, sem nunca ter perdido a consciência das mãos. “Tímido é aquele que tem mãos” – alguém terá dito. Por experiência confirmo que é verdade. Acontece-me ter sempre consciência das minhas quer me dirija a uma plateia e sou capaz de o fazer sem texto previamente escrito, quer quando faço teatro.

Pois nessas viagens, de que as maiores foram entre Lisboa e Tamel, sentada junto da janela, e no inverno, tantas vezes com o dedo, desenhando no vidro (o que não estava autorizada a fazer em casa), com a boneca no regaço ou deitada na pequena mesa que havia nas automotoras, gostava de olhar as pessoas. Apreciava o jeito como se acomodavam, se encostavam a cabeça, se cruzavam as pernas, se as abriam, se simplesmente as juntavam, se cruzavam os braços, se dormiam, se conversavam. Reparo agora, com espanto, que nunca me detive na roupa. Não recordo uma única cor a não ser o azul dos olhos de um senhor meio careca, que achei que deveria parecer-se com o Menino Jesus. Hoje sei que me focava em sinais de comunicação não-verbal. Porquê? Não sei. Sei que ainda hoje esses sinais me fascinam.

E lembro-me que olhava… Tinha um olhar calmo que pousava no que observava, persistente, um olhar absorvente, um olhar de mata-borrão. Quantas vezes me disseram: “Não olhes assim!” E se ainda hoje me distraio a olhar, as filhas reclamam: "Mamã! Excesso de atenção…" E eu ainda a achar que só olho porque gosto de ver, sobretudo de perscrutar para além do que os olhos vislumbram.

“Qual será o segredo do senhor careca?", “Qual será o segredo da senhora do totó’” …

Porque acharia que todos tinham um segredo? Talvez porque em nossa casa, onde todos ou quase todos os assuntos eram falados à mesa, havia alguns que eram segredo, havia alguns de que não poderíamos falar senão os quatro. Eram o nosso segredo.

E as pessoas saiam e entravam ao sabor das estações e eu a olhar: “Qual será o segredo?”

Hoje desci a pé até à cidade. Foi uma forma diferente de saborear o sol matinal. Andei pela cidade e antes de iniciar o regresso, sentei-me na esplanada coberta de “Aldeia dos Sabores”, na Praça Rodrigues Lobo e, enquanto bebericava o café, lembrei-me desta mania de menina por conta do senhor Fialho.

O senhor Fialho é uma doçura de velho que vive no Lar Emanuel, tal como minha mãe e muitas outras pessoas.

Não sei como nos tornámos amigos. Nem sei se foi ele que meteu conversa comigo se fui eu que tomei a iniciativa. Aconteceu. Seria talvez por conta dos trabalhos de tecelagem em que se empenhava, coloridos e perfeitos, ricos de cor e entusiasmo. A seguir foram as fichas de matemática e português que realizava nas aulas de animação e que gostava que corrigisse, sabendo-as rigorosamente certas. Enfim, vamos conversando e brincando um com o outro com a benevolente aquiescência da dona Delmira, a esposa e com alguma ciumeira da minha mãe.

Nos finais de Dezembro, um qualquer dia depois do almoço, quando apressadamente saía do refeitório, depois de auxiliar a minha mãe a comer, o senhor Fialho chamou-me. Voltei atrás. “A senhora que é professora, deve saber história e geografia”. Eu brinquei “dizem que sim, mas não sei se será verdade…” “queria fazer-lhe uma pergunta” – continuou ele “então força! Se souber, respondo” – animei-o. “Nos Estados Unidos há um prédio com doze andares (e eu condescendente com a ingenuidade do que acabara de dizer-me pensei “quantas vezes doze?!!!”) – ele continuava “o primeiro chama-se Janeiro; o segundo, Fevereiro; o terceiro, Março e por aí fora até ao décimo segundo que se chama Dezembro. Há um elevador que liga os andares. Sabe dizer-me como se chama o elevador?” e eu “ano”. O senhor Fialho riu-se “não, é carregando no botão”. Ri-me com vontade “seu malandro! Apanhou-me!” Um pouco mais atrás a dona Delmira também se ria “deixe lá que todos se enganam”. “Senhor Fialho, quantos anos tem?”- curiosa, queria saber. “Quantos tenho não sei, só sei os que já não tenho”. Bom, naquele dia, estava visto que eu não levava a melhor fosse como fosse, mas lá consegui saber que brevemente somaria noventa e três. Saí a rir “ora toma! O velhote comeu-te as papas na cabeça”.

No dia um deste mês, voltou à carga. “Diga-me se sabe esta: onde é que os homens têm mais carne pendurada?” “No talho”- respondi, transformando-lhe o sorriso maroto em desapontamento. “Estou a ver que já sabia esta. Hoje é o dia do meu aniversário”. Felicitei-o com dois beijinhos e a conversa ficou por ali.

Ontem, levantou-se da mesa onde tomara a refeição e aproximou-se daquela onde eu auxiliava a minha mãe.Interpelou-me: “Quando é que dois e dois não são quatro?” “Ah! Mas nem faço ideia!” brinquei perante a questão tão estafada. “Não sabe mesmo?” – ele fazia suspense, saboreando a vitória e a dona Delmira rindo lá da mesa: “ontem estava a morrer, hoje já inventa histórias…” “é quando a conta está errada” ”pois apanhou-me de novo!” e ri da sua satisfação.

Esta manhã, o mergulho na chávena de café trouxe-me à lembrança a questão sem resposta da menina que fui e em mim algo apontou de dedo esticado o senhor Fialho.

Todos estamos na vida, o segredo é a forma como estamos.

O Segredo é Amar

O segredo é amar. Amar a Vida
com tudo o que há de bom e mau em nós.
Amar a hora breve e apetecida,
ouvir os sons em cada voz
e ver todos os céus em cada olhar.

Amar por mil razões e sem razão.
Amar, só por amar,
com os nervos, o sangue, o coração.
Viver em cada instante a eternidade
e ver, na própria sombra, claridade.

O segredo é amar, mas amar com prazer,
sem limites, fronteiras, horizonte.
Beber em cada fonte,
florir em cada flor,
nascer em cada ninho,
sorver a terra inteira como o vinho.

Amar o ramo em flor que há-de nascer,
de cada obscura, tímida raiz.
Amar em cada pedra, em cada ser,
S. Francisco de Assis.

Amar o tronco, a folha verde,
amar cada alegria, cada mágoa,
pois um beijo de amor jamais se perde
e cedo refloresce em pão, em água!

Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"


sábado, 29 de dezembro de 2012

ANO NOVO


E o Natal passou. Mais um que aconteceu cumprindo-se em desvelos.

O André veio uma semana antes. Presente antecipado do Pai Natal que atirou com os preparativos culinários para horas habitualmente consideradas impróprias. Não por mim, que tantas vezes trabalhei alongando-me nas horas em que, vulgo, se costuma descansar.

E cozinhei: “para um regimento” – dizem as filhas - que depois se abastecem e levam para suas casas o comer em excesso, poupando-se no trabalho de confecionar algumas refeições. Também eu fico fornecida por uns tempos e, por vezes, até dá para as amigas provarem as iguarias.

“A avó coseu o peru” e todos pensando que o havia cozido não entendiam a admiração… “sim?!” – alguém comentou condescendente. “Com agulha e linha e brincou com as asas; até parecia que o peru dançava” – acrescentou o André. Foi então que se percebeu o espanto. De todos os trabalhos, o André vira rechear o peru e prepará-lo para assar.

Comido o jantar do dia vinte e cinco, começa a debandada. Primeiro parte uma, depois os outros todos. Volto a ficar só. Pela casa parece ter passado o “fim do mundo” e eu começo a arrumar…

E continuo arrumando no dia vinte e seis. Depois cedo lugar à tristeza. Há sempre algo em mim que se não cumpre. São afetos – outros - que me faltam: uns que se foram, porque a vida se há já cumprido, outros porque os não terei merecido. É a nostalgia do Natal: ataca, sacudo-a, adormeço-a e a vida continua, na certeza de que mais ou menos sofrida é o melhor presente que já me foi oferecido.

Ah! Sem presentes de outra ordem. O Pai Natal chegou apressado. Bateu, deixou as prendas na varanda e escapuliu-se. O André bem chamava. Pai Natal! Pai Natal! Este ano nem o vi… – lastimava-se e ele nada, nem para trás olhou. Mas eu gritei-lhe da varanda: Acabe depressa com a crise que eu também quero prendas… Tenho a certeza de que terá ouvido. Sou professora e faço teatro,  falo bem alto!

E chegámos ao fim de mais um ano. Em trezentas e sessenta e seis folhas fomo-nos entretendo a escrever sem borracha. Teremos escrito o melhor que pudemos, tantas vezes angustiados e sempre comprometidos com as decisões que tomámos. E tantas vezes assaltados pela dura sensação de impotência perante as situações em que não dependo só de nós a solução, não conseguimos cativar os outros para ela.

A nível do coletivo ensombramos negra nuvem. A palavra oportunidade, de tão vã, passou a significar demagogia e só um povo de brandos costumes, teimosamente verde, consegue vislumbrar a vontade de continuar a acreditar que o milagre acontece. 

E eu, contagiada pela vontade coletiva de que tudo se resolva a contento também acredito que terei a força, a coragem e discernimento necessários para levar a vida por diante.

Que venham essas trezentas e sessenta e cinco folhas brancas! Cá as espero de lápis afiado, pronta a escrever mais um ano de vida, não como eu gostaria, mas da melhor maneira que for capaz.

Desejo a todos alento e coragem, muita coragem para enfrentarem as vicissitudes que possam surgir, tantas delas devidas a loucuras “outras” que não nossas, mas que nós teremos de sofrer na pele como se de opções nossas fossem a consequência. E acreditem, acreditem que dia a dia o ano cumprir-se-á e havemos de respirar aliviados. Só precisamos de saúde e vontade de viver, o resto virá por acréscimo.

Para vós, os meus votos de um ano de 2013 bem vivido e um abraço solidário.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

UMA HISTÓRIA TRISTE DE NATAL


Aconteceu há alguns anos. Foi na primeira noite de Natal que passei sozinha com a filha mais nova. Quem tem a filha mais velha casada com marido de famílias radicadas longe, está sujeita à circunstância de ano sim, ano não, ficar sozinha com a outra.

Nesse ano, arquitetara a ideia de voltar à Missa do Galo, soubera que o Padre Carlos recuperara do último AVC e queria ouvi-lo cantar. Quem não canta, encanta-se com a voz dos outros. Ele fora meu professor anos a fio e trabalháramos juntos na JEC. Cantava muito bem. Gostava de ouvi-lo. Como era bonita aquela canção ”bom dia nada custa…" (acho que é por isso que cumprimento toda a gente). Teria de convencer a Zara a acompanhar-me…

Eu fora à cabeleireira na manhã do dia vinte e quatro. Fui à Lina, cabeleireira que dispunha de um salão situado junto da escola aonde trabalhava. Era o hábito, só sabia caminhar para aquele lado. “Só sei estacionar o carro no pátio da prisão” – brincava eu referindo-me ao Largo Rainha Santa Isabel.

Ao chegar, reparei que esquecera a maçã para comer a meio da manhã e, antes de entrar no salão da cabeleireira, atravessei a rua e fui à mercearia da Alice. Ela estava lá, a dona Amélia. Amélia tal como minha mãe. Uma velhinha muito magra e sumida de anos e solidão. Queixava-se disso mesmo, de solidão. Ia passar a noite só, não tinha família. “Dá-me licença que pague a maçã, antes de a senhora ser atendida?” Que sim, que pagasse e eu saí em passo de corrida, com o coração a ordenar-me que convidasse a dona Amélia para jantar connosco e a inventar desculpas para não o fazer. “Também não vou levar a minha mãe” – a falta de elevador do prédio não permitia elevar a cadeira de rodas até ao segundo andar; possivelmente a P. virá buscá-la – P. era minha amiga, colega de trabalho e proprietária do pequeno apartamento onde morava; quero ir à Missa do Galo e o convite impedirá isso; e só conhecia a dona Amélia de vista; e tantas razões inventei que não a convidei.

A Zara chegou, as horas passaram e depois do jantar fomos à Missa do Galo. Havia pouquíssima gente, estava um frio atroz e o padre Carlos… o padre Carlos mal falava, como poderia cantar? E, no fim, a Zara: “não voltas a querer trazer-me à Missa do Galo, pois não?” “Melhor fora ter convidado a dona Amélia para jantar connosco… “ comentei e contei-lhe o encontro dessa manhã, na loja da Alice – “Pois era. Nós não apanharíamos frio e a velhota ficaria feliz” respondeu a Zara, mas já não havia retorno.

Os dias passaram e quando a Carma retomou o serviço perguntei-lhe pela dona Amélia : “A P. levou-a para jantar na Noite de Natal?” – que não  - “ah! mas a senhora não sabe? A dona Amélia morreu poucos dias depois do Natal". Que notícia! E eu que sabia tão bem o que era a solidão, fiquei sofrida, por sabê-la só no último Natal.

Segunda-feira, uma semana antes do Natal, à janela da cozinha, tendo por fundo a mancha verde do jardim da vizinha a que só a buganvília ainda com algumas flores cor-de-rosa, empresta cor e manchas escuras, via chover. Pensava que, possivelmente, aquele jardim se fosse meu não mostraria aquela profusão desordenada de folhagem, mas que era gratificante para os olhos e para a alma mergulhar naquele verde imenso. Olhava através da vidraça a chuva que caía decididamente oblíqua. Gosto de ver chover. Estava tão feliz, que nem sentia a presença física da vidraça.

E lembrei-me da dona Amélia…

Acontece-me inesperadamente em cada Natal, desde que a ouvi falar de solidão.