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quinta-feira, 12 de abril de 2012

DÃO-SE ALVÍSSARAS

Ontem, por circunstâncias da minha vida familiar, vi-me na contingência de ter de falar com uma senhora, que evito ao máximo abordar.

A senhora em causa é uma jovem bonita, com um sorriso fácil, mas quando conversamos, para além do socialmente aconselhável, há qualquer coisa que não funciona. Há sempre ruído na comunicação… Não sei se é o meu ar de “bicho-do-mato”, se acontece que ao fim de tantos anos de aposentação, ainda não terei conseguido despir o papel de supervisora pedagógica, ou se haverá qualquer outro motivo, cuja responsabilidade não enjeito, a verdade é que acho que a senhora se sente sempre posta em causa, quando a minha finalidade não é essa, acabando por dizer algo que me deixa os cabelos em pé, mais do que habitualmente andam, sem que eu tenha hipótese de os recolocar no devido lugar, pois seria impensável retorquir como me apeteceria.

As nossas conversas, raras, felizmente, fazem sempre lembrar-me a Dra. Elisabete, minha professora de Francês, no antigo quarto ano do Liceu, que adorava divagar por outras matérias, que não propriamente aquelas para que era paga. Contou uma vez a Sra. D. Elisabete, nem sei há quantos anos… ou talvez saiba e nem valha a pena enumerar… que os diplomatas tinham aulas, não sei se de dialética se de retórica, com uma chávena de chá na mão, para aprenderem autocontrolo.

Depois das conversas inicialmente referidas, eu penso sempre que me teriam sido muito úteis as aulas deste tipo, para não acabar azeda e com necessidade de digerir a má disposição por algum tempo.

Ontem, mais uma vez, aconteceu. Saí rabugenta, mal disposta e achei por bem, em vez de voltar para casa, ir ver as montras da cidade até remoer a bílis que me tinha subido à boca e que eu, educadamente contive (que orgulho para a minha mãe, se estivesse em condições de assistir a esta exibição da filha…)

Passeei-me pela cidade, apaixonei-me por um colar na montra de uma ourivesaria, que nessas circunstâncias sou de amores fáceis, mas admitindo-me sem troikos, para satisfazer a paixão, fui andando ao sabor do acaso a remoer a conversa de minha conveniência…

Na hora do regresso lembrei-me que precisava de fruta e entrei no “Pingo Doce” da Avenida Heróis de Angola. Dois pequenos passos e à minha frente, vermelhos, lindos, embalados e expostos como eu gosto, estavam os morangos. “Começo por aqui” – pensei deitando a mão a uma das embalagens. Foi então que reparei, mesmo ao lado, empilhadas na horizontal e no mesmo caixote, estendiam-se convidativas caixinhas de chocolate belga, próprio para fondue.

A minha imaginação voou louca, mais rápida que a luz fixou a cena que me curaria o azedume da manhã…

Um almoço a dois, apenas um almoço. E plagiava o poema “convida-me só para jantar/ num restaurante sossegado/ numa mesa de canto/ e fala devagar/ e fala devagar” e à sobremesa... fondue de morangos em chocolate quente…

Eu tenho a tacinha para fazer o fondue, foi um presente da minha amiga P. Comprei morangos. Havia chocolate…

Dão-se alvíssaras a quem encontrar o CAVALO VERDE…

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SERÁ?

Manhã de sábado, 4 de Fevereiro

Eu deixara-me possuir pela sensação de bem estar e de olhos fechados gozava o conforto que a cadeira de massagens e a lavagem da cabeça proporcionavam, naquela manhã, em que dedicara algum tempo aos cuidados da cabeleireira. A música de um qualquer canal, em que estaria sintonizado o aparelho de TV, dava uma preciosa ajuda.

Entretanto, na calha ao lado, outra cabeleireira reclamou “Tem o couro cabeludo muito vermelho. Está desidratado. Não costuma usar creme? Já lavou a cabeça hoje?" – E se ela se calasse? – Questionei-me, saindo daquele torpor em que me encontrava, abruptamente para a realidade, mas continuei de olhos fechados. “Lavei-a esta manhã, no banho e não pus creme” justificou uma voz masculina que soou muito jovem. E eu, que detesto a partilha do espaço do salão de estética com o sexo oposto, lembrei-me da conclusão da anedota daquele marido que, encontrando a esposa na cama com outro homem, terá exclamado: Ah, Maria! Com tanta modernice, qualquer dia apanho-te a fumar! Mas continuei de olhos fechados…

Pouco depois, outra voz soou, pretendendo saber como estaria o couro cabeludo, por causa daquela zona ali no alto “está a ver?” tinham-se acabado as ampolas anti-queda… Nesta altura da conversa, a curiosidade já me abrira uma nesga do olho direito para o corpo de uma senhora debruçado sobre o jovem a quem lavavam a cabeça. “Imagine, quando perguntei pelo creme, tinha-o deixado em Lisboa! Ele sai à mãe, tem a pele muito sensível…” “À mãe não sairá – e aqui adivinhei o sorriso da cabeleireira – a mãe tem o cabelo liso…”

Entretanto chegara ao fim a lavagem da minha cabeça e pude ver, na calha à minha direita, um querubim, talvez aluno universitário, dada a referência anterior à capital, de fartos caracois e luvas de lã calçadas – como era possível ter frio naquele ambiente aquecido? – que cuidavam na calha ao lado.

Até aquele momento eu pensara que a virilidade masculina era uma qualidade inata, que seria uma característica do cromossoma y e acabara de descobrir que afinal se aprende em casa, no seio da família. Será que em função da incursão dos sexos pelos diferentes papeis sociais, de carinhos e cuidados excessivos de mães super protetoras ela corre o risco de mudar de mãos?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

LEITURAS

Abandonado “Teatro de Sabbath”, de Philip Roth, ou pelo menos em largo repouso, para além de mais de meio lido, não por ser demasiado escabroso, mas sim catastroficamente libidinoso e muito próximo do limiar da loucura e da extinção, aventurei-me por outras leituras.

Carlos Ruiz Zafon foi-me apresentado por “A Sombra do Vento” onde, embora me parecendo faltar ritmo ao suspense, desabrochou a minha curiosidade. Por isso não hesitei perante a reedição (Setembro de 2011) de “O Príncipe da Neblina” (prémio Edebé 1993).

Li todo o livro à espera de me deparar com o romance, para chegar ao fim e concluir que teria gostado muito da obra quando tinha doze anos. Talvez então me tivesse identificado com Alicia e lastimasse a perda de Roland, mas, de momento, o meu espírito sentiu a trama tão pouco elaborada e ficou tão sedento de qualidade, que só a poesia, forma privilegiada da expressão, me poderia lavar a alma.

A Demora

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto, in " idades cidades divindades"

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

DOIS MIL E DOZE

Que venha dois mil e doze escrevia eu a trinta e um de Dezembro. E, aquela frase escrita assim, até poderia parecer um desafio, com uns laivos de ameaça, uma fanfarronice, uma bravata de quem pretende fazer-se forte e destemida, sem o ser.

E, dois mil e doze veio, não se fez esperar. Ano Novo vestido de palavras velhas. Votos de felicidade, saúde, alegria, que todos trocam com todos, envolvidos em sorrisos simpáticos e carinhosos. E eu, que passei estes últimos meses dividida entre Lisboa e Marrazes, onde teimaram em não me substituir, comecei o ano já cansada, mas afrontando destemida a incerteza que, tal como a espada de Demócrito, paira sobre as nossas cabeças.

Dia três, de coração partido, acabei o meu “contrato de trabalho” de “ama seca” da Rita, deixando igualmente para trás as brincadeiras com o André. Já não vou andar no vai e vem dos últimos meses, mas não me espera menos trabalho. Quando o meu amigo A.B. simpaticamente me disse, citando Shakespeare, que há mais estrelas no céu que aquelas que posso divisar, para concluir, à laia de consolo, que não me deveria esgotar no trabalho de avó, já estava a contar comigo para a organização do congresso. Porque será que ao longo da vida nunca encontrei uma alma caridosa que sugerisse que me deitasse à sombra da bananeira a dormir a sesta? Será por causa da aranha armadeira?

Retomei os passeios pedestres na margem do Lis. Na primeira manhã contei todas as vértebras da região lombar: uma, duas, … e quando chegava a cinco, porque não havia mais, voltava ao princípio, ritmando a contagem com a grunhido das articulações sacro ilíacas, ao compasso do músculo reto femoral de cada coxa. Como foi possível em tão poucos meses acumular tanta ferrugem? Na segunda manhã já tudo parecia ter voltado ao normal: passada rápida, vértebras e músculos ausentes. Não fora o excesso de chocolates do Natal e tudo estaria bem.

E dois mil e doze vai caminhando, devagarinho mas com passada certa, rindo-se desta invenção tola a que o Homem chamou tempo, baralhando as estações, proporcionando-nos dias de tardes luminosas e quentes como se estivéssemos na Primavera e não no Inverno.

O conceito de tempo é uma ilusão? A minha coluna vertebral diz muitas vezes que não, mas o meu espírito garante que, se não fossem as obrigações, nem sequer precisaria de saber qual era o dia da semana, bastar-lhe-ia o vai e vem das marés para marcar a cadência da vida.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

CHEIA DE NÃO PRESTA

Ontem pusera-me a pensar no Natal. Distraidamente, deixei que a memória espreitasse as ceias em que éramos muitos, reunidos em volta da mesa e veio-me à lembrança o ano em que a minha cunhada, resolvendo dar a todos os homens peúgas CD, sem saber que números calçavam, originou, entre eles, a negociação para acerto do tamanho das peúgas com o dos pés que as deveriam calçar. Dos argumentos empregues por cada um, para convencer o outro, estilo “conversa para promoção de banha da cobra” resultaram cenas hilariantes, absolutamente indescritíveis.

E ri-me, ri-me ao recordar o bom humor, as brincadeiras, a minha filha mais nova, pequenina, a roer os laços das prendas… mas bateu-me uma saudade no peito, uma dor pela ausência do meu pai e do meu irmão, que associada à decrepitude de minha mãe me deixaram com a alma pesada de mágoa e solidão.

“Filha, ando doida desta cabeça. Não atino com o dia dos anos.” “Está esquecida, mãe. Eu também ando assim.” “Por favor, não me digas que a tua cabeça está como a minha, ou fico louca de vez.” É o relógio a andar sem se deter, é a magia enfeitiçante do tempo que passa de mansinho, mas firme e rapidamente. Parece que nem pousa e vai escrevendo em nós as coordenadas por onde navegámos e sobretudo aquelas por onde as dificuldades não nos permitiram navegar.

E foi preciso dar almoço à Rita. Brincar para que levantasse a cabeça e abrisse a boca para comer a sopa e depois a fruta. Fiz aranhiços com os dedos, cantei e até imitei o chilreio dos passarinhos. A Rita, em vez de comer, ria. Ria de boca aberta e a sopa a cair. “Menina, feche a boca. Sorria apenas” E a Rita ria, possivelmente pensando que parente não se escolhe e que terá de aturar as tolices desta avó que lhe calhou em sorte.

A amargura, aquele sentimento de falta, foi-se.

Hoje, acordei “cheia de não presta”. Como se hoje fosse um daqueles dias que a minha filha mais velha define como bons para “andar de burro e comer ameixas verdes”, mas a vida arrebatou-me e uma vez mais explicou que os dias se fazem da dialéctica entre a angústia e o bem-estar. É no equilíbrio que está a felicidade.

A saudade só existe para sentirmos com ternura a falta de quem amamos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

AVARIAS

Tenho um amigo do qual me separam umas centenas de quilómetros, mas não é por isso que deixa de estar presente na minha vida.

Telefona ao fim-de-semana. “Que fazes em casa Isa?”- nem Isabel, nem Belita, como todos os outros – e antes que eu responda ordena “Vai para a rua”, “Vai conversar com as amigas”. E eu respondendo que irei mais logo, penso, invariavelmente, que este homem sabe quantos quilogramas pesa a palavra solidão.

Conhecedor das minhas andanças semanais entre Lisboa e Leiria, telefona à segunda-feira de manhã a desejar-me boa viagem: “Vai devagar, para chegares depressa”. Eu rio-me e a minha alma aconchega-se porque o meu pai não diria melhor. “Pois, terei de ir devagar para poupar gasolina” - respondo fingindo não ter percebido a recomendação. “Também por isso. Não ultrapasses as três mil rotações, senão… “ e mimoseia-me com uma onomatopaica engraçadíssima que nem sei reproduzir, com a qual pretende dizer-me que o consumo do veículo disparará.

E, a conversa vai acontecendo, segunda-feira após segunda-feira, quase igual.

Uma qualquer semana, parti mais tarde para Lisboa, mas a hora a que teria de chegar era a mesma. Ao entrar na auto-estrada pensei: “Lá se vão as recomendações…” e sorri. Sorri, porque é aconchegante lembrar os cuidados de quem se preocupa connosco, mesmo quando não pretendemos seguir as suas recomendações.

No percurso destes quase cento e cinquenta quilómetros que separam a minha casa, da de minha filha mais velha, as ideias multiplicam-se, as palavras fluem a uma velocidade vertiginosa e eu elaboro mentalmente textos intermináveis que depois nem sequer passo a escrito porque se o tentasse já não escreveria esses, mas outros diferentes. Muitos desses textos esquecidos são hilariantes, outros nem tanto e por vezes, um ou outro serve para chorar as mágoas.

Pois dessa vez, logo à saída de Leiria, a questão foi: “Como manter as três mil rotações sem deixar de carregar no acelerador?”

Atirado ao esquecimento o que era um motor de explosão a quatro tempos, acabei por admitir a hipótese de que a única solução seria um calce no ponteiro do mostrador do conta-rotações, à semelhança do que acontece com a bússola, quando não está a ser utilizada. Depois desta brilhante conclusão, começaram a desfilar na minha mente todas as máquinas caseiras às quais foi sendo feita a respectiva análise. À máquina de lavar loiça, possivelmente por ser um modelo barato, não veio acoplado o robot que arruma os pratos e panelas nos armários, no fim dos programas de lavagem. Acessório semelhante, mas à prova de água, encontra-se igualmente em falta na máquina de lavar roupa. Até os electrodomésticos menores, como a varinha mágica, o ferro de engomar, o aspirador, o leitor de CD tinham avarias que fui mentalmente resolvendo com o objectivo de rentabilizar os recursos. Era um dedo nuns, um braço noutros e seria tudo a trabalhar e eu a descansar, à imagem do velho slogan publicitário do Tide.

Pois ontem, espojada no sofá, lembrei-me deste inventário de loucura. Havia passado a manhã a fazer comer, algum para trazer para Lisboa, outro para congelar. À tarde deu-me a birra e fiquei em casa agarrada à televisão, mais propriamente ao AXN, único sítio onde os crimes se desvendam e os criminosos são punidos em tempo útil. Sozinha, só perto das dezoito horas fui visitar a minha mãe.

A questão acabou por surgir: Será que a única coisa verdadeiramente avariada cá em casa não serei eu, que todo o dia me senti a mesma “sem vontade com que rasguei o ventre de minha mãe”?

sábado, 26 de novembro de 2011

ESQUECIMENTO

Acordei esta manhã, no calor da minha cama, mergulhada na escuridão do meu quarto e deixei-me ficar de olhos fechados saboreando a quietude do momento.

Tenho saudades de mim. Tenho saudades do tempo. Tenho saudades de me deixar estar, como que perdida no universo, flutuando em nada. Eu e as estrelas a sonhar com o Sol da manhã.

Esquecida que sou, nem eu me preocupo comigo.

E apeteceu-me alongar na paisagem e enrolar os pensamentos no marulhar das ondas de S. Martinho do Porto.

Lisboa cumprir-se-á hoje. Não há tempo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

QUINTA-FEIRA

É quinta-feira. Está uma manhã de Sol.

Através da vidraça, a Rita e eu mergulhámos o olhar na luz do horizonte. Há menos trânsito que o habitual. Será da adesão à greve geral? A BT informou que as pessoas saíram todas muito mais cedo de casa. Na TV, a senhora ensina a pôr “corretamente” a mesa. A manhã vai acontecendo devagar.

Visto da minha janela, o dia parece primaveril, mas algures, as temperaturas estão baixas, disseram-me há pouco, pelo telefone, à laia de bons dias.

É tempo de frio, mas quem diria que há frio?!

O Sol brilha lá fora e a esperança cresce no meu peito.

domingo, 13 de novembro de 2011

"MALES" DE AMOR

Entrei no carro e parti em demanda de gasolina.

Enquanto o gasolineiro abastecia o depósito, escolhi quem me acompanharia na viagem. Ainda pensei em Gabriela Mercury, mas a quem apeteceria “feijão com arroz” àquela hora da manhã? E, mais uma vez, fiel à paixão que me avassala, a escolha caiu sobre Michael Bublé.

Coloquei o CD no leitor do carro e... nada! Ele ficou mudo e quedo, não cantava.

- Estás zangado? Quis saber. E ele, nada. Continuava mudo e quedo.

-Trocaste-me por uma da tua idade? Eu compreendo – argumentei - mas ninguém te ama como eu. Elas andam a dizer na NET que tu és o Marco Paulo lá do sítio, que não exploras todos os recursos da tua voz; que garantes êxitos cantando antigos êxitos de outros e até o meu amigo C. diz que me deixa ouvir-te porque tu não és gay, mas eu, até esse quiproquó perdoaria à voz maravilhosa que possuis - lamuriava-me sem perder o folgo.

E ele nada. Continuava mudo e quedo, sem se comover com o meu choro apaixonado.

De repente, cantou...


Não foi tão de repente como isso… Tive de voltar o CD ao contrário e recolocá-lo no leitor do carro.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

"RECORDAMENTOS"


Quando olho para trás no tempo, não gosto de lembrar acções. Gosto de calma e beatificamente debruçar-me sobre momentos vividos como quem abre a janela numa tarde de Sol e fica a olhar a linha imaginária do horizonte, adivinhando o que fica para lá, do espaço e do tempo, seja qual for a dimensão da vida.

Por isso não gosto de recordações, mas adoro recordamentos.

sábado, 5 de novembro de 2011

DE CANDEIAS ÀS AVESSAS

Um lápis e um bocado de papel; um vidro de janela onde o vapor se condensara e a ponta do dedo, às vezes até os lábios ou a ponta do nariz; um caule rico em seiva e a parede exterior do prédio; até mesmo um pau e o chão pouco pisado, serviam para dar largas à imaginação. Eu desenhava.

Como prémio, em função dos materiais usados, ganhei alguns castigos, uns mais dolorosos, outros menos, mas não foi isso que me impediu de desenhar.

Os lápis de cor não me entusiasmavam. Eram demasiado duros. Possivelmente as marcas não proliferavam e o espírito economicista de meus pais mandava que para “estragar” se comprasse material barato. Como uns lápis “Caran d’Ache”, a que só tive direito muitos anos mais tarde, em vez dos “Viarco”, teriam feito as minhas delícias!

Mesmo para escrever, só gostava de lápis N.º1 e ainda hoje, nas lapiseiras, uso minas B ou 2B em vez das HB, que toda a gente prefere. Sempre apreciei uma escrita vigorosa em que o traço acaricia o papel.

Entrei na escola primária e concluídos os primeiros anos, ensinaram-me desenho à vista, sem qualquer noção de perspectiva. Começou então, o meu enamoramento com a luz.

Um dia a Ditinha trouxe de Lisboa para o Tó um livro em que bastava passar um pincel molhado em água para as figuras adquirirem lindas cores. Descobertos os pincéis, foi uma festa ajudar a colorir a história, mas só aos dez anos fui dona e senhora de guaches e aguarelas, que pude manusear a meu belo prazer. É também, a partir desta idade, com a entrada no Liceu Nacional de Leiria, que passo a ter uma disciplina específica de desenho e a contar com professores excelentes, na área.

O meu primeiro professor de desenho, no primeiro e segundo ano do Liceu, foi o Arquitecto Tavares Nunes com quem aprendi o gosto pelas cores quentes e a liberdade de pintar dispensando pincéis, usando simplesmente as mãos. Com os dedos passei a pintar céus fabulosos e prados verdejantes. Desafio, quem nunca o fez, a experimentar a sensação de mergulhar as mãos na tinta e pintar com elas uma tela.

Seguiu-se lhe, no terceiro ano, o Arquitecto Célio Cantante. Então, aprendi o gosto pelo pormenor e encantei-me com a caricatura que anos mais tarde cheguei a tentar.

Aconteceu também no terceiro ano, ser aluna a História, do Dr. José Gonçalves. É ele que me alerta para a representação do movimento em arte a propósito da pintura egípcia.

Um dia, teria treze anos, ouvindo falar em pintura abstracta e não sabendo o que isso era, resolvi pintar um quadro. Entornei tinta cor-de-rosa, ainda não homogeneizada, sobre uma folha de papel, dei movimento à mancha, deixei secar, apus um título: “O menino e o cão” e fixei a obra, na parede do meu quarto, do lado direito da minha secretária. A minha mãe entrou, eu fingia que estudava, mas expectante aguardava, reparou na novidade, aproximou-se, leu o título e deu uma sonora gargalhada. Que frustração! Foi neste instante que a arte e eu ficámos de candeias às avessas.

E tendo tido desenho só até ao antigo quinto ano do Liceu, fechou a sequência o Dr. Padrão. Com ele aprendi a verdadeira técnica do desenho à vista. Finalmente, soube onde se situavam os focos e como se respeitava a perspectiva.

Aprendi, porque terá de ser assim que a obra nasce e não de outra maneira, que a cinco por cento de talento e outros cinco de inspiração se têm obrigatoriamente de somar noventa por cento de trabalho persistente.

Tinha jeito. Todos eram unânimes. Faltava o talento, tinha alguma inspiração, mas as inúmeras actividades por que repartia o tempo, não permitiam o tal trabalho persistente.

No sétimo ano deliciei o professor de ciências com os desenhos dos preparados das lamelas que espreitava ao microscópio, nas aulas de Trabalhos Práticos. Os preparados de botânica eram os que exigiam mais paciência, mas também eram os que mais me encantavam reproduzir pela exuberância das cores.

Na Escola do Magistério Primário fui aluna de D. Helena Silva e é com esta senhora que aprendo as mais variadas técnicas, muitas das quais ainda hoje identifico em trabalhos de pintores contemporâneos. Dará para acreditar que só então, aos dezoito anos, tive direito a uns lápis de cor e de cera de marca Caran d’Ache? Felizmente as outras marcas não eram suficientemente boas para permitirem as técnicas que éramos obrigadas a experimentar. É também com esta professora que sou treinada para ver para além do quadro como produto final e passo a tentar entender as opções de quem o realizou.

E a vida foi-se cumprindo, desenhando, pintando e fazendo outras coisas, muitas vezes mais funcionais, mas que mesmo assim permitiam que exercitasse a imaginação, que desmontasse conceitos e combinasse os atributos da forma desusada, ganhando os epítetos de habilidosa e criativa.

Há alguns anos a minha filha mais nova insistia “vai para a pintura”. Eu, mãe extremosa, retorquia “Não vou porque sou vossa amiga. Depois, quando morrer, ficarão para aí os monos e vós, em vez de os deitardes fora, ficareis com eles porque foi a mãe que os pintou. Não vos quererei a armazenar lixo”, mas a insistência foi tal que achei que a única forma de lhe pôr fim era mesmo pintar um quadro.

Pensei no mote, adquiri tela, pincéis e tinta e apresentei-me numa aula de pintura dizendo ao que ia. “Traz um postal com o Castelo de Leiria?” Não, não levava e para que seria? “Para ampliar” e eu sem entender porque teria de ampliar o castelo ele já não era suficientemente grande? “É capaz de o pintar sem o copiar de algum lado?” Aqui, eu já tinha perdido a paciência. Eu, uma fã incondicional dos impressionistas ter de ampliar o castelo de um postal…

Peguei nas tintas e nos pincéis e no que restava do tempo de aula fiz jus ao mote:

“Quanto é melhor, quanto há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não”

- Voltarei na próxima aula, pretendo, com o quadro já seco, pintar um nevoeiro cerrado.

Voltei, mas a senhora não soube ensinar-me a pintar o nevoeiro. Eu também não sabia. Tentei mas não resultou. Mesmo assim ofereci o quadro à filha, que fez o favor de o pendurar na parede e não mais insistir para que pintasse.

A arte e eu continuamos de candeias às avessas.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

SOLIDÃO

Em Setembro, acabadas as vindimas, passávamos uma semana em Amadora, na casa de meu padrinho Manuel, irmão mais velho de meu pai. Para além de brincar com a Suzete, sobrinha de minha tia Elisa, a madrinha era a minha prima Milú, dez anos mais velha que eu, o tempo era gasto em largos passeios por Lisboa.

À época, impressionava-me o Rossio às seis horas da tarde. Uma mole humana saía da estação da CP e, compacta, caminhava, em direcção aos Restauradores…

Lembro-me de ficar estática a olhar a multidão, com vontade de mergulhar esbracejando, naquele mar de gente de cara fechada e de o meu pai, voltar atrás e pegar-me na mão, guiando os meus passos, para que não me perdesse.

Hoje, tantos anos vividos, com a Estrela Polar por companhia, se me pedissem para representar graficamente a solidão, era esse o quadro que pintava.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

SONHO

Chovia. E a chuva caía, compondo no telhado a melodia...





Num prado salpicado de amarelo (seriam tulipas?), eu dançava com o CAVALO VERDE.



- Mamã... mamã... mamã...

No andar de baixo, o Salvador acordou assustado com o temporal.



E eu?

Continuei a dançar à chuva, mas mudei a encenação para o ver sorrir.








quarta-feira, 26 de outubro de 2011

MANHÃ DE QUARTA-FEIRA

A chuva veio de mansinho.
Acordei cedo e permaneci deitada saboreando a melodia suave tocada na persiana do meu quarto.
Adivinhava um dia em tons de cinza, numa paisagem lavada de poeiras e folhas idas na dança do vento.
É Outono. Sabe-me bem esta cadência das estações. Outono já tardava...

E, na quietude da manhã, deixei-me apenas existir. Não havia passado, nem presente, nem futuro. Permanecia... apenas ouvidos e melodia.





Como soará a melodia dos violinos no telhado?

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

MEDITANDO

Segunda-feira, sete horas da manhã, saltei da cama.

Na verdade a forma verbal “saltei” é demasiado ágil tendo em conta a acção realizada. A agilidade corresponde à rapidez com que pelo pensamento passaram as tarefas a realizar antes de partir para Lisboa.

Os ossos reclamavam mais cama e apetecia-me rabujar, sem ter com quem, mas deixara tudo para “amanhã” e a solução era mexer-me.

A invariável torradinha do pequeno-almoço, acompanhada com o copo de leite morno é que não poderia deixar de ser saboreada, na paz do Senhor, sentada calmamente, a pensar na morte da bezerra, que não há meio de morrer para, confirmado o facto, me enfiar debaixo do chuveiro e acabar de acordar.

Despachei-me e pus-me a caminho de Lisboa, não muito cedo, para quem tem horários para cumprir e nunca sabe qual o fluxo de trânsito que vai enfrentar na segunda circular.

O troco da IC2 está um descalabro. Ultrapassei todas as viaturas pela direita e quando a via estreita, por conta das obras, e fica reduzida à faixa da esquerda, abri a janela, pus a mão de fora e disse “adeus” ao camionista que me deixou entrar no desfile que seguia a passo. Há sempre uma alma caridosa, incapaz de resistir a um gesto simpático.

O nevoeiro matinal com que me deparei logo que entrei na A8, remeteu-me inconscientemente para a minha colega CC “Senhor Presidente, seria bom que mandasse colocar uma lâmpada no pátio da escola. Ao fim da tarde não se vê a ponta dum… a ponta dum… a ponta de nada!” Pois ali ia eu, vendo “a ponta dum… a ponta de nada”, cheia de pressa, a pisar a cento e cem. E naquele meio limbo de quem está à porta do céu a prestar contas sem vislumbrar mais que a ponta do nariz, dei comigo a pensar como seria bom ter alguém que pegasse em mim e me levasse sem que eu soubesse para onde, de preferência para um sítio sossegado, no alto de um monte, paisagem larga e sem ruído, me desse a mão para adormecer e permanecesse em todos os lados da noite para que me mimar.

“Em que esquina da vida, estarás detido, cavalo verde dos meus sonhos loucos?” “Um dia morrerei tão só como tenho vivido”.

A voz da filha mais velha ecoou-me no pensamento “lastimo que a tua vida esteja nesta confusão por minha causa, mas acho que nunca foi de outra maneira e tu até gostas.”

E sem querer, porque detesto fazê-lo, olhei para trás no tempo e vi-me, do momento em que me encontro, esquecida das agruras, fortalecida pelas dificuldades resolvidas, a passar como no cinema, alguns episódios que vivi: os fins-de-semana a cozinhar para haver refeições variadas para as filhas, ao longo dos dias; as discussões por causa dos livros em co-autoria que se publicaram; as longas horas a preparar aulas; as folhas a voar, quando fazia os trabalhos para a especialização, já depois das filhas deitadas e altas horas na madrugada a apanhar as folhas do chão e juntar tudo “há-de aproveitar-se alguma coisa” e dezassete na nota final – “como conseguiste?” “atirei a sabedoria ao ar, misturei e passei a limpo”. E os verões em S. Martinho “deverias ter chegado ontem” dizia o Tó Zé “imagina que deu à costa um italiano todo nu” “como souberam que era italiano?” “trazia um esparguete no c..” E a Z. a rir da minha ingenuidade.

E as filhas crescerem e a vida a andar para a frente.

“Quem terá comido as peras doces, que me couberam em sorte?” Não tive direito a peras doces, mas acabei a rir à gargalhada.

E por alturas de S. Martinho o telefonema da filha “não precisavas de vir tão cedo, não disse nada porque assim não farás o percurso a voar. Aproveita para poupar a gasolina”

Já não há respeito. Não se fazem mais filhas como antigamente. Se o Sol brilhasse teria ido para a praia.


À noite, adormeço de mão dada com o escuro e também sei que vou morrer sozinha, ou não fora a morte um acto solitário, mas garanto-vos: A minha vida tem valido a pena!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A SOLUÇÃO

Última Quinta-feira de Setembro. Lisboa. Precisava de estar em Leiria às vinte e uma horas e já passava das dezanove.

Afigurou-se-lhe que a melhor opção seria seguir pela IC17, onde a obrigatoriedade dos setenta quilómetros por hora, que passados os túneis todos os condutores esquecem, compensaria o pára-arranca da segunda circular. Quando ouviu as notícias do trânsito comprovou que fizera uma boa opção. O trânsito intenso do fim de tarde agravara-se com um acidente, na segunda circular.

Logo que pode começou a acelerar. Paragem obrigatória na área de serviço de Torres Vedras. “Vai visitar os amiguinhos” brincam as filhas, mas ela pára para comprar pastéis de feijão à mãe, que natural da zona, é destes bolos uma fervorosa apreciadora.

Segunda etapa, nova corrida.

E foi junto à saída para Pataias, ainda em plena A8, mas já relativamente próximo do destino, que se fez luz. A solução estava ali, rodava calmamente na faixa da direita: uma auto-caravana!

Vislumbrando uma nova vida, sobretudo mais calma, entrou no Salão da Filarmónica de Marrazes onde iria acontecer a sessão da Assembleia de Freguesia.

“Vou comprar uma auto-caravana” declarou a I.A. à laia de cumprimento “eu vendo-te a minha carrinha de nove lugares. Tiras os bancos e colocas um colchão”; “viatura velha só com condutor acoplado”; “isso não pode ser, preciso do meu Z. para me aquecer os pés”.

Então ela pensou: a solução é, sem dúvida, a auto-caravana. Também dará para percorrer, sem cansaço, os quilómetros de parvoíces com que, quando estão juntas, fazem várias vezes ao dia o perímetro da Terra.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O CÚMULO DO OPTIMISMO

Depois de passar o dia inteiro, em "amena cavaqueira" com a Rita que ainda não tem dois meses de idade, o cúmulo do optimismo consiste em pensar que, ao fim da tarde, se ganha a luta dos Gormitis, apesar de ter escolhido encarnar um que tem sete vidas.

sábado, 24 de setembro de 2011

COMO UM CARRO SEM TRAVÕES

O meu pai dizia tantas vezes “pareces um carro sem travões por uma ladeira abaixo”.

Mudava a entoação e a expressão servia para tudo: elogiava-me na celeridade da acção; incentivava-me à persistência, perante alguma situação difícil e criticava-me o excesso de verborreia em que tantas vezes me mostrava pródiga, nos momentos de “refilisse”.

Desde cedo, ensinaram-me a ter opinião e eu treinei-me bem no exercício desse direito; inconscientemente no seguimento da velha máxima “mandaram-me vir, agora aturem-me” e nem o receio de que me caísse em cima um tabefe, alguma vez me deteve.

A vida cumpre-se e o “carro” vai andando. Todas as “panes” têm tido arranjo, não houve avaria que o detivesse, porque herdei, sei lá de quem, aquela característica que me impede de, perante a adversidade, em vez de me lastimar “ai, ai, ai, aconteceu-me esta desgraça!” questionar de imediato “ como é que vou sair desta?

Mas a gasolina… a gasolina, às vezes, já parece que tem menos octanas…

As amigas e os amigos já vos ofereceram todas as compotas possíveis, marmeladas fabulosas e sei lá que outros doces. Resta-me convidar-vos para um BRINDE À VIDA, que milagrosamente acontece todos os dias, seja qual fora a "velocidade". Tendes à escolha: Zabelinha, Zabelinha Borrachona e Zabelinha Princesa, os mais finos licores feitos no Laboratório Zabeleiria SA. Qualquer dos três, um óptimo Elixir da Longa Vida, que tira pregas do peito e rugas do colarinho.

GRACIAS A LA VIDA! VIVA!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O VESTIDO COR-DE-ROSA

A Z. ficara mergulhada numa chávena de chá preto, envolta numa nuvem de leite, na companhia de meia torrada. Eu optara por dar uma volta a pé pelas proximidades. Não fui longe. Voltei depressa. “Preciso da tua ajuda para comprar um vestido” “não és capaz de o comprar sozinha?” “com a fluência do meu inglês ainda acabo comprando a loja, a pensar que adquiri um lenço de assoar”. Lanchámos e fomos às compras, na tal loja londrina.

Ele tinha-se “rido” para mim, da montra. Vesti-o. A empregada simpaticamente emprestou uns sapatos para que avaliasse melhor a peça e curiosa perguntou qual era a ocasião especial “porque o compra?” “Porque me apetece”- respondi sorrindo. Paguei ultimando o contrato de compra e venda e fiquei proprietária de um bonito e garrido vestido cor-de-rosa.

Usei-o poucas vezes, uma delas num dos jantares comemorativos do Centenário da República. Então, Zé A., com o à vontade que a amizade permite, comentou “não gosto do teu vestido. É muito colorido.” “Que não seja isso a fazer-te infeliz. Dispo-o já”, mas aí intervieram a Nini, cuja toilette em tons de cinza fora eleita a mais bonita pelo mesmo “júri” e a Paula, vestida em cores neutras, a impedirem-me o gesto, com receio de se sentirem ofuscadas pela minha voluntária sessão de striptease, naquele glamouroso jantar.

E lá ficaria todo o Verão, pendurado e esquecido num dos roupeiros, não fora o comentário da minha amiga “carol” postado a propósito do texto: As avós.

Hoje, segunda feira, saltei da cama às sete horas. Passei a ferro a roupa que ficara desde sexta a aguardar que a vontade me chegasse, enquanto no forno do fogão se assava o coelho e as castanhas que, com a couve lombarda já estufada, iria comer ao almoço. Depois cuidei-me: banho, creme, perfume de alfazema e o vestido cor-de-rosa. Optei pelos óculos de sol “Carrera” de aros brancos que costumo usar na praia, completei a toilette com um sorriso alegre e saí para a rua.

Ah! Nesta manhã pré-outonal, em que o Sol brilhou, eu fui a Primavera em flor.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

MANHÃ DE DOMINGO


Às vezes o telefone toca às oito horas: “bom dia, com alegria” – desejam-me, com entusiasmo, mal levanto o auscultador - “bom dia, também para ti” e rio-me contagiada pela força que aquela voz me transmite.

Domingo de manhã, acordei mais tarde. Vagueei pela casa, ou melhor “reginei”. “Reginar” é um verbo familiar, inventado em “honra” de uma amiga das minhas filhas que passava o tempo em “fralda de camisa”.

Após o pequeno-almoço lembrei-me que há muito não sabia do meu amigo J. M. e liguei eu, plagiando a saudação.

Nem sei como, a não ser estabelecendo aquela velha analogia das palavras com as cerejas, que mal nós puxamos uma vem logo outra agarrada, acabei falando de um assunto recente que não estaria bem resolvido. Eu! Que gosto de tudo bem maduro! Que só gosto de falar dos puzzles depois de saber onde se encaixam as peças! Fiquei de vidro! Mesmo em ponto de rachadura!

Saí porta fora e fui andar. Aliás a ideia já era essa, mas até fui mais ligeira, porque quando não estou bem sinto uma necessidade enorme de dar distância ao pensamento. É assim que desato os nós. Se o meu amigo e colega de liceu P.C.S., que chegou a ser meu médico, ainda fosse vivo, não deixaria de comentar ”que sorte a tua, há quem fique em casa a curtir a telha!”

Cheia de pena de mim apetecia-me chorar; nem sabia se conseguiria ir dar almoço à minha mãe, que lê em mim melhor que num livro aberto (aí o tamanho das letras pode dificultar); mas achava que numa manhã tão bonita em que soprava um vento outonal sibilando uns decibéis acima do habitual, fazendo rodopiar as folhas muitas delas já vestidas de tons avermelhados, isso seria um desperdício. “Há-de aparecer alguém com quem me apeteça rir!”

Então, aparece um casal amigo com quem me costumo cruzar, só que a minha amiga comprou há muito tempo o catálogo das doenças…

Cumprimentámo-nos. “Nem te via” diz-me ela “venho sempre a olhar para o chão” “Isso é para ver se encontras a nota de quinhentos euros que acabei de perder” brinco ”não, as minhas cataratas fazem-me ver as caras das pessoas assim” e mimoseou-me com um esgar “Ah! Mas isso é divertidíssimo!”

Despedimo-nos e continuámos em direcções opostas, mas a minha manhã estava salva. A partir daquele encontro fui imaginando como a minha amiga veria as caras das pessoas com quem me cruzei.

A quem interessar: fui dar o almoço à minha mãe e tudo correu às mil maravilhas.