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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

AH! OS NETOS...


Hoje de manhã, como quase sempre, à sexta-feira, fui à cabeleireira. Levei o André que veio no domingo e ficará até ao Natal, como se fora um presente antecipado do Menino Jesus.

Como fazia no tempo da mãe e da tia, preveni-me com bolachas e um livro de histórias, para vencer a impaciência que o André pudesse manifestar ao longo do tempo de espera. Só não levei água, pensando que lá era coisa que não faltaria.

Chegados à cabeleireira, o André sentou-se. “Queres ver o livro ou queres que a avó te leia uma história?” – Quis ver o livro enquanto me começavam a lavar a cabeça. “Avó, não gosto deste livro” – Pois, a avó tirara um livro da estante, pertença da mãe ou da tia, com muitas histórias e nem se dera ao trabalho de reparar se se adaptavam ao nível etário… E continua sem saber, na verdade acha que, passados tantos anos, os interesses são outros, porque aquele livro usara-o com crianças mais velhas, sem reclamações da parte destas.

A cabeleireira resolveu a questão latente emprestando um Tablet – nem já as cabeleireiras são como as de antigamente – e o André descobriu um jogo adequado ao momento e vá de brincar mudando os penteados da imagem feminina que aparecia no monitor dizendo que era eu. Tive cabelo às riscas, espetado, bicolor, curto, comprido, com lacinho e sem lacinho e lavaram-me a cabeça e secaram-me o cabelo, na paz do Senhor, sem sacrifícios de espera impaciente para o neto.

“Acha que com esta altura fica bem o cabelo enrolado para fora?” – perguntei à Lígia. “À senhora tudo fica bem” – ora ali estava uma maneira airosamente mentirosa, de responder de forma afirmativa à minha pergunta. Faça-se! E quando vi o cabelo enrolado para fora, até gostei do resultado. Estava diferente, muito diferente. Paguei e saímos.

Com o André sentado, no carro, no banco de trás, cinto de segurança colocado e com tudo como mandam as regras, ponho o motor a funcionar e preparo-me para arrancar. “Avó” – paro e olho para trás – “há algum problema?” – não, não havia, só curiosidade: “Mas afinal o que vieste fazer?”

Ah! Os netos… Que adoráveis pestinhas! E ri-me com vontade, não fora eu uma mulher que prefere uma verdade nua e crua  à mais piedosa das mentiras. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A CARTA


A Ana, depois de prolongada ausência, retomara o serviço e eu, em vez de arranjar as unhas na manicure que trabalha no salão da minha cabeleireira, marquei o serviço na Leiriestética. E lá fui…

Ela arranjava-me as unhas e eu conversava com a O.  que entretanto aparecera para o mesmo e por me ver, invadira o espaço. A certa altura, a Ana levantou-se e voltou com uma chávena de chá. É sempre assim: entre uma mão e outra, ela oferece-me uma chávena de chá, porque para além de saber fazer o seu trabalho, sabe cativar as clientes. E aqui cativar tem mesmo o significado de “criar laços”, que Saint Exupérie lhe atribuiu, dado ela ser uma jovem sorridente e afável. “Diga-me, no outro lado onde arranjou as unhas também lhe serviram um chazinho…”- perguntou-me com ar malandro -  “sua chantagista! “ - exclamei enquanto ela servia o chá à minha amiga – “saiba que não me deram chá, mas ofereceram-me uma taça de champanhe e uma fatia de bolo floresta negra” “porque foi o aniversário do salão, senão não teria direito a coisa alguma” E a conversa continuou, inconsequente enquanto a Ana tentava acabar o trabalho.

Reparei então que no fundo da chávena, à semelhança do que acontecia antigamente, havia um pedacinho de folha de chá, sem que se entenda por que artes terá conseguido escapar à embalagem que se usara na máquina. “Gosto do chá” – ela servira-me um chá de pêssego - “mas ainda gosto mais da mensagem que contém”- brinquei eu - “mensagem?!” Então expliquei, com a anuência de O. que garante que ainda faz chá assim, que antigamente não havia folhas picadas para a infusão, em saquetas, nem máquinas que fizessem o chá, resultando daí que as folhas eram vendidas picadas em pequeninos pedaços, pouco maiores que o que se podia ver na minha chávena e que, depois de mergulhados em água a ferver, era necessário esperar que assentassem, para se servir o chá. Se o acaso fazia com que algum desses pedacinhos saltasse para a chávena, a feliz contemplada, sabia que ia receber uma carta. “Carta, não. Já não se usa. Um email” – brincou por sua vez a Ana “ora tanto faz – retorqui – é preciso é que seja um miminho, pois é do que bem preciso”.

Acabado o trabalho, despedi-me, não sem antes pagar, obviamente, e saí.

Chovia e meia dúzia de passos dados encontrei a dona L. que parecia passear-se à chuva. As boinas que ambas usávamos tornavam-nos “atletas” do mesmo clube, mas de modalidades diferentes, dado ser tigresa o padrão da minha e de ser preta a cor da dela, com aquele ar de sofisticação que a pregadeira, colocada no lado mais baixo lhe dava. Um dedinho curto de conversa e seguimos, cada uma para seu lado, dado que achando que não chovia, se recusou a que a acompanhasse a casa, sob a proteção do meu chapéu-de-chuva. A conversa tida na Leiriestética fora completamente esquecida.

Só depois de aberta a caixa do correio, à entrada do prédio aonde habito, à visão de uma carta diferente, me lembrei do chá. Lá estava a carta! Era mesmo uma carta, não um email conciso. Só poderia ser a carta que o chá anunciara! Abro-a… e que mimo!

Era uma carta das Finanças… alguém nos ama mais? Alguém se lembra mais de nós? Poderei eu queixar-me com falta de mimo? Quinze euros de coima por ter comprado o selo do carro, respeitante ao ano de dois mil e oito, nos primeiros dias de Novembro em vez de o ter feito até trinta e um de Outubro.  Que outro mimo me deixaria mais efervescente? Quem não ficaria “com asa leves e brincos na alma"?

Ah! Depois do que conto ainda haverá alguém que duvide das premonições das folhas de chá?

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O ATO CRIATIVO - ANA FERNANDES


A Mindocha convidara. A amiga Ana Fernandes expunha ontem, em Leiria, a sua nova coleção de bijuteria e pratas. Décimo primeiro andar, no Centro Comercial D. Dinis. “Décimo primeiro?” – Interrogara-me eu depois – “terei ouvido bem?”

Pouco faltava para as dezoito horas quando, com a LF me aventurei pelas escadas rolantes e depois pelas outras que faltavam, até ao último andar do edifício. Sem dúvida, tinha ouvido bem. A exposição era mesmo no décimo primeiro andar. Uma linda porta vermelha, reinventada de uma porta antiga facultou-nos a entrada num espaço de cowork, conceito que não sabíamos que já existia em Leiria.

Recebidas pela simpatiquíssima gestora de “GRUPO”, assim se denomina o espaço, fomos encaminhadas para a sala onde decorria a exposição.

Ana Fernandes recebeu-nos atenciosamente e percorreu com o nosso olhar os seus interessantes e originalíssimos trabalhos de bijuteria e peças de prata, demorando-se, à medida do nosso espanto, em cada peça. Que tentação! As pregadeiras eram lindas e havia dois pares de brincos que tinham precisamente “a minha cara”. As caixas de prata eram de perder a cabeça.

Conversámos, convivemos com quem estava, muita gente conhecida, reconheça-se, e vimos os catálogos de outras exposições.

Olhámos com Ana Fernandes o catálogo “Memórias” em que as fotos mostravam os trabalhos criados ora desfuncionalizando objetos, ora associando os atributos de conceitos de objetos vulgares, de forma impensável para o comum dos mortais. Talvez, por vias do trabalho do Cristóvão que irei apresentar no próximo dia oito, e faz com que olhe com atenção tudo o que é caixa ou a isso se assemelhe, a minha atenção deteve-se com mais empenho numa das fotos.  “Que pretendeu com este trabalho? Qual a ideia subjacente?” – perguntei curiosa. Ana Fernandes explicou: “era uma resistência de fogão, do meu primeiro fogão, que a minha sogra me deu, um boneco que andava lá por casa e de velho tinha adquirido esta cor maravilhosa e um martelo de cozinha que também usara.”  Assim com aquela simplicidade, a artista dizia-me que juntara objetos do seu universo pessoal, com que estabelecera laços e só por isso mesmo criara a peça. Sorri: “A mim parece-me um útero. Sugere-me conforto.” Foi a vez de ela sorrir: “Também podia ser.” E eu fiquei mais uma vez a pensar que o ato criativo é de uma enorme simplicidade. Nós, os desfavorecidos de dons artísticos, ao olharmos é que, em vez de usufruirmos a obra, de simplesmente nos deleitarmos na estética do que olhamos, por excesso de intelectualização, propomo-nos interpretar, perguntando o que diz o autor. E tantas vezes diz simplesmente que gostou, que teve prazer em fazer o que fez, em juntar os atributos que juntou, em criar simplesmente. Diz quase sempre: “Aconteceu!”

Adorei os trabalhos expostos e adorei falar com Ana Fernandes. Foi um pedaço de tarde bem passado.


Já de saída visitámos todo o espaço que o “GRUPO” que tem para oferecer. Como refere a pagela de apresentação, deparámo-nos com uma cobertura independente composta por um espaço de cowork, escritórios, sala de reuniões, estúdio de fotografia, copa e lounge - com a cidade de Leiria aos pés, acrescento eu. Lindo de morrer - como diria a minha amiga P. - e muito agradável. O espaço apetece.

Leiria, a par e passo com a vida, e nós distraídas. Um mês de distração… Imperdoável! 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A MENSAGEM





Era cedo, mesmo muito cedo, mas a manhã estava radiosa. O Sol brilhava intensamente: “manhã de primavera, no outono do meu descontentamento” – pensei enquanto pegava no pequeno alguidar de plástico onde uma toalha de mesa e a cortina da cozinha esperavam a lixívia branqueadora.

Ouvi a previsão do estado do tempo: “chuva com boas abertas”. Na verdade aquele Sol, não parecia uma “aberta”, mas admitindo a hipótese de que fosse, achei que o melhor era mesmo apressar-me, para mais uma vez, me alongar pela margem do rio, antes que chovesse.

Na casa de banho, desconsolada e triste com a cortina, procedi à barrela. A minha cortina preferida da cozinha, a cortina que colocava para me proteger da crueldade do Estio, desfizera-se na última lavagem. Dois metros de linho, com rendas e bordados. Tantas horas a tecer sonhos e a picar os dedos. Desfeitas que eram as galinhas azuis eu ainda insistia em branquear a cortina, numa última lavagem, digna da peça de eleição que antes fora.

“Porque bordaste as galinhas azuis? Eu tê-las-ia bordado com várias cores.” Era a observação das amigas, que não optavam por um silencio reprovador: “se eu tivesse esta cortina nunca lhe bordaria as galinhas e punha-a na sala” “mas eu também fiz uma cortina para a sala…” E a conversa morria e eu pensava: e porque é que as galinhas não deveriam ser azuis? Não será na cozinha, entre tachos e panelas, que damos largas à imaginação? Eu não tinha (digo tinha porque já não tenho) um cavalo verde? Então porque é que se admiravam de ter galinhas azuis? Até o André teve uma ovelha cor-de-rosa e um hipopótamo na banheira…  E se o neto entendia, porque é que as amigas não entendiam?

Aquela mensagem de magia não passava e as galinhas, cansadas de suportar ingloriamente o sol matinal, desfizeram-se na incompreensão da mágica a que aludiam. Desistiram. Acontece. Na vida, e não só na das galinhas azuis bordadas em linho branco, também é assim: às vezes, cansamo-nos dos maus tratos da incompreensão e desistimos.

Pus a roupa na lixívia e arrumei o quarto. Vestida e arranjadinha, já estava. Era só esperar um pouco para deixar a roupa a lavar, de novo na máquina, não fosse a lixívia “comer” o resto. E assim aconteceu…

Desci as escadas pouco passava das nove horas e trinta e, quando cheguei ao carro, tirei o telemóvel da carteira e guardei esta no porta bagagens. Antes de o acomodar no bolso, reparei que tinha uma mensagem. Chegara ontem e nem ouvira “meu Deus, que descuidada!” e li. Era de um amigo recente e o que dizia comoveu-me, não poderia mesmo comover-me mais. Há pessoas que embora não nos conhecendo bem, apostam tanto em nós, que nos fazem sentir vontade de sermos melhor do que realmente somos, só para não os desiludirmos, só para correspondermos ao que nos sonham.

Frágil, desci até ao rio teimando em engolir aquele nó que se me formara na garganta, pronto a saltar-me pelos olhos: “vejamos quem é mais teimosa: serei eu ou eu?”

E o nó baloiçava para baixo e para cima e eu alongava-me pela margem de “o rio da minha aldeia” interrogando-me qual era a magia que faz com que nos gostem e qual a que faz com que não nos gostem.

A mais teimosa, fui eu. Engoli o nó, misturado com a música das folhas que pisei e conclui que a magia é a mesma: diferem as mãos que nos acolhem. Diferem os olhos que nos veem.

Celebremos a palavra AMIGO!

sábado, 3 de novembro de 2012

QUE FALTA FAZ UM MARIDO PRESTÁVEL


No Honda day, na viagem de regresso da oficina para casa, depois de ter concluído que ir com o carro ao check up num sábado de manhã era “coisa de gajos”, como diz a minha amiga OC, entretive-me a tecer algumas conjeturas: se eu tivesse um marido prestável, acordaria quando Deus quisesse, depois lia um pouco e quando me parecessem horas levantava-me, o marido levava-me onde eu precisava de estar às onze horas daquela manhã e ele, depois, alongar-se-ia as horas necessárias na oficina, conversando com os amigos  que eu cumprimentei sem parar “bom dia-como está-prazer em vê-lo” e ala que se faz tarde.  

Pois! Mas não tenho marido. Também não vou ter. Que a forma de se conseguir um é casando e isso, eu já fiz e desfiz e não voltarei a fazer, não vá ter de voltar a desfazer. “Nada feito” concluí “só se arranjar quem me empreste um” e mentalmente, pus-me a passar em revista as amigas que me poderiam disponibilizar o delas por um curto lapso de tempo, acabando por concluir, à falta de currículo diversificado dos respetivos ditos cujos, para as tarefas em vista, que o melhor era contratar motorista. E de novo “nada feito” os rendimentos mensais, cada vez mais escassos, não permitem luxos.

Nesta tonteira de análise, cheguei a casa onde me esperava a desagradável surpresa de o fio da ligação do MEO estar caído por terra, que é como quem diz, pelo chão fora, tal como eu previra aquando da sua instalação. “Ah! Que falta faz um marido prestável!”- para compor o fio, evidentemente, ou arranjar quem compusesse.

Nesse dia à noite, reclamando ao telefone com uma amiga por ela ter mudado residência para Lisboa, há um ror de “luas”, saiu o lamento “preciso tanto que me emprestes o teu marido…” “e para que o queres?” “então quando era nova emprestavas-me o homem sem vacilar e agora que estou velha e ele nem se fala, é que perguntas para que o quero?!” “pretendo avaliar se ele está à altura da missão a desempenhar…”. Expliquei o que pretendia e ela que sim, que fixar uma calha na parede, para passar um fio ele estava apto… E admitimos a hipótese da vinda e pagamento em almoço, o que depois não se concretizou. E o fio pendurado, meio caído a incomodar-me o juízo…

Entretanto chegou de férias da Serra da Estrela (quatro meses, senhores! Se é possível?!) outro casal amigo e o marido, na segunda-feira, na volta das compras, bateu-me à porta a dar a notícia. Eu carpi a desdita do fio e prestável, o meu amigo, garantiu arranjar quem me resolveria o assunto. Eu rejubilei: o marido prestável poderia não ser meu, era preciso é que existisse.

De facto o meu amigo, no dia seguinte telefonou: “Os teus desejos são ordens. Liguei a um eletricista que costuma trabalhar para mim, ele vai aí sexta-feira ou sábado resolver-te o problema” e deu-me o número do telemóvel do dito para que combinássemos ao certo, dia e hora. Assim fiz e ficou combinado que ele viria sábado de manhã, às nove horas.  

Pois hoje de manhã, telefona o eletricista: “estou aqui na praça, no Rossio” “está a onde” e a chamada caiu. Nova ligação… e mais outra… Aveiro, o senhor estava em Aveiro. Ainda pensei que me pretendia dizer que não vinha e quisesse marcar para outro dia, mas não o eletricista procurava a minha casa em Aveiro. 

Terminada a conversa, concluído que foi o engano do meu amigo, na contratação da pessoa, talvez por possuir também uma casa em Aveiro, mandei-lhe um SMS: Não vás ao médico, não… Há gente internada por menos…Ainda não obtive resposta. O meu amigo deve ter o telemóvel desligado.

O fio continua caído… (que raiva!)

Marido prestável haverá, mas fora de tempo e de lugar. O melhor é desenvencilhar-me pelos próprios meios… (Como se eu ainda não soubesse!)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

SÓ PODE SER CASTIGO


Fez esta quarta-feira oito dias, só certa das quinze e trinta, desci até ao rio e me alonguei pela margem esquerda, repetindo o que costuma acontecer em algumas manhãs. O outono sorria agradado, mas rapidamente descobri que a ideia não tinha sido muito feliz. A fauna daquela tarde (teria de ir mais vezes, à mesma hora, para poder generalizar), nada tinha a ver com a que, por ali, se passeia em cada manhã. Como não sou assustadiça, fiz o percurso habitual das piscinas até à ponte Europa e depois voltando para trás, continuei até ao quiosque da Paula, na outra ponta do Marachão, junto à Rotunda do Sinaleiro.

Por altura da Sapataria Mipel, um senhor que fazia o percurso em sentido contrário, abre um sorriso rasgado e para à minha frente, num cumprimento afável, obrigando-me também a parar, retribuindo embaraçada o cumprimento, sem descortinar de onde nos conheceríamos. Vai daí, arrisquei “ possivelmente deveria reconhecê-lo, mas sinceramente não estou a conseguir situá-lo. Não consigo lembrar de onde nos conhecemos” “das voltinhas que damos por aqui” – esclareceu o senhor enquanto, ao ouvi-lo, eu pensava que caíra na conversa da treta, que nem uma principiante. “Gostaria de acompanhá-la no seu passeio” continuou o senhor “mas a minha passada é muito larga, não vai dar. Boa tarde para si” e desandei dali em passo largo, fazendo jus ao que acabara de dizer.

Segui até à saída do Marachão, junto à Rotunda do Sinaleiro, admirando-me com o facto daquele homem não me ter pedido em casamento, como acontecera, havia muitos anos, em Coimbra, quando “um beirão das Terras do Demo” (fora assim que se apresentara) se encantara comigo num almoço, ao balcão do Mandarim (eu nem o havia visto), partilhado com as colegas que comigo assistiam, na faculdade, a uma conferência sobre Literatura Infantil.  Esse introduzira-se no recinto e quando me viu sozinha, regressando dos sanitários, abordou-me. Era um homem apto, dizia, que gostava de música clássica. Eu tinha cara de que também gostava. Estava só e queria partilhar a vida comigo. O Sr. D. só queria acompanhar-me no passeio. Decididamente, perdera qualidades... 

Quando saíra de casa, enfiara no bolso das calças uma nota de cinco euros. O André, a frequentar o primeiro ano de escolaridade, obtivera “umas notas mega boas” nas provas de avaliação. Inicialmente não havia na família quem soubesse o que isso era, mas as provas haviam chegado a casa e o rapaz tivera excelente a tudo, face ao que, a avó babada decidira enviar-lhe um postal ilustrado dizendo como estava contente com os resultados que obtivera. Para isso era preciso comprar o tal postal. Ao voltar para trás, ri-me “agora é que eu troco as voltas ao Sr. D, que deve estar para aí, algures, à minha espera” e saí do Marachão, encaminhando-me para o Quiosque da Natália, que se situa nas Arcadas de D. João III”

Que ingenuidade a minha! De nenhures aparece o Sr. D. com um sorriso mais ousado “encontrámo-nos outra vez” “é verdade” e segui em passo largo, cada vez mais largo…

A Natália não tinha postal que me agradasse e decidi ir à Papelaria Americana. Dou meia dúzia de  passos e eis o senhor: “é a terceira vez que nos encontramos. O destino está a querer juntar-nos” “Socorro!”- Pensei eu e vá de alargar ainda mais o passo.

Voltei ao carro, parado junto às piscina, numa passada, que deveria rondar os seis quilómetros por hora, evitando que o sorriso do Sr. D. me mordesse os calcanhares.

Pois nesse dia à noite, ferrou-se uma tal dor na articulação sacroilíaca esquerda, que ainda não me largou. Admiti que poderia ser da falta de treino, mas não, pensando bem…

É castigo de andar a fugir do Sr. D.! Só pode ser castigo!

sábado, 27 de outubro de 2012

AQUELE VESTIDO PRETO


Sábado, faz hoje oito dias, bem cedo, saltei da cama e comecei a desfiar as rotinas de cada amanhecer. Quando chegou o momento de escolher a roupa que vestiria, lembrei-me do tema posto em discussão no Facebook, ao qual não prestara a mínima atenção. Abordava a possibilidade das mulheres que usam calças serem menos femininas que as que usam saias. Ri-me. “Bem vamos lá disfarçar a minha masculinidade”, pensei enquanto tirava do cabide um vestido preto.

Conjuguei aquele vestido de saia ampla, bem curto com um casaco azul e optei por uns sapatos também pretos baixos, embora goste de o ver com uns sapatos azuis bem altos, mas tinha muito que andar e não só de carro. Combinei os restantes acessórios e fiz-me à vida.

Às nove horas e trinta estava na oficina, para o check up ao carro. Era o dia Honda, não recordo o slogan, e o exame ao carro, feito nesse dia, valeria trinta por cento de desconto nos serviços que posteriormente, fossem necessários. A fila de carros alinhada pela estrada fora, junto à oficina, já à espera de vez, fez-me concluir pela cabeça da minha amiga OC: aquilo a que me propunha era “coisa de gajos”, como ela costuma dizer e ri-me, mas ri-me com vontade: “mas eu vou ficar aqui à espera? Nem pensar!”. Estacionei e procurei o Sr. P., junto de quem marquei a revisão dos cinquenta e oito mil quilómetros, que o carro ainda não tem, mas que os óleos sintéticos, agora utilizados nos motores, obrigam a que se faça de ano a ano, sem esperar pela quilometragem certa. Garanti o desconto e pus-me a andar desprezando as gentilezas do café, dos bolinhos, do chá que a senhora encarregada de obsequiar os clientes, desfeita em sorrisos, pretendia que aceitasse. Trouxe o jornal que uma linda jovem me ofereceu: o Diário de Notícias, o meu matutino preferido. Às onze horas tinha outro compromisso.

E cumprida a manhã, tendo em conta que a tarde também não seria pródiga em disponibilidade, corri a visitar a minha mãe. Já a encontrei na sala de refeições. Puxei uma cadeira para o seu lado direito, como sempre faço e acomodei-me para lhe dar o almoço, tarefa penosa para quem aos noventa e quatro anos movimenta o braço direito com dificuldade.

O primeiro reparo foi para o colar. “Esse colar é bom?” A minha mãe detesta que eu use “porcarias”, como usa classificar certos acessórios, alvos prediletos da sua ironia, como aconteceu na última visita da neta: ”a tua mãe já te mostrou o anel novo? Pedi-lho emprestado mas, com medo que eu riscasse o onix, não mo emprestou. Tenta tu, pode ser que tenhas mais sorte” e referia-se a um anel que eu tinha adquirido na Feira das Velharias, em S. Martinho do Porto. Eu ajudei à festa: “Não viu bem. A pedra é cristal de rocha (um pedaço de plástico que o imita) e não onix. Não lho emprestei porque se o perdesse, devido a essa confusão, não saberia encontrá-lo.”

Expliquei que o colar, não era muito bom, mas também não era mau de todo e começámos o almoço. A observação veio entre duas colheres de sopa: “Esse vestido está curto de mais”, “o dinheiro não deu para comprar mais comprido” – brinquei eu – “mas estou a pensar em mandar a costureira acrescentá-lo, com um folhinho na ponta”. Em consequência das considerações seguintes, questionei. “Em que reparou primeiro? Não foi no colar? É naquilo em que toda a gente repara, na exuberância do colar, ninguém olha para as minhas pernas. Deixe de se preocupar com isso” e o assunto morreu.

Às quinze horas novo compromisso. Cheguei, bem em cima da hora e fiquei à porta, conversando com quem estava a aguardar o início dos trabalhos. Uma amiga calmamente aproxima-se de mim pega na volta exuberante do meu colar, que quase acompanhava a altura do vestido, torce-a e tenta enfiar-ma na cabeça: “Amiga, que a minha mãe não entenda, eu aceito, mas tu?” Os olhares daquele pequeno grupo convergiram em mim e vi-me obrigada a explicar: “A exuberância do colar distrai da irreverência do tamanho da saia. Este vestido é um escárnio aos anos que possuo. O colar dá subtileza à brincadeira, só um espírito arguto repara na mensagem” e acrescentei, brincando “assim ninguém repara nas pernas de quem o veste…” e rimo-nos. Alguém aprovou: “gosto da combinação”


“E o poema faz-se contra o tempo e a carne”  Herberto Hélder.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A IGUALDADE DE GÉNERO


Manhã bem cedo toca o telefone. “Mas onde é o fogo?” Pergunto ao atender.

Não havia fogo… o meu amigo Z. agricultor dos sete costados, com um lagar de azeite, que é o seu orgulho e que me fornece desse azeite bom extraído a frio e caro que se farta… telefonava em busca de auxílio. Ia receber um amigo de longe e tendo muitas abóboras, queria saber como poderia fazer um doce para o obsequiar.

Comecei a explicar como fazia o doce de abóbora com nozes, que o meu amigo Z. até já provara, para ser de imediato interrompida. “Não é esse que eu quero” “mas é assim que eu faço…” “mas eu quero fazer o doce que comi em casa da G.”

Ainda não eram oito horas da manhã, foi aqui que acabei de acordar…

Tanto quanto tenho ouvido ao Z., a G. é uma senhora, professora aposentada como eu, casada com o contabilista, seu colaborador, dos tempos em que ele explorou uma pequena indústria de tecelagem e vive em Avelar. Ora se eu nem conheço a G. como saberia que doce é que oferecera de sobremesa ao Z.? “Não era mais fácil perguntares à G.?” “Ela levanta-se tarde, tenho a certeza que ainda está na cama, não vou incomodá-la”. Bom, eu também estava, ou melhor, estaria… não fora o telefonema. “Como sei que te levantas cedo…” Não comentei. Ri-me e segui em frente. Perguntei que aspeto tinha o doce, a consistência, como fora servido, e tudo o mais que me pudesse orientar para dar as explicações possíveis ao meu amigo.

Passados dias voltou a ligar. “O doce ficou ótimo. O meu amigo comeu e chorou por mais.”
“Folgo em saber” – foi a resposta e o Z. ficou a pensar que eu folgava em saber que o doce estava bom. De facto, estava contente com os seus êxitos culinários, não pelo doce em si, mas porque tinha um amigo homem, numa aldeia próxima de Castelo Branco, a sair-se tão bem na luta pela igualdade de género.

É que eu continuo a achar que a luta é deles e não nossa.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

NADA É COMO DANTES


Houve anos, em que a minha vida era uma vertigem. A educação das filhas, inteiramente a meu cargo; a escola com aulas, atualização pedagógica, orientação de grupos de estágio e toda a gama de projetos pedagógicos a acontecerem em simultâneo em diferentes espaços, em que estava sempre na crista da onda, muito antes de a lei falar e impor que se realizassem; a visita diária à dona Julieta – o que eu gostava daquela senhora! – e aos meus pais, onde aproveitada para recolher as ervilhas ou favas que pedira ao meu pai para descascar; fazer comer, com antecipação para que, à hora, as refeições estivessem prontas e passar a ferro a roupa, mantinham-me numa tal atividade que eu nem precisava de ginásio. Sim, tempos houve em que sem carro, fazia aqueles dois quilómetros entre a minha casa e a de meus pais a pé sempre pendurada nuns saltos altos bonitos. Gosto de sapatos. E daí? Nada de espalhafatoso, tipo Chanel, de salto bem alto. E de ouvir o vento assobiar entre as folhas das árvores do caminho que andava. Adoro a sinfonia.

Ainda arranjava tempo para tricotar, fazer renda e até bordar. Muitas foram as tardes de inverno passadas em casa da Maria Albertina, agarrada às agulhas e a tagarelar com as amigas… O Tó fazia-nos o chá e ria-se de nós com o P, marido da L. que contava as anedotas. E a garotada a brincar junto de nós…

Obviamente que ninguém estica os dias e se o tempo faltava roubava horas ao sono. Deitava-me todos os dias quando Deus queria e levantava-me impreterivelmente à seis da manhã, pois começava a trabalhar às oito e nunca me dispensei ao ritual de saborear o leite e a torrada do pequeno-almoço comodamente sentada, seguido do banho matinal e da maquilhagem que só não faço nos dias de praia.

Se o dia-a-dia já não era fácil, imagine-se quando fui estudar para Lisboa. As horas de sono diminuíram drasticamente e a minha casa quase parecia que tinha entrado num sistema de autogestão, mas não. Eu, é que tive muitas noites em que me entendi uma hora ou duas na cama só para esticar os ossos, uma ou outra em que tomei banho e mudei de roupa sem mesmo me deitar, poupando o trabalho de arrumar o quarto. Também aconteceu dormir no sofá. Sentava-me a fazer alguma coisa e acordava de manhã toda torcida e sem ter realizado aquilo a que me propunha. Eu e o sofá, ainda hoje não nos entendemos bem. Se estou cansada, mal me sento, é “tiro e queda” e depois acordo possuída por uma raiva surda de nem ter descansado devidamente, nem ter feito nada aproveitável.

Quem vive sozinho tem hábitos incríveis e eu claro está, não sou exceção. Adorava estudar deitada cama, evitava a dor de costas. Levava os apontamentos lia, relia, escrevinhava o que me apetecia e quando me dispunha a dormir, atirava os cadernos ao ar e gostava de os ouvir cair no chão. “Lá vai o … e dizia o nome do professor de quem os havia tomado – por ares e ventos!” E adormecia na paz do Senhor. O despertador tocava impreterivelmente às seis da manhã.

Em Lisboa tinha uma colega, muito mais velha do que eu, a E. Talvez tivesse a idade que tenho hoje, mas nem faço ideia. Era velha, parecia-me, tal como hoje parecerei a quem está por volta dos quarenta anos. Licenciada em Educação Física e a trabalhar com Airton Senna, tal como o marido, especializava-se também em Supervisão Educativa. Era uma mulher de espírito aberto, simpática, de riso fácil e talvez por isso entendemo-nos depressa. Ela gostava de mim e eu gostava dela. Não sei o que lhe terá acontecido. Acabei perdendo o contacto. Sei que a filha vivia nesse tempo com o irmão de um amigo meu, cantor de profissão, mas sempre que estou com esse amigo sinto um certo pudor de perguntar “que é feito da E. que era mãe daquela outra I. que viveu ou vive com o teu irmão J.?” Meu Deus, isto soa-me como se fosse a maior alcoviteira a devassar a vida de alguém que nem sequer conheço. Por isso nunca perguntei, mas tenho de pensar numa forma simpática de fazê-lo, porque gostaria muito de ter notícias daquela senhora.

Por altura das frequências o caos era total. Eu tentava não faltar às aulas porque aprendia de ouvido, com facilidade e era rápida a compilar apontamentos cheios de esquemas e chavetas, com cores diferentes. Isso facilitava-me a vida, não só a mim como a todos os que gostavam daquela forma de síntese. Mas as frequências exigiam mais preparação. Um dia em que cheguei a Lisboa com cara de quem já não via cama há algum tempo, por alturas da frequência de Administração, a E. interpelou-me “Que aconteceu? Estás tão mal encarada. Estás doente” E eu, do fundo das minhas olheiras que chegavam às orelhas, respondi “deitei-me com o Chiavenato, estou desfeita” (teórico das teorias de gestão e administração). Dispenso-me aos comentários jocosos da minha amiga E. A partir daí, mal chegava a E. perguntava “Isabel, com quem te deitaste ontem?” E eu entrava no jogo e disseram-se muitas tolices cuja finalidade era desanuviar e rir. E conseguimos.

Pois bem E., lá onde estiveres, fica a saber que na quinta-feira passada Ian Mcewan lançou um novo romance, Mel, de seu nome e esta tua amiga, fiel ao gosto de ler as primeiras edições, livre de doutas opiniões de entendidos e desentendidos (o que por norma quase nunca consegue), foi a correr comprá-lo. Na verdade não tão a correr como isso, porque só sexta-feira o conseguiu.

Desde então deita-se com ele todas as noites e mal escorrega pelos lençóis, aconchegam-se e adormecem profundamente, coladinhos um ao outro... Nem uma linha lida, nem força para o atirar ao ar. O que fazem os anos… já nada é como dantes…

Ah! Também já não me aguento em cima daqueles sapatos que faziam corar as tuas sapatilhas…

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A CHÁVENA DE CAFÉ


A tarde estava amena. Uma linda tarde de outono, sem Sol a brilhar, mas clara, em que a tonalidade da luz dava um certo romantismo ao casario que emoldura a praça. Sentei-me na esplanada de “A Aldeia dos Sabores” o mobiliário é mais confortável, que em “O Chico Lobo” e nada obstrui a visão.

O senhor Marques trouxe o descafeinado e bebido este fiquei mergulhada na chávena, com os olhos de fora, a saborear a quietude do dia. A senhora sentada que chamou o marido “Ei! Onde vais?” ; a outra que se sentou e, enganando a dieta, pediu, um croissant partido ao meio para não comer muito de uma vez; as pombas, que me irritam pela proximidade, mas que gosto de ver esvoaçar; a advogada que se aproximou das amigas e que, de pé, contou a experiência desastrosa da marmelada que tentara fazer pela primeira vez. “Vale-me a minha irmã, que faz na Bimby e me abastece”; os caminhantes que atravessavam despudoramente a praça, os que timidamente seguiam pelo passeio…

Ele chegou sem que o visse. “Não quis deixar de a cumprimentar”. Era o amigo de uma amiga. “Porque não se senta?” Convidei, considerando que era o mínimo que poderia fazer por quem depois de me cumprimentar, continuava de pé junto de mim. Ele sentou-se.

Nem sei como, a conversa tomou logo o rumo da política, por conta da afirmação recente do ministro. “Desculpe interromper, mercê da militância, gozo do privilégio de falar de política nos sítios próprios, não vamos deteriorar este encontro informal, com o estado caótico do País.”

O senhor insistia que era “formiga”, desenhou um ângulo de fraca amplitude na conversação e ei lo a falar de dinheiro, do seu dinheiro, da sua poupança, do seu discernimento nos investimentos, da inteligência com que fechava negócios e, por aí fora, num mar de fartura de ondas altas. Eu estava saturada com o despropósito da conversa e ainda arrisquei desinteressada “que bom para si…” O senhor não entendeu e continuou desfiando o inventário.

Quando qualquer das filhas me massacra costumo perguntar “e se fosse chatear a mãezinha?!” Era mesmo a pergunta que me apetecia porque aquele não responderia o que qualquer delas me responde “é precisamente o que estou a fazer…” , mas sorri, num esforço derradeiro… “esse tilintar de euros ensurdeceu-me. A conversa terá de ficar por aqui. Conversaremos mais noutra ocasião.” E fui embora, o mais depressa que pude.

Porque falarão os homens de dinheiro, quando não se vislumbra nada que possam comprar?


E na manhã seguinte, num mergulho rápido na mesma chávena de café, a minha amiga E. …
Um abraço apertado e ela tão animada. Quis saber como estava. Não sabia, tinha acabado a última série de tratamentos, mas sentia-se bem. De facto parecia feliz. Estava feliz.

“Foi no meu neto, Isabel. Foi nele que encontrei força para não sucumbir. Então eu sempre quis ser avó e era agora que tinha um neto que ia desistir e deixar-me morrer?” “Continuas linda”- exclamei. “Só tu!” Mas eu não mentia. A E. possui uma beleza serena que sobrevive à doença. E que força, que verticalidade perante a desdita, que vontade de afastar o infortúnio. “Só não suportava a dúvida. Tiveram de explicar-me bem tudo o que tinha”

E no fim, para meu espanto “se alguma vez precisares de apoio, numa situação semelhante, não hesites em pedir o meu auxílio. Eu já sei como agir” Comoveu-me a generosidade, o sentido do outro, a disponibilidade para amar mas, mais que tudo fiquei esmagada pelo vigor, pela sua certeza de vencer.

Que vergonha tive das minhas fragilidades...

Como dois mergulhos, numa mesma chávena de café podem ser tão diferentes!


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

CONFESSO


Ontem, mercê do convite da amiga GM, participei num workshop de pão, no Moinho de Papel, que começou cerca das quinze horas e se prolongou até perto das dezoito.

Havia deixado o carro junto à Rotunda dos Industriais, vulgo rotunda dos Pokémons, como dizem os garotos e eu como eles e deslocara-me a pé para o outro extremo da cidade.

Chovia e molhei-me toda, mas o calor rapidamente secou a roupa, no meu corpo. Vicissitudes de quem não quer pagar o parque de estacionamento.

Quando apressadamente me dirigia ao Moinho de Papel, não reparei, mas quando regressava ao carro, pelas dezoito horas, pretendendo cumprir a visita diária a minha mãe que adiara, mal me aproximei da Ponte Hintze Ribeiro, a expressão escrita em letras garrafais de cor preta, na parede branca agrediu-me. “Meu Deus – pensei – depois da luxúria de pão que comunguei com as amigas, na alegria daquele grupo de jovens, não estou disponível para pensamentos dolorosos.”

Parei. Chovia, mas não foi isso que me impediu de fazer a foto, sem outra finalidade que registar aquele chamamento às tristes realidades deste país que se afunda, pela mão da cretinice, num momento em que o meu espírito vogava a milhas de distância das cruezas atuais da vida coletiva.




Hoje levantei-me com uma terrível preguiça mental. Espreitei o mail, onde me aguardava a cumplicidade de uma amiga, para alegria de outra e dispus-me a uma ronda breve pelos blogs dos amigos. Comecei pelo “Dispersamente…” e não passei dali. Nem de propósito, aquela oração a Santo António… Abusivamente, entrei e apossei-me do texto que ilustra a minha foto. Confesso, despudoradamente, sabendo que só a preguiça mental, esfarrapadamente,  justifica o delito.

António, não mereço perdão, acho justo que se queixe à polícia e me mande prender (só para a semana, agora ando muito ocupada), mas ainda albergo a esperança de que me perdoe… Nem sequer "roubei" o texto todo, ainda deixei um pedaço para si. Há quem roube muito mais e continue por aí, pavoneando-se impunemente.



Os mercadores-banqueiros de Pádua e Florença
Estão hoje em Wall Street, na City e noutras praças.
Possuem palácios, iates, aviões e limusinas,
E evitam as ruas onde vivem os que não têm tecto.
Os seus olhos não sabem abrir-se para o nascimento de uma rosa.
Escuta, Santo: continua a ser difícil dialogar com a usura.
Mais fácil é falar com o trovão, como fizeste.

Maria Amélia Neto
Colóquio Letras
Mesmo o Passado
É sempre incerto
Número 142 Outubro-Dezembro 1996
p. 159


terça-feira, 25 de setembro de 2012

FAÇAM CÓCEGAS À VIDA


Normalmente são as manicures dos cabeleireiros que arranjam as unhas às senhoras, enquanto estas permitem que se lhes cuide dos cabelos. Comigo não é assim. Quando arranjo as unhas vou a uma clínica de estética onde usufruo de quinze por cento de desconto sobre os preços de mercado, porque, mesmo sem ter herdado qualquer costela do Tio Patinhas, não desperdiço a oportunidade de ficar com um euro no bolso, por mais algum tempo.

É a A. que me cuida das unhas. Ontem aconteceu…

A A. é uma jovem simpática, com cachos de caracóis alourados a descerem pelos ombros e sorriso angelical. Tem vinte e oito anos, é casada e mãe de uma menina de seis.

A A. pensa. E a forma como pensa aliada à serenidade que transmite, tornam aquele lapso de tempo em que convivemos, por força das circunstâncias, repousante.

Pois, ontem, a A. estava triste. Trocara o sorriso por um ar marcadamente angustiado e eu, que sei o que é a tristeza e como é difícil carregá-la, senti-me tentada a alegrar aquele rosto, onde a adivinhava.

“Conte-me da sua filhota. Gosta da escola?” Perguntei eu entre unhas e dois goles do chá que me servira. A menina frequenta o primeiro ano de escolaridade o que por desabafos anteriores e pedidos de aconselhamento sabia ser fonte de inquietação. Até já brincara com o assunto “mentalize-se de que ela agora começa a crescer sem a sua autorização. Nunca mais a agarra. Os passos com que a acompanhar à escola no primeiro dia, serão os primeiros que cumprirá com o estatuto de “cota”. Daí para a frente, não há retorno…” “ Não estou preparada para que cresça” – respondeu-me. Eu sorri… “que mãe está?”

Tudo ia bem com a filha. Tudo corria bem na vida, exceto as relações no local de trabalho. A colega que detinha a autoridade e reiniciava ontem a atividade após o período de férias, estava azeda. Os sinais eram notórios. Até eu percebera...

“Então, A.? Tente ser boazinha…” “Eu só fui boazinha duas vezes na vida” – brinquei falando de coisas sérias, em que penso algumas vezes, sobretudo quando estou cheia de vontade de ser mazinha… – e tenho sido tão compensada que gostaria de voltar atrás para ser boazinha mais vezes” Ela riu-se e eu senti que era um convite à narrativa… Contei: Estava a dar aulas. Uma das auxiliares da escola bateu à porta da sala e entrou. Estava no átrio uma mulher que pretendia vender facas, já nem sei quantas eram, por duzentos escudos. “ A senhora se for ali aos Trezentos se calhar compra-as por cento e cinquenta, mas aquilo parece-me uma miséria tão grande… a senhora bem podia ajudar”. Dei-lhe o dinheiro “e suma-se” sugeri… 

Até hoje, em minha casa, são as facas de cozinha que melhor cortam e as que melhor se adaptam ao tamanho da minha mão. De outra vez – continuei, animada pelo interesse que o desanuviar do seu rosto traduzia - foi a contratação da Carma, a minha empregada. Aconteceu quase do mesmo modo. Porque mudara de casa, ficara sem empregada doméstica e ainda não tinha contratado ninguém por apego à anterior. A mesma auxiliar da minha escola perguntou um dia “A senhora não está farta de limpar a casa de banho?” Eu andava tão entretida que ainda nem tinha sentido isso, mas ela insistiu e indicou-me uma mulher que precisava muito de trabalhar “é boa pessoa” garantiu-me. Eu contratei a minha Carma, uma pérola de gente cujo único defeito é mandar em mim, mas eu deixo … e o “casamento” dura há dezanove anos.

Ela já ria graças à cor que imprimi à narrativa destes episódios verídicos da minha vida, a que poupo quem me possa ler e ia acrescentando alguns comentários. Aventurei-me: “Vá lá A. faça cócegas à vida.” “Ora, acho que já cocei tudo onde tinha que coçar.” Ri com vontade, não da A., mas do ar infantil de birra com que proferiu o comentário “menina, ainda tem muita geografia por cumprir, muita fazenda por puir, muitas L.s para aturar. O melhor é coçar diferente onde já coçou antes.”

O riso é contagiante. A A. gargalhou com vontade, pelo sentido dúbio do que fora dito e até eu, que em cada lado da noite não vislumbro a manhã das palavras que me apetecem, saí mais confortada.

POR FAVOR, FAÇAM CÓCEGAS À VIDA.

sábado, 1 de setembro de 2012

LUA AZUL


Hoje, dia trinta e um de Agosto, tal como já acontecera no dia dois, pode observar-se, no céu, lua cheia. Por acontecer pela segunda vez no mesmo mês, o fenómeno, que só se repete de três em três anos, intitula-se de Lua Azul.






Imagem da Lua Azul, colhida da minha varanda


Sob a lua azul, o meu CAVALO VERDE

Aqui deixo Elvis Presley




e Ella Fitzgerard


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A CRÓNICA POSSÍVEL


“O meu ursinho, avó?””O meu está aqui. Perdeste o teu?” – respondo abraçando o André, a espreitar junto da minha cama improvisada, no seu quarto. Começava o dia. O último de agosto.

Levanto-me e abro a persiana do quarto ao lado, aquele onde deveria dormir. O branco das casas brilha na luz da manhã. Muitos carros já circulam na IC19. O vermelho das palavras Continente e Conforama saúdam-me. “Antes queria ver o Tejo” – penso, lembrando a antiga casa da sobrinha, situada uns metros mais à frente. É dia trinta e um de agosto. Poucas horas faltam para que o mês se cumpra.

Agosto e S. Martinho são indissociáveis. S. Martinho de novo, este ano, num vai e vem de tardes. E as amigas! “Já que ninguém nos cuida, temos nós de nos cuidar umas às outras” – costumo lembrar.

Dia um, fui sozinha: saber da barraca, levar as cadeiras e gozar de uma excelente tarde de praia. A maré alta é propícia a bons banhos. Gosto de me sentir como que perdida, na imensidão do mar, acariciada pela água e olhar para terra. Ali está o meu porto seguro. É como quem arrisca, sabendo que ganha. Meia dúzia de gestos, sem necessidade de que se enquadrem em qualquer estilo natatório e estou com os pés firmes, na areia molhada e dura. Só em S. Martinho a areia molhada é dura.

Dia dois, o primeiro passeio a Salir. “Avançamos? Voltamos para trás?” – (premonição...) e sorrio “voltamos”. Acabara de descobrir que a borda daquela imensa concha materializava a minha distância pessoal e que o mapa das “minas” com que a armadilhara era de fácil leitura. 

A partir de então as amigas estiveram presentes, não temos companhia, mas estamos acompanhadas e as tardes fizeram-se de risos e boa disposição.

Uma ida a Lisboa, para cuidar da neta. Um passeio a Viana do Castelo. “Nunca te cansas?” – perguntou a filha. Uma tarde de domingo a preguiçar, em casa, para retemperar e, de novo, S. Martinho.

E a maré alta a envolver-me e eu a nadar até às boias, a rodopiar dançando na água, a esvoaçar sentindo-me gaivota e, em vez de voar, nadando…

Dia vinte e seis, a mudança da maré. “Hoje, não toma banho?!” – admiraram-se os vizinhos de barraca, “a água não chega”.

“Anda daí, vamos a Salir apanhar conchas cor-de-rosa” “conchas cor-de-rosa?!” – admirou-se a amiga, para, depois, se encantar a apanhá-las. “Sempre a aprender! Não sabia que havia conchas cor-de-rosa…” “só em Salir” – esclareci.

À noite, o telefonema da filha: “preciso de ti”. E aqui estou. Cumprem-se os netos, por doença da mãe. Adiou-se, para o próximo ano, o concurso de ginjinha, agendado para a tarde do dia vinte e sete.

Cumpriu-se S. Martinho. Está quase a cumprir-se Agosto.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

CHEGOU O INVERNO



Todas as tardes, cumprida a visita diária a minha mãe, rumo a S. Martinho do Porto, cerca das quinze horas. E o mês de Agosto vai acontecendo num vai e vem sem parança.

Há sempre amigas interessadas no passeio o que me faz trair Michael Bubllé, cujo CD, escolhido há imensos dias ainda não conseguiu fazer-se ouvir até ao fim. As canções começam a tecer-se nos curtos minutos que separam a minha casa da de PS, para se calarem assim que esta entra no carro. Que sorte! Quando a OC aparece à minha porta e me acompanha, nem sequer começam a ser ouvidas. A conversa leve e inconsequente com as amigas é bem mais interessante.

As tardes de praia, com sol quente e a preia-mar, têm resultado fabulosas para quem, como eu, gosta de tomar banho e espojar-se ao sol. Nado até às boias e por lá rodopio, sonhando-me Odete, livre da maldição do bruxo Von Rothbart e sem Siegfried que me perturbe.

O mar em S. Martinho é um lago calmo. A água fria, num tom esverdeado, envolve-nos, acariciando-nos a pele e qualquer gesto é suficiente para nos manter à superfície. “Que será feito do senhor Machado?” Lembrei-me há dias, quando, brincando sozinha junto às boias vi aproximar a Rute, a Laura e a Marta, jovens de quinze, treze e onze anos respetivamente. “Outra geração” – pensei. O senhor Machado, aos oitenta anos ainda me acompanhava nestas deambulações mar adentro, com a minha amiga Z., sua vizinha de barraca, na fila atrás da minha. Agora a Z. recompõe-se da doença, com que o inverno passado a vitimou e este é o terceiro verão em que nada sei do senhor Machado. A vida a caminhar a passos largos indiferente aos meus afetos!

As amigas que me acompanham desde Leiria, não gostam de fazer praia como eu. Normalmente passeiam, vão ao café e aparecem quando lhes apetece. Então, juntas, esperamos que a praia fique deserta. Os vizinhos de barracas, à medida que vão embora, recomendam “feche a praia bem fechada” e nós, hábito meu bem velho, deixamo-los partir com a promessa de que se dará três voltas à chave, para então estendermos os olhos, regaladamente, pelo espaço até Salir. Elas também gostam da paisagem…

Cerca das vinte horas, quando não é mais tarde, saímos da praia, jantamos no Ocean Place e depois rumamos a casa, onde nunca chego antes das vinte e uma horas, para, alguns dias, ainda ficar na conversa com a OC, à minha porta, atitude plenamente justificável pelo facto de não termos conversado nada (pouco) a tarde inteira.  

Hoje, havia vento, muito vento. “Vamos aos anéis” – decretei eu, mal chegámos. “não há como tu para adivinhar as coisas que me fazem falta” – brincou a OC, “avalio pelas minha próprias necessidades” - contrapus, “primeiro tomamos café” – exigiu a PS. Cumprido o programado café e, tendo cada uma, depois de voltarmos a loja do avesso, adquirido uma extraordinária joia, pela exorbitância de três euros, rumámos aos pastéis de nata. “Estão quentinhos!”- admirou-se a PS.  Claro que estavam quentinhos, há sempre pastéis de nata quentinhos, se fossem iguais aos que se comem em Leiria, não teria valido a pena levá-las ao “Cantinho II”.

Quando, finalmente, rumávamos à praia, a chuva começou a cair. “Quanto pagam para vos deixar ir debaixo do meu chapéu?” - perguntou a PS, exibindo a sombrinha que tirava do saco. “Quem te disse que desdenho andar à chuva?” – quis saber - “Os chuvisco de S. Martinho tornam as mulheres mais belas”, “receio que não sejam chuvisco…” lastimou a OC, caminhando á chuva, tal como eu. Mas foram e ficámos na praia até às vinte horas.

Como acontece em cada ano, o inverno chegara a S. Martinho para passar o verão, mas que nos importara? Fora, simplesmente, mais um veraneante.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O PRÉMIO

“Queres ir ao Shopping?” Telefonava-me uma amiga, há largos dias. “Não quero, mas preciso de ir”. Combinámos o encontro, peguei na lista das compras e pus-me a caminho.

Passeámo-nos pelos corredores do Continente, eu empurrando o carrinho, ela colocando as compras nele, adquirindo os precisos de uma e outra, conversando e rindo de tantas banalidades, que acabei esquecendo o que anotara em primeiro lugar: pilhas para a escova de dentes. Não foi por isso que veio mal ao mundo; há uma loja do Pingo Doce aqui tão perto…
Feitas as compras, distraída e desejosa de sair do Centro Comercial, surge, como que do nada, a minha “fada-madrinha” que, tal como nós, pretendia fazer uns investimentos de capital, para júbilo do Tio Belmiro.

A minha “fada-madrinha” é a professora JS, mais jovem que eu, que à data em que fui monitora dos adultos na Escola Amarela, em regime de acumulação com o trabalho na Escola Branca e com a supervisão de estágios pedagógicos, se encontrava destacada no Ensino Recorrente. Eu ganhava por esse trabalho a extraordinária verba de dez mil escudos, que pagavam o meu trabalho diário de duas horas, cinco dias por semana, ou seja quarenta horas mensais. Para que não tenham o trabalho de fazer a conta, eu esclareço que recebia a avultadíssima quantia de dois escudos e cinquenta centavos, por cada hora. A minha empregada doméstica ganhava muito mais! Além de pagar mal, o estado nunca pagava atempadamente. Nunca se sabia quando chegava o cheque, mas quando aparecia a JS telefonava a informar-me de que já havia dinheiro. Foi assim que passou a ser a minha “fada-madrinha”. Quando ela telefonava eu já sabia que se alguma vez fora pobre, a partir daquele momento, deixara de ser…

Não sei como, a conversa derivou para a escola. Ter-lhe-ei perguntado se já estaria aposentada? Não recordo. Sei que me falou de trabalho, do sonho de uma pesquisa de cariz pedagógico/didático em que um dos instrumentos a analisar seria o livro de leituras da 1.ª fase do Ensino Primário de que sou coautora: “Rebola a Bola”. Manifestando admiração por um trabalho de meados da década de setenta do século passado, possuir textos que não encontrou em manuais da década de noventa. Não me dei ao trabalho de explicar que os manuais talvez se inserissem em propostas metodológicas diferentes, limitei-me a saborear o elogio, enquanto me batia no peito uma vontade imensa de voltar aos trabalhos de cariz pedagógico.

“Sabe que Eduardo Perestrelo ganhou um prémio com a ilustração do seu livro?” Soubera e já esquecera, mas hoje, assim que saí da cama, nem sei se terei sonhado com isto, dirigi-me à estante e tirei da prateleira o único manual que possuo, aquele por onde a minha filha mais velha aprendeu a ler. Passei as folhas uma a uma, lentamente, deleitando-me com o traço firme, cheio de cor e movimento de Eduardo Perestrelo. Além do prémio de ilustração, o artista deveria ser premiado pela forma ímpar como entendeu a essência do trabalho que lhe confiei.


Uma vez mais, porque nunca é de mais, bem-haja Eduardo Perestrelo! A sua extraordinária mestria fez daquele manual uma obra de arte.










terça-feira, 17 de julho de 2012

ESTAREI DOENTE?


Andei preocupada com uma situação para a qual não vislumbrava solução a meu contento. Diria mesmo que andei angustiada, rabugenta e zangada comigo própria. Às amigas, nem uma palavra sobre o assunto. Só gosto de falar dos problemas depois de restabelecida a normalidade, para me rir deles.
Em alturas destas, costumo correr para  S. Martinho. O passeio pela praia, na baixa-mar, a par e passo com o marulhar fininho das ondas e com a brisa a beijar-me a face, desata-me as ideias e os raciocínios fluem com mais rapidez… Sinto a praia deserta como se tivesse parado o mundo, saísse um bocadinho para voltar a entrar, logo após ter-me encontrado. Nesta altura do ano, adivinhava S. Martinho cheio de gente e eu não poderia desfrutar daquele espaço só para mim. 
Posto de parte o passeio à beira-mar, o que resta a uma mulher para refrescar a cabeça? Ir às compras! A época apresentava-se propícia. Por todo o lado se anunciavam promoções. Se bem o pensei, melhor o fiz. Meti-me no carro e, num ápice, estava no Shopping.
Montras e mais montras, um “entra e sai” de loja em loja. Apalpei tecidos, experimentei sapatos, apreciei malas, brincos, pulseiras e tudo o mais que havia para ver e mexer… Compras? Não fiz nenhuma, nada me agradou, nada vi que precisasse.
Na verdade eu não precisava senão da solução para o problema que me atormentava, contudo não é menos verdade que uma mulher encontra sempre alguma coisa imprescindível onde gastar os trocos. Quando tal não acontece, "algo de grave se passa" – garante uma das minhas amigas.
Estarei doente?

domingo, 15 de julho de 2012

LER


Ler! Que vício incrível! Não sei se por deficiência profissional, se por qualquer outra razão, ou se por razão nenhuma, tenho o vício de ler tudo, absolutamente tudo, em que os meus olhos tropeçam.

A amizade pusera-me a ler, no PC, obras não publicadas, mas eu sou do tempo (como a expressão sabe a anos de hábitos) em que se lia na horizontal, em que não bastavam os olhos, em que as mãos intervinham no ato de ler. Era preciso virar as páginas…

E que saudades eu tinha do papel! Pegar num livro e sentir as folhas, virá-las, sentir o cheiro, comendo sofregamente as palavras, saciando o tato…

Fui à “Boa Leitura”, procurava um Goleman, há muito adiado: “não temos, mas mandamos vir”. A menina puxou do bloco de encomendas; escreve, não escreve… Os olhos espraiaram-se pelas bancas, onde imensos livros se mostravam despudoradamente. Foi “amor à primeira vista”. Os nomes da autora, em letra alaranjada, em degradé, na capa escura de um livro de bolso, chamaram-me a atenção. Escrito assim, Tami Hoag justapunha-se à cor e tamanho do título da obra: “Águas Calmas”. A promessa de intriga fervilhava… Peguei no livro. A mão deslizou pela capa; o livro era maneirinho, como todos em edição de bolso. Que delícia ao tato!  “Vou levar este”.

Aconteceu dia cinco. Oito dias depois, as cerca de seiscentas páginas de leitura condensada estavam cumpridas, sem descuidar amigos e confraternizações.

Quem me conhece dirá que trai Irving Wallace, meu escritor preferido para este género literário, mas eu não precisava de ler, eu precisava de mexer num livro. Deixei-me seduzir pelo tato…

segunda-feira, 23 de abril de 2012

AINDA NÃO FOI DESTA

Eu teria cinco, seis anos, não mais. Uma curva apertada feita em louca correria ocasionou o acidente… Bati com a face na vedação compacta de toros de eucalipto, mais ou menos da minha altura, espetados no chão lado a lado, com que meu pai ordenara ao Coquelimoque que salvaguardasse a pequena horta, das minhas pisadelas às couves e do assalto aos nabos bola de neve. Ainda hoje gosto de nabos crus, nomeadamente daquela qualidade.

Já não recordo a dor, mas lembro-me bem da enorme choradeira, coisa em mim desusada. A dor deveria ter sido tão intensa!

A minha mãe desceu as escadas desde o primeiro andar, num ápice e levou-me para cima. O médico, o Dr. Francisco Dias, que se encontrava presente em visita domiciliária por meu irmão estar doente, pegou-me ao colo, atravessou toda a casa e sentou-me em cima da mesa da cozinha, a mais alta de todas. Desta vez não foi para eu ficar crescida “num instantinho” mas para me examinar mais facilmente. Eu ainda não parara de chorar.

“Não há sangue” disse a minha mãe, “mas dói-lhe muito” retorquiu o médico. Eu acabara de ganhar um desvio no septo nasal e da mazela da face, ficaria para a vida com uma covinha quando sorrisse, pois rompera a bochecha sem rasgar a epiderme.

“Não vai ser atleta” sentenciou o Dr. Dias acerca do meu futuro “o desvio do septo não é grave e quanto à covinha até lhe dará graça ao sorriso” e para aliviar receitou de imediato pachos de água fria e logo que possível gelo, coisa de que não dispúnhamos, à época, com a facilidade que dispomos hoje.

Muitos anos passaram e com eles muitas mais covinhas foi ganhando o meu sorriso…

De facto não fui atleta, mas o que não nasceu torto e por qualquer motivo se entorta, algum dia terá de endireitar-se. Chegou no sábado, dia vinte e um, a vez de o meu nariz ser submetido a uma septoplastia, sentenciada desde o tempo em que o meu otorrino era um jovem de farta e saudosa cabeleira negra…

“Tenho medo de acordar morta” chalaçava eu, adiando a operação com medo da anestesia. “Garanto-lhe que morta não acorda, de certeza” respondeu o clínico invariavelmente, anos a fio.

Ainda não foi desta que acordei morta, mas para já tenho um nariz igualzinho ao da Miss Piggy.

Agora, em vez de sonhar com o Cavalo Verde, passo as horas a suspirar pelo Sapo Cocas…

domingo, 15 de abril de 2012

PALAVRAS

Acordei muito cedo, levantei-me, abri as persianas e tomei o pequeno-almoço. Pouco passava das seis da manhã. “Que faria a pé, que não pudesse fazer deitada?” E voltei para a cama.

O Sol ainda esfregava os olhos e eu fiquei a vê-lo acordar. Gosto das madrugadas.

Sentia frio. Em minha casa nunca faz frio, o aquecimento central não permite, mas eu sentia um certo desconforto. Era mal de alma. Tinha “frio por dentro” como diria a minha mãe. E como nós riamos, eu e o meu irmão, com o meu pai encolhido e a tremer fazendo por imitá-la “Ai, tenho frio por dentro…” Agora já não rio. Já não tenho o meu pai para fazer pantomina, nem o meu irmão para fazer coro e sei que “ter frio por dentro” é sentir saudade...

Mas eu bani a palavra do meu vocabulário… deve estar frio lá fora…


Quando a luz exterior permitiu, peguei numa revista e vagueei por aquelas páginas, sem muita atenção. Uma crónica que falava de ulmeiros fez-me olhar para a parede do fundo do quarto. Apeteceu-me Monet,” As Amapolas” ali coladas em toda a extensão da parede, ao fundo do meu quarto a ondularem ao vento que soprava lá fora, fazendo esvoaçar loucuras na minha imaginação…

Com as cores veio a vontade de encher o espaço de palavras mansas, bonitas, musicais, limpas e luzidias como as cores da manhã e frescas, acabadinhas de inventar.

E, numa amálgama louca, ali estava Eugénio de Andrade…

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?
Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

* In Matéria Solar, Porto, Limiar, 1980