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terça-feira, 12 de agosto de 2014

A CARTA DE CONDUÇÃO


“Por que não tiras a carta de condução?” Não havia quem não perguntasse. E alguns até acrescentavam: “Uma rapariga tão despachada como tu…” Ela ria-se. “Ora, gosto mais de acelerar nos sofás da sala.” - e dava a conversa por terminada. Só que a questão voltava a ser-lhe posta. Ninguém entendia as suas razões que, verdade seja dita, ela também não revelava. Era um “porque não” implícito, que ninguém aceitava: “Hoje a carta é uma necessidade e não um luxo” – havia quem sentenciasse. E ela sorria. O sorriso substituía o esclarecimento que negava.

Ela tinha um segredo. Ora todos sabemos o que é um segredo. Só não sabemos, como ninguém sabia, qual era o seu segredo. Nem sequer havia quem suspeitasse que existia um segredo. Tão alegre, tão faladora, tão espontânea! Segredos?! Nem pensar. Pois havia mesmo um segredo! E se era segredo, como o poderia revelar? Era por não poder responder que sorria. Sorria e calava a razão pela qual nunca pensara aprender a conduzir um automóvel. Aquele motivo, segredo inconfessado até à mãe, era uma limitação que ela aceitou, como aceita tudo o que a vida lhe proporciona e não sabe ou não pode alterar. Era a sua circunstância e tratou de ser feliz com ela.

Como o tempo não para, a vida foi acontecendo.

Desde pequena que usava óculos, melhor dizendo, deveria usar. Se os cuidados da mãe se aligeirassem, esquecia-se de os colocar. Já em adulta, brincava: “Sem óculos vejo o ordenado inteiro, se os coloco fico com metade”. Ela sofria de hipermetropia e achava que via muito melhor sem óculos do que com eles, o que até era verdade. Possuía uma extraordinária visão de longe e de perto, só após muito esforço é que os olhos lacrimejavam. Para quê os óculos?!

O oftalmologista insistia: “Use os óculos. Ao longe, com eles colocados, vê tanto como uma pessoa com visão normal” “mas vejo menos” - respondeu naquele dia. O oftalmologista, com ar fechado, encarou-a e sentenciou “mas tem problemas por não usar os óculos.” Ela olhava-o desafiadora e o médico continuou “nunca lhe aconteceu, à noite, quando viaja de carro, não saber para que lado é a curva da estrada?” Ela quase pulou da cadeira “o seu segredo!” Num misto de espanto e alívio, confessou ao oftalmologista que sentia essa limitação. “Por isso nunca pensei aprender a conduzir um automóvel.” “Pois então use os óculos, vai notar a diferença.”

Passaram muitos anos após esta consulta de “adivinho”. Garante quem sabe que ela tirou a carta de condução com o número mínimo de lições de código e de condução exigido por lei, que, até hoje, não sofreu qualquer acidente rodoviário e aprendeu que, na vida, até o irremediável deve ser questionado.

terça-feira, 27 de maio de 2014

LUGAR NENHUM


Espreitou por entre os vidros daquela janela larga… A chuva caía. Abundante, na tarde cinzenta, lavava tudo. “As plantas agradecem” – pensou. Fosse menina e escapar-se-ia aos cuidados da mãe para também ela se lavar, lavar a alma celebrando a chuva, no jardim. Só que então nem sabia que tinha alma e agora não tem jardim. 

As flores avulsas da varanda tremelicavam ao impacto das grossas gotas. Apeteceu-lhe movimento. Gosta da chuva. E então?! Há quem diga que tem mau gosto, mas ela sorri e responde resignada que há gostos para tudo.

Atravessou a casa e espreitou por outra janela a buganvília da vizinha no abraço bravio da ipomeia. Numa ponta do quintal, virada à rua, a nespereira sorriu no amarelo vibrante de seus frutos. Ela lembrou-se da velhota, que numa manhã de sol, puxava com o guarda-chuva as braças da árvore e se abastecia de nêsperas. “Fora hoje e já as levava lavadinhas, prontas a comer.” Sorriu. Nesse dia tivera pena da velhota e apetecera-lhe levá-la ao supermercado, mas ela sabia que não poderia oferecer-lhe nêsperas mais saborosas que aquelas que ela acabara de subtrair sorrateiramente à nespereira da vizinha.

Lembrou-se que também ela tinha nêsperas em casa, oferta de um amigo. “Hei-de semear um caroço, no vaso, para ver se cresce.” É assim com tudo, “para ver se cresce”, com os afetos como com as plantas, mas quantas vezes a terra do vaso é mais fértil que a bondade das almas…

Disposta a sair, vestiu um casaco e desceu as escadas. Enfiou-se no carro e partiu. Onde ia? Ia à chuva…

A musicalidade da água coloria a tarde parda. Ela conduzia devagar… Seguia para lugar nenhum. Lugar nenhum era o abraço que não tinha: “por mais que caminhe não sei como chegar à ausência” e conduzia estrada fora inebriando-se de verde, de um verde fresco, lavado do pó dos caminhos.


Parou frente ao mar a ver chover. Na beatitude da tarde, embalada pela chuva, aconchegada pelo oceano, adormeceu…

domingo, 29 de dezembro de 2013

O PAI NATAL

Quando era pequenina... pois é verdade, também já fui pequenina... diziam que era o Menino Jesus que me dava as prendas no Natal.

Eu colocava o sapatinho na chaminé, já em camisa de dormir, prontinha para entrar na cama e a curiosidade tomava conta de mim naquela noite de vinte e quatro para vinte e cinco de dezembro, até conseguir a muito custo adormecer, para só de manhã me aquietar e comover com a generosidade do Menino Jesus.  

Eu achava o Menino Jesus altruísta. Na verdade, nem sabia que a palavra existia, mas achava-O muito bonzinho, porque Ele, um Menino que gostaria de brincar, dava os brinquedos a todos os outros. Parece-me até, que foi graças a este conceito de generosidade, que minha mãe conseguiu que eu desse, com o coração em chaga, todos os brinquedos a uma menina da Carreira, de que nem lembro o  nome, quando ela entendeu que eu não tinha idade de brincar com eles. Foi pois com dor, que aprendi a dar aos outros, se calhar acontecia o mesmo em cada Natal ao Menino Jesus. E a minha mãe, bem na linha de minha avó Isabel, sempre foi assim: capaz de dar até a camisa, desde que achasse que ela servia alguém, que ela tinha uma função social ao serviço do próximo.

Nunca entendi muito bem como é que o Menino Jesus transportava tanto brinquedo e os distribuía pelas chaminés de cada casa, mas como o serviço aparecia feito e bem, nunca me preocupei muito em desvendar o mistério.

Muito mais tarde, o Menino Jesus, talvez devido ao cansaço, fez-se substituir pelo Pai Natal. Este vinha de trenó, puxado pelas renas e distribuía as prendas. Como figura mais possante, percebia-se melhor que aguentasse a trabalhar a noite inteira sem enganos e canseiras.




Mas as chaminés foram sofrendo alterações. Encheram-se de antenas e algumas até de heras. "Como entrar?" - questionava-se o Pai Natal.



Optou por escadas de corda...
 tentou subir a pulso...


Aprendeu até aquele novo desporto urbano, que a ignorância não me permite saber o nome, e pulou até à varanda desta casa...

Noutras usou o trapézio do Circo Moderno que está lá em baixo no espaço da Feira de Maio, para dar um ou outro espetáculo, na esperança de que o içassem para dentro.

O Pai Natal, embora com muitas horas de ginásio, não tinha preparação física à altura do esforço exigido. Ao fim de tantos anos por aí  numa azáfama destas, os músculos não são o que foram e ele é contra as substâncias artificiais com que muitos obtêm aquele aspeto de "dinamite".

Creiam, foi um desepero esta Noite de Natal.




Desesperado, caindo de cansaço, perdeu o saco e acabou enforcado, em indecente e má figura, na varanda do primeiro andar esquerdo do prédio onde habito.

Eu moro no segundo direito... Percebem agora por que fiquei sem prendas?

terça-feira, 29 de outubro de 2013

VINTE E SETE DE OUTUBRO

O sol acordou a madrugada com um sorriso radioso. “Vá, levanta-te.” – disse mimoso para o novo dia – eu ouvi, e fingindo-me dona do mimo, pulei da cama e abri a persiana. A luz entrou e o calor também pelo vidro da janela do quarto, que ficara toda a noite meio aberto.
“Bom dia sol, bom dia vida, bom dia amanhecer”.

A manhã estava esplêndida. Apressei-me a levantar as persianas de todas as outras divisões. E a casa inundou-se de sol. Cumprido o ritual de sentir o dia na pele, com a ida à varanda, logo que cheguei à sala, sentei-me calmamente às voltas com a torrada que deixara a fazer e o copo de leite do pequeno-almoço. Nem liguei a TV. Queria lá saber as notícias, não ouviria nada que me apetecesse. Limitei-me a fazer planos para a manhã: “hoje vou descer até ao rio.”











A moda chegou a Leiria...


 É na Ponte Chinesa...


Manhã, mas que linda manhã!


Depois de dar almoço a  minha mãe fui almoçar com uma amiga. Ela telefonara no dia anterior a sugerir: "Vamos amanhã almoçar à praia. É para nos despedirmos das sardinhas" E fomos. Tarde e más horas, pois não quis deixar de ir cumprir o ritual com minha mãe, mas fomos.


Vieira de Leiria






Aconteceu uma tarde de verão!

terça-feira, 9 de julho de 2013

AQUELA CAIXA DE TRUFAS

Olhei a caixa, elegante nas proporções e no negro de que é feita. Se é certo que o preto significa ausência de cor, não é menos verdade que tal característica dá asas à imaginação deixando adivinhar, antes de qualquer estímulo, que todas as sensações serão possíveis. Foi com esta promessa que avancei.


 Acariciei a caixa. A diferença de texturas misturou-me no tato uma leve rudeza com a finura dos cachos de uvas do Rocim.



Levantei a tampa. Saltou-me à vista, num branco translúcido a explicação de "DELICIOSAMENTE DOCE" e neste contraste da ausência de cor exterior para o branco da mensagem, cor que resulta da mistura de todas as outras, reforçou-se a promessa de excelência.






Quando venci a última barreira, levantando mais uma tampa, ficou-me nas mãos, em proporções perfeitas, a lonjura da planície alentejana e bem no centro, qual tanque de pisa, o tesouro que procurava. Com os desvelos que a terra merece, as trufas, simbolizando os torrões toscos da Herdade do Rocim, esperavam, acondicionadas em celofane, que eu as descobrisse e extraísse delas o sabor do excelente vinho que essa terra produz. 







O cheiro forte e quente contrastava com a sonoridade do celofane, que me remeteu para o crepitar da lenha na lareira, para quietude do lugar.

No paladar não me detenho, já outros, com finura e engenho, o fizeram antes de mim, só me resta confirmar o já descrito. Em cambiantes de gosto, a trufa desfaz-se-nos na boca, como a terra acariciada se desfaz entre os dedos.

Estas trufas só "pecaram" (falta minha!) por não terem sido saboreadas do alto daquele terraço que encima a adega, virado à entrada, onde a sugestão do feminino, com uma velada ideia de fecundidade faz com que qualquer mulher se sinta inteira, mesmo antes de descer ao interior, à "catedral" de altas colunas onde todas as sonoridades são possíveis. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

CANSAÇO




Hoje aconteceu o primeiro ensaio da peça “As Mulheres no Parlamento” de Aristófanes, no espaço onde será representada, pelo grupo da SEMPRAUDAZ, no dia dezoito de junho, pelas quinze horas: o palco do Teatro Miguel Franco.

“Falta de ritmo” – ralhou a encenadora – “adaptação ao espaço” – sugeri, e acabou o ralhete. 

“Meninas – sussurrei às outras – com os ensaios que temos somos umas grandes artistas” – e sorri bem-disposta para desanuviar o ambiente.

E repete… e repete… e  repete…

Ah! Apetecia-me ser gaivota para planar esquecida, num céu azul sem nuvens.

sábado, 11 de maio de 2013

FUI AO JARDIM

Fui ao jardim do António roubar flores. O "meu sítio" andava tão tristinho...









Digam-me, estas rosas não são uma maravilha? Gosto tanto de rosas amarelas que não resisti...
Custaram-me uma corridinha e um susto. Fui ao "Dispersamente" http://dispersamente.blogspot.pt/, apanhei o António distraído... e aqui estão as flores... Lindas!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

JUSTINE


 “Primavera em Paris”: lembro-me vagamente das personagens do filme: Gisèle e  Pierre. Recordo ainda o furo na roda da bicicleta e de algumas peripécias de enamoramento que à mistura com a paisagem escolhida como fundo para essa comédia romântica, puseram Paris no meu imaginário de pré-adolescente. Ah, mas Gisèle, não! Eu tinha uma amiga no Liceu de longas tranças que se chamava Gisela. Gostava da amiga, mas não gostava do nome. Justine… Eu achava que se fosse francesa teria de chamar-me Justine. E o meu cérebro sonhava a brisa daquelas semivogais, seguidas da vogal muda, soprada ao meu ouvido por algum cavaleiro andante, o tal do cavalo verde, que havia de aparecer na curva do caminho: Justine… Justine… Justine… Não havia nada mais melodioso e as folhas das árvores tremelicavam e os passarinhos chilreavam num céu azul luminoso. Tal e qual como num conto de fadas…


Esta manhã, acordei, pouco passava das seis horas. A claridade entrava pela persiana mal fechada da janela do meu quarto e eu senti que tinha um sorriso nos lábios. “Devo ter sonhado com Paris”, pensei. Também eu fora numa primavera a Paris. Na verdade, durmo sempre tão profundamente que só sonho acordada. Ah, e é sempre hora de sonhar… Saltei da cama, fechei a persiana e voltei a deitar-me…

Justine fingindo-se adormecida esperava que a brisa soprasse ao seu ouvido…

Foi a chave na porta que me alertou... O cavalo verde? Não. Eram oito horas, a Carma chegava para mais uma manhã de limpezas… 

quinta-feira, 14 de março de 2013

AQUELA FLOR DE ROSMANINHO


Cultivo um certo amor por caderninhos de notas pequenos, sem argolas, detesto cadernos de argolas, onde por vezes escrevo e que depois de concluídos destruo, porque não interessa a ninguém conhecer-me e eu habituei-me a que me pensem, como querem. Assim conquistei uma certa margem de liberdade de ser eu, dona e senhora do espanto dos dias, dos momentos de alguns dias.

Hoje, quando abri um desses pequenos cadernos, com a intenção de colar um raminho que colhera no Dia da Mulher, junto ao restaurante onde almocei, deparei-me com esta nota. O que relata podia ter acontecido hoje, nesta linda manhã sol:

Hoje, de manhã desci ao centro da cidade. Depois dos assuntos tratados, sentei-me na esplanada do “Aldeia dos Sabores”, na Praça Rodrigues Lobo, em ameno cavaqueio com a F.S. Cerca das doze horas, quando vinha embora, uma menina abordou-me:

- Olá. É para ti.

E ofereceu-me este pézinho de rosmaninho. Sorri enquanto pegava a flor.

-Olá. Como te chamas?

- Laura.

- Muito obrigada, Laura. És muito bonita.

Segui. A Laura, talvez uns cinco anos de gente muito ternurentos, lá ficou brincando na praça com os outros meninos, com o meu afago nos cabelos. Eu trouxe um sorriso lindo, daqueles que só as crianças têm para oferecer e um pé de rosmaninho bem cheiroso.

É preciso tão pouco para sermos felizes!

Aconteceu a trinta de Maio de dois mil e doze. Podia ter sido hoje…

domingo, 10 de março de 2013

ENCONTRO

Esta manhã, vagueando pelo PC, encontrei-me num qualquer dia de um qualquer ano.
Aqui fica um fragmento. Para que não esqueça...

O que a vida nos faz… Ameaça e compensa. Estrangula e afrouxa o laço. Quase mata e reanima. E a felicidade está no equilíbrio entre a força com que enfrentamos a desdita e a esperança no que vem a seguir.


Palavras ditas, lembradas de mansinho, afugentaram a insegurança que ameaçava instalar-se dando espaço à doce expectativa de quem sabe que se já esperou tanto, pode esperar um pouco mais. A vida acontece em cada dia. Eu estou atenta. Alimento a felicidade de pequenas coisas, às vezes bem pequenas, com que a vida me premeia por entre todas as outras menos ditosas que vão acontecendo. Estas ajudam a valorizar as outras. Cada dia é um estado de graça. 



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

MAIS CHUVA


Eu gosto de ver chover. Na verdade gosto da cidade lavada, meio deserta. Gosto de caminhar devagar, vinda da Rua Conde de Ferreira (muitas cidades têm uma, mercê das cento e vinte escolas que ofereceu…) e quedar-me, por momentos, sobre a ponte, olhando a Rotunda do Sinaleiro. 

Cidade despida de gente, a massa branca dos edifícios, as árvores despidas de folhas… e há qualquer coisa de iniciático que me encanta. Parece que algo vai renascer, vivificado pela água e saído daquela quietude, daquele marasmo que a chuva impõe. Mas até eu… 

Até eu, que gosto de ver chover, já estou farta de chuva! 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

SEM TÍTULO

Exposição: "Amália, coração independente"- Joana Vasconcelos - Janeiro de 2010

Hoje, apetecia-me sentar numa sala escura, encher os olhos de beleza e os ouvidos de sons suaves.
Que a beleza me esmagasse...


Ah! A Primavera não tarda e o "meu" jardim voltará a florir, na janela da cozinha...
(Como estará a japoneira daquele jardim?)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

PARIS

Lembraram-me Paris...




À beira do abismo...


E a "birra"?! Sim. Eu queria a Vitória de Samotrácia só para mim. Eu queria deliciar-me com aquele deslizar leve. Eu queria sentir o vento naquelas vestes. E... só via japoneses à minha volta... Não deve ter ficado um só no Japão. Multiplicavam-se, ali, à minha beira.  Deu-me "uma coisinha má": "daqui não saio, daqui ninguém me tira: Eles hão de ir embora." - disse às amigas. E foram...

 A escadaria... O meu sonho louco (um dos... tenho tantos!)

Quedei-me a olhar

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

AQUELA CONFIDÊNCIA


Eu sentara-me sozinha junto de uma das mesas da receção do Centro Cultural. Tentava decorar as falas do meu papel para a festa de Natal, repetindo sem cessar aquela fala longa em vez de utilizar a associação de ideias tal como J.C., com a sua prática de ator, me sugerira. A senhora apareceu a meu lado sem que reparasse: ”posso sentar-me aqui?” Pois claro que podia, obviamente que podia. “Vou contar-lhe a minha vida. Oxalá não chore”. Fiquei embasbacada. Apeteceu-me responder que não, que não contasse a sua história, uma história com mais de setenta anos, mas, delicadamente, dispus-me a ouvir.

E ela foi contando… Falava de tristezas, de incompreensões, tantas vezes com as lembranças a ameaçar desfazerem-se em pranto e eu umas vezes a ouvir em silêncio, ou aventurando uma análise positiva sobre o que dizia, outras aliviando a carga emocional do revelado com algum comentário divertido, não sobre o que dizia, não fosse magoar a senhora, mas estabelecendo qualquer analogia com cenas diferentes, mesmo da minha vida. “Ah! Mas julga que só acontece consigo?” E contava uma qualquer história – o que há mais na vida das pessoas são histórias semelhantes – que interpretava de forma jocosa para que acabássemos rindo. Ao fim de duas horas (fora para a aula de dança e faltara), aliviada a tristeza ela ria mesmo. “Fez-me bem falar consigo”.

Tive reunião a seguir e não pensei mais no assunto. Os órgãos sociais de uma associação em início de atividade, têm muito com que se preocupar, mas, chegada a casa, no silêncio da noite, recordei a cena sem me furtar à análise. Que fizera eu senão olhar os factos narrados de forma diferente? Que fizera eu senão olhar os factos pela perspetiva da “garrafa meia cheia”?

Repetia a forma verbal “olhar” - e a minha avó Isabel, ali, a materializar-se: “Se o teu olhar for límpido…” Será que foi? Gostaria de ter ajudado a encontrar respostas; não a adiar questões.

domingo, 25 de novembro de 2012

UMA HISTÓRIA DA CAROCHINHA


Estava uma tarde chuvosa, que convidava ao conforto. A noite anterior fora mal dormida. Dores no pé torcido e na pele que faltava no joelho acordaram-na frequentemente. Considerara mesmo a hipótese de uma ida ao hospital quando fosse manhã, mas depois levantara-se “ora, tu aguentas… já te aconteceu pior” e, enfiada na meia elástica, ficou-se naquele triste consolo do irremediável. Teria de esperar para que passasse.

Apeteciam-lhe palavras redondas, pequeninas, sussurradas, numa mistura de afagos inocentes. Apetecia-lhe mimo.

O dia foi-se cumprindo com as limitações óbvias e, à tarde, antes de partir rumando afetos, foi à conferência. Só o seu olhar estético se debruçara sobre o tema, seria interessante saber algo mais para além disso.

Tropeçou num sorriso luminoso, daqueles em que apetece mergulhar, como diz o poeta e que afagam a alma, digo eu, a narradora, porque ela não disse nada. Deleitou-se. Apenas.

“Quando é que esta atividade se transformou em arte?” Eis a questão interessante. Considerou: a forma “transformou” fala de um processo longo, demorado. Se fosse um brasileiro a falar diria “virou” e a noção de tempo seria outra: em vez de privilegiar o gesto repetido, a aprendizagem da perfeição, focalizaria o momento criador, o raio de luz, a ideia luminosa, a exaltação do nascimento… “Como as palavras nos espartilham!” Reconheceu…

Fechou os olhos. A voz tinha cambiantes graves de tonalidades que apeteciam, deixando adivinhar, sem exaltação, o prazer que o tema proporcionava ao homem que tinha à sua frente. “Lê-me poemas e conta-me histórias de encantar.” Corrigiu: “Lê-me só os poemas. A encantar estás tu, aqueles que te ouvem aqui.”

Apeteciam-lhe palavras redondas, pequeninas, sussurradas, numa mistura de afagos inocentes. Apetecia-lhe mimo. Não tinha. Ponto final.

Abriu os olhos. Ah! Não fossem pensar que dormia, só porque se deleitava na escala musical da voz que ouvia. Continuou atenta e brincou para o lado.

Depois partiu. As obrigações não lhe permitiam ficar até ao fim.

Na rua a verdade era outra. Era nua e cinzenta, naquela tarde de outono. Aristótles martelou-lhe o cérebro, numa lógica da treta “as palavras redondinhas são para quem as merece; se não as tens; é porque não as mereces.”

Já se viu um pé torcido e um joelho esfolado transformarem a gata borralheira em princesa de conto de fadas? Que mau feitio! Exclamarão alguns. Nada disso. É só uma observação da narradora, que não se furta ao sarcasmo que altera o rumo da história.

Esquece e faz-te à vida!

Enfiou-se no carro e partiu. “Ah! Aquela música não. Hoje prolongaria a tortura.” Parou sem reparar aonde. Felizmente, não havia trânsito… Mudou o CD e seguiu viagem…

Começou a chover…

A escuridão abateu-se sobre a lonjura e choveu mais, ainda mais. O céu desfazia-se lastimando o seu desconforto de alma.

Sempre fora assim: resistia tão bem à dor, que ninguém reparava na sua fragilidade.

A pele que faltava no joelho continuava a doer e o pé… o pé também.

Morrer há-de ser pior.

sábado, 17 de novembro de 2012

MEMÓRIA


Há dias, quando referia o facto de já me esquecer de coisas impensáveis, uma colega, com quem trabalhei alguns anos, comentou: “então, agora é mais feliz”. Eu anui sorrindo mas, quem participava na conversa, não mostrou entender e a minha amiga tentando explicar-se aos outros, interpelou-me: “não costumava dizer que a memória não a fazia feliz?” “ Pois, mesmo com tanto esquecimento, a memória ainda não é suficientemente seletiva” brinquei.  

Detesto a memória. Não me refiro à capacidade de aquisição que me permitiu decorar em duas horas o livro de trigonometria; em três, o conteúdo do manual de Didática da História; em quinze dias toda a matéria, de que não percebia nada, da disciplina da Contabilidade de um semestre, nos meus tempos de Liceu, Magistério e, mais recentemente, de ESTG; nem sequer refiro a capacidade de armazenar os conhecimentos (consolidação), ou a falta dela; refiro isso sim, a capacidade de evocação.

Nada tenho contra o somatório de vivências que fizeram de mim quem sou, nem contra a forma como o meu cérebro o processou; contudo, nutro uma raiva surda contra a forma como é, por vezes, recuperado. Parecendo contidas sob pressão, as instâncias episódicas explodem no plano consciente, sem que consiga conter a corrente e deixam-me sempre fragilizada.

Hoje aconteceu. Os deuses estavam contra mim.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

AS POMBAS

O Outono visto da janela das traseiras


Divina pomba da paz

Quem me dera ser capaz
De voar tão alto assim;
Pomba branca, pomba mansa
Mensageira d'esperança
Voa sobre o meu jardim
......................................
José Fernandes
Do blogue: **Alma da minha poesia ** **Sopros da minha magia**


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

COISAS SIMPLES


“Muitos prodígios há; porém nenhum maior que o homem”
Sófocles, in Antígona, séc V a.C.

Os dias têm acontecido tão igualmente calmos, num sossego de alma tão desusado em mim, que eu própria me espanto. Será isto a velhice? Este desfiar de horas, cerzindo os dias sem desejar nada, sem esperar nada, roçando o vazio e sentindo prazer nisso?

Um qualquer dia do mês passado, entrei num supermercado onde me garantiram que encontraria o batido que procurava. Escolhido o que pretendia entre alguns mais, dei uma olhada aos expositores e vi aquela faca verde, uma faca de cabo e lâmina verde. Todos sabem o que é uma faca; não sei se já todos viram uma faca verde. Eu nunca tinha visto. Também havia cor-de-rosa e laranja, mas foi por aquela verde que me decidi. “Uma faca verde para matar o Cavalo Verde” e sorri.

Durante anos a fio, em que a vida se fez das melhores opções, nas circunstâncias que impunham decisão, quando tantas vezes as melhores opções não coincidiam com as que apeteciam, quando tantas vezes me senti a página por virar do livro aberto, o Cavalo Verde, aquele tronco deitado de figueira no quintal de minha avó Isabel, companheiro incondicional das brincadeiras solitárias, virou sonho. E foi esperança e foi luz e foi riso e foi força, para numa manhã do último Setembro, caminhando pela baixa-mar, equilibrando-me na orla da concha de S. Martinho, onde tantas vezes me alongara, descobrir que o Cavalo Verde era eu: o sonho adiado de mim.

E imersa em realidade, consciente da inalterabilidade do que quer que fosse, deixei cair a lança com que quixotescamente arremetia contra moinhos de vento. A vida chamava-me…

Foi depois deste passeio que, casualmente, vi a faca verde. Comprei-a. Não lhe atribuo qualquer importância, é mais uma que não se adapta à minha mão (que o digam os golpes do dedo mindinho e do médio, da mão esquerda, conseguidos hoje quando a usava) mas lembra-me que existo no direito de ser como sou.



Hoje inventei um prato culinário só para mim. Almocei feijoada de pérolas em cama verde. Era um verde diferente, lugar-comum imaginado feito daqueles feijões que o JS me ofereceu e que em vez de verdes são brancos com riscas roxas. Acompanhei o pitéu com um Chardonnay, “Reserva dos Amigos”, bebido em taça de cristal, que abri propositadamente para mim. Depois desci devagarinho até ao centro da cidade, olhando em volta, num primeiro olhar...

Ah! Como os pequenos prazeres tornam os dias aprazíveis!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

DICIONÁRIO (Houaiss)


Citaram-te e lembrei-te. E apeteceu-me perguntar com a ternura que dedico aos amigos: Cadê tu? Mas eu sei onde estás. Importante, vives em Lisboa, naquela avenida da estante, a mais alta de todas, daquele lado do pequeno escritório onde, por vezes, me deito.

Bordei, para teres em frente um alfabeto de cortinas. Poderás assim escrever novas palavras. Gostava que inventasses uma para mim, ou, no mínimo, uma doce maneira de dizeres todas as que já foram inventadas.

De empréstimo, nas vezes, que durmo nesse pequeno escritório, onde se situa a avenida-estante em que te alongas, abro o sofá-cama e como tu rirás daquela relação conflituosa que mantemos: “tola!” Chamar-me-ás, de nunca acertar logo à primeira. E faço a cama e deito-me, entre ti e o alfabeto, ali, bem no meio para que me vejas.

Antes de mergulhar na escuridão, apagando a luz do candeeiro daquela mesa-de-cabeceira improvisada, olho-te, mas mais que ver-te, quero ouvir-te… e tu cheio de palavras, numa economia de sons, do alto de ti, nada me dizes.

E apago a luz…

De que te servem as palavras que não dizes? Porque não tocas essa melodia de silêncio? Eu inventaria o teu sorriso.



terça-feira, 9 de outubro de 2012

OUTONO


Guisava os pedaços de tamboril, com meia dúzia de camarões, ainda sem saber se iria almoçar arroz ou massada de peixe, quando me lembrei que não tinha coentros. Não dispenso o aroma que emprestam à comida, a esta comida, e saí disposta a adquirir o que me faltava para completar o almoço.

Quando cheguei à rua, a opacidade da manhã envolveu-me. Aquela luz, a luz de outono que adoça os contornos e envolve a paisagem em mistério… o céu plúmbeo, a praceta quase deserta de carros, o amarelado de uma ou outra árvore e a quietude… É a quietude, na cor da manhã, que fala de outono.

É no outono que mais me apetecem os afetos dos que já partiram e aqueles que não tenho. Tempo de aconchego, tempo igual ao que antecede o meu sono em cada noite…

Que pena não passar tão depressa!



Decidi-me pela massada de peixe. Acompanhei com o Sauvighon que restava na garrafa oferecida pela ML, por ideia da GM. O almoço estava ótimo.