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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

S. MARTINHO DESPIU-SE DE VOZES


Há dois dias que bebia um iogurte líquido ao pequeno almoço. O leite, até o leite acabara. O leite, que gosto de sentir, manhã cedo, a escorregar pela garganta disputando a vez com a torrada.

Peguei na lista das compras e saí, disposta a demandar o Continente, onde pensava abastecer-me do que faltava em casa.

Enfiei-me no carro e já na IC2 levantei os olhos para o céu: “em S. Martinho há neblina” – “Ah, Agustina! Com que precisão nos aparentas a alma com a água, a neblina e a brisa…” Dias antes consultara o horário das marés, pensando que hoje seria a melhor manhã para um passeio pela praia, dado que a baixa mar se verificaria às doze horas e trinta. Ainda nem eram onze… “E se fosse a S. Martinho?” “porque não vais?” pareceu-me ouvir a voz da filha mais nova que comunga estes gostos de evasão.

Pavarotti cantava, com aquela voz limpa, de prodigiosos “dó de peito” como mais ninguém é capaz de extrair e eu, em vez de rumar para a faixa da direita, segui em frente mais uns metros. Só depois virei…

Parei na área de serviço da Nazaré. Tirei da carteira o telemóvel, uma nota de cinco euros, que guardei no bolso das calças e fechei a carteira no porta bagagens do carro. Estava pronta a desfrutar o meu passeio à beira mar.

Em Alfeizerão, havia uma promessa de sol forte, que me acompanhou, estrada fora, até à entrada de S. Martinho. “Ter-me-ei enganado a ler os sinais dos céus?” Ri. “Só o Cavaco nunca se engana e raramente tem dúvidas…” Mas, não. Não me enganara. Em S. Martinho havia uma breve neblina, à medida do que me apetecia e que se encaminhava barra fora, para o mar largo.

O Verão fora-se antes de tempo, não havia barracas na praia, nem bares de tábuas. Havia algas, muitas, muitas algas que agudizavam o cheiro a mar e quase anulavam o cheio quente da duna em que o vento sul ondulava. E neste misto de odores, com os olhos cheios de mar, avancei praia fora, indevidamente tão próximo da água, que mesmo calçada acabei molhando os pés.

O senhor abriu o sorriso muito antes de passar por mim: “Bom dia. Bela manhã!” Sorri, retribui o cumprimento, mas não alimentei a conversa “desculpe amigo, só sou simpática uma vez por dia e estou a guardar-me para o compromisso desta noite” pensei continuando o caminho.

Alonguei-me pelo areal, deliciada com o marulhar das ondas miudinhas. De humano só o movimento de um ou outro veraneante, tal como eu dono do tempo, do seu tempo, ou melhor, do que resta dele e quatro tratores labutando na apanha das algas.

A O.C. telefonou: “adivinha onde estou…” “Lisboa!” “frio” “S. Martinho. Sozinha?” “comigo”

Em Salir, meti pelo passadiço das dunas. Como poucos metros de cota dão uma perspetiva tão diferente! À beira-mar comunga-se, é-se paisagem, dali contempla-se, admira-se. O cheiro da duna era mais forte amaciando o cheiro das algas que, em baixo, continuavam por recolher. E eu saciava os olhos de vida, da vida que flui ao sabor das marés e que indiferente à minha finitude continuará, para além de mim, a regozijar os amantes do belo.

As Paula Urban que calçava reclamavam cheias de areia. “Temos pena. Não seria este verão que desceriam à praia, mas malhar-vos, gastar-vos é sinónimo de que usufruímos juntas a paisagem. Foi o vosso destino que se antecipou” e descalçando-me, sacudi pés e sandálias e continuei.

Pouco faltava para as treze horas. Hora de almoço. “O Ocean Place estará aberto?” Estava. Quinta feira, dia de cozido à portuguesa: meia dose, meio litro de água do Fastio (só degusto vinho acompanhada) e dos cinco euros que levava ainda tive direito a um e trinta cêntimos de troco… “A água está mais cara que a carne…” ironizei com os meus botões e sentei-me à mesa, olhos postos no mar, saboreando a refeição.

Só faltava o café na BOEHMIA (será assim que escrevem?). Passei pelo carro e peguei na carteira, mais uns passos e sentei-me à mesa, na esplanada, olhos postos, lá longe, na duna, que teimosamente sobressaia,  como um espelho, na paisagem difusa, através da leve neblina da manhã, graça à luz do sol. “Os espelhos não guardam as coisas refletidas! O destino é seguir… seguir para o mar, perdendo as imagens no caminho”… Mário Quintana chegara sem ser convidado…

O descafeinado apareceu de mãos dadas com o açúcar que dispenso por adulterador daquele sabor forte que me apraz, mas leio a frase impressa: “Uma noite vou percorrer todos os oceanos contigo” Terá escrito um tal António Navarro. “Pois é, António. Há mar e mar… e também há ir e voltar… Não é O’Neil?”

S. Martinho despiu-se de vozes… Chegou o Outono do nosso apaziguamento.

sábado, 29 de outubro de 2011

ALEGRIA

Sobrevivi a uma semana intensa!!!!!!!!!!!!


Logo, para compensar, vestirei algo "que vá com o meu tom de pele" e jantarei num sítio requintado.

É fim-de-semana! VIVA!!!!!!!!!!!!!!

sábado, 25 de junho de 2011

CUCA

Em Dezembro, o meu amigo Cuca telefonou. “Fui ao seu blogue e estou farto de rir. Posso saber o que vai cortar? Àquelas “lindas horas” eu entendia lá a ironia! “Abra o blogue”, “Não vê nada?” Eu ainda nem o tinha fechado e via lá alguma coisa só com uma nesga de olho aberta! “Escreveu ablações em vez de abluções e mais abaixo escreveu Sol onde deveria ter escrito sol. Será que agora escreve com os pés?”

“Mas que simpático que o meu amigo está hoje! Não falamos, há imenso tempo, não nos vemos há muitíssimo mais e liga para me dizer essas coisas “simpáticas”? Boas Festas também para si!”

A surpresa tolhera-me. Não fora isso, eu teria cantarolado à marrazense “você é muito róim!" Seria a resposta ideal à observação de quem, especializado em metáforas e afins, estava do outro lado do fio a rir descaradamente do meu texto acabado de publicar. Mas, nada feito! O sono diminuíra-me a capacidade de reacção!

Conheci o meu amigo Cuca por volta de mil novecentos e oitenta e um, quando ambos trabalhávamos na EMPL. Apresentou-nos Eça de Queiroz, numa qualquer manhã, em que eu atentamente ouvia uma prelecção de que não me recordo o tema. Lembro-me da sala onde aconteceu, do lugar onde estava sentada e da voz clara, calma e grave, com que o meu amigo Cuca começou a declamar, de cor, um longuíssimo período do belíssimo conto de Eça “O Suave Milagre”.

“O quê?” pensei, “será que o cavalheiro está apostado em derreter a manteiga das torradas que não comi?”

Sou uma mulher de emoções, comovo-me facilmente, mas detesto que os outros dêem por isso e não pretendia que fosse acontecer naquele momento. “Como pode gostar desses períodos longos? Prefiro frases curtas e concisas” interrompi eu, sem cerimónias, comparando o incomparável ao citar um livro que acabara de ler, de que já nem recordo autor e título.

O meu amigo Cuca calou-se e olhou-me. A pausa terá servido para contar até dez, pelo menos uma dúzia de vezes, enquanto engolia a resposta que eu merecia ouvir naquele exacto momento e, de seguida, tentou delicadamente demonstrar que eu estava errada. “O Suave Milagre” ficou para outra ocasião. O meu objectivo fora atingido.

Iniciámos aqui um jogo do rato e do gato, de cariz profissional feito de salutares provocações em que a única regra válida, embora nunca formalmente estabelecida era a alternância de papéis. Não se pretendia “apanhar” o outro, mas desafiá-lo nas suas capacidades de trabalho, no seu poder inventivo, para as resoluções de situações de aprendizagem.

Confesso que quem lucrou fui eu. Aprendi imenso. O meu amigo, com uma formação académica muito superior à minha e uma generosidade desmedida prestou-se à brincadeira de cariz pedagógico e deixou-me pensar que o desafiava quando na verdade ele “tinha as cartas, baralhava e distribuía o jogo”. Ambos tínhamos consciência disso e se eu estava disposta a aprender, ele estava disposto a ensinar. De qualquer modo, que não fique a ideia de que o processo foi pacífico. Tanto um como outro são dos que "vendem" cara a pele.

Encontrámo-nos depois na ESEL, onde me confiou as aulas práticas de uma das suas disciplinas de quinto semestre. Aceitar este trabalho obrigou-me a juntar à bagagem de férias, quatro calhamaços, em cuja leitura tive o “mau gosto” de gastar o mês de Agosto. Fui ainda a sua aluna mais atenta nas aulas de “Comunicação não verbal” a que voluntariamente assisti por achar o tema fascinante.

Um dia entrou no meu gabinete e sentenciou “o livro que requisitou na biblioteca, está ultrapassado, não vale a pena perder tempo a lê-lo” “Também o D. Afonso Henriques”, respondi enquanto remoía a raiva por o meu amigo ter metido o nariz nas minhas requisições “não querem lá ver o cuca, a meter o nariz no que leio, não faltava mais nada” comentei com os meus botões, mas afinal faltava. Faltava ter percebido que aquele homem sabia de cor todos os livros que existiam na biblioteca da escola e por ter ido casualmente à prateleira onde aquele deveria estar, notara-lhe a falta e com boa intenção tentava avisar quem o requisitara, sobre as matérias em que o mesmo estava ultrapassado.

Como a minha vida se simplificou! Sempre que precisava de bibliografia sobre qualquer assunto, batia-lhe à porta (o seu gabinete ficava em frente ao meu) ”há na biblioteca alguma coisa sobre tal assunto?” e o meu amigo Cuca respondia “estante tal, talvez na prateleira tal, mais ou menos o número…” Simplesmente impressionante!

Assim ganhou o carinhoso epíteto de Cuca (quando souber trucida-me), não por meter o nariz onde não é chamado, mas por ter passado a ser a minha enciclopédia ambulante.

Que é feito de si amigo Cuca? Calce as botas da tropa e telefone. Já tenho saudades dos seus “mimos”

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

SEM TÍTULO

"O afecto é uma rede com que pescamos o nosso sustento.
Quando saciados não queremos saber dela. Quando precisamos, temos de a remendar.
E mãos famintas não conseguem manejar agulha e linha."