quarta-feira, 9 de junho de 2010

DEZ DE JUNHO

Pela mão da minha mãe, num vestidinho branco de flores azuis, lá vou eu pela estrada da Carreira de Tiro. Às vezes ela solta-me e saltito estrada fora para a esperar meia dúzia de passos mais à frente.

Somos muitos, homens, mulheres, crianças, todos atrás do carro de bois do velho “Regueira de Pontes” (seria mesmo velho?), não vá cair algum dos cestos do farnel!

O carro preto do senhor José Pereira Santos a que a proveniência familiar alcunhara de Zé Alcanena aproxima-se e o sorriso da D. Julieta pergunta da janela “há alguém a precisar de boleia?” e quem precisa aproveita, porque para alguns, aqueles pouco mais de dois quilómetros da Estação (Sismaria da Gândara) até à Mata dos Marrazes custam a percorrer.

O percurso é o princípio da festa…

Depois as mantas estendem-se pela mata e exibem-se os tachos: arroz de cabidela, coelho, … “prova aqui do meu que está bom”… o pão-de-ló, o arroz doce, o leite-creme…

No bar improvisado o Sr. Chico e o Silva Gante vendem pirolitos. As garrafas são lindas, com uma bolinha dentro (ou atrair-me-ia a bolinha inatingível?)

As senhoras conversam animadas e as gargalhadas da D. Regina ecoam naquela tarde de Primavera.

O meu irmão, bem mais velho que eu e os outros rapazes namoriscam as moçoilas no bailarico, que acontece no terreiro improvisado.

E o meu pai pacientemente desfia as horas de ouvido na música e olhos na minha mania de me pendurar em tudo que é galho, enquanto com os outros garotos, corro naquele terreno irregular por entre as árvores da mata.

Joelhos esfolados e o dia tomba.

Então, o Clube, como dizíamos, que hoje todos conhecem como ACS, mobilizava os habitantes de Sismaria e todos os anos no dia 10 de Junho juntávamo-nos num piquenique na Mata dos Marrazes. Quando ainda nem havia televisão, era em torno desta colectividade que decorria toda a vida sociocultural do lugar.

O que sinto não são saudades porque "a vida passa e em passar se cumpre",como diz o poeta Rui Belo e, olhando para trás, rejubilo com a lembrança de uma infância feliz vivida no mais profundo desconhecimento do conceito de felicidade. E porque ainda recordo os sabores, os sons, os cheiros, as cores, as texturas dos malmequeres com que fazia colares e das papoilas com fazia bonecas descabeladas mas, e sobretudo, os afectos vividos, que deixo o pedido: Ajudem-me a reinventar a Mata de Marrazes.