domingo, 31 de outubro de 2010

E VÃO DOIS ANOS...

Não sei em que curva do caminho, aboli do meu vocabulário a palavra saudade. Não é por isso que gosto menos das pessoas que passaram na minha vida ou dos lugares que serviram de cenário à forma como me fui tecendo, mas o sentimento de saudade é um contra-senso que a minha paixão pelo existencialismo não consegue aceitar. A vida, quanto a mim, toca-se para a frente, de acordo as circunstâncias sociais, políticas, económicas e culturais de cada um e ninguém pode ter a veleidade de trazer ao momento presente o que aconteceu no passado, porque as circunstâncias por muito próximas que sejam, na verdade, nunca se repetem.

Quando dos anos que o meu bilhete de identidade diz que tenho e que eu não há meio de acreditar possuir, olho para trás não me sinto mal porque acredito que em cada momento eu decidi o melhor que sabia, o melhor que podia, da melhor maneira que poderia decidir, que aquela era, nas minhas circunstâncias a melhor escolha e que agi sempre em liberdade, com responsabilidade, com amor, com dedicação e com empenhamento.

Ah! Mas aquilo que não depende de mim, aquilo que não posso ser eu a decidir, aquilo em que não posso interferir…. Que dor! Que raiva! Que frustração!

Há dois anos, mesmo no fim de Agosto, a Piedade suicidou-se. Como não poderia deixar de ser, eu estava em S. Martinho do Porto, onde era hábito juntarmo-nos, com mais algumas colegas para saborearmos uns gelados “este ano, sou eu que pago os gelados” dissera-me ela num encontro rápido no estacionamento do Continente num dia em que vim a Leiria visitar a minha mãe. Não a voltei a ver. Eu não gostava dos gelados, mas gostava de conviver e gostava sobretudo do sorriso afável da Piedade.

E no dia do seu funeral, a que me recusei assistir, instalou-se na minha alma um sentimento de solidão de uma grandeza tal que ainda não me consegui libertar dele.

Que dor! Que raiva! Que frustração!

A Piedade nasceu livre. A Piedade era livre. A Piedade tinha o direito de fazer da vida o que quisesse, mas eu também tinha o direito de continuar a usufruir da sua amizade.

Dois meses depois, no dia dois de Novembro, suicidou-se a Esmeraldina.

A Esmeraldina era uma mulher com quem se poderia falar sem “rede”. Com ela podíamos falar de tudo sem receio de que nos repetisse ou criticasse. Era uma sonhadora. Muitas vezes lhe disse que se pintasse o seu retrato lhe enfiaria cabeça numa nuvem e lhe deixaria os pés acima do chão. Acho que adivinhava o seu anseio pelo voo, sem contudo saber exprimir a tristeza que sinto por sabê-la par’Além naquele salto temerário do sétimo andar. Até nisto tinha de ser diferente.

Também ela era livre de fazer da vida o que quisesse, mas também eu era livre de continuar a usufruir da sua amizade.

E vão dois anos de dor, de raiva, de frustração, de não ter podido evitar o inevitável, de não poder continuar a usufruir o sorriso de uma, a amizade de ambas e de não possuir a certeza de lhes ter transmitido o carinho que ambas me mereceram.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

S. MARTINHO DO PORTO

Aconteceu-me S. Martinho num longínquo Setembro, tinha então seis meses de idade e vai-me acontecendo em cada Verão, por períodos mais ou menos longos de acordo com as circunstâncias da vida.

S. Martinho do Porto é um sítio onde o mar me cabe todo no olhar com a promessa de que o Mundo fica do outro lado das dunas.

A areia fina, dura quando molhada, permite-me óptimos passeios pela praia, na baixa-mar, que gosto de fazer de manhã bem cedo, quer debaixo de um sol a adivinhar-se quente, quer na luz difusa das manhãs encobertas.

Caminho até Salir, pela areia ou pelo passadiço das dunas. Quando há sol, a sombra apressada caminha à minha frente. Talvez por em Salir estar sempre mais quente, tem pressa de chegar e, quando retomo o caminho de regresso, teima em ficar para trás para, só passado o farol, já percorrido grande parte do percurso, caminhar ao meu lado até ao cais.

Tantos são já os passos caminhados de um mesmo percurso que as palavras são escassas para as nuances dos estados de alma com que aconteceram.

Naquele dia de Junho, a tarde adivinhava-se chuvosa e foi prevenida com os habituais apetrechos para a chuva que cheguei a S. Martinho. Surpresa! A tarde estava linda!

Ultimado o assunto que ali me levara retomei ao carro disposta a regressar. A vontade era pouca! Porque não usufruir do espaço se era dona do tempo?

Em vez de virar à esquerda continuei em frente, na direcção de Salir. E, inopinadamente, ele, as tias, o tio, o primo e eu… quarenta e cinco anos atrás, num pequeno pinhal que a humanização da paisagem tornou ainda menor. Lembrar-se-á desse piquenique? O que mais vivamente tenho gravado na memória é a simpatia de uma das tias, o discurso da outra, a magreza do tio e a minha atrofiante timidez... o meu sentimento de menoridade perante a facilidade com que ele expunha, decidia, agia. Recordo ainda o banho que os três tomámos no rio, naquela manhã de maré cheia. E foi com o sorriso de beatitude, que a lembrança me colocou nos lábios que continuei o passeio até perto da água. Não estávamos lá, a maré estava a descer...

No regresso, não resisti à tentação de parar o carro na rotunda à saída de Salir, e passear a pé pelo passadiço que serpenteia sobre as pequenas dunas. A paisagem fervilhava de vida, graças à chuva da manhã. Das dunas, numa mistura de verdes com flores amarelas e cor-de-rosa, emanava um cheiro a quente fecundo. Ouvia-se o canto de um ou outro pássaro e um cão ladrou lá para o lado de Salir. As ondas pequeninas, pequeninas, desfaziam-se na areia bem devagarinho, quase em silêncio, não fossem quebrar o encanto e a baía era um imenso espelho emoldurado pelos cambiantes de castanho e verde a que algumas nuvens, aqui e ali, davam um tom mais escuro. O casario branco, que a distância apequenava, resultava ainda mais branco naquela luz de meia tarde.

A fina brisa que acariciava os meus braços nus trouxe-me à memória um poema que escrevera na adolescência: "Quero amar! / Quero possuir! / Quero dar! / Quero perscrutar ao pôr-do-sol o teu olhar/ e ver-me nele como o reflexo do sol sobre o mar/..."

Na beatitude da paisagem, com o pensamento mergulhado no tempo, o sol presenteou-me com o reflexo e estivemos lá. Mesmo sabendo que nunca houve aquele olhar vim para casa com a alma lavada.

Como duas horas de lembranças me deixaram feliz!

domingo, 5 de setembro de 2010

O MUSEU ESCOLAR DE MARRAZES

Texto publicado em Jornal de Leiria - 19-08-2010


Fui hoje ao Museu Escolar de Marrazes, não para visitar o acervo, mas por imperativos da minha actividade na Junta de Freguesia.

Franqueei a porta e avancei disposta “ao que ia”, sem delongas. De passagem, uma menina-de-cinco-olhos pousada em cima de uma mesa prendeu-me o olhar e fez-me sorrir. Absolutamente desprevenida tinha acabado de esbarrar na memória.

Vivi oito meses no Minho, tendo concluído a primeira classe na escola de Quintiães. A professora, Helena de seu nome, possuía um instrumento semelhante àquela menina-de-cinco-olhos, com que desancava quase só o irmão, seu aluno da quarta classe, cujo defeito, único por sinal, era ser irmão da professora, o que tinha inerente a obrigação de ser o melhor aluno e o mais bem comportado.

A escola era um edifício de primeiro andar, no rés-do-chão do qual havia um estábulo, possivelmente para que o calor dos animais aquecesse a sala de aula situada em cima. Na verdade nunca ali vi as vacas; fui para o Minho em Março e talvez à hora da escola as vacas estivessem no pasto, mas espreitei o estábulo através do alçapão que se situava por baixo da secretária da professora e mesmo por cima de uma lareira que havia no andar de baixo. Daí, já nem lembro como, vi-me integrada no grupo que teve a brilhante ideia de atirar a menina-de-cinco-olhos para a lareira na esperança de que ardesse. Mas não ardeu! Para nossa decepção, apareceu de novo na secretária da professora. “A menina-de-cinco-olhos caiu na lareira do Sr. Manuel” comentou a D. Helena. Silêncio absoluto na sala de aula. Ninguém se atrevia a levantar os olhos dos cadernos, receava-se o que viria a seguir. Nada! A professora deixou esquecer o assunto, certa de que o silêncio, nomeadamente aquele a que não faltariam as palavras, reconheço hoje, é muitas vezes mais eficaz do que tudo o que poderia ser dito.

Porque vos conto isto? Porque hoje, por uns momentos, mesmo conhecendo bem aquele espaço esqueci ao que ia, esqueci a pressa e fui de novo criança graças ao poder de um espaço, o MUSEU ESCOLAR DE MARRAZES, menina-dos-olhos da Freguesia e um legítimo motivo de orgulho para todos nós leirienses que, tendo-o aqui tão perto, poderemos desfrutá-lo a nosso belo prazer.

Poderemos, como aquele emigrante que o visitava na companhia dos amigos, procurar a terra natal no mapa, poderemos fazer a pesquisa que antecede um estudo científico específico ou poderemos, como aconteceu comigo, deixarmo-nos arrastar e mergulhar no tempo, para ser de novo meninos de escola.

Não quero falar-vos da exiguidade deste espaço face ao espólio que possui, nem da necessidade de um outro, que sonhamos polivalente e que há-de chamar-se “O Centro Cultural de Marrazes”.

Mas, porque a educação é o repositório das experiências mais marcantes do homem; porque (parafraseando António Lobo) possuímos uma memória colectiva que através do tempo vamos construindo, sujeitos intencionalmente a solicitações “de pura validade ou dignidade”; porque somos uma sociedade com história, quero desafiar-vos:

. Visitem o Museu Escolar de Marrazes e reconheçam a sua dignidade, inscrevendo-se na Liga de Amigos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

OS SAPATOS AZUIS

Quando era adolescente, às voltas com incríveis dúvidas existenciais próprias da idade, e lendo Sartre (o primeiro livro escolhido foi O Muro - já se pode ver que presidia à escolha o critério de ler tudo o que apanhasse), atacada de pseudo intelectualidade e “sabedoria”, suspirava por mais uns centímetros de altura.

Uns míseros dez centímetros, acrescentados ao meu metro e sessenta e cinco, teriam feito então a minha felicidade. “Gostava tanto de ser alta e magra como as inglesas…” lamuriava-me vezes sem conta, ao longo do dia.

Não sei o que me terá convencido da elegância britânica, pois o reconhecimento público da Princesa Diana como ícone do bom gosto e elegância só viria a acontecer muitos, mesmo muitos anos mais tarde, mas eu ia tecendo os dias numa mistura de Sartre e suspiros sem vislumbrar uma solução para aquele terrível problema da falta de altura.

O meu pai que possuía um humor cáustico absolutamente exasperante, qualidade ou defeito, nem sei bem, que transmitiu aos descendentes, entre os quais me incluo, não perdia a oportunidade de contrapor, para meu desespero e irritação, “pois é minha filha, tu saíste uma inglesa curta”.


Este Agosto aconteceu…

Entrei e passeei os olhos naquela calma de que só as mulheres são capazes quando querem avaliar tudo com um só olhar. Num canto, entre tantos outros ele destacou-se e “sorriu”. Desdenhosa voltei as costas, fazendo-me desinteressada, mas aquela “piscadela de olho” inflamara-me o coração. Voltei três vezes, estar na praia sem nada que fazer tem destas vicissitudes e, finalmente, pedi o par e rendi-me.

Os lindos sapatos de camurça azul petróleo da prateleira do meio, daquela estante da ponta esquerda da Sapataria Nova 3 são meus.

Com eles nos pés eu fico alta e apessoada como a mais elegante inglesa, daquelas que estariam de férias no estrangeiro e que por isso as não encontrei quando em Junho estive em Londres.

Resolvi finalmente o meu problema de altura. Numa etapa da vida em que já me sentia a encolher fiquei alta, bem mais alta do que alguma vez sonhei.

Agora que resolvi o problema da altura, alguém me saberá dizer como se anda com estes sapatos?!

Resolve-se um problema e surge logo outro! Esta vida é mesmo ingrata!

Não querem lá ver que em vez de sapatos para passear comprei umas pantufas para dormir?!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A OVELHA COR-DE-ROSA

S. Martinho do Porto, 25 de Agosto de 2010

De uma cortina de banheira adquirida numa loja chinesa, para ser utilizada com fim diferente daquele para que fora concebida, sobraram as doze argolas com que o André brincava.

“Sabes o que é isto avó?” Ele abre o “a” tornando a palavra tão sonora que eu ao ouvi-la sinto na alma o som vibrante de um campanário em paisagem idílica. Nesse breve instante sou a única avó do mundo na ternura deste neto igualmente único. A modéstia aliada ao bom senso faz-me acrescentar ao “mundo” os arredores e reconhecer que tudo se situa sobretudo aí, nos arredores, na latitude exacta do meu mundo de afectos. Todas as avós são assim e se alguma me ler saberá que falo verdade. O mundo de uma avó cabe inteirinho no olhar do neto.

Olhei para as suas mãos que seguravam as argolas da cortina entrelaçadas e respondi “uma corrente” “e sabes o que tenho aqui na corrente?” A alegria de ter acertado na resposta à primeira questão esvaiu-se. Acabado de acordar, ele vestia ainda o pijama cuja camisola simbolizava um enorme cão com a língua de fora. “Na ponta da corrente está este cão preso” retorqui puxando a língua vermelha pendurada na camisola do pijama e fazendo-lhe cócegas na barriga. “Não avó, na ponta está uma ovelha”. “Uma ovelha?”. Admirei-me. “Tu tens uma ovelha?” “Tenho uma ovelha cor-de-rosa”.

Sem achar graça ao devaneio, a mãe questionou-se de onde viria a ideia da cor porque a da ovelha teria sido importada da visita a uma quinta pedagógica, lá para os lados da capital, realizada poucos dias antes.

“Ora, se a avó tem um cavalo verde cavalgando mundo fora, porque é que o neto não poderá ter uma ovelha cor-de-rosa e de preferência presa nas argolas de uma cortina de casa de banho?!”

Naquela manhã a minha filha mais velha não estava para devaneios e a conversa morreu. O facto não impediu o André de continuar a brincar com a ovelha cor-de-rosa e o meu cavalo verde de continuar a cavalgar ”sabe Deus por onde”.

Hoje, no passeio matinal que a baixa-mar vem tornando possível, num canto da memória, vislumbrei a ovelha cor-de-rosa “olha a ovelha do André?!” exclamei à laia de cumprimento. Não, aquela passeava-se por um prado azul, perto de um moinho de velas coloridas…

Quando era criança, teria cinco anos, quase seis, adoeci com sarampo e logo de seguida com escarlatina o que fez com que estivesse doente muito tempo, obrigatoriamente enfiada na cama devido à febre muito alta.

Recordo desse tempo os horrores das zaragatoas que o enfermeiro me ia fazer ao fim da tarde, os protestos sem qualquer resultado com que o recebia e mais do que tudo, a forma como o meu irmão conseguia fazer-me esquecer a doença.

Entre os brinquedos espalhados pela cama havia uma boneca de que já não vislumbro as feições e um fio de lã cor-de-rosa.

O meu irmão, doze anos mais velho, teria então dezassete anos e muita paciência à mistura com o amor que me dedicava. A minha mãe para seu alívio, na terrível tarefa de me entreter, ensinara-lhe a enfiar cinco malhas numa agulha e a tecer em ponto mousse, até ao fim, aquele fio de lã cor-de-rosa transformando-o numa tirinha de cerca de três centímetros que eu de imediato desfazia para ele voltar a tecer, sem beliscar a sua masculinidade.

Num qualquer dia, farto talvez de fazer malha, cortou um trapo e coseu na saia azul da boneca um lindo moinho de velas coloridas.

A morte do meu irmão é uma mágoa que transporto no peito há catorze anos e que ainda não consegui chorar de vez.

Aquele fiozinho de lã estava perdido num canto da minha memória. E o fio de lã cor-de-rosa só pode ser feito do pelo da ovelha igualmente cor-de-rosa que pasta junto ao moinho na saia azul da minha boneca.

Foi preciso o André ensinar-me que as ovelhas cor-de-rosas são gestos de amor-perfeito (porque desinteressado e incondicional) para eu reparar como tenho descuidado o meu rebanho!

A partir de hoje, não vou chorar mais o meu irmão. Com as lágrimas temperarei as azeitonas daquele enorme alguidar em que me fez cair. O amor do meu irmão foi um privilégio. É disso que quero alegrar-me.

domingo, 15 de agosto de 2010

SEXTA-FEIRA, TREZE


Na sexta-feira, dia 13 de Agosto de 2010, por inerência da minha actividade na Junta de Freguesia de Marrazes, desloquei-me ao Museu Escolar.

Tropecei numa menina-de-cinco-olhos, esqueci ao que ia e desamparada caí na infância, mais precisamente na minha estada no Minho onde, na Escola Primária de Quintiães, conclui a primeira classe. Daí até à terceira classe, já na Sismaria da Gândara, foi um “pulinho”, traduzido fisicamente em dois ou três passos e vi-me com o Livro de Leitura na mão. Procurei o texto que achava mais bonito e deliciei-me de novo com “A Vocação da Cerejeira “ de Guerra Junqueiro. Voltei a sentir-me a lagarta que acorda, esfrega os olhos e se espreguiça, a abelha que bebe o néctar, o passarinho que come as cerejas, as folhas que caem no Outono e, mais que tudo, senti na alma o sono reparador do Inverno. E, quando já fechava o livro, depois da breve dissertação sobre textos deprimentes, de que é bom exemplo “A Morte da Princesa Joana”, sem merecer qualquer atenção do grupo que me acompanhava, veio-me à memória “O Relógio da Saudade”.

“O Relógio da Saudade” é um texto cheio de sentir íntimo que fez doer a minha alma de menina. Eu encarnava aquele emigrante que, na Argentina, longe da pátria, adquirira com o pouco dinheiro que conseguira juntar, o relógio que lhe lembrava o som do campanário da sua aldeia distante, para depois morrer. Enquanto aluna da terceira classe, aquando do estudo do referido texto, eu temia que a professora me mandasse ler alguns dos parágrafos que me tocavam especialmente, porque sabia que choraria e “morreria” de vergonha dos meus colegas de escola por me desfazer irremediavelmente em pranto perante o texto, sem poder explicar que me “doía” (e de que maneira!) aquela dor tomada de empréstimo.

Ainda hoje, seja ou não em momentos de fragilidade, o sentimento de falta que a ausência provoca me corrói a alma. Então a lembrança vasculha na memória e, tal como fazemos em casa quando arrumamos papeis velhos que teimam em desalinhar-se, vem ao plano consciente aquilo que já estava adormecido.

É, entre questões do tipo “nada me falta” ou “terei alçando na vida mais do que sonhei”, muito mais exclamativas que interrogativas, que dou comigo em absoluto conflito com a ideia linear de tempo que Aristóteles e Newton impingiram à civilização ocidental, à mistura com a ideia que a água de um rio não passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Perdoem-me os filósofos esta visão ingénua (naif – como é “fino” dizer agora) e por isso mesmo tão redutora de anos e anos de pensamento.

Não gosto da linha do tempo e aqui deixo o meu mais veemente protesto. Abaixo esse escasso segmento de recta que define a nossa vida! No mínimo deveria ser uma semi-recta! E, se é recta deveria ser ascendente, só no que de bom a vida nos desse e deveríamos poder percorrê-la para trás e para diante materialmente, como fizemos nas aulas de matemática e não só com o coração, a nosso belo prazer, sem a dor da ausência. Haveria de poder afagar as rugas da minha avó, ir passear ao rio com o meu pai, dançar o rock com o meu irmão e comer os figos das piteiras no quintal da outra avó e até deveria poder voltar ao Hiper-Urânio, se é que foi por lá que andei antes de nascer, para voltar de novo ao presente a saciar-me nos abracinhos, beijinhos e prrttts do meu neto, o menino mais bonito do mundo e arredores, sobretudo dos arredores.

Quando menina, no quintal da casa da CP da Estação de Leiria, onde morava havia um tanque, que na altura me parecia enorme, destinado à lavagem da roupa mas, sem esse préstimo, porque as lavadeiras achavam mais divertido ir à Fonte Quente trocar pilhérias umas com as outras, mesmo carregando as bacias à cabeça. O tanque estava sempre cheio de água e eu, a maior parte do dia a brincar no quintal, ia de volta e meia atirar uma pedra lá para dentro só para ver aquelas deliciosas ondas concêntricas que o embate provocava. O meu pai ralhou por eu encher o tanque de pedras até a “Paixoa” opinar que se o esvaziassem eu deixaria de fazer aquilo. Foi o que aconteceu: o meu pai esvaziou o tanque, o “Coquelimoque” passou a tirar a água directamente da torneira para regar a horta e eu deixei de atirar pedras para o tanque, mas não deixei de gostar de linhas curvas.

A linha da vida deveria ser curva! Assim já não vislumbrávamos o infinito sem poder tocar-lhe. Seria o ponto final à dúvida existencial e à angústia.

Está na altura de promovermos uma revolução na filosofia. Cá por mim, perante a efemeridade, proponho que Deus reveja a Criação e emende a mão. Tem duas opções na consecução do mesmo objectivo: torna-nos eternos e manda de novo o Sartre cá abaixo (sim, o céu pode continuar lá em cima) para rever a teoria do existencialismo ou, não querendo mandar cá o Sartre, ou na eventualidade deste não querer vir, tira-nos a horrível mania de nos questionarmos.

Ah! Poupem-se ao trabalho de me vir com os argumentos de que a certeza do fim é que dá sentido à vida porque, cá para mim, tal como para o Montaigne (ele ter-me-á copiado a ideia…) o sentido está na busca da felicidade.

Reconheçamos, as sextas-feiras treze não são dias aziagos, mas lá que têm um certo sortilégio não poderemos negar.

sábado, 7 de agosto de 2010

A MUDANÇA

O pai fizera exame e passara com distinção. Ser funcionário da CP não era fácil. Para progredir na carreira era-se avaliado de dois em dois anos, através de exame escrito e promovido de acordo com a nota. O pai obtinha sempre bons resultados e era dos primeiros a ser colocado, o que implicava mudança de estação. A mãe quisera radicar-se em Leiria e não achava graça à ideia, mas tinha de ser. Depois do Natal, o pai partiu para o Tamel, uma aldeia do Minho, situada perto de Ponte de Lima.

Ela adoeceu. Tinha febre, queixava-se dos ouvidos e doía-lhe a barriga, mas o Dr. Francisco Dias era categórico “isto não é físico, são saudades do pai”. Passado um mês o pai veio para a levar com a mãe. Ficava o irmão, já crescido, que desistira de estudar e começara a trabalhar. “O mão fica?!” Não queria, mas convenceram-na. Com o regresso do pai aprendera que a ausência não significava abandono e, depois, ela conhecia o local onde ele ficava, o que não acontecera com o pai que fora para o Tamel, um autêntico fim de mundo!

E partiram… Primeiro viajaram até Lisboa onde pernoitaram em casa do tio Manuel, o irmão mais velho do pai que era também seu padrinho. No dia seguinte, embarcaram para o Porto e, na estação de Campanhã, fizeram o transbordo para a linha do Minho. Um dia e uma noite, foi o tempo que durou a viagem.

Em Março, na terça-feira em que fez sete anos, levando numa mão um pacote de rebuçados, chegou ao Tamel.

Foram morar para Quintiães. A aldeia ficava a cerca de três quilómetros de Tamel mas o pai não encontrara casa senão aí. Conseguira aquela graças ao facto da esposa do amigo que lha arrendou ter medo das “almas do outro mundo” que passeavam pela vasta sala. Os pais achavam que aquela era uma casa vulgar e que a história servira de desculpa para a senhora se radicar em Braga, ideia que até lhes saíra a contento e, quanto a ela, estou em condições de garantir que se fartou de procurar por tudo quanto era canto e nunca encontrou alma nenhuma. Contudo aproveitou algumas vezes a história, para justificar o assalto às bolachas da dispensa ou aos torrões de açúcar que via convidativos no açucareiro, mas com plena consciência de que a mãe sabia muito bem quem fazia as tolices e não se importava. Foi assim que começou a treinar a ironia…

A casa ficava perto da estrada principal da aldeia, inserida no lado menor de uma vasta propriedade rectangular. À frente havia um muro alto, pintado de branco onde na Primavera floriam glicínias. Este transpunha-se ou pelo largo portão situado à esquerda, no extremo do muro, ao lado de uma pequena cavalariça sem qualquer cavalo onde se guardava uma charrete, ou pelo portão menor, situado na extrema-direita, que dava acesso à escadaria que subia ao primeiro andar onde moravam. Por baixo, no rés-do-chão, virada à frente, ficava a loja onde se guardavam grandes talhas de azeite e, nas traseiras, a casa onde vivia o caseiro com a mulher e a filha, a Micas (no Minho todas as Marias são Micas). Havia um pequeno jardim em frente da casa, depois um pequeno pomar e uma horta a que se seguiam os terrenos de cultura com mais árvores de fruto espalhadas, estendendo-se a propriedade para lá do pinhal que se via ao fundo, no outro lado menor desse rectângulo. Junto à casa do caseiro, ficavam o curral das vacas e os cortiços de abelhas.

Não havia luz eléctrica e a água provinha do poço, situado perto das cerejeiras, as árvores mais bonitas do pomar. Das cerejas que produziam, fez brincos que pendurou nas orelhas (a mãe não deixara que lhe furassem as orelhas em bebé mas, com uma imaginação tão pródiga, não lhe faltavam enfeites). Haveria de as recordar dois anos mais tarde, já a frequentar a terceira classe, na Sismaria da Gândara, quando estudou um texto que através das mudanças de aspecto de uma cerejeira, falava das estações do ano, mais ou menos assim “Deus disse: ponham a mesa às abelhas. E a árvore cobriu-se de flores (… ) Ponham a mesa aos pássaros e a cerejeira cobriu-se de frutos vermelhos”. Ela achou o texto tão bonito que até conseguia “ver” tudo aquilo acontecer.

Dividiu os rebuçados com a Micas e ficaram amigas. A Micas era uma menina da sua idade, bicho-do-mato, como ela, não falavam muito mas entendiam-se bem.

Naquela primeira semana teve férias. Chegara na terça-feira e a mãe deixou-a brincar livremente.

A casa da Micas foi um mundo novo! Na mesa da cozinha, sem toalha e sem guardanapos, à hora das refeições punha-se um prato enorme, à frente do pai. Ela ainda recorda um bocado de bacalhau perdido num enorme monte de batatas, tudo coberto com folhas de couve inteiras, artisticamente esticadas sobre o monte de batatas e toda a família a comer dali e ela também, para desespero da mãe. E a água?! “A água da Micas é melhor do que a nossa” e a mãe invariavelmente respondia que era igual, pois provinha do mesmo poço. Ela insistia e a mãe acabou por descobrir. Em casa da Micas demolhava-se o bacalhau nos cântaros da água que se bebia. A mãe assustou-se “quantas doenças se podem contrair!” e proibiu–a (ingloriamente, estou em condições de garantir) de comer e beber em casa da amiga, ainda sem sonhar que ela bebia o leite acabado de mugir!

Na segunda-feira seguinte, a mãe levou-a à escola.