
Setembro desfolhou-se numa agonia lenta...
Acabaram-se as férias de Verão.
Para o ano haverá mais - cruzeiros NÃO!!!!!! (Estou fornecida de forte ondulação de noroeste por uns tempos largos...)
Porquê "HORIZONTE SEM HORAS"? Gosto de me passear por uma paisagem larga, com água por perto. Usufruindo da beleza que me cerca, estruturo o pensamento na mistura de sons e cheiros de que as manhãs são férteis. Sim! Gosto de caminhar de manhã, como se possuísse o tempo. Não aquele que se convencionou medir pelo relógio mas o meu, feito de vagares, de esperança, de magia...
Ela aproximou-se da mesa onde eu jantava e no melhor dos seus sorrisos sentenciou “este ano não tens direito a prenda"”homessa!“ reclamei de imediato “obriguei cerca de cem velhinhas a atravessar a rua, mudei as fraldas ao Menino Jesus, escrevi atempadamente ao Pai Natal e vens tu agora com essa de que não tenho direito aquela malga jeitosa que o João Pedro anda aí a distribuir?! Como é que vou viver sem aquilo?"
Permitam-me um parêntesis - Acho que foi até por ter ouvido esta minha reivindicação que o publicitário (nem sei qual) inventou aquela “eu vivia sem isso, mas não seria a mesma coisa”.
Ela continuou a rir desenfreadamente voltou as costas e eu continuei a jantar e claro, tive direito à malga e ainda escolhi uma oval que achei mas original que a circular que me calhara em sorte, embora entre uma e outra bem pudesse ser o diabo a escolher. Convém acrescentar em abono da verdade que a beleza das prendas, a utilidade, ou o seu valor material é absolutamente irrelevante, importante é o Conselho Directivo do Agrupamento da Escola se lembrar dos colegas e por isso se dar ao trabalho de adquirir uma lembrança, de a embrulhar e enfeitar com um lacinho. A malga, oval ou circular, bonita ou feia simbolizava gentileza, simpatia, dedicação, entrega, disponibilidade, sentido do outro. Isso sim é relevante, isso sim é louvável.
Mas no fim do jantar ela voltou à carga “larga a malga, que não a mereces” e eu, “pois, queres duas é para poupares nos presentes deste ano” e ela ria e eu nem achei o riso desproporcionado à piada, porque os professores quando confraternizam brincam como se fossem adolescentes.
“Foste má para o Diomar e ele não merecia.” E continuava rindo.
“Má?! “ Eu cada vez percebia menos e a Piedade explicou que quando eu chegara e cumprimentara o Diomar, este gentilmente dissera “estás um pão, Isabel”, ao que eu respondera prontamente, para notória decepção dele “duro!”.
Reconheço que qualquer outra senhora teria agradecido com um sorriso simpático. Era o que eu deveria ter feito, mas eu sou neta da minha avó Joaquina Joana que adorava rir-se dela e ainda herdei o humor cáustico do meu pai e depois se eu tivesse dito “que gentileza, muito obrigada” de que se teria rido a Piedade durante dias e dias a fio? De que estaria eu escrevendo agora? E o Hotel Cristal, da Marinha Grande teria para mim algum significado especial?
É com este sorriso alegre que a minha resposta intempestiva pôs na face da Piedade que eu vou guardar a sua imagem.
Até sempre amiga!
O Diomar era um bom amigo que mesmo depois de deixarmos de trabalhar juntos arranjava tempo, todos os dias, para me enviar e-mails. Certa manhã de Domingo, tinha acabado de lhe enviar algumas piadas, quando recebo um e-mail da Cila “ O Diomar está mal. Disseram-me que deu entrada no hospital” e ainda eu não tinha acabado de redigir a resposta a tentar saber mais alguma coisa, quando recebi outro “ O Diomar morreu”. E assim abruptamente fiquei com menos um amigo.
Que descanses em paz!
Não sei em que curva do caminho, aboli do meu vocabulário a palavra saudade. Não é por isso que gosto menos das pessoas que passaram na minha vida ou dos lugares que serviram de cenário à forma como me fui tecendo, mas o sentimento de saudade é um contra-senso que a minha paixão pelo existencialismo não consegue aceitar. A vida, quanto a mim, toca-se para a frente, de acordo as circunstâncias sociais, políticas, económicas e culturais de cada um e ninguém pode ter a veleidade de trazer ao momento presente o que aconteceu no passado, porque as circunstâncias por muito próximas que sejam, na verdade, nunca se repetem.
Quando dos anos que o meu bilhete de identidade diz que tenho e que eu não há meio de acreditar possuir, olho para trás não me sinto mal porque acredito que em cada momento eu decidi o melhor que sabia, o melhor que podia, da melhor maneira que poderia decidir, que aquela era, nas minhas circunstâncias a melhor escolha e que agi sempre em liberdade, com responsabilidade, com amor, com dedicação e com empenhamento.
Ah! Mas aquilo que não depende de mim, aquilo que não posso ser eu a decidir, aquilo em que não posso interferir…. Que dor! Que raiva! Que frustração!
Há dois anos, mesmo no fim de Agosto, a Piedade suicidou-se. Como não poderia deixar de ser, eu estava em S. Martinho do Porto, onde era hábito juntarmo-nos, com mais algumas colegas para saborearmos uns gelados “este ano, sou eu que pago os gelados” dissera-me ela num encontro rápido no estacionamento do Continente num dia em que vim a Leiria visitar a minha mãe. Não a voltei a ver. Eu não gostava dos gelados, mas gostava de conviver e gostava sobretudo do sorriso afável da Piedade.
E no dia do seu funeral, a que me recusei assistir, instalou-se na minha alma um sentimento de solidão de uma grandeza tal que ainda não me consegui libertar dele.
Que dor! Que raiva! Que frustração!
A Piedade nasceu livre. A Piedade era livre. A Piedade tinha o direito de fazer da vida o que quisesse, mas eu também tinha o direito de continuar a usufruir da sua amizade.
Dois meses depois, no dia dois de Novembro, suicidou-se a Esmeraldina.
A Esmeraldina era uma mulher com quem se poderia falar sem “rede”. Com ela podíamos falar de tudo sem receio de que nos repetisse ou criticasse. Era uma sonhadora. Muitas vezes lhe disse que se pintasse o seu retrato lhe enfiaria cabeça numa nuvem e lhe deixaria os pés acima do chão. Acho que adivinhava o seu anseio pelo voo, sem contudo saber exprimir a tristeza que sinto por sabê-la par’Além naquele salto temerário do sétimo andar. Até nisto tinha de ser diferente.
Também ela era livre de fazer da vida o que quisesse, mas também eu era livre de continuar a usufruir da sua amizade.
E vão dois anos de dor, de raiva, de frustração, de não ter podido evitar o inevitável, de não poder continuar a usufruir o sorriso de uma, a amizade de ambas e de não possuir a certeza de lhes ter transmitido o carinho que ambas me mereceram.
Aconteceu-me S. Martinho num longínquo Setembro, tinha então seis meses de idade e vai-me acontecendo em cada Verão, por períodos mais ou menos longos de acordo com as circunstâncias da vida.
S. Martinho do Porto é um sítio onde o mar me cabe todo no olhar com a promessa de que o Mundo fica do outro lado das dunas.
A areia fina, dura quando molhada, permite-me óptimos passeios pela praia, na baixa-mar, que gosto de fazer de manhã bem cedo, quer debaixo de um sol a adivinhar-se quente, quer na luz difusa das manhãs encobertas.
Caminho até Salir, pela areia ou pelo passadiço das dunas. Quando há sol, a sombra apressada caminha à minha frente. Talvez por em Salir estar sempre mais quente, tem pressa de chegar e, quando retomo o caminho de regresso, teima em ficar para trás para, só passado o farol, já percorrido grande parte do percurso, caminhar ao meu lado até ao cais.
Tantos são já os passos caminhados de um mesmo percurso que as palavras são escassas para as nuances dos estados de alma com que aconteceram.
Naquele dia de Junho, a tarde adivinhava-se chuvosa e foi prevenida com os habituais apetrechos para a chuva que cheguei a S. Martinho. Surpresa! A tarde estava linda!
Ultimado o assunto que ali me levara retomei ao carro disposta a regressar. A vontade era pouca! Porque não usufruir do espaço se era dona do tempo?
Em vez de virar à esquerda continuei em frente, na direcção de Salir. E, inopinadamente, ele, as tias, o tio, o primo e eu… quarenta e cinco anos atrás, num pequeno pinhal que a humanização da paisagem tornou ainda menor. Lembrar-se-á desse piquenique? O que mais vivamente tenho gravado na memória é a simpatia de uma das tias, o discurso da outra, a magreza do tio e a minha atrofiante timidez... o meu sentimento de menoridade perante a facilidade com que ele expunha, decidia, agia. Recordo ainda o banho que os três tomámos no rio, naquela manhã de maré cheia. E foi com o sorriso de beatitude, que a lembrança me colocou nos lábios que continuei o passeio até perto da água. Não estávamos lá, a maré estava a descer...
No regresso, não resisti à tentação de parar o carro na rotunda à saída de Salir, e passear a pé pelo passadiço que serpenteia sobre as pequenas dunas. A paisagem fervilhava de vida, graças à chuva da manhã. Das dunas, numa mistura de verdes com flores amarelas e cor-de-rosa, emanava um cheiro a quente fecundo. Ouvia-se o canto de um ou outro pássaro e um cão ladrou lá para o lado de Salir. As ondas pequeninas, pequeninas, desfaziam-se na areia bem devagarinho, quase em silêncio, não fossem quebrar o encanto e a baía era um imenso espelho emoldurado pelos cambiantes de castanho e verde a que algumas nuvens, aqui e ali, davam um tom mais escuro. O casario branco, que a distância apequenava, resultava ainda mais branco naquela luz de meia tarde.
A fina brisa que acariciava os meus braços nus trouxe-me à memória um poema que escrevera na adolescência: "Quero amar! / Quero possuir! / Quero dar! / Quero perscrutar ao pôr-do-sol o teu olhar/ e ver-me nele como o reflexo do sol sobre o mar/..."
Na beatitude da paisagem, com o pensamento mergulhado no tempo, o sol presenteou-me com o reflexo e estivemos lá. Mesmo sabendo que nunca houve aquele olhar vim para casa com a alma lavada.
Como duas horas de lembranças me deixaram feliz!