
O feixe de caruma! Que humildade!
Porquê "HORIZONTE SEM HORAS"? Gosto de me passear por uma paisagem larga, com água por perto. Usufruindo da beleza que me cerca, estruturo o pensamento na mistura de sons e cheiros de que as manhãs são férteis. Sim! Gosto de caminhar de manhã, como se possuísse o tempo. Não aquele que se convencionou medir pelo relógio mas o meu, feito de vagares, de esperança, de magia...

1.º Acto
Já passaram muitos, muitos anos, eu era uma menina com olhos de mata-borrão, prontos para absorver tudo e no ACS, centro da vida sociocultural da Sismaria da Gândara a que na altura simplesmente chamávamos clube, decorriam os ensaios de uma peça de teatro.
Ao Senhor Franklin, que tinha um armazém na rua D. Carlos I, onde hoje se situa uma loja que compra ouro, pessoa que associo aos pirolitos do Sr. Emídio Xavier, desconhecendo se este na altura ainda produziria pirolitos, por saber que aquele negociava em bebidas, não por gostar de pirolitos, mas pelo misterioso berlinde que as garrafas continham (que magia!), cabia a realização e a encenação. Ensaiava e ainda colaborava como actor. Parece que o estou a ver, um senhor alto (ou seria eu que era tão pequena…), moreno, bem-falante, com um lindo timbre de voz, a sair do armazém onde eu achava que havia um enorme tesouro de pirolitos.
Chegou o grande dia e eu vi, pela primeira vez representada ao vivo, uma peça de teatro. “A Raça”.
Das actrizes lembro-me da D. Julieta, que chegou a ganhar um prémio do SNI, da D. Ernestina, da D. Dinha e da Leodete; dos homens só recordo o senhor Franklin, o Álvaro C. e acho que o Silva Gante também fazia uma pequena entrada em cena. O cenário era uma sala. A parede que ficava em frente aos espectadores tinha uma janela de sacada através da qual se via uma árvore florida e nas dos lados havia portas por onde os actores entravam e saiam.
Sempre que era caso disso o Álvaro dizia “Sra. Condensa” e a minha mãe segredava-me ao ouvido “diz-se condessa” e ria, porque naquela época ela era senhora do tempo e ria-se da vida com a facilidade com que hoje chora, sem confessar que tem medo da morte, porque aquelas lágrimas, nestes noventa e dois anos lúcidos, citam Padre António Vieira, quando disse que o melhor sinal de se haver de durar pouco é haver-se durado muito, e ambas impotentes perante o irremediável, acabamos a “refilar” por conta do andarilho, a fingir que acreditamos que ela durará eternamente.
Lembro-me ainda de haver em cena um sofá sobre o qual, no final, o Álvaro cedendo à emoção, caiu, quase desmaiado e comovido chorou. E como o lenço de assoar lhe fez falta…
Todos batiam palmas premiando o desempenho, a dedicação, a dignidade daquele trabalho de amadores, mas eu nem ouvia, eu estava fascinada, eu queria estar ali, naquele palco, a brincar ao “faz de conta”…
Quisera estar contigo este
momento
Desfrutando-te para além
do pensamento
Quisera dar-te a Boa Estrela
de presente
Beijando-te os lábios
levemente
Quisera viver contigo essa
magia
Que torna cálida uma noite muito
fria
Na pequenez do presente
magia
é tudo o que nos resta
Sobra-nos em amor
o que nos falta em tempo
A nossa vida é um momento
Na tal noite
Na tal madrugada
NATAL QUANDO TU QUISERES
O chapéu de feltro vermelho faz-me lembrar o Sidónio Muralha: “O HOMEM BOM E JUSTO DO CHAPÉU VERDE”e quase me apetecia começar como ele “Já todos sabem o que é um chapéu, mas talvez nem todos saibam o que é um homem bom e justo… “
Bom, nem eu me posso comparar a Sidónio Muralha, nem pretendo falar de igualdade de direitos, embora o tema seja sempre pertinente, o chapéu de feltro é meu e não de um homem e ainda por cima é vermelho e não verde.
Banidas todas as hipotéticas semelhanças resta-nos o conceito original de chapéu, sobre o qual nem vale a pena dissertar, porque já todos sabem que é um objecto, mais ou menos rígido, que serve para proteger a cabeça.
Pois, há anos, comprei um chapéu. Um lindo chapéu de feltro vermelho! Foi “amor à primeira vista”; entrei na loja com outra intenção, olhei para ele, experimentei-o e decidi de imediato que seria meu.
Fiz a aquisição para nunca me esquecer de que a vida vive-se todos os dias. Usualmente, quando o “folgo” abranda, abro o roupeiro, retiro-o da prateleira onde o guardo e coloco-o na cabeça.
O espelho onde me miro é uma composição rectangular de quadrados que colei no interior da porta desse mesmo roupeiro e então, por muito triste que esteja (as tristezas em mim não duram muito) é impossível não rir da garridice da imagem daquele puzzle de quadrados que os anos tiveram um trabalhão a ajeitar.
O meu chapéu de feltro vermelho é o símbolo da coragem com que tento vencer as vicissitudes da vida. Felizmente, ao longo dos anos, tenho-o colocado poucas vezes na cabeça porque não desanimo facilmente.
O chapéu de feltro vermelho preservado numa redoma de vidro, merecia um lugar de destaque na decoração da minha casa.
No dia em que festejar o octogésimo aniversário, colocá-lo-ei na cabeça e, pela primeira vez, assim enfeitada, irei passear pela rua. Nesse dia, o chapéu de feltro vermelho simbolizará a alegria de ter atingido mais um objectivo na vida.
Para já, para que neste Inverno não me falte o estímulo, comprei uma boina vermelha. Com essa ver-me-ão andar por aí.
Numa passada terça-feira, deu-me para as arrumações.
Não há ninguém, a não ser o Pacheco Pereira que junte tanta papelada como eu. Não que ele me tenha convidado para ir tomar uma copo lá a casa e eu visse alguma coisa fora do lugar. Nada disso! Acontece que, numa qualquer revista, vi publicada uma foto do dito senhor na biblioteca e reparei que aquilo era um susto muito maior que o quarto azul, que foi como a minha filha mais nova apelidou a divisão onde divago, martelando no teclado do computador, local a que em tempos idos se chamaria escritório. Bom, o senhor citado é um intelectual ao pé de quem eu mal sei ler e escrever, o que justifica o amontoado de papéis; eu não tenho desculpa e vai daí e de vez em quando, lá trato de rasgar alguns.
Acresce confessar que gosto de ler de lápis na mão e que vou fazendo anotações das passagens mais interessantes dos livros que vou lendo, por vezes sabe-se lá onde!
Hoje, ao abrir um caderninho de capa dourada e lombada preta salta-me à vista Manuel Alegre
“Meu amor é marinheiro
quando as suas mãos me despem
é como se o vento abrisse
as janelas do meu corpo”
Esta é a quadra de que mais gosto do poema: Trova de Amor Lusitano e a sua leitura deu-me uma vontade quase irreprimível de ouvir Adriano Correia de Oliveira. E o disco? Bom, à falta de gira-discos, que há muito já não possuo, está com todos os outros arrumado numa estante que possuo na garagem. Ainda pensei, vou à Net e delicio-me, mas fiquei num vou, não vou, que nem sequer chegou a merecer honras de talvez, por me lembrar que Adriano não cantava esta quadra.
Abril de setenta e quatro deu som à palavra liberdade, que antes não passava de um suave murmúrio, mais adivinhado que ouvido por cada um de nós e a partir de então vá de gritá-la ou cantá-la pelos anos em que a desejámos em silêncio.
Por isso, se bem me lembro, esta magnífica quadra, que tanta sensualidade transmite, não é cantada no disco. Ele canta, se a memória não me atraiçoa,
Meu amor disse que eu tinha
na boca um gosto a saudade
e uns cabelos onde nascem
os ventos e a liberdade
E sabem o que vejo sempre que lembro esta quadra? Aquele magnífico trabalho de Augusto Mota que estava no café Colipo, colocado na parede em frente à porta, “A Lenda do Lis e do Lena”. Não me perguntem porquê, pois não saberei responder; o quadro não terá nada a ver com a quadra, ou talvez tenha, mas não me vou pôr à procura de razões. O que posso garantir é que quem alguma vez o contemplou ficou bem mais rico de sensações pois é nuns cabelos assim que “nascem os ventos e a liberdade”.
E neste contraste de rasgar papéis e compor divagações, com a imaginação a levantar voo sem plano ou vento a favor, deu-me uma fome terrível. Eram dezasseis horas e ainda não tinha almoçado.
Largo papéis e poemas, avanço para a cozinha, atiro-me aos tachos e afins e dou comigo a almoçar pataniscas de bacalhau.
O que Freud não diria disto?!
TEIAS DA VIOLÊNCIA
Teve lugar hoje, dia 6 de Novembro o Seminário Teias de Violência , no Hotel Eurosol, em Leiria, promovido por MULHER SÉCULO XXI - Associação de Apoio às Mulheres, sita na Av. Marquês de Pombal , Lote 25 -1.º A.
Com muita pena não consigo publicar aqui o magnífico cartaz.
Para uma sala cuja lotação era de cento e setenta e quatro pessoas houve duzentas inscrições. Estive presente em representação da Junta de Freguesia de Marrazes e pude comprovar que, num magnífico Sábado de sol, o público era maioritariamente jovem. As intervenções que versaram a igualdade de género, a violência doméstica, a violência no namoro e a violência contra os idosos foram interessantíssimas.
Se os números de que ouvi falar me constrangeram, tal como a tomada de consciência de que também para mim chegará a velhice, coisa em nunca tinha pensado tão seriamente, alegrou-me o facto de ouvir que muito já se faz em defesa de quem precisa de ajuda e encantou-me sobretudo o entusiasmo com que as equipas presentes defenderam os seus projectos. Fico sempre fascinada quando oiço alguém falar com amor do trabalho a que se dedica.
Está de parabéns a Dra. Maria Isabel Gonçalves, Presidente da Mulher Século XXI, pela extraordinária forma como decorreram os trabalhos.
Não posso deixar de felicitar também a jurista Dra. Filomena Baptista que, de forma brilhante, coligiu as conclusões dos trabalhos do dia.