sábado, 11 de dezembro de 2010

NATAL


FELIZ NATAL

Há anos, numa qualquer tarde por alturas do Natal, seguia eu pela rua fora, absorta, como ando sempre, com o cérebro a fervilhar de ideias, quase sempre a sonhar de olhos abertos e pés assentes no chão, quando oiço “Isabel, Isabel, espere aí. Tenho um recado para si.”

Atento na realidade e atravesso a rua ao encontro da Milai.

A Milai é uma Senhora que todos conhecem, mas para quem possa andar distraído eu defino-a sem delongas, numa única palavra: Simpatia.

Beijinhos e os cumprimentos do costume, numa mistura de sorrisos em que a Milai é pródiga.

“Abra a mão” mandou ela. E eu abri, que as ordens são para cumprir!

“O Menino Jesus manda-lhe isto, com votos de Feliz Natal”.

E a Milai depositou na minha mão aberta uma pequenina estrela dourada.

A estrela não se vê nesta foto, mas há mais de dez anos que está pousada na almofada um pouco acima do braço direito deste Menino Jesus, que também um gesto de amizade trouxe para mim.

Às vezes, os anjos descem à terra e tomam a forma física dos nossos amigos só para nos lembrarem que o AMOR existe e a FELICIDADE é um estado de alma.

QUE ESTE SEJA MAIS UM NATAL SOLIDÁRIO PARA TODOS NÓS

NATAL

Desde há cinco anos que voltei a fazer o presépio com as figurinhas de barro.
Tenho um menino jesus, que a modéstia e o bom senso me obrigam a referir com letra minúscula. "Lindo de morrer"(como classifica a minha amiga Paula as coisas de que gosta muito)!
O meu mundo cabe inteirinho no olhar desse menino.
As figurinhas de barro esperam ansiosas que ele venha colocá-las a seu gosto.
Até o cacto de Natal floresce alegremente!

PALAVRAS DE OUTROS

O FEIXE DE CARUMA

O feixe de caruma! Que humildade!
São folhas mortas que o pinheiro enjeita,
Ou que o vento cruel por terra deita,
Que se calam sem dó, nem caridade.

Mas, sendo o sentimento de bondade
Aquele que aos humildes mais se ajeita,
São para os pobres a caminha estreita,
São a vida, o calor, a claridade.

O feixe de caruma! Se Maria
Virgem da Nazaré, Nossa Senhora,
Tivesse tido a estranha fantasia

(Perdão por esta audácia pecadora)
De dar à luz nesta freguesia,
De caruma cobria a manjedoura.

Crésus Perdulário
Acácio de Paiva



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

TEATRO

1.º Acto

Já passaram muitos, muitos anos, eu era uma menina com olhos de mata-borrão, prontos para absorver tudo e no ACS, centro da vida sociocultural da Sismaria da Gândara a que na altura simplesmente chamávamos clube, decorriam os ensaios de uma peça de teatro.

Ao Senhor Franklin, que tinha um armazém na rua D. Carlos I, onde hoje se situa uma loja que compra ouro, pessoa que associo aos pirolitos do Sr. Emídio Xavier, desconhecendo se este na altura ainda produziria pirolitos, por saber que aquele negociava em bebidas, não por gostar de pirolitos, mas pelo misterioso berlinde que as garrafas continham (que magia!), cabia a realização e a encenação. Ensaiava e ainda colaborava como actor. Parece que o estou a ver, um senhor alto (ou seria eu que era tão pequena…), moreno, bem-falante, com um lindo timbre de voz, a sair do armazém onde eu achava que havia um enorme tesouro de pirolitos.

Chegou o grande dia e eu vi, pela primeira vez representada ao vivo, uma peça de teatro. “A Raça”.

Das actrizes lembro-me da D. Julieta, que chegou a ganhar um prémio do SNI, da D. Ernestina, da D. Dinha e da Leodete; dos homens só recordo o senhor Franklin, o Álvaro C. e acho que o Silva Gante também fazia uma pequena entrada em cena. O cenário era uma sala. A parede que ficava em frente aos espectadores tinha uma janela de sacada através da qual se via uma árvore florida e nas dos lados havia portas por onde os actores entravam e saiam.

Sempre que era caso disso o Álvaro dizia “Sra. Condensa” e a minha mãe segredava-me ao ouvido “diz-se condessa” e ria, porque naquela época ela era senhora do tempo e ria-se da vida com a facilidade com que hoje chora, sem confessar que tem medo da morte, porque aquelas lágrimas, nestes noventa e dois anos lúcidos, citam Padre António Vieira, quando disse que o melhor sinal de se haver de durar pouco é haver-se durado muito, e ambas impotentes perante o irremediável, acabamos a “refilar” por conta do andarilho, a fingir que acreditamos que ela durará eternamente.

Lembro-me ainda de haver em cena um sofá sobre o qual, no final, o Álvaro cedendo à emoção, caiu, quase desmaiado e comovido chorou. E como o lenço de assoar lhe fez falta…

Todos batiam palmas premiando o desempenho, a dedicação, a dignidade daquele trabalho de amadores, mas eu nem ouvia, eu estava fascinada, eu queria estar ali, naquele palco, a brincar ao “faz de conta”…

sábado, 27 de novembro de 2010

NATAL

Naquela terça-feira de arrumações, dedicada a rasgar papéis, encontrei muita gente. E, entre pedaços de uns e de outros também encontrei alguns meus.

Quantos dias faltam para o Natal? Que importa? Na escuridão da noite, lá fora, o frio aperta e ainda nem é Inverno!

Escrevi o poema numa noite de 24 de Dezembro de um ano qualquer, que aconteceu há muito tempo!
O mote é de Ary dos Santos "O Natal é quando um homem quiser". A mim apetecia-me que fosse hoje!


Quisera estar contigo este

momento

Desfrutando-te para além

do pensamento


Quisera dar-te a Boa Estrela

de presente

Beijando-te os lábios

levemente


Quisera viver contigo essa

magia

Que torna cálida uma noite muito

fria


Na pequenez do presente

magia

é tudo o que nos resta


Sobra-nos em amor

o que nos falta em tempo


A nossa vida é um momento


Na tal noite

Na tal madrugada

NATAL QUANDO TU QUISERES

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O CHAPÉU DE FELTRO VERMELHO

O chapéu de feltro vermelho faz-me lembrar o Sidónio Muralha: “O HOMEM BOM E JUSTO DO CHAPÉU VERDE”e quase me apetecia começar como ele “Já todos sabem o que é um chapéu, mas talvez nem todos saibam o que é um homem bom e justo… “

Bom, nem eu me posso comparar a Sidónio Muralha, nem pretendo falar de igualdade de direitos, embora o tema seja sempre pertinente, o chapéu de feltro é meu e não de um homem e ainda por cima é vermelho e não verde.

Banidas todas as hipotéticas semelhanças resta-nos o conceito original de chapéu, sobre o qual nem vale a pena dissertar, porque já todos sabem que é um objecto, mais ou menos rígido, que serve para proteger a cabeça.

Pois, há anos, comprei um chapéu. Um lindo chapéu de feltro vermelho! Foi “amor à primeira vista”; entrei na loja com outra intenção, olhei para ele, experimentei-o e decidi de imediato que seria meu.

Fiz a aquisição para nunca me esquecer de que a vida vive-se todos os dias. Usualmente, quando o “folgo” abranda, abro o roupeiro, retiro-o da prateleira onde o guardo e coloco-o na cabeça.

O espelho onde me miro é uma composição rectangular de quadrados que colei no interior da porta desse mesmo roupeiro e então, por muito triste que esteja (as tristezas em mim não duram muito) é impossível não rir da garridice da imagem daquele puzzle de quadrados que os anos tiveram um trabalhão a ajeitar.

O meu chapéu de feltro vermelho é o símbolo da coragem com que tento vencer as vicissitudes da vida. Felizmente, ao longo dos anos, tenho-o colocado poucas vezes na cabeça porque não desanimo facilmente.

O chapéu de feltro vermelho preservado numa redoma de vidro, merecia um lugar de destaque na decoração da minha casa.

No dia em que festejar o octogésimo aniversário, colocá-lo-ei na cabeça e, pela primeira vez, assim enfeitada, irei passear pela rua. Nesse dia, o chapéu de feltro vermelho simbolizará a alegria de ter atingido mais um objectivo na vida.

Para já, para que neste Inverno não me falte o estímulo, comprei uma boina vermelha. Com essa ver-me-ão andar por aí.

ARRUMAÇÕES

Numa passada terça-feira, deu-me para as arrumações.

Não há ninguém, a não ser o Pacheco Pereira que junte tanta papelada como eu. Não que ele me tenha convidado para ir tomar uma copo lá a casa e eu visse alguma coisa fora do lugar. Nada disso! Acontece que, numa qualquer revista, vi publicada uma foto do dito senhor na biblioteca e reparei que aquilo era um susto muito maior que o quarto azul, que foi como a minha filha mais nova apelidou a divisão onde divago, martelando no teclado do computador, local a que em tempos idos se chamaria escritório. Bom, o senhor citado é um intelectual ao pé de quem eu mal sei ler e escrever, o que justifica o amontoado de papéis; eu não tenho desculpa e vai daí e de vez em quando, lá trato de rasgar alguns.

Acresce confessar que gosto de ler de lápis na mão e que vou fazendo anotações das passagens mais interessantes dos livros que vou lendo, por vezes sabe-se lá onde!

Hoje, ao abrir um caderninho de capa dourada e lombada preta salta-me à vista Manuel Alegre

“Meu amor é marinheiro

quando as suas mãos me despem

é como se o vento abrisse

as janelas do meu corpo”

Esta é a quadra de que mais gosto do poema: Trova de Amor Lusitano e a sua leitura deu-me uma vontade quase irreprimível de ouvir Adriano Correia de Oliveira. E o disco? Bom, à falta de gira-discos, que há muito já não possuo, está com todos os outros arrumado numa estante que possuo na garagem. Ainda pensei, vou à Net e delicio-me, mas fiquei num vou, não vou, que nem sequer chegou a merecer honras de talvez, por me lembrar que Adriano não cantava esta quadra.

Abril de setenta e quatro deu som à palavra liberdade, que antes não passava de um suave murmúrio, mais adivinhado que ouvido por cada um de nós e a partir de então vá de gritá-la ou cantá-la pelos anos em que a desejámos em silêncio.

Por isso, se bem me lembro, esta magnífica quadra, que tanta sensualidade transmite, não é cantada no disco. Ele canta, se a memória não me atraiçoa,

Meu amor disse que eu tinha

na boca um gosto a saudade

e uns cabelos onde nascem

os ventos e a liberdade

E sabem o que vejo sempre que lembro esta quadra? Aquele magnífico trabalho de Augusto Mota que estava no café Colipo, colocado na parede em frente à porta, “A Lenda do Lis e do Lena”. Não me perguntem porquê, pois não saberei responder; o quadro não terá nada a ver com a quadra, ou talvez tenha, mas não me vou pôr à procura de razões. O que posso garantir é que quem alguma vez o contemplou ficou bem mais rico de sensações pois é nuns cabelos assim que “nascem os ventos e a liberdade”.

E neste contraste de rasgar papéis e compor divagações, com a imaginação a levantar voo sem plano ou vento a favor, deu-me uma fome terrível. Eram dezasseis horas e ainda não tinha almoçado.

Largo papéis e poemas, avanço para a cozinha, atiro-me aos tachos e afins e dou comigo a almoçar pataniscas de bacalhau.

O que Freud não diria disto?!