terça-feira, 11 de janeiro de 2011
PALAVRAS DE OUTROS
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
MALDITA SOLIDÃO
Ontem, tirei a tarde para visitar doentes. Num dos sítios onde me dirigi encontrei C., uma senhora que não via há larguíssimos meses, talvez há mais de um ano. Depois de cumprimentar a doente, que felizmente se encontrava bem e muito animada, aconteceu a conversa do costume.
“Há quanto tempo não a via?! Como vai M.? Tanto ela como o marido estavam bem, mas que agora saía muito pouco, entretinha-se muito por casa a tratar dos animais.
“Animais?”, admirei-me, “agora tem animais?” Não é que falte espaço na vivenda de C., situada numa aldeia próxima da cidade, para criar bicharada, mas eu não estava a imaginar C., sem filhos, depois de alguns anos a abdicar de viagens e outros passeios para tratar devotamente da mãe, que falecida esta e conhecendo-lhe os gostos, ficasse presa àquele espaço por causa dos ditos animais.
“O M. está afónico.” “Já percebi,” respondi eu inconsequente, “resolveu dedicar-se à criação de animais exóticos e mandou-o à noite apanhar gambozinos”. C. riu-se, “não, está afónico comigo, já dissemos um ao outro tudo o que havia para dizer. Logo de manhã quando me levanto, trato dos animais, acarinho-os, eles acarinham-me e fazem-me rir e assim entretenho-me lá por casa”.
O que mantém as pessoas tão perto e tão longe? Questionei-me e mudando imediatamente de assunto, a conversa fluiu facilmente por outros temas, tendo em conta que além da doente, éramos mais quatro mulheres naquele quarto hospitalar.
Quando abandonei aquela instituição, a caminho de outra onde pretendia visitar mais uma amiga doente, questionava-me: Será sempre assim? Terá de ser mesmo assim? Porque há-de ser assim?
Somos a Carminho de “O Dia dos Prodígios” esperando o homem que dirá as palavras certas, que depois a vida implacavelmente arrebata, para ficarmos à espera que regresse montado no cavalo verde do nosso encantamento, vivendo afónicas o resto da vida?
“Na vida somos sempre livres e estamos sempre sós.” A expressão persegue-me desde que li Raymond Jean, A Leitora, mas eu ainda acredito que pode ser diferente, eu ainda acredito que o amor pode ser eterno na sua limitação terrena, acredito na cumplicidade de um olhar, no calor das mãos que se tocam, na doçura do abraço, na força das palavras ditas com ternura e que o silêncio entre dois, pode ser um momento sublime porque “há palavras impossíveis de escrever/ Por não termos connosco cordas de violino/ nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo da ar”.
A vida mostrou-me que os homens enrouquecem e vão perdendo a voz ao longo dos anos, mas a alma das mulheres permanece adolescente enquanto, no rosto, as rugas se acentuam.
Meu caro senhor, se está afónico, pegue nas palavras gastas pelo uso, separe as letras uma a uma, lava-as da sujidade dos dias e faça sopa. Coma duas refeições por dia. De preferência ao pequeno almoço e ao jantar. Verá que ao fim de algum tempo das letras, em combinações impensáveis, voltam a fluir facilmente palavras novas. Use-as ao desbarato, não as poupe.
Este remédio funciona melhor que o chá de casca cebola e mesmo que se sinta ridículo, continue. Eu garanto-lhe que a sua esposa achá-lo-á a oitava maravilha do mundo.
domingo, 9 de janeiro de 2011
O PAI NATAL
“Nunca mais vem o Pai Natal” suspirou o André recostando-se na cadeira que ocupava à mesa, durante o jantar de Natal. “Acho que só vem quando acabarmos de comer” explicou a mãe para acalmar a impaciência e todos sorrimos comentando uns com os outros que os “crescidos” são muito lentos a mastigar.
E o André continuou a tecer o tempo com o piscar das luzes da árvore de Natal intercalado de breves paragens “avó, as luzes pararam outra vez”, “as luzes são mágicas, se disseres perlim pim pim voltam a piscar”.
Os “crescidos” mastigaram o que havia para mastigar e chegou a hora do Pai Natal entrar em cena; mas este, no momento exacto teve uma birra e disse que não faria o papel. Pudera, da última vez a representação tinha sido um fiasco!
No Natal de 2008, tinha o André três anos acabadinhos de fazer, pois celebra o aniversário em finais de Novembro, a avó (convém lembrar que em relação aos netos são sempre os avós que alegremente se disponibilizam a encarnar os papeis de “o cavaleiro da triste figura”), vestiu-se de Pai Natal: fato vermelho, umas almofadas a aumentar a barriga, cinto preto a segurar, umas barbichas bancas, barrete enfiado até aos olhos e batendo na persiana da varanda da sala entrou com a estridência que se atribui ao velhinho de ar bonacheirão que já todos adoptámos. O André, com três anos, permito-me frisar, olhou o Pai Natal e antes de se interessar pelos presentes, como seria previsto, comentou “é a avó Buita”.
A avó Buita, que com a destreza da fala já ganhou o estatuto de avó Belita, é uma senhora que eu conheço, mas que obviamente nem vou dizer quem é, porque não me acuso, até faz teatro, ou como ela costuma dizer “arma barraca” o que significa que costuma “vestir” com mais ou menos à-vontade diferentes personagens, não se atrapalhando nada em “assassinar” Molière ou Gil Vicente, dramaturgos que adora torturar mas, nesse instante… a avó Buita sentiu-se perante um público exigentíssimo, no papel mais ridículo que alguma vez desempenhara. “Foram os olhos”, sentenciou a tia, “o olhar traiu-te”.
Então este ano o Pai Natal estava apressadíssimo, mais velhote, coitado, cada vez com mais prendas para entregar. Soaram os guizos das renas, ouviu-se bater na persiana, terá descarregado as prendas e quando acabámos de abrir dispostos a convidá-lo para entrar, perscrutámos a noite, queríamos contar as renas, mas já nem o trenó divisámos no céu, do Pai Natal nem rasto. Do mal, o menos! Havia prendas para todos.
Abertos os presentes, o André quis saber se o Pai Natal já teria chegado a casa da avó Lai, que mora longe, em Portimão. “O melhor é telefonar” e o pai ligou. Estavam todos bem e o Pai Natal estava mesmo, mesmo a chegar, naquele preciso instante. Que sorte! O André aproveitou a ocasião e falou com ele “gostei muito das prendas, mas pedi-te o porco comilão e não me deste” o telemóvel estava em alta voz e ouvimos a resposta ”talvez esteja aqui, vou deixar à avó Lai umas prendas para ti”, “eu estou em casa da avó Belita”, “ eu sei, mas quando aí passei esqueci-me de deixar todos os embrulhos”, “não faz mal eu brinco com estes brinquedos. Adeus, Pai Natal, obrigado”; “adeus, porta-te bem”.
Que bom ter cinco anos!
Até eu acreditei que era o Pai Natal que falava e não o tio Filipe a disfarçar a voz.
sábado, 8 de janeiro de 2011
AINDA UMA HISTÓRIA DE NATAL
Ao Agrupamento 127, SÉ – LEIRIA
No dia oito de Dezembro, recebi a notícia que considerei ser a melhor prenda do meu Natal de 2010, mesmo desconhecendo todas as que viria a receber. E ri-me, ri-me da alegria que a notícia provocou e ri-me por a vida não parar de me surpreender até como desta vez, nas instalações sanitárias, numa cidade do interior do distrito, a alguns quilómetros de casa, onde o sinal do telemóvel me apanhou.
No Sábado, dia dezoito, levantei-me da cama disposta a cumprir um capricho da minha mãe, sabendo que isso exigiria não só algumas horas, mas também muita paciência.
A minha mãe queria uns sapatos novos mas, aos noventa e dois anos e sentada numa cadeira de rodas devido a uma fractura do fémur e com o pé direito deformado pelos joanetes, não pretendia modelos “à velha” ou mesmo ortopédicos porque não é aleijada.
Nessa manhã, enquanto me cuidava, lembro-me de ter pensado que seria melhor levar uma dose extra de boa disposição, porque pela ordem natural da vida, sendo ela tão idosa, partirá antes de mim e eu, quando lhe sentir a ausência vou chorar o facto de não poder andar ainda de sapataria em sapataria a pedir sapatos do pé direito emprestados para levar ao Lar em que se encontra, para que os vá experimentando até acertar na escolha do que calçar melhor e achar mais bonito.
Confesso que muitas vezes perco a paciência com as ideias que tem, mas acabo quase sempre por lhe satisfazer os caprichos, não só porque acho divertida a forma como se agarra à vida, como vejo nisso um modesto tributo ao amor e paciência com que me terá educado.
Pois no momento exacto em que tínhamos acertado na escolha dos sapatos, depois de peregrinar por algumas sapatarias e de algumas idas e vindas entre a cidade e o Lar Emanuel, recebo a notícia de que uma nuvem muito negra pairava sobre a boa notícia que comecei por referir. Fiquei triste, profundamente triste.
E vergada pelo peso dessa tristeza, quando atravessava a Avenida Heróis de Angola, dirigindo-me à sapataria para ultimar o negócio, caminha para mim uma escuteira. Levantei a mão de imediato indicando indisponibilidade, mas ela não desistiu “não quero nada, a não ser dar-lhe este postal ”.
Peguei no postal e nem sequer agradeci, olhei e ali, no meio da rua, quase me desfiz em pranto.
Era o Presépio, com votos de Feliz Natal.
Eu sou crente. Ainda ao almoço tinha dito a uma amiga “Deus providencia sempre!”
Aquela jovem, que o meu gesto não intimidou, acabava de me dar a resposta:
“Deus providenciará que a nuvem se desfaça em água e tudo leve, ou que haja uma brisa benfazeja que a afaste.”
Às vezes, até os anjos se vestem de escuteiras para nos lembrarem que é preciso ter fé e saber esperar.
Às jovens do 127 o meu muito obrigada e os votos de um Feliz Natal. Sim, porque "o Natal é quando o Homem quiser", até pode acontecer em Agosto...
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
PALAVRAS DE OUTROS
Sou o único homem a bordo do meu barco.
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Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
Sophia de Mello Breyner
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
LA FOLLE DU LOJIE
Esta manhã no duche, que é a minha forma de começar os dias como quem anda à chuva, lembrei-me da D. Otília, não propriamente dela mas das minhas brincadeiras solitárias no sótão da sua casa.
A D. Otília, que era casada com o senhor Tonecas, cujo nome eu achava mais bonito para um gato do que para aquele homem gorducho e pouco simpático, que à falta de clientes dormitava no táxi que conduzia, era a modista da minha mãe e morava na Rua D. Carlos I, no número dez, em Sismaria da Gândara.
As visitas a sua casa eram sempre demoradas porque implicavam o desfolhar lento de figurinos, o apalpar de tecidos, mede aqui, mede acolá e uma conversa sem fim que a mim nada dizia. Se houvesse prova de algum vestido eu adorava ver, porque a D. Otília tinha um aparelho interessantíssimo com o qual acertava a altura das saias das senhoras. Funcionava com pó de talco. Ela marcava a altura que a saia deveria manter até ao chão numa espécie de régua, enchia um balão de borracha com pó de talco e depois ia-o pisando e através de um tubo que expelia o pó, ficava no tecido da saia marcada a tracejado a altura pretendida. A minha mãe parecia a Terra no movimento de rotação e a D. Otília um deus todo-poderoso a traçar o paralelo de uma longitude desconhecida. Mas se não houvesse prova… que enfado! Então a D. Otília deixava-me ir brincar para o sótão.
O sótão da D. Otília era um espaço amplo a todo o tamanho da casa onde o que mais me encantava era a caixa da máquina de tricotar. Sim, a D. Otília tinha uma máquina de tricotar e a caixa era um paralelepípedo quadrangular - cavalo indomável que eu cavalgava as horas que duravam as conversas do primeiro andar, arrastando-me sótão fora, como se fora o mais verdejante dos prados.
Anos mais tarde a minha professora de Filosofia ensinou-me, nem sei a que propósito, que alguém, a quem já nem lembro o nome, havia concluído: “L’a imagination est la folle du lojie” (A imaginação é a louca da casa). Saí do duche a interrogar-me “de onde é que tal pessoa me conheceria?”
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
LE TEMP VA
Este fim de tarde vestiu-se de chuva miudinha, mas eu precisava de comprar uma prenda para uma amiga aniversariante e adquirida esta, independentemente do estado do tempo, não me apeteceu voltar de imediato para casa. E lá andei passeando à chuva sem me preocupar com as horas. Vantagens de quem vive sozinha! Há horários e obrigações que foram completamente banidos do vocabulário e do quotidiano, no meio da maior das anarquias.
Não foi por isso que, num dos contra-sensos em que sou tão pródiga, deixei de comprar o relógio que há algum tempo “namorava” para a parede do meu escritório. “The right Time” afirma a rodela de vidro negro em letras prateadas, como se isso me preocupasse, mais um para “bater” a qualquer hora. Right foi o preço, que em saldo teve um desconto de cinquenta por cento! Mas a compra foi efectuada já com a maior parte das lojas encerradas, a caminho do parque de estacionamento onde me esperava o automóvel.
Antes vagueei pela cidade pensando no Carlos do Carmo que, no momento em que estacionei, me sussurrava ao ouvido “quand le temp va tous en va”. “Mentira!” Contrapus de imediato. “olha para mim e diz, vá, diz o que fizeram ao meu tempo. Ainda ontem jogava ao berlinde com o Aniceto, na Rua D. Carlos I e à pedrada com o Carlitos na esquina onde ficava a loja da D. Alda e agora? Achas que se pedir uma moeda à minha mãe e for ao “Região de Leiria” fazer um furo, na esperança de que me saia um chocolate venho de lá com um pente de plástico amarelo? E as três barrocas para jogar ao berlinde, faço-as no alcatrão com o calcanhar de que sapato? E a Maria? Achas que ainda vai à Fonte Quente lavar o bordado inglês dos folhos das minhas combinações? Ou será que pensas que os vestidinhos franzidos cheios de florinhas ainda me servem? E o Carlitos? Em que nuvem estará para podermos brincar?
O meu tempo, independentemente de cada relógio de minha casa marcar a sua hora, caminha inexoravelmente para o fim, mas fresquinho, novinho em folha, imaculado, ainda por estrear eu tenho guardado um sonho, que acordada, passo muitas vezes no ecrã do pensamento, mas com os olhos fechados para que as pálpebras protejam as imagens da poeira dos anos.
Sou uma mulher de esperança, o meu sonho é intemporal.
O Carlos do Carmo tem uma voz que me encanta o Bernardo Sasseti é muito bom, mas este CD não é para mim.