domingo, 16 de janeiro de 2011

PALAVRAS DE OUTROS

"... a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginámos silêncios, e súbitos regressos quando pensámos que não voltaríamos a encontrar-nos"

José Saramago A Viagem do Elefante (pág 34)


Espero que a Vida encha de palavras os silêncios que não me apetecem...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

SALVADOR

No prédio em que habito, no andar de baixo, mora um sorriso lindo de caracóis aloirados, com cerca de ano e meio, que se dá pelo nome de Salvador.

Todas as manhãs, muito cedo, o Salvador reclama. O instinto de mãe desperta-me meio neurónio para, de imediato, o outro meio me lembrar que aquele alerta não é para mim.

Não sei a que horas o oiço. Sinto-me incapaz de abrir os olhos na altura em que acontece e além disso, ver as horas obrigar-me-ia a destapar os algarismos do relógio digital que está na minha mesa-de-cabeceira. Tal como ao Super-homem a quem a criptonite reduz a força, também a luz emanada por aqueles algarismos verdes iria enfraquecer a escuridão do meu quarto e salvo as noites em que adormeço com a luz acesa e algum livro em cima do nariz, ou que durmo no sofá a “ver” os filmes do AXN, tenho sempre o cuidado de os cobrir, não vá ter “insónias” por causa da intensidade perturbadora da luz do relógio despertador…

Por pura especulação e analogia, suponho que é o Salvador do Mundo choramingando por volta das seis da manhã, por não conseguir saltar da manjedoura para os braços da Virgem Maria e volto a adormecer sorrindo.

Como é que os pobres mortais não hão-de gostar de mimo se até o Salvador precisa de ser embalado?!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

PALAVRAS DE OUTROS

É preciso dizer bom dia
quando o dia anoitece.
Ser exacto todo o dia
envelhece.

Luís Veiga Leitão (1912-1987)

PALAVRAS DE OUTROS

E dá-me
sonhos teus para
Eu brincar


Alberto Caeiro, Poema ao Menino Jesus (Poema VIII)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

MALDITA SOLIDÃO

Ontem, tirei a tarde para visitar doentes. Num dos sítios onde me dirigi encontrei C., uma senhora que não via há larguíssimos meses, talvez há mais de um ano. Depois de cumprimentar a doente, que felizmente se encontrava bem e muito animada, aconteceu a conversa do costume.

“Há quanto tempo não a via?! Como vai M.? Tanto ela como o marido estavam bem, mas que agora saía muito pouco, entretinha-se muito por casa a tratar dos animais.

“Animais?”, admirei-me, “agora tem animais?” Não é que falte espaço na vivenda de C., situada numa aldeia próxima da cidade, para criar bicharada, mas eu não estava a imaginar C., sem filhos, depois de alguns anos a abdicar de viagens e outros passeios para tratar devotamente da mãe, que falecida esta e conhecendo-lhe os gostos, ficasse presa àquele espaço por causa dos ditos animais.

“O M. está afónico.” “Já percebi,” respondi eu inconsequente, “resolveu dedicar-se à criação de animais exóticos e mandou-o à noite apanhar gambozinos”. C. riu-se, “não, está afónico comigo, já dissemos um ao outro tudo o que havia para dizer. Logo de manhã quando me levanto, trato dos animais, acarinho-os, eles acarinham-me e fazem-me rir e assim entretenho-me lá por casa”.

O que mantém as pessoas tão perto e tão longe? Questionei-me e mudando imediatamente de assunto, a conversa fluiu facilmente por outros temas, tendo em conta que além da doente, éramos mais quatro mulheres naquele quarto hospitalar.

Quando abandonei aquela instituição, a caminho de outra onde pretendia visitar mais uma amiga doente, questionava-me: Será sempre assim? Terá de ser mesmo assim? Porque há-de ser assim?

Somos a Carminho de “O Dia dos Prodígios” esperando o homem que dirá as palavras certas, que depois a vida implacavelmente arrebata, para ficarmos à espera que regresse montado no cavalo verde do nosso encantamento, vivendo afónicas o resto da vida?

“Na vida somos sempre livres e estamos sempre sós.” A expressão persegue-me desde que li Raymond Jean, A Leitora, mas eu ainda acredito que pode ser diferente, eu ainda acredito que o amor pode ser eterno na sua limitação terrena, acredito na cumplicidade de um olhar, no calor das mãos que se tocam, na doçura do abraço, na força das palavras ditas com ternura e que o silêncio entre dois, pode ser um momento sublime porque “há palavras impossíveis de escrever/ Por não termos connosco cordas de violino/ nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo da ar”.

A vida mostrou-me que os homens enrouquecem e vão perdendo a voz ao longo dos anos, mas a alma das mulheres permanece adolescente enquanto, no rosto, as rugas se acentuam.

Meu caro senhor, se está afónico, pegue nas palavras gastas pelo uso, separe as letras uma a uma, lava-as da sujidade dos dias e faça sopa. Coma duas refeições por dia. De preferência ao pequeno almoço e ao jantar. Verá que ao fim de algum tempo das letras, em combinações impensáveis, voltam a fluir facilmente palavras novas. Use-as ao desbarato, não as poupe.

Este remédio funciona melhor que o chá de casca cebola e mesmo que se sinta ridículo, continue. Eu garanto-lhe que a sua esposa achá-lo-á a oitava maravilha do mundo.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O PAI NATAL

“Nunca mais vem o Pai Natal” suspirou o André recostando-se na cadeira que ocupava à mesa, durante o jantar de Natal. “Acho que só vem quando acabarmos de comer” explicou a mãe para acalmar a impaciência e todos sorrimos comentando uns com os outros que os “crescidos” são muito lentos a mastigar.

E o André continuou a tecer o tempo com o piscar das luzes da árvore de Natal intercalado de breves paragens “avó, as luzes pararam outra vez”, “as luzes são mágicas, se disseres perlim pim pim voltam a piscar”.

Os “crescidos” mastigaram o que havia para mastigar e chegou a hora do Pai Natal entrar em cena; mas este, no momento exacto teve uma birra e disse que não faria o papel. Pudera, da última vez a representação tinha sido um fiasco!

No Natal de 2008, tinha o André três anos acabadinhos de fazer, pois celebra o aniversário em finais de Novembro, a avó (convém lembrar que em relação aos netos são sempre os avós que alegremente se disponibilizam a encarnar os papeis de “o cavaleiro da triste figura”), vestiu-se de Pai Natal: fato vermelho, umas almofadas a aumentar a barriga, cinto preto a segurar, umas barbichas bancas, barrete enfiado até aos olhos e batendo na persiana da varanda da sala entrou com a estridência que se atribui ao velhinho de ar bonacheirão que já todos adoptámos. O André, com três anos, permito-me frisar, olhou o Pai Natal e antes de se interessar pelos presentes, como seria previsto, comentou “é a avó Buita”.

A avó Buita, que com a destreza da fala já ganhou o estatuto de avó Belita, é uma senhora que eu conheço, mas que obviamente nem vou dizer quem é, porque não me acuso, até faz teatro, ou como ela costuma dizer “arma barraca” o que significa que costuma “vestir” com mais ou menos à-vontade diferentes personagens, não se atrapalhando nada em “assassinar” Molière ou Gil Vicente, dramaturgos que adora torturar mas, nesse instante… a avó Buita sentiu-se perante um público exigentíssimo, no papel mais ridículo que alguma vez desempenhara. “Foram os olhos”, sentenciou a tia, “o olhar traiu-te”.

Então este ano o Pai Natal estava apressadíssimo, mais velhote, coitado, cada vez com mais prendas para entregar. Soaram os guizos das renas, ouviu-se bater na persiana, terá descarregado as prendas e quando acabámos de abrir dispostos a convidá-lo para entrar, perscrutámos a noite, queríamos contar as renas, mas já nem o trenó divisámos no céu, do Pai Natal nem rasto. Do mal, o menos! Havia prendas para todos.

Abertos os presentes, o André quis saber se o Pai Natal já teria chegado a casa da avó Lai, que mora longe, em Portimão. “O melhor é telefonar” e o pai ligou. Estavam todos bem e o Pai Natal estava mesmo, mesmo a chegar, naquele preciso instante. Que sorte! O André aproveitou a ocasião e falou com ele “gostei muito das prendas, mas pedi-te o porco comilão e não me deste” o telemóvel estava em alta voz e ouvimos a resposta ”talvez esteja aqui, vou deixar à avó Lai umas prendas para ti”, “eu estou em casa da avó Belita”, “ eu sei, mas quando aí passei esqueci-me de deixar todos os embrulhos”, “não faz mal eu brinco com estes brinquedos. Adeus, Pai Natal, obrigado”; “adeus, porta-te bem”.

Que bom ter cinco anos!

Até eu acreditei que era o Pai Natal que falava e não o tio Filipe a disfarçar a voz.

sábado, 8 de janeiro de 2011

AINDA UMA HISTÓRIA DE NATAL

Ao Agrupamento 127, SÉ – LEIRIA

No dia oito de Dezembro, recebi a notícia que considerei ser a melhor prenda do meu Natal de 2010, mesmo desconhecendo todas as que viria a receber. E ri-me, ri-me da alegria que a notícia provocou e ri-me por a vida não parar de me surpreender até como desta vez, nas instalações sanitárias, numa cidade do interior do distrito, a alguns quilómetros de casa, onde o sinal do telemóvel me apanhou.

No Sábado, dia dezoito, levantei-me da cama disposta a cumprir um capricho da minha mãe, sabendo que isso exigiria não só algumas horas, mas também muita paciência.

A minha mãe queria uns sapatos novos mas, aos noventa e dois anos e sentada numa cadeira de rodas devido a uma fractura do fémur e com o pé direito deformado pelos joanetes, não pretendia modelos “à velha” ou mesmo ortopédicos porque não é aleijada.

Nessa manhã, enquanto me cuidava, lembro-me de ter pensado que seria melhor levar uma dose extra de boa disposição, porque pela ordem natural da vida, sendo ela tão idosa, partirá antes de mim e eu, quando lhe sentir a ausência vou chorar o facto de não poder andar ainda de sapataria em sapataria a pedir sapatos do pé direito emprestados para levar ao Lar em que se encontra, para que os vá experimentando até acertar na escolha do que calçar melhor e achar mais bonito.

Confesso que muitas vezes perco a paciência com as ideias que tem, mas acabo quase sempre por lhe satisfazer os caprichos, não só porque acho divertida a forma como se agarra à vida, como vejo nisso um modesto tributo ao amor e paciência com que me terá educado.

Pois no momento exacto em que tínhamos acertado na escolha dos sapatos, depois de peregrinar por algumas sapatarias e de algumas idas e vindas entre a cidade e o Lar Emanuel, recebo a notícia de que uma nuvem muito negra pairava sobre a boa notícia que comecei por referir. Fiquei triste, profundamente triste.

E vergada pelo peso dessa tristeza, quando atravessava a Avenida Heróis de Angola, dirigindo-me à sapataria para ultimar o negócio, caminha para mim uma escuteira. Levantei a mão de imediato indicando indisponibilidade, mas ela não desistiu “não quero nada, a não ser dar-lhe este postal ”.

Peguei no postal e nem sequer agradeci, olhei e ali, no meio da rua, quase me desfiz em pranto.

Era o Presépio, com votos de Feliz Natal.

Eu sou crente. Ainda ao almoço tinha dito a uma amiga “Deus providencia sempre!”

Aquela jovem, que o meu gesto não intimidou, acabava de me dar a resposta:

“Deus providenciará que a nuvem se desfaça em água e tudo leve, ou que haja uma brisa benfazeja que a afaste.”

Às vezes, até os anjos se vestem de escuteiras para nos lembrarem que é preciso ter fé e saber esperar.

Às jovens do 127 o meu muito obrigada e os votos de um Feliz Natal. Sim, porque "o Natal é quando o Homem quiser", até pode acontecer em Agosto...