sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

HOJE

Acordei, como normalmente, um pouco antes da oito da manhã e saltei da cama com a ideia de apagar imediatamente o texto que tinha publicado ontem no blog “que tolice! Aquilo (pensava eu referindo-me ao texto) é faltar à “promessa”.

Levantei a persiana e abri a janela do quarto. Gosto de ir à varanda logo que me levanto, ainda mal agasalhada, para sentir o tempo. Sentir o frio agradou-me. “Estou viva e a mexer! Que bom!”

Quando finalmente me sentei em frente ao PC, disposta a apagar o texto de tanta discórdia introspectiva acabei a rir. O tempo, para o bem e para o mal, tem o dom maravilhoso de passar de mansinho. Com pezinhos de lã, pousa aqui, pousa acolá e, em passadas largas, avança tão depressa que nós, quando olhamos a pensar que está aqui, já foi.

Aquele texto de ontem está publicado como se fosse de hoje, o próprio relógio se encarregou de lhe alterar o referente destruindo-lhe o sentido, aquilo não é, já era, nem vale a pena apagá-lo.

Da quinta-feira só quero recordar o entusiasmo da Dra. Isabel Jonet, Directora do Banco Alimentar Contra a Fome, que tive o prazer de conhecer nessa manhã. O entusiasmo dos que acreditam em causas nobres transmite-nos energia para a vida.

Hoje é Sexta-feira, dia de jantar com os amigos num repasto de risos e boa disposição. O Sol brilha, a esperança renova-se, da rua chega a música do quotidiano.

Como bem imediato a vida já me concedeu o dia de hoje. Que bom!

A PROMESSA

Sempre gostei de escrever. Na adolescência e na juventude trocava cartas com inúmeros amigos de que não só pedi o Norte como todos os outros pontos cardeais. Passei ainda pela fase do conto e da poesia, sem ofensa para os dois géneros literários.

Alinhavar a introdução era o mais difícil, mas a partir daquelas duas ou três linhas o texto fluía como se por algum motivo estivesse contido sob pressão na grafite do lápis. Gostava de escrever com lápis bem afiados que não fossem muito grandes. E tinha sempre vários na bolsa que levava para as aulas e alinhados no tampo da minha secretária.

O estudo da Filosofia, pela mão da Dra. H.C., que sabiamente utilizava a maiêutica, para nos ensinar a pensar, dilatou e coloriu as minhas ideias, já de si tão férteis.

Vertia para o papel a amizade, os sonhos e as brincadeiras próprias da idade. “Só escrevem parvoíces” concluíram um dia, a minha mãe e a D. Maria Rosa, que havia sido minha professora do Ensino Primário, depois de ambas terem lido as cartas que eu e o filho, a estudar nos Pupilos do Exército, íamos trocando e ainda se riram na minha cara citando algumas das frases lidas. Os tempos eram outros, tudo se controlava e nada havia a esconder. E a D. Maria Rosa e a minha mãe riam-se facilmente da vida.

Depois cresci, casei e o quotidiano vestiu roupagens novas, sem tempo para devaneios solitários, mas quando os afectos não corresponderam às expectativas, eu voltei ao papel e ao lápis escrevendo a mim própria, cartas intermináveis onde vertia toda a mágoa do momento. Depois, fechada a carta, escondia-a numa gaveta qualquer e esquecia-me dela, até mais tarde a encontrar e ler sentindo-me de novo tão infeliz como quando a tinha escrito.

“Isto é masoquismo” pensei um dia e prometi que nunca mais escreveria sobre coisas tristes. Escreveria, isso sim, sobre as coisas simples e agradáveis da vida pois só assim, ao fim de algum tempo, descobriria o que era a felicidade.

Hoje tive um dia menos bom e sozinha, debruçada sobre o meu umbigo, apetecia-me escrever sobre isso, mas não posso quebrar a promessa.

É preciso coragem para aceitar as circunstâncias da vida, sem abrir mão dos sonhos.

Amanhã é um novo dia.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

PALAVRAS DE OUTROS

PROCURA-SE UM AMIGO


Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicios de Moraes

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

É TÃO FÁCIL...

O electricista que compusera a tomada da cozinha em curto-circuito levara-me os últimos trocos. E que trocos! Precisava de levantar dinheiro.

Ainda pensei na caixa multibanco situada perto da Junta de Freguesia, mas não, se descesse até ao Estádio, poderia parar o carro e andar um pouco a pé até à Agência do Montepio, situada perto dos Jardins do Lis.

Foi o que fiz, depois de almoço. Na tarde ensolarada, caminhando sempre pela margem esquerda do rio Lis, atravessei a estrada. As velhotas estavam sentadas logo no primeiro banco, onde mal começa o empedrado em calçada portuguesa. Ao aproximar-me, uma levantou-se, “boa tarde, posso oferecer-lhe este livro?” e passa-me para a mão um exemplar de “A Sentinela” de 1 de Novembro de 2010, o anúncio do Reino de Jeová com alguns meses de atraso; “ensina como ser feliz, leia com atenção” – insistiu. Agradeci, dobrei a revista e guardei-a na mala. Contentores de lixo não faltavam, mas à vista de quem mo oferecera senti-me incapaz de me desfazer de imediato do presente.

Fui ao banco e à volta, as velhotas lá estavam juntando o útil ao agradável: o dever de apostolado, cumprido ao Sol, entre dois dedos de conversa. Ao aproximar-me a mesma velhota levantou-se e veio direito a mim com nova revista. Eu sorri e exibi a revista que guardara “já me ofereceu uma, quando aqui passei antes”. Na cara da velhota o brilho dos olhos rivalizou com o Sol, “obrigada”. Os lábios distenderam-se num sorriso encantador e voltou a sentar-se.

É preciso coragem, muita coragem para ser feliz, mas é tão fácil fazer os outros felizes que vou tentar mais vezes.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

PALAVRAS DE OUTROS

SONATA DE OUTONO

Inverno não é 'inda mas Outono
Na sonata que bate no meu peito
Poeta distraído, cão sem dono
Até na própria cama em que me deito

Inverno não é 'inda mas Outono
Na sonata que bate no meu peito
Acordar é a forma de ter sono
No presente e no pretérito imperfeito

Mesmo eu de mim próprio me abandono
Se o rigor que me devo não respeito
Acordar é a forma de ter sono
No presente e no pretérito imperfeito

Morro de pé
Mas morro devagar
A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser

Não me deixo ficar
Não pode ser
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
Pois viver é também acontecer

A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser

Hoje, lembro José Carlos Ary dos Santos. Os últimos vinte e sete anos testemunham que a A VIDA É AFINAL O SEU LUGAR.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

AMÉLIA

A Amélia é uma Mulher que não precisa de apresentações. Quem não conhece aquela beirã pequenina e contestatária, visceralmente professora e com uma vasta obra dada ao prelo?

Pois a Amélia, após a aposentação, sem exército, mas cheia de força, continua corajosamente a esgrimir as armas defendendo a cultura em quatro frentes. Assim, como quem aplica às letras a técnica militar de Aljubarrota, ela envia a uma lista enorme de pessoas e para constar dessa lista basta mandar-lhe o endereço, as suas pesquisas: “A companhia do poeta”; “A prosa da semana”;”efeméride” e ainda denúncia os textos e pps que surgem nas nossas caixas de correio como sendo de Pessoa e que, sendo de alguma pessoa, nada têm a ver com o nosso Fernando. Também mantém activo o blog http://barcosflores.blogspot.com.

Hoje, bem cedo subordinado ao tema “efeméride” mandou-me um pedaço da minha adolescência. Aqui fica!

Atalho para: http://www.youtube.com/watch?v=IOd_5ZRPmFs

Querem cantar com ela?

Françoise Hardy, francesa, nascida em 17 de Janeiro de 1944

tous les garçons et les filles de mon âge
se promènent dans la rue deux par deux
tous les garçons et les filles de mon âge
savent bien ce que c'est d'être heureux

et les yeux dans les yeux et la main dans la main
ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain
oui mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine
oui mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime

mes jours comme mes nuits
sont en tous points pareils
sans joies et pleins d'ennuis
personne ne murmure "je t'aime" à mon oreille

tous les garçons et les filles de mon âge
font ensemble des projets d'avenir
tous les garçons et les filles de mon âge
savent très bien ce qu'aimer veut dire

et les yeux dans les yeux et la main dans la main
ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain
oui mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine
oui mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime

mes jours comme mes nuits
sont en tous points pareils
sans joies et pleins d'ennuis
oh! quand donc pour moi brillera le soleil?

comme les garçons et les filles de mon âge
connaîtrais-je bientôt ce qu'est l'amour?
comme les garçons et les filles de mon âge
je me demande quand viendra le jour

où les yeux dans ses yeux et la main dans sa main
j'aurai le coeur heureux sans peur du lendemain
le jour où je n'aurai plus du tout l'âme en peine
le jour où moi aussi j'aurai quelqu'un qui m'aime


Ah, Amélia, se tu não existisses, quem te poderia inventar?

domingo, 16 de janeiro de 2011

BOM DIA

Levantei-me, como habitualmente, cerca da oito da manhã. Pequeno-almoço, os cuidados habituais e, como a manhã era de Sol depois de consultado o e-mail, dispus-me a caminhar.

Fui de carro até ao Estádio e lá o deixei, mudo e quedo, enquanto me passeei por outra freguesia. O Sol era convidativo mas o vento arrepiava-me as bochechas e acariciava-me o cabelo. Nada de mais. Eu gosto de sentir o vento fresco na face. Ajuda-me a pensar. Daí a ideia peregrina “não vou cumprimentar ninguém”. Habitualmente, tomo a iniciativa de desejar “bom dia” a todas as pessoas com quem me cruzo, quer as conheça ou não, no trajecto que percorro, para trás e para a frente, desde a Ponte Europa até à Rotunda do Sinaleiro. Hoje, dispus-me a ver quantos “bons dias” ganharia se não tomasse a iniciativa. Não temos fama de ser simpáticos e hospitaleiros?

A experiência não tem qualquer rigor científico, não passou de uma brincadeira com que me apeteceu entreter a caminhada. Nem sequer contei as pessoas que se cruzaram comigo. Posso contudo garantir que se cruzaram muitas, de diferentes idades, no período que decorreu entre as dez horas e trinta da manhã e as doze, umas a correr, outras a andar, outras de bicicleta e somente dez me desejaram “bom dia”. Se descontar os “bons dias” de três pessoas das minhas relações, fico reduzida a sete. Houve “bons dias” frouxos, sorridentes e um particularmente vigoroso, o do senhor que manobrava a cadeira de rodas em que se deslocava e eu pensei que a força daquele “bom dia” significava a determinação com que aquele homem, ainda novo, enfrentava a vida.

Quando me passeio em S. Martinho do Porto, pela praia quase deserta e encontro estrangeiros, são eles os primeiros a cumprimentar-me com um sorriso aberto. Como é que nesta cidade onde quase nasci e onde toda a gente se conhece de vista, só consegui obter uma média de cinco “bons-dias” por hora?

Há muitos anos, no Liceu Nacional de Leiria, o Dr. Carlos Silva, um padre, já falecido, mas sobejamente conhecido pelos seus dotes vocais, deu-me aulas de Religião e Moral e entre outras coisas ensinou-me uma canção que diria mais ou menos “Alô, Bom dia, oh como vai você? Um olhar bem amigo, um claro sorriso, um aperto de mão. E a gente sem saber como e porquê se sente feliz e sai a cantar alegre canção… Bom-dia nada custa ao nosso coração. É bom fazer feliz o nosso irmão”.

Que pena tenho de não saber cantar!