segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

IRONIA

Um amigo recente enviou-me um mail “Nada é simples! Excepto o humor… E a simplicidade é o último grau da sofisticação."

E assim, sem mais, mergulhei no susto de uma antiga manhã. Há dezoito anos, bem cedo, toca o telefone, em minha casa. Era a minha mãe “O pai acordou, sentou-se na beira da cama, fala muito, mas nada diz que seja inteligível e tenta vestir-se atabalhoadamente por cima do pijama. Estou assustada.” “Não se preocupe. Vou chamar a ambulância e sigo já para aí.”

Nunca dois quilómetros me pareceram tão compridos! Arranjei o meu pai, sosseguei a minha mãe e chegada a ambulância seguimos para as urgências do velho hospital de Leiria. O meu pai tinha feito um pequeno AVC e os exames e tratamentos decorreram durante todo o dia.

Cerca das dezoito horas e trinta minutos, o meu pai teve alta. Saiu pelo seu pé das urgências, apareceu à porta da sala onde aguardávamos desde manhã por notícias suas e mal me viu, sorriu e exclamou “Será possível que só porque acordei de manhã a falar inglês, me tenhas enfiado um dia inteiro no hospital?”

Ri-me e abracei-o. Era o meu pai no seu melhor, após uma recuperação meteórica fosse lá do que fosse que lhe tinha acontecido.

A ironia, a forma mais sofisticada de humor, voltava de mãos dadas com o seu melhor sorriso.

domingo, 30 de janeiro de 2011

PALAVRAS DE OUTROS

POEMA DESTINADO A HAVER DOMINGO

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.

Natália Correia, Passaporte (1958)

sábado, 29 de janeiro de 2011

SÁBADO

Não costumo ir ao Sábado ao cabeleireiro, mas hoje aconteceu. Entrei, disse ao que ia, vestiram-me o penteador, mandaram-me sentar e passaram-me para as mãos a revista “Nova Gente”, que comecei a ler, contrariando as boas intenções de ir estudando o meu papel no teatro, que “pelo andar da carruagem” não sei quando vou decorar.

Estava eu olhando embevecida a foto da família Carrilho “batida” no dia das eleições, questionando-me sobre quem terá deixado fazer a cruz a quem, face à panóplia dos presidenciáveis. “Terá a Bárbara deixado a Carlota fazer a cruz no seu boletim de voto e o Sr. Professor o Dinis Maria no que lhe caberia por direito, ou terá sido ao contrário?”, quando a manicure avança para me cuidar das mãos. Desanda-se a cadeira num ângulo de quarenta graus, largo a revista, vai-se a leitura e desperto para o que me cerca.

À direita um senhor, já de cabeça lavada, de penteador vestido, sentado tal como eu, fazia boquinhas para o espelho enquanto aguardava que lhe cortassem o cabelo, na calha lavava-se a cabeça a um jovem e outro aguardava sentado a sua vez. Volto a olhar para confirmar se tinha visto bem. O senhor das boquinhas, apanhado em flagrante deixou de fazer boquinhas, mas avisa que também deseja fazer as sobrancelhas e os outros dois continuam no salão. Vi bem, no salão só eles e eu. Está tudo correcto. Estará? “Depois das unhas vão fazer-me a barba?” pergunto à manicure que, com um sorriso tímido, me explica que vir à cabeleireira não é o mesmo que ir ao barbeiro. “As cabeleireiras fazem uns cortes de cabelo mais modernos”; “Ah, então a barba ainda é no barbeiro!” exclamei aliviada confiando nos cuidados da pequena.

- Isabel (só poderia ser uma Isabel), a tua presidência no projecto MULHERES DO SÉCULO XXI está a ser um êxito, os homens acabaram de alcançar a “igualdade de género”!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A AMOREIRA

No pátio da escola primária que frequentei, havia no canto esquerdo, quando se entrava no recreio, uma enorme amoreira onde todas as crianças da escola se abasteciam de folhas para alimentar os bichos-da-seda.

Pegavam com o pátio da escola terrenos de particulares e naquele canto da amoreira não havia muro, a fronteira era definida por uns pilares de cimento pintados de branco atravessados por três fiadas de arame farpado. Imaginam coisa mais imprópria para estar ao alcance de crianças? Mais tarde a legislação proibiu o arame farpado junto das escolas mas, pelos vistos, naquela altura seria permitido.

Eu nunca gostei de correr mas não desperdiçava uma oportunidade de me encavalitar em tudo o que desse para trepar. O treino ia dos pessegueiros do meu quintal às figueiras das minhas avós e, claro está, a amoreira da escola também não escapava. As folhas mais tenrinhas estavam lá no cimo e os bichos-da-seda mereciam o sacrifício. Sim, Só queria mesmo as folhas, uma boa desculpa para trepar, porque aquelas amoras eram muito desenxabidas, saborosas eram as dos silvados, bem temperadas pelo pó dos caminhos.

Convém lembrar que na altura as meninas não usavam calças como os rapazes, mas como também não brincavam juntos, não havia perigo de mostrar as pernas. Também devo esclarecer que gostava de me aventurar sozinha, já me chegava vencer os meus medos, não precisava dos medos das outras a puxar-me para trás.

Deveria ter chovido recentemente, porque eu tinha o meu chapéu-de-chuva. Um chapéu de seda lilás, que seco me brindava o olhar com uns reflexos rosados que eu achava uma maravilha. Coisa tão sem graça se comparado com os que agora existem no mercado para crianças!

Larguei a mala dos livros e trepei com o chapéu-de-chuva na mão. Avaliei qual seria o melhor sítio para o intento que levava em mente (desta vez não queria folhas) e, bem equilibrada, abri o chapéu. E assim, da braça mais próxima passei para o arame farpado. Eu tinha visto o número no circo, era tão fácil! Ensaiei uns passos de chapéu aberto, tentando percorrer o arame e… estatelei-me no chão, felizmente no terreno da escola, só que… com uma vareta do chapéu espetada na parte interna do joelho direito.

“O chapéu? Estragou-se o chapéu?” Arranquei a vareta da perna, que felizmente não tinha penetrado muito, endireitei-a, experimentei o chapéu. Abria e fechava na perfeição. O chapéu estava bem, na minha perna ficara um buraquinho redondinho, nos joelhos umas mazelas que com terra se disfarçaram e na minha alma a frustração da falta de aptidão para a profissão que escolhera.

Há cerca de dois anos espetei uma agulha de croché na perna direita, três centímetros e meio de aço, com uma farpa na ponta, que ainda estou para saber como consegui tirar. Na perna, só restou um buraquinho redondinho. Tal como em criança, também não rebentei um único vaso sanguíneo.

Vêem o que a ignorância faz à vida das pessoas? Se em pequena soubesse o que sei hoje, teria desistido de trabalhar no arame, mas poderia muito bem ter sido faquir.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

FRIO

Esta manhã saí a pé. O objectivo era o laboratório de análises clínicas onde iria controlar os Ts, não de tara – peso ou maluqueira, mas da tiróide. O vento gélido contrastava com o Sol que radioso brilhava nesta manhã de Inverno. “Ah, S. Pedro, estás-te a esticar!” foi o meu primeiro pensamento assim que cheguei à rua e comecei a descer em direcção ao centro da cidade.

No inicio do Outono, mal se adivinhava o frio, como a Junta de Freguesia de Marrazes se situa no Pólo Norte e eu e o aparelho de ar condicionado mantemos uma relação assaz conflituosa, sem qualquer hipótese de entendimento à vista, resolvi adquirir um parka de penas.

Não sei se para além do sabor, já atentaram no aspecto de determinados paios transmontanos, daqueles atados com guitas na altura e na largura que, depois do fumeiro, ficam mais ou menos aos quadradinhos rechonchudos. Pois eu com a dita parka vestida fico tal e qual um desses paios, gigante e com pernas, sim porque os outros, perninhas para andar não têm, coitadinhos!

Face a essa hipotética personificação de um enchido de tal qualidade S. Pedro, com receio que baixasse a venda do produto, tem-nos estado a proporcionar um dos Invernos mais quentes dos últimos tempos e eu ainda não precisei de vestir a dita parka, mas agora distraiu-se e vá de mandar este vento frio que nos gela os ossos. Como diriam as minhas filhas quando eram adolescentes “está a esticar-se mais que o elástico!”

“Amigo S. Pedro, se este frio continua, eu visto mesmo a parka de penas e quando as criancinhas se assustarem à vista de tal monstro e os comerciantes se queixarem que baixaram as vendas dos enchidos, não venhas com a desculpa que não sabes do que trata.”

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

PALAVRAS DE OUTROS

QUEM TRAMOU ROGER RABBIT?

Hoje, sem vontade de escrever, andei a navegar por outros blogs e descobri este para o qual vos remeto.

Se soubesse, faria uma ligação directa ao texto que pretendo, como não sei, remeto-vos para o poema de sexta-feira, 14 de Janeiro: É PROIBIDO, de Pablo Neruda

http://Quemtramourogerrabbit.blogspot.com

Espero que a proprietária me perdoe o abuso de, sem mais, lhe abrir assim a porta e os convidar a entrar em casa alheia.

domingo, 23 de janeiro de 2011

COMENTÁRIO

Em jeito de resposta a O.A.A.P, que na ceia de S. Silvestre me serviu uma rosa vermelha de aperitivo e um poema à sobremesa…

Somos amigos recentes (acho que permitirá que o defina assim), pois cruzámo-nos duas ou três vezes mas, porque ambos somos de palavra fácil, a conversa fluiu e a troca amigável de ideias não se fez esperar. Nada de prosa para ser tomada a sério, tudo conversa inconsequente porque os jantares em que ambos participámos foram animados e o riso correu com abundância.

Pois o meu amigo O.A.A.P. escolheu um belíssimo PPS, não criado propositadamente para mim, como é óbvio, mas respondeu, por e-mail, ao meu Post de Vinicius com um igualmente belo texto de Vinicius, numa simbiose de gentileza e sensibilidade que não deixou de me comover e acalentar a alma.

No jantar de S. Silvestre, parte da conversa versou sobre astrologia tendo-me eu afirmado absolutamente descrente sobre a questão. Mereci por isso o elogio de pouco inteligente por parte de uma das senhoras presentes, conclusão que me apressei a confirmar, porque se eu fosse inteligente as minhas razões ofuscariam a "gentileza", e não só, manifestadas pela dita senhora, em mesa alheia perante quem se via pela primeira vez. “Ah, mas eu não sou inteligente!” exclamei duas vezes, engolindo o resto, que a senhora cheia de si não entendeu, consistindo nessa circunstância o meu gozo e a partir daí, desfiz-me em mesuras para que o contraste ficasse bem definido.

Acontece que a propósito desse mesmo Post de Vinicius, pesquisei na NET, num endereço que me recomendaram e descobri, deste autor, uma obra que desconhecia: “Um signo uma mulher”, publicada em 1971, primeiramente na revista Manchete. “Como é que esta me passou?” questionei-me - e lá vou eu pacientemente à procura do que teria dito a meu respeito.

Eis o que encontrei:

Mulher de peixe… peixe é

Em águas paradas não dá pé

Porque desliza como uma enguia

Sempre que entra numa fria.

Na superfície é sinhazinha

E festiva como a sardinha

Mas quando fisga um namorado

Ele está frito, escabechado,

É uma mulher tão envolvente

Que na questão do Paraíso

Há quem suspeite seriamente

Que ela era a mulher e a serpente

Seu Id: aparentar juízo

Seu ego: a omissão, o orgulho

Sua pedra astral: a ametista

Seu bem: nunca ser bagulho

Sua cor : o amarelo brilhante

Seu fim: dar sempre na vista.

Perante isto, mesmo reconhecendo que até os poetas têm estômago e precisam de ganhar uns trocos para ir ao supermercado, cortei relações com Vinicius e em acto de desespero, conhecedora das últimas pesquisas americanas sobres signos, dando-me a razão que me tiraram no citado jantar, sobre esta matéria elevadíssima que tanto "respeito" me merece e sabendo haver mais um signo do Zodíaco, tentei subornar quem de direito para me passar para outro, o tal Serpentário, sobre o qual ainda não existirão barbaridades escritas. Não tive sorte nenhuma. Nasci pisciana e assim morrerei.

Daqui proclamo o ultimato: Vinicius, ou nasces outra vez e vens cá à Terra apagar isto ou bem podes começar a fazer das nuvens um jardim, mas semeia túlipas amarelas, porque rosas vermelhas já há cá na Terra quem me ofereça.