quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

PALAVRAS DE OUTROS

SER PROFESSOR…

Ser professor é ser artista,

malabarista,

pintor, escultor, doutor,

musicólogo, psicólogo...

É ser mãe, pai, irmã e avó,

É ser palhaço, estilhaço,

É ser ciência, paciência...

É ser informação,

É ser acção.

É ser bússola, é ser farol.

É ser luz, é ser sol.


Incompreendido?... Muito.

Defendido? Nunca.


O seu filho passou?...

Claro, é um génio.

Não passou?

O professor não ensinou.


Ser professor...

É um vício ou vocação?

É outra coisa...

É ter nas mãos o mundo de amanhã


Amanhã

Os alunos vão-se...

E ele, o mestre, de mãos vazias,

Fica com o coração partido.

Recebe novas turmas,

Novos seres ávidos de cultura

E ele, o professor,

Vai ensinando com toda a ternura,

O saber, a orientação

Nas cabeças novas que amanhã

Luzirão no firmamento da Pátria.

Fica a saudade, a amizade.

O pagamento real!


*”Ser Professor” – transcrição na integra de reflexão de autor anónimo (professor da UNL) presente num restaurante , outrora escola primária na Vila de Carrasqueira

VALE A PENA SER PROFESSORA...

Não sei há quantos anos não entrava numa escola primária pejada de alunos, pais, encarregados de educação, professores e auxiliares, todos em festa. Aconteceu hoje.

A Carma, a minha empregada doméstica, hoje de manhã avisara: “vai haver exposição de coisas antigas na escola onde trabalha a avó do meu “torrãozinho de acúçar”. “A Gracinda”, como se eu soubesse quem era … “foi lá fazer rodilhas e eu emprestei muitas coisas que tinha na casa da Guia. Inscrevia-a para o jantar, são cinco euros e tem de estar lá às sete horas, fiz mal?” Ela nem me deu tempo de responder e continuou. “Também inscrevi as suas colegas: Cremilda, Isabel e Adelina. Podem ir todas juntas ou tem outra coisa para fazer à noite? O jantar é caldo verde e grelhados mistos”.

O meu pensamento já estava na minha mãe. Ninguém, a não ser ela me dera uma ordem assim tão explícita, alguma vez na vida. Fiquei surpreendida mas achei piada e anui “está bem, eu vou ao jantar”

E foi assim, que de boleia com a Adelina, na companhia da Isabel e da Cremilda acabei o dia a assistir ao desfile etnográfico da escola do primeiro ciclo do Ensino Básico da Cruz d’Areia , onde trabalha a avó do “torrãozinho de açúcar”, ou seja, onde a Odete, avó da Maria de vinte meses de idade, dá aulas.

Comi o jantar previsto. Vi a exposição. Fui à casinha dos doces. E o melhor de tudo foi rever colegas e antigos alunos.

Mal vi a Fernanda, hoje jurista, após os cumprimentos habituais, perguntei logo pelo irmão. O Orlando foi um dos alunos mais inteligentes que te tive o prazer de ensinar. Foi meu aluno, acerca de três décadas, na escola da Ortigosa. Era uma criança alegre, mas muito determinada, não pretendia seguir os estudos, o seu sonho era empregar-se para juntar dinheiro para comprar uma mota.

O professor é um projecto sem geração, que molda e sonha os projectos de todas as gerações. Os alunos, que encontra ao longo dos anos de profissão, são projectos de futuro pelos quais luta afincadamente. Para todos almeja o êxito, que tem a consciência de saber graduar.

Eu tinha aspirações para o Orlando que a teimosia da mota contrariava.

Afinal o Orlando e a vida conseguiram dar as voltas necessárias para cumprir o meu sonho e o dele. Não foi fácil, mas teve a mota e é engenheiro. Fiquei felicíssima, quando me explicou onde trabalhava e o que fazia. Riu-se “continuo a quer dinheiro”, “Mas usas uma forma sofisticada de inteligência para o conseguir, não se desperdiça nada. Dá-me mais um abraço que estou felicíssima por isso”.

Este jantar existiu para me lembrar que vale a pena sonhar com o futuro.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

CONTINUA A TER CINCO SENTIDOS?

Uma professora primária, como é o meu caso, é essencialmente uma professora de português, por isso trabalha exaustivamente o texto quer como ponto de partida, quando pretende que os alunos oiçam e leiam (sejam receptores); quer como ponto de chegada quando pretende que falem e escrevam (sejam emissores).

Ao longo dos anos de actividade profissional para além de ensinar crianças, tive ocasião de desenvolver um vasto trabalho em formação inicial de professores e também em formação contínua.

Num qualquer ano lectivo, que para o caso nem vale a pena situar, aceitei um simpático convite da “Carol”, que a Dra. Fernanda Mota Pinto, numa qualquer noite, após as vinte e três horas confirmou, pondo-me em cinco minutos a dizer-lhe ao telefone o que queria ouvir e vi-me no papel de coordenadora pedagógica do primeiro ciclo do ensino básico. Esse trabalho, a realizar de parceria com outra colega, a F.S., à data do convite, embora previsto não estava planificado e a minha paciência não aguentava estar sentada à espera que o planificassem.

Convenci a colega em questão e autorizadas pelo staff, auscultámos as aspirações das professoras primárias a nível de formação, no distrito de Leiria e lançámo-nos num exaustivo trabalho de formação contínua de professores, programado por nós, que se estendeu desde Castanheira de Pêra ao Bombarral. Os temas escolhidos situavam-se no âmbito da Matemática e da Língua Portuguesa, tendo sido ”Composição Escrita” a acção que mais vezes repetimos para os colegas.

Era e sou defensora acérrima da redacção, entendida como texto que obedece a um plano e que passara a ser prevista nos programas contrariamente ao que acontecera até então, em que, em nome da criatividade, os meninos só escreviam composições de tema livre.

Muita gente enchia então a boca com a palavra criatividade sem ter descoberto que criar resultava da desmontagem dos conceitos nos seus elementos simples e nas diferentes montagens destes, de que é tão bom exemplo a Cabeça de Touro de Picasso, ou como exemplo mais fácil, a cadeira da sala que desengonçada se desmonta nos bocados que a formam, os quais pregados de outra maneira se convertem numa original escultura para o hall de entrada. Convenhamos que, tal como o Picasso sem selim e guiador não chegaria à Cabeça de Touro, nós sem a cadeira desengonçada não chegaríamos à escultura. Do nada só Deus criou o Mundo e mesmo assim consta que demorou sete dias. Ou seja para se saber escrever sem regras é preciso dominar as regras de bem escrever (lembram-se da “Guidinha” do Sttau Monteiro?).

Assim, quase diariamente, trabalhávamos o tema. A minha colega começava por uma abordagem aos programas e depois entrava eu em cena usando precisamente a mesma estratégia e materiais que usaria com uma turma de crianças. Distribuía por cada professor uma maçã lavada, pedia que me dissessem coisa acerca da mesma e ia fazendo o registo no quadro das frases que me iam dizendo, ditadas pelos diferentes órgãos dos sentidos, outras, produto da intelectualização de que já éramos possuidores. Essas frases depois eram ordenadas, de seguida estabelecia-se o plano de redacção, ou seja, estabelecia-se o que se escreveria na introdução, no desenvolvimento e na conclusão e depois, o que em formação contínua já não fazíamos, passar-se-ia a redigir o texto.

Os grupos de formandos chegavam a ter cerca de quarenta e cinco professores, que da surpresa inicial passavam à plena adesão à actividade e podem crer que houve turmas em que não surgiu uma única frase em que fosse utilizado o olfacto. Interroguei-me estupefacta: estaríamos a perder uma forma de comunicar?

Guardei os dados recolhidos porque a amostra era significativa. Durante aquele ano lectivo, nós demos formação a cerca de oitocentos professores, mas entretanto surgiu um concurso em que fui opositora e entrei para a ESEL e as intenções de trabalhar aqueles dados ficaram só pelas “boas intenções”.

Outro dia, como aqui contei, não tomei a iniciativa de dizer “bom dia” às pessoas com quem me cruzei no meu passeio ao longo do rio e poucos cumprimentos ganhei.

Agora pedi-vos um abraço. Quantos recebi?

Amigos, eu tomo banho todos os dias. Uso perfume, ou J’adore da Dior, ou Beauty de Calvin Klein e só deixei de usar Channel n.º 5 porque duas gotas já não chegam para me vestir (como dizia a outra senhora…).

Em tempo útil tomei a nova vacina da gripe, aquela que já é contra o H1N1

Além disso eram virtuais….

Poder-me-iam ter enviado abraços às molhadas.

Porque estamos cada vez mais fechados sobre nós próprios? Perdemos o cheiro? Perdemos o ouvido? Perdemos o sentido do outro? Nem virtualmente somos capazes de uma palavra terna? De um carinho? Aristóteles tem de nascer de novo? Já não somos seres sociais?

Quem é o outro? Quem somos nós? Quem nos desumanizou?

O ecrã do PC?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

DÁ-ME UM ABRAÇO

ISABEL

Pela minha idade, há imensas. Como já contei, herdei o nome inteirinho da minha avó materna, mas na altura deveria ser moda, dada a profusão de colegas que fui encontrando pelas turmas que frequentei na escola primária, no Liceu, no Magistério e com que venho tropeçando vida fora.

Sábado, telefonei a uma delas. “Como está a tua mãe?”, “continua mal, coitada, mas está um pouco mais animada”, “e tu?”, “estou” e eu vi-a, sem a ver, a encolher os ombros, displicente.”Cão sem dono” diria Ary, tal como eu, mas ainda mais só, que, em Lisboa, tenho duas filhas e um neto que dá os melhores abraços do mundo.

Era Domingo, fomos ao cinema, jantámos no Shopping e fomos à FNAC.

Comprei um CD. Se pudesse, em memória de Ary, chamar-lhe-ia: "Grito de cão sem dono".

Que pena tenho de não saber colocar aqui uma das faixas para vos deliciar! Deixo-vos o mimo das palavras.


Dá-me Um Abraço Miguel Gameiro


Dá-me um abraço que seja forte

E me conforte a cada canto

Não digas nada que o nada é tanto

E eu não me importo



Dá-me um abraço fica por perto

Neste aperto tão pouco espaço

Não quero mais nada, só o silêncio

Do teu abraço



Já me perdi sem rumo certo

Já me venci pelo cansaço

E estando longe, estive tão perto

Do teu abraço



Dá-me um abraço que me desperte

E me aperte sem me apertar

Que eu já estou perto abre os teus braços

Quando eu chegar



É nesse abraço que eu descanso

Esse espaço que me sossega

E quando possas dá-me outro abraço

Só um não chega



Já me perdi sem rumo certo

Já me venci pelo cansaço

E estando longe, estive tão perto

Do teu abraço


Já me perdi sem rumo certo

Já me venci pelo cansaço

E estando longe, estive tão perto

Do teu abraço



E estando longe, estive tão perto

Do teu abraço



segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

IRONIA

Um amigo recente enviou-me um mail “Nada é simples! Excepto o humor… E a simplicidade é o último grau da sofisticação."

E assim, sem mais, mergulhei no susto de uma antiga manhã. Há dezoito anos, bem cedo, toca o telefone, em minha casa. Era a minha mãe “O pai acordou, sentou-se na beira da cama, fala muito, mas nada diz que seja inteligível e tenta vestir-se atabalhoadamente por cima do pijama. Estou assustada.” “Não se preocupe. Vou chamar a ambulância e sigo já para aí.”

Nunca dois quilómetros me pareceram tão compridos! Arranjei o meu pai, sosseguei a minha mãe e chegada a ambulância seguimos para as urgências do velho hospital de Leiria. O meu pai tinha feito um pequeno AVC e os exames e tratamentos decorreram durante todo o dia.

Cerca das dezoito horas e trinta minutos, o meu pai teve alta. Saiu pelo seu pé das urgências, apareceu à porta da sala onde aguardávamos desde manhã por notícias suas e mal me viu, sorriu e exclamou “Será possível que só porque acordei de manhã a falar inglês, me tenhas enfiado um dia inteiro no hospital?”

Ri-me e abracei-o. Era o meu pai no seu melhor, após uma recuperação meteórica fosse lá do que fosse que lhe tinha acontecido.

A ironia, a forma mais sofisticada de humor, voltava de mãos dadas com o seu melhor sorriso.

domingo, 30 de janeiro de 2011

PALAVRAS DE OUTROS

POEMA DESTINADO A HAVER DOMINGO

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.

Natália Correia, Passaporte (1958)