quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

OS AMIGOS VIRTUAIS

Coisa nova, recentíssima, criada pelas facilidades da alta tecnologia, as malhas da blogosfera crescem, desenvolvem-se, estendem-se em todas as direcções.

Como quem faz renda tecemos a primeira laçada e facilmente ficamos envolvidos. Começam a aparecer olhos, estrelas, crianças sonhadoras, flores, bolsas, sombras, relógios-de-corda, pedaços de céu, misturados com rostos: uns conhecidos, outros não. São os amigos virtuais.

Contundentes por vezes, ironizam outras, acarinham-nos quase sempre porque nos lêem, fazendo-nos sentir que estamos vivos e em grupo.

De que falamos? Da música que nos apeteceu, da nostalgia que nos invadiu, do amigo que não víamos e apareceu de surpresa, da tristeza que nos invadiu, do filme que nos encantou, das flores do jardim, do neto que nasceu, do passeio mais recente. Falamos da vida. Falamos de nós, tal e qual como se a conversa acontecesse com a vizinha à soleira da porta ou de janela para janela.

O Homem, desde longa data, confrontado com o som da sua voz sentiu necessidade de se fazer ouvir cada vez mais longe para chamar os seus iguais.

A Aldeia cresceu. Aprimorámos as técnicas, porque continuamos desamparados a precisar de reunir o grupo.

SEM TÍTULO

"O afecto é uma rede com que pescamos o nosso sustento.
Quando saciados não queremos saber dela. Quando precisamos, temos de a remendar.
E mãos famintas não conseguem manejar agulha e linha."

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

OS NARCISOS

Hoje, como tantas vezes acontece, fui a pé para a sede da Junta de Freguesia e obviamente também foi a pé que regressei.

Escolho sempre o caminho mais longo e no regresso, como venho sem horas, pouso os olhos mais detalhadamente no que se me oferece.

Hoje, os narcisos fizeram-me lembrar o João. Nem sequer conheço o João. Costumo visitar o seu espaço virtual onde encontro fotos de variadas flores. Há dias encantei-me com os narcisos de seu jardim e hoje, nem de propósito mesmo ao virar de uma esquina, num canteiro desprotegido, tentando a minha mão, "os narcisos do João" brilharam na frescura da chuva acabadinha de cair.

“Que engraçado, teria reparado nos narcisos se não tivesse comentado as fotos do João?” Ora aqui está uma pergunta para a qual nunca vou obter resposta.

As mimosas já floriram anunciando a Primavera e havia camélias de todas as cores em quase todos os jardins.

Continuei o caminho com o João no pensamento. “Que flores haverá hoje no seu espaço?”.

E não pude deixar de sorrir à ideia de uma coisa tão impessoal como a alta tecnologia conseguir criar elos entre pessoas absolutamente desconhecidas.

É claro que já fui espreitar “O espaço do João”. Lá continuam os amores-perfeitos à espera do milagre de pegarem.

João, o dia propício era ontem …

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

TERNURA


Gosto de pensar neste dia como o dia dos afectos.

Por isso escolhi para hoje este poema “O mar fala de ti”. O mar trouxe-me a voz de todos os afectos que ao longo do dia foram chegando, ora um, depois outro, numa ternura de afagos que me aqueceram a alma.

Sabem que sou gulosa, não esqueceram os bombons, mas vou ter de os distribuir. Se os como todos fico doente.

Ter amigos é maravilhoso!

Um abraço fraterno para todos.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

ESTA MANHÃ

Acordei cedo e antes de abrir os olhos pensei “não me apetece nada que seja segunda-feira” e, em simultâneo comecei a passar em revista todo o plano do dia. Abri uma nesga do olho direito e vi as horas. Quase oito! Poderia mandriar mais dez minutos.

Oh, Deus! Despertei de vez e lembrei-me. Afinal não era Segunda-feira, era Domingo! Saltei da cama com redobrada genica e fui à varanda. Chuva e mais chuva! Uma autêntica “manhã de pobrezinho”, na douta definição do marido da minha amiga CG, mas não de um pobrezinho qualquer, porque para se usufruir de uma manhã destas, o pobrezinho precisa do tacto de outra pele para viajar por muitas latitudes.

Destes pensamentos profundos e de mãos vazias, parto em busca do pequeno-almoço. Não havia pão, não havia torradas. Nada é perfeito! E misturado com esta filosofia da treta bebi o leite e comi bolachas.

A chuva lá fora continuava a cair …

CHOVE!

Chove...

Mas isso que importa!
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

sábado, 12 de fevereiro de 2011

COLIN FIRTH

No final da minha adolescência, li cinco vezes o livro “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen. Revia-me naquela Isabel profundamente responsável mas terrivelmente irónica que, apaixonada, acaba por casar com Mr. Darcy. E uma relação assim passou a fazer parte do meu imaginário. Amor misturado com a capacidade de nos rirmos uns dos outros, não para nos ferirmos, mas para mais facilmente se suportar as agruras do quotidiano.

Em casa éramos divertidos. O meu pai era exigente com as horas das refeições, sendo sempre o primeiro a sentar-se à cabeceira da mesa virada à porta da sala e o meu irmão, nomeadamente ao jantar, quando tudo parecia ir decorrer com normalidade, propunha ”mãezinha, dou-lhe dez escudos se der um beijo na ponta do nariz do paizinho”. Começava o teatro, o meu pai esquivava-se ao beijo e a minha mãe fazia tudo para ganhar os dez escudos e quando o meu pai já de cabelos arrepelados se deixava vencer e a minha mãe conseguia o intento e reclamava o prémio, o final era sempre o mesmo “a mãezinha não se lembra dos vinte escudos que me pediu emprestados a semana passada? Agora já só me fica a dever dez”. A minha mãe fingia que barafustava e o jantar seguia normalmente.

Por isso eu adorava aquela Isabel que Jane Austen tinha criado, achava que ela se enquadrava bem no meu ambiente familiar, achava que poderia ser assim quando fosse grande.

Em 1995, já nem sei em que canal da TV cabo, passaram os episódios da série “Orgulho e Preconceito”. Tal como se faz no autocarro, eu tocava a campainha, parava o mundo, apeava-me dos afazeres e deliciava-me com os encontro e desencontros entre Isabel e Mr. Darcy desempenhado magistralmente por Colin Firth e falado num inglês puríssimo.

Hoje fui ao cinema. “O Discurso do Rei” e voltei a encontrar-me com Colin Firth no extraordinário papel do reencontro de um homem com a sua própria voz.

Não deixem de ver, Colin Firth está no seu melhor.

NÃO HÁ SÁBADO SEM SOL...

O triiiiiiimm… da porta apressou-me. Espreitei e não percebi bem do que se tratava. Descuidadamente abri. O Sol, transmutado em sete tulipas amarelas, saltou-me para as mãos. “Da parte do Sr. Vinicius” ouvi dizer, mas eu já só tinha olhos para as flores, com os lábios abertos num enorme sorriso, mal balbuciei “diga-lhe que agradeço”.

Mandei entrar o mensageiro e ficámos boa parte da manhã conversando de tudo e de nada, desses afectos velhos que compõem o puzzle de uma amizade de sempre, que cresceu connosco ao sabor das brincadeiras da infância, das dúvidas da adolescência, dos reveses da vida, dos velhos projectos, dos actuais, dos futuros.

E o Sol entrou na minha casa e permaneceu na minha alma naquele abraço forte de quem já se não via há muito tempo.

Quando ele descia a escada, fazendo-se à vida, murmurei “diz ao Vinicius que está perdoado!

Que leveza dá à vida o calor humano!