quinta-feira, 10 de março de 2011

FECHANDO O CICLO DAS VELHARIAS...

Ela alongou-se pelo areal mergulhada na tentação do movimento. Pisava com gosto a areia molhada, num traço firme de quem sabe para onde vai, mas não ia para lado nenhum.

Ia.

Sentia na cara a frescura da brisa e nas pernas o desfazer das ondas. Não pensava em nada, não ligava ao que via. Engolida pela paisagem, gozava a posse da distância e o mistério da névoa.

Ia.

E ir refrescava-lhe o peito e enternecia-lhe a tua lembrança.

De repente, o Sol brilhou naquela concha e ela apanhou-a.

- Olá – murmurou esta, abrindo-se.

- Falas? - Admirou-se ela sentindo em si a carícia de um outro “Olá”.

- Claro! Sou a mensageira do reino das algas e dos peixinhos do fundo. Na baixa-mar venho à praia dar os recados à areia. Converso com as pessoas e, no rolar manso das ondas, volto ao sítio onde pertenço.

- E visitas outros mares? Falas com outras pessoas, ou só vens a esta praia?

- Pois tu não sabes que só há um mar e que todas as ondas são uma só onda?! Eu vou a qualquer sítio, isto é, a qualquer praia.

- E um recado meu, serias capaz de o entregar?

- Só precisas de me emprestar a tua voz e dizer-me a quem e aonde devo levá-la.

Ela sorriu e segredando à concha, enrolou-se na espuma.

Eu, depois, soube que numa manhã de baixa-mar, algures numa praia longínqua, a concha transbordante de beijos sussurrou ao teu ouvido:

- Gosto de ti… gosto de ti… gosto muito de ti.

quarta-feira, 9 de março de 2011

À ESPERA DO CARTEIRO (Parte II)

No início de um Setembro, que aconteceu há muitos, muitos anos, escrevia assim:


Depois de uma tentativa falhada, numa prova inequívoca do que é capaz a persistência humana, ela ficou, caída em negro fundo e dividida, uma parte de si esmagada, outra ali, funcional e disposta a tudo para chamar a atenção.

Quem fora dado a pensamentos fáceis diria “desculpa esfarrapada para não a utilizarem”; pessoa normativa não deixaria de comentar “tontarias, agora aguente, fica sem ela”; alguém extremamente afectuoso diria ”coitadinho, essas coisas acontecem”; o indiferente limitar-se-ia a um “bah!”; enquanto o egoísta estenderia a mão num “vem a mim” e o ansioso não deixaria de perguntar “o que faz aqui?”

E eu? Bom, eu, quando vi a minha imaculada saia branca com a traseira transformada em tela picassiana, questionei-me “porque não terá o artista assinado a obra?”

Então vi-a, depois de quase ficar em minha casa ela ali estava, a tampa quase esmagada no fundo do carro, o resto no banco, enfiado entre o encosto e o assento.

Foi para não me escreveres que cá deixaste a caneta?


Hoje, rio-me ao concluir que, se o carteiro tivesse vindo tantas vezes quantas as que desejei, ter-me ia casado com ele e ainda andaríamos por aí os dois, de bicicleta, a distribuir cartas, mas só as que trouxessem boas notícias, as outras deita-las-ia fora.

terça-feira, 8 de março de 2011

A PROPÓSITO DO DIA DA MULHER

Há quem diga que “as palavras são como as cerejas” por as conversas se encadearem rapidamente. Contudo, eu defendo que as palavras andam à velocidade do som, enquanto os pensamentos preferem a da luz.

Hoje, o postal que por e-mail me presenteou com um beijinho por ser o Dia da Mulher, proporcionou-me um "clic" que me trouxe à lembrança algumas cartas, de amor (porque não confessá-lo?) que velhas e amarelecidas ainda mantinha algures, guardadas numa caixa.

Como hoje se festeja o DIA DA MULHER, não resisto a transcrever-vos uma.

Aqui vai:

Quando nasci, o eminente Dr. Beja, “João Semana” lá do sítio, que me amparou nesse meu primeiro acto corajoso, constatou a ausência de falo. A falta desses dois centímetros de pele foi quanto bastou para me incluírem nesse grupo “menor” vulgo designado por MULHERES. Desde esse momento ficou decidido que EU SOU MULHER, “sina triste” a que não posso fugir e que me leva, neste momento, a “bramir” a minha pena.

Constou-me por aqui e valha-me a verdade, que andavas ocupadíssimo no nobel intento de salvar a humanidade. Ora, como Humanidade é a mera designação do conjunto dos humanos e como nesse conjunto, eu faço parte de subconjunto de maior cardinal e “menor propriedade”, venho lembrar-te que não seria má ideia mostrares que és tão bom a escrever como a fazer outras coisas… porque

EU, QUE SOU MULHER MEREÇO

MAIS!!!!

De nariz torcido, aqui vai um beijinho (não dou mais nenhum enquanto não receber carta)

Salvaguardada a distância de tantas décadas e o humor com que foi escrita esta carta, aqui fica o meu apelo a todos os homens: um pouco mais de atenção e um sorriso mais terno e mais rasgado é quanto basta para tornarem as mulheres mais felizes.

Tanto as MULHERES como os HOMENS têm direito à FELICIDADE.

Desejo um dia bom para todos.

domingo, 6 de março de 2011

À ESPERA DO CARTEIRO


Hoje, haverá distribuição de correspondência?

SORRISO

Quinta-feira! Levantou-se cedo como habitualmente e espreitou o dia da varanda do quarto. A noroeste, o ar frio da manhã arrepiou-a, mas a sudeste, na varanda do quarto oposto ao seu, brilhava um sol esplendoroso. É assim, entre uma varanda e outra que adivinha o dia.

Tratou de si e pasmou quando o espelho lhe devolveu um sorriso amarelo. Bom, pensou, urge tratar disto. O melhor será ir ao cabeleireiro. Arranjar o cabelo é uma boa forma levantar o astral, não melhora o retrato, mas ajeita a moldura.

A cabeleireira esqueceu-se de activar a cadeira, mas ela pediu, porque acha relaxante usufruir das massagens enquanto lhe lavam a cabeça.

Com um sorriso mais animado cumpriu as obrigações do dia e foi tarde, muito tarde que foi visitar a mãe ao Lar. Alarme! Aos noventa e três anos, pela primeira vez a mãe estava na maior das confusões.

“Pode lá ser mãe, isso não existe” e sorriu.

Afinal, aquela quinta-feira era o dia nacional do sorriso amarelo.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O CALENDÁRIO

No início deste ano civil, a IS, funcionária da Junta, apareceu no meu gabinete.

- Venho oferecer-lhe este calendário para pôr em cima da secretária.

- Fiz mal a alguém? - perguntei, deixando IS atrapalhada e continuei - sou uma acérrima defensora da igualdade de género, mas quem precisa de se emancipar são os homens, as mulheres já se emanciparam há muito tempo. Se me quer oferecer um calendário não me traga um com porcas e parafusos (o calendário publicitava uma casa de ferragens). Quais acha que são os calendários preferidos dos homens?

- Os que trazem fotografias de mulheres jeitosas. Respondeu IS.

- Pois então, agradeço-lhe a boa intenção, mas se me quer oferecer um calendário arranje-me um com um homem jeitoso. Confio no seu gosto, arranje um em que saiba bem repousar o olhar.

IS disse que iria dar o seu melhor e abandonou o gabinete. Passado pouco tempo voltou a entrar.

- Não trago um calendário com um homem jeitoso, mas com muitos homens jeitosos, musculados e de porte atlético, não se vêem porque os vidros são foscos, mas pode crer que estão todos dentro da camioneta, eu vi-os entrar, se esperar um bocadinho eles começam a sair e verá, cada um é melhor que o outro.

Ri-me com vontade e aceitei divertidíssima, o calendário de uma empresa de camionagem, que se mantém em cima da minha secretária.

Ando doente. Supõe-se que um medicamento me fez mal. Estou na velha situação de em vez de morrer do mal, morrer da cura e por isso esta manhã, depois de fazer análises, cheguei à Junta pálida e “cheia de não presta”.

- Não acha que deveria ter ficado na cama? – Perguntou-me IS quando a cumprimentei.

- Pois deveria, mas até hoje ainda não saiu um único homem da camioneta do calendário que me ofereceu em Janeiro, suponha que era hoje que a porta se abria. Acha que poderia perder a oportunidade de ver tantos homens bonitos em cima da minha secretária?

terça-feira, 1 de março de 2011

FÉNIX

Ela acordou cedíssimo naquela manhã de Sábado. Viu-se perante uma situação estranha e assustou-se. Não bastava estar doente dos olhos? Seria a situação consequência do antivírico? Deveria ir ao hospital? “Não há Sábado sem Sol” pensou e deitou-se novamente esperando que fossem horas para ir à consulta aberta, ao Posto Médico.

A ida ao médico adiantou pouco. “Poderá ser isto… poderá ser aquilo….“Pare com o antivírico e aproveite o fim-de-semana para repousar”, foi a recomendação do clínico que também não percebeu o que se passava. E ela voltou para casa, não sem antes visitar a mãe para deixar a “Maria”não fossem faltar-lhe os resumos das telenovelas, que paciência já não há para ver aquilo tudo, na TV, dia a dia, aos bocadinhos.

Precisava de palavras de conforto, de mimo, de ânimo, de esperança, mas mesmo que o médico tivesse passado receita, nada disso se vendia na farmácia. Deitou-se e aproveitou para estudar o papel da peça de teatro em que participa.

Lembrou-se e telefonou à amiga ”amanhã, não poderei ir ao passeio pedestre a Alvaiázere, estou doente”; “queres que vá aí? tens almoço? queres sopa?

As horas foram passando. Apareceu a empregada avisada pela amiga. Trouxe um braçado de grelos e outro de flores. Alegrou as jarras e partiu.

Às dezoito e trinta levantou-se. Um duche revitalizou-a. Cuidou-se, vestiu um vestido preto bem justinho e pendurou umas penas rubras ao pescoço. O jantar de Carnaval do Rotary Club estava marcado para as vinte. Morrer sim, mas não de tédio!

Dançou toda a noite e as penas rubras foram-se espalhando pelo chão!

Fénix renascera das cinzas.