Ela alongou-se pelo areal mergulhada na tentação do movimento. Pisava com gosto a areia molhada, num traço firme de quem sabe para onde vai, mas não ia para lado nenhum.
Ia.
Sentia na cara a frescura da brisa e nas pernas o desfazer das ondas. Não pensava em nada, não ligava ao que via. Engolida pela paisagem, gozava a posse da distância e o mistério da névoa.
Ia.
E ir refrescava-lhe o peito e enternecia-lhe a tua lembrança.
De repente, o Sol brilhou naquela concha e ela apanhou-a.
- Olá – murmurou esta, abrindo-se.
- Falas? - Admirou-se ela sentindo em si a carícia de um outro “Olá”.
- Claro! Sou a mensageira do reino das algas e dos peixinhos do fundo. Na baixa-mar venho à praia dar os recados à areia. Converso com as pessoas e, no rolar manso das ondas, volto ao sítio onde pertenço.
- E visitas outros mares? Falas com outras pessoas, ou só vens a esta praia?
- Pois tu não sabes que só há um mar e que todas as ondas são uma só onda?! Eu vou a qualquer sítio, isto é, a qualquer praia.
- E um recado meu, serias capaz de o entregar?
- Só precisas de me emprestar a tua voz e dizer-me a quem e aonde devo levá-la.
Ela sorriu e segredando à concha, enrolou-se na espuma.
Eu, depois, soube que numa manhã de baixa-mar, algures numa praia longínqua, a concha transbordante de beijos sussurrou ao teu ouvido:
- Gosto de ti… gosto de ti… gosto muito de ti.