Na hora certa.
Mário Castrim
Porquê "HORIZONTE SEM HORAS"? Gosto de me passear por uma paisagem larga, com água por perto. Usufruindo da beleza que me cerca, estruturo o pensamento na mistura de sons e cheiros de que as manhãs são férteis. Sim! Gosto de caminhar de manhã, como se possuísse o tempo. Não aquele que se convencionou medir pelo relógio mas o meu, feito de vagares, de esperança, de magia...
Na hora certa.
Mário Castrim
Era uma vez um Menino Arco-íris. Não sei se o Menino Arco-íris não sabia ou não queria que se soubesse que ele era Arco-íris.
Menino Arco-íris vivia nas nuvens, preso num cristal de gelo que pendia de uma delas, ali mesmo mergulhado em azul, entre o céu e o mar. E as Primaveras sucediam-se e ali permanecia confuso e distraído, enroladinho e suspenso.
Ele ouvira dizer que arco-íris tinha sete cores, mas ele só possuía seis e sempre que se dispunha a procurar a que faltava alguém empardecia e ele desenrolava o arco, descia à terra, irradiava as seis cores que possuía e acabava esquecendo-se de procurar a que lhe faltava.
Ele possuía o vermelho – vida; o laranja - envolvente; o amarelo – alegria; o azul - misterioso e insondável; o anil - suavidade e o roxo - ausência e ali, bem no meio, aquele vazio…
Menino Arco-íris começara por se preocupar com isso, mas fora-se habituando a viver com seis cores e até pensou que assim estava bem.
Mas um dia… e há sempre um dia que acontece diferente, uma borboleta sem tom pousou no cristal pendente e mergulhou naquele espaço. Estava um dia de sol, bonito, como só os dias de Primavera e o Menino Arco-íris coloriu-lhe de amarelo uma asa, de azul a outra e quando a borboleta quis voar, as cores misturaram-se e aquele espaço vazio encheu-se de VERDE.
A partir desse dia o Arco-íris passou a ter sete cores. Podemos vê-lo a qualquer momento, se fecharmos os olhos… E a história conta que em vez de um duende com um pote de ouro, lá bem juntinho ao arco, passou a estar uma borbota, umas vezes mais luminosa, outras menos, mas sempre VERDE.
VERDE DE VERdaDE
Porque a VERdaDE É VERDE
Em frases simples, falei de nós ao vento
Comecei pela ansiedade expectante
da espera
Falei da cor daquele “olá”
com que chegavas
(Queda-se o vento esquecido de soprar)
Detive-me de seguida no abraço
Mergulhei na sofreguidão dos beijos
que trocámos
Perdi-me na loucura da carícia
Fui contigo no delírio da posse
Aqui perdi a voz
mas
o vento ouvira-nos, um dia
e retomou então a narrativa
Falou de ti e de mim
Dizendo um só
Falou
de carinho, de ternura
Abreviou
falando-me de Amor
Escureceu-me o olhar
lembrara a despedida
A brisa suave deste vento
caiu na tarde, gelou, virou lamento
À noite,
o meteorologista confirmou
inexplicavelmente
o tempo piorou.

Na véspera a I. telefonara “espero que tenhas providenciado um bolo”; “claro! Ou para o André, não faria anos”.
Não era nada “claro”! Desde que inventaram as velas com números, que deixara de achar graça aos bolos de aniversário. Antigamente sim, era engraçado; por cada ano mais uma velinha; azul para o pai ou para o irmão; cor-de-rosa para ela ou para a mãe. Depois passara a não ter graça nenhuma, era tudo igual, acendiam-se num instante as duas velas, cantavam-se os parabéns e no meio das palmas, com um leve sopro, acabava-se a festa.
A festa… começava na véspera, com a confecção do bolo. Misturavam-se os ingredientes, primeiros os ovos com o açúcar, que ajudava a mexer naquela tigela grande de louça branca. Apetecia-lhe sempre enfiar o dedo na massa amarelinha e provar, mas a mãe era categórica: “isso não. É porcaria” e ela reprimia o gesto, pensando que porcaria obrigatória era, no fim, untar a forma com a manteiga para o bolo não se pegar; as mãos da mãe ficavam sempre cheias de gordura…
Enquanto o bolo cozia a mãe fazia salame de chocolate e às vezes bolo de bolacha, que um dia a prima L. resolveu inovar enfeitando com farófias e bolachas baunilha como se fosse uma celha de lavar roupa. “Coisa esquisita” pensara, sem coragem para dizer que achara de mau gosto.
Depois do bolo cozido e já frio cobria-se com glacê e espetavam-se as velas; quantas mais fossem mais bonito ficava o bolo, que ainda se salpicava com bolinhas prateadas ou multicor.
Depois da modernice das velas com números deixou de ter bolo de anos e só repetiu o ritual quando foi mãe. Recuperou com a prima N. a receita de família e passou a fazer uns enormes bolos cobertos de chantiliy, decorados com chocolate, ananás e noz. As filhas cresceram, não muito, mas o suficiente para entenderem o texto do decreto: “sou eu que faço anos, terá de haver alguém que providencie o bolo” e nesse ano calhou-lhe no aniversário um bolo de iogurte meio torto com uma vela de cada lado do buraco deixado pela forma. Uma ternura que, evoluindo em qualidade e originalidade, se repetiu ano após ano até agora. Este ano, providenciou ela o bolo encomendando-o na pastelaria, para que o André ajudasse a avó a apagar as duas velas.
Mais um ano e a alegria de estar viva e de saúde rodeada por muitos e na lembrança de tantos. Alguns disputavam a primazia das felicitações: “sabes que vou para a Serra da Estrela, mais logo posso não ter ocasião, devo ter sido a primeira”; “telefono agora, mas deixei a mensagem no facebook às três da manhã, devo ter sido a primeira” e ela ria do outro lado do fio e agradecia. É tão bom ter amigos!
E numa mistura de afectos, em que a família e os amigos se não pouparam, somou alegremente, mais um ano aos muitos que já tinha.
Numa Concha
Pudesse eu ser a concha nacarada,
Que, entre os corais e as algas, a infinita
Mansão do oceano habita,
E dorme reclinada
No fofo leito das areias de ouro...
Fosse eu a concha e, ó pérola marinha!
Tu fosses o meu único tesouro,
Minha, somente minha!
Ah! com que amor, no ondeante
Regaço da água transparente e clara,
Com que volúpia, filha, com que anseio
Eu as valvas de nácar apertara,
Para guardar-te toda palpitante
No fundo de meu seio!
Olavo Bilac (1815-1918)
Ela alongou-se pelo areal mergulhada na tentação do movimento. Pisava com gosto a areia molhada, num traço firme de quem sabe para onde vai, mas não ia para lado nenhum.
Ia.
Sentia na cara a frescura da brisa e nas pernas o desfazer das ondas. Não pensava em nada, não ligava ao que via. Engolida pela paisagem, gozava a posse da distância e o mistério da névoa.
Ia.
E ir refrescava-lhe o peito e enternecia-lhe a tua lembrança.
De repente, o Sol brilhou naquela concha e ela apanhou-a.
- Olá – murmurou esta, abrindo-se.
- Falas? - Admirou-se ela sentindo em si a carícia de um outro “Olá”.
- Claro! Sou a mensageira do reino das algas e dos peixinhos do fundo. Na baixa-mar venho à praia dar os recados à areia. Converso com as pessoas e, no rolar manso das ondas, volto ao sítio onde pertenço.
- E visitas outros mares? Falas com outras pessoas, ou só vens a esta praia?
- Pois tu não sabes que só há um mar e que todas as ondas são uma só onda?! Eu vou a qualquer sítio, isto é, a qualquer praia.
- E um recado meu, serias capaz de o entregar?
- Só precisas de me emprestar a tua voz e dizer-me a quem e aonde devo levá-la.
Ela sorriu e segredando à concha, enrolou-se na espuma.
Eu, depois, soube que numa manhã de baixa-mar, algures numa praia longínqua, a concha transbordante de beijos sussurrou ao teu ouvido:
- Gosto de ti… gosto de ti… gosto muito de ti.