Ao longo da minha vida foram vários os momentos que me marcaram a escrita.
A memória recua até ao caderno de redacção da 2.ª classe e à paciência de meu pai, alinhavada na minha tentativa de resposta às questões sugeridas por dois gatinhos brincando com um novelo de lã. Lindos os gatos, pouca a vontade de escrever!
“Tens de responder com frases completas” e vencida esta crise graças à disponibilidade paterna, tomei o gosto à escrita ressalvando claro, aquele dia em que, tendo de escrever talvez aí pela centésima vez sobre um qualquer animal, resolvi, muito comodamente, copiar na integra a redacção da lousa da Cidália apresentada momentos antes à correcção e considerada boa. A professora lê, relê e sentencia: “será melhor escreveres tudo de novo. Isto nem parece teu. És capaz de fazer muito melhor”.
Voltei ao lugar sem entender muito bem o que se passava. “Cão ou gato, vaca ou cavalo, bom para a Cidália não servia para mim?” E a única resposta à medida da dúvida ecoava-me ao ouvido pela voz da professora: “isto nem parece teu!”
Professora inteligente a minha que assim me fixou a primeira regra da escrita e me levantou a primeira questão: Teria de ser ou parecer meu, mas o que era ser meu?
Não me dei ao incómodo de procurar resposta e lá fui escrevendo, umas vezes melhor outras pior ao sabor dos temas sugeridos e conforme o comprovaram as classificações que os professores foram atribuindo aos meus textos.
Chego então à aula do Dr. Amadeu. Homem esquisito, achava eu. Ele, o professor de matemática e o de Ciências formavam um grupo com o qual eu não simpatizava, nem um bocadinho.
Um dia o senhor chegou à aula dizendo que quem quisesse poderia apresentar trabalhos para o jornal do Liceu, “O Despertar”. Eu caí nessa e escrevi um conto cheio de sentir íntimo. O professor teve a triste ideia de se rir do texto com os amigos e isso fez nascer em mim a aversão que durante muito tempo lhe dediquei de alma e coração. Rejubilo contudo na lembrança do texto “A tempestade” escrito numa aula de teste que lhe pôs no ouvido o rugido furioso do mar, vingando assim o riso “crítica” às emoções que o meu conto anterior extravasava.
Estabeleci aqui o que achei ser a segunda regra, levantou-se-me a segunda questão e tomei a primeira opção. O que escrevia, para ser bom, não poderia ser subjectivo, mas teria eu de constatar os factos, descrevê-los e não opinar sobre eles? Pois bem, eu escreveria com a cabeça para os outros; escreveria com o coração para mim. E lá fui escrevendo ou tentando fazê-lo, arriscando mesmo o privilégio da poesia em rasgos de um Abril, deserto o areal de S. Martinho, onde então passava as férias da Páscoa.
Os anos fazem-me tropeçar na Filosofia, aprendo a estruturar o pensamento e também que opinar é um direito que me assiste desde que oiça e respeite a opinião dos outros.
Caio então na Escola do Magistério Primário. Alertam-me para o texto, ensinam-me a didáctica da redacção e mandam-me à vida apta a ensinar os outros a escrever sem se preocuparem com o que eu escrevia. Não desisti. Abençoada paciência de meu pai no dia em que dois gatos me arranharam a inércia.
Casei-me entretanto.
Interregno. Para trás ficaram quilómetros de cartas trocadas com os amigos e namorados e uma grande variedade de textos que a memória rasgou. Só lembro vagamente a carta de filosofada mágoa dirigida à Madalena sobre o casamento.
Nasceram as filhas. O tempo foi pouco. A vida complicou-se.
Pesou de solidão o quotidiano.
Num dia sem data, um qualquer de entre tantos, peguei no bloco e verti no papel o coração inteiro. Desnudado, enfiei-o num envelope selado e enderecei-o ao João. Recebi um cheque de vinte contos.
Incrível! O meu marido pagara a minha prosa, mas azar dos azares, com o dinheiro quebrara-se-me a corda e não fora a teimosia, parente directa da persistência e não mais pegaria na caneta, mas continuei a escrever, cartas longas, tristes, negras como a visão que tinha da vida no momento em que as escrevia, só não as endereçava a ninguém, fechava-as no envelope e escondia-as – os contos de reis que teria ganho do João! Bom, mas se me faltou o sentido para o negócio, tive pelo menos o bom senso de concluir não valer a pena recordar tristezas e rasgar as cartas logo que as encontrei.
Partindo do princípio de que não precisava de recordações do que não pretendia esquecer, deixei de escrever. Os Natais sucederam-se sem retribuir “Boas-festas”; os amigos ouviam-me pelo telefone; as conversas de ocasião multiplicavam-se; pegar na caneta, nem pensar.
Um dia, acontece por acaso, uma história numa tarde de Biblioteca Infantil, depois tento outra e mais outra…
Então, num qualquer momento com a Esmeraldina, submersas no mar de dias que os seus (muitos) diários testemunham, uma frase baila-me nos olhos “o gato da vizinha está com cio”. Rio-me com vontade e num misto de ingenuidade e confusão, a minha mente recria a noite de insónia de uma amiga a que as necessidades de um gato dão um cunho humorístico.
Não sofrendo de insónias e não havendo gato ou cão na minha vizinhança, no dia 20 de Março de 1990, comprei um caderno. Ter-me-á outro gato arranhado a inércia?