
Para quem está perdido, aqui fica a sugestão. Siga o trilho azul, sempre o azul...
Porquê "HORIZONTE SEM HORAS"? Gosto de me passear por uma paisagem larga, com água por perto. Usufruindo da beleza que me cerca, estruturo o pensamento na mistura de sons e cheiros de que as manhãs são férteis. Sim! Gosto de caminhar de manhã, como se possuísse o tempo. Não aquele que se convencionou medir pelo relógio mas o meu, feito de vagares, de esperança, de magia...
Em terra firme, havia flores espalhadas por todo o lado.
Como era domingo, o chapim não estava em casa. Tinha ido dar uma volta sabe-se lá por onde.
E fui andando,
andando,
observei as rãs, que coaxavam no lago.
E continuei a andar. Finalmente atravessei a zona dos pinheiros-serpente (quem chama a estes pinheiros-serpente já terá visto os de S. Pedro de Moel?!)
e vislumbrei o passadiço das dunas. O mar era já ali... mas não era... o que eu ainda andei para lá chegar...
Finalmente o mar...
Depois o regresso. Almoço.Um dia, nasceu o Homem tão inocentemente distraído, tão livre de cuidados, que a Fada Ironia não resistiu “Eu te fado, ó criatura, para que sejas um e todos”.
Assim, ao longo das eras, o fado vem-se cumprindo. Simultaneamente uno e múltiplo o Homem vem-se prolongando, partindo de dois princípios: as suas obras continuam-no; ele merece ser continuado. E, Alquimista em Verde, desejando o Elixir da Longa Vida, vai-se debatendo, ao longo do curto lapso de tempo que medeia o nascimento e a morte, visando a consecução dos seus projectos e do projecto de si. Oscilando o fiel da balança do pessoal para o social, dimensiona-se, o mais possível, nos dois campos fundindo tudo no projecto único: viver.
Como se de complexidade não bastasse a vida ser sinónimo de comportamento; como se fácil fosse ao Homem sonhar o projecto e executá-lo; como se fácil tivesse sido inventar o movimento para que o sonho fosse; a ironia rasteira-o de novo e inventa a morte.
Impedido de se adiar, condição tão bem traduzida pela sabedoria popular “não deixes para amanhã…” tomou no Homem consistência uma vontade nova; se antes o objectivo era agir bem, o presente exige que aja bem e depressa.
Multiplicaram-se as experiências, explodiu o mundo em tecnologia, caíram há muito as barreiras do espaço e do tempo. A vida passou a ser uma acção nova: comunicar.
E o Homem?
Cada vez mais só, ilude-se com o mundo à distância de um clic. Foi-se-lhe há muito o cheiro do outro, vai-se-lhe o tacto, ficou-lhe nos olhos somente a imagem recuada que o monitor displicente lhe permite, ouve, às vezes, um pouco distorcido o som da sua voz e ficou-lhe na boca o gosto a sal das lágrimas de cada madrugada em que acordou, na certeza de que se não acordasse ninguém daria pela sua falta.
Ao longo da minha vida foram vários os momentos que me marcaram a escrita.
A memória recua até ao caderno de redacção da 2.ª classe e à paciência de meu pai, alinhavada na minha tentativa de resposta às questões sugeridas por dois gatinhos brincando com um novelo de lã. Lindos os gatos, pouca a vontade de escrever!
“Tens de responder com frases completas” e vencida esta crise graças à disponibilidade paterna, tomei o gosto à escrita ressalvando claro, aquele dia em que, tendo de escrever talvez aí pela centésima vez sobre um qualquer animal, resolvi, muito comodamente, copiar na integra a redacção da lousa da Cidália apresentada momentos antes à correcção e considerada boa. A professora lê, relê e sentencia: “será melhor escreveres tudo de novo. Isto nem parece teu. És capaz de fazer muito melhor”.
Voltei ao lugar sem entender muito bem o que se passava. “Cão ou gato, vaca ou cavalo, bom para a Cidália não servia para mim?” E a única resposta à medida da dúvida ecoava-me ao ouvido pela voz da professora: “isto nem parece teu!”
Professora inteligente a minha que assim me fixou a primeira regra da escrita e me levantou a primeira questão: Teria de ser ou parecer meu, mas o que era ser meu?
Não me dei ao incómodo de procurar resposta e lá fui escrevendo, umas vezes melhor outras pior ao sabor dos temas sugeridos e conforme o comprovaram as classificações que os professores foram atribuindo aos meus textos.
Chego então à aula do Dr. Amadeu. Homem esquisito, achava eu. Ele, o professor de matemática e o de Ciências formavam um grupo com o qual eu não simpatizava, nem um bocadinho.
Um dia o senhor chegou à aula dizendo que quem quisesse poderia apresentar trabalhos para o jornal do Liceu, “O Despertar”. Eu caí nessa e escrevi um conto cheio de sentir íntimo. O professor teve a triste ideia de se rir do texto com os amigos e isso fez nascer em mim a aversão que durante muito tempo lhe dediquei de alma e coração. Rejubilo contudo na lembrança do texto “A tempestade” escrito numa aula de teste que lhe pôs no ouvido o rugido furioso do mar, vingando assim o riso “crítica” às emoções que o meu conto anterior extravasava.
Estabeleci aqui o que achei ser a segunda regra, levantou-se-me a segunda questão e tomei a primeira opção. O que escrevia, para ser bom, não poderia ser subjectivo, mas teria eu de constatar os factos, descrevê-los e não opinar sobre eles? Pois bem, eu escreveria com a cabeça para os outros; escreveria com o coração para mim. E lá fui escrevendo ou tentando fazê-lo, arriscando mesmo o privilégio da poesia em rasgos de um Abril, deserto o areal de S. Martinho, onde então passava as férias da Páscoa.
Os anos fazem-me tropeçar na Filosofia, aprendo a estruturar o pensamento e também que opinar é um direito que me assiste desde que oiça e respeite a opinião dos outros.
Caio então na Escola do Magistério Primário. Alertam-me para o texto, ensinam-me a didáctica da redacção e mandam-me à vida apta a ensinar os outros a escrever sem se preocuparem com o que eu escrevia. Não desisti. Abençoada paciência de meu pai no dia em que dois gatos me arranharam a inércia.
Casei-me entretanto.
Interregno. Para trás ficaram quilómetros de cartas trocadas com os amigos e namorados e uma grande variedade de textos que a memória rasgou. Só lembro vagamente a carta de filosofada mágoa dirigida à Madalena sobre o casamento.
Nasceram as filhas. O tempo foi pouco. A vida complicou-se.
Pesou de solidão o quotidiano.
Num dia sem data, um qualquer de entre tantos, peguei no bloco e verti no papel o coração inteiro. Desnudado, enfiei-o num envelope selado e enderecei-o ao João. Recebi um cheque de vinte contos.
Incrível! O meu marido pagara a minha prosa, mas azar dos azares, com o dinheiro quebrara-se-me a corda e não fora a teimosia, parente directa da persistência e não mais pegaria na caneta, mas continuei a escrever, cartas longas, tristes, negras como a visão que tinha da vida no momento em que as escrevia, só não as endereçava a ninguém, fechava-as no envelope e escondia-as – os contos de reis que teria ganho do João! Bom, mas se me faltou o sentido para o negócio, tive pelo menos o bom senso de concluir não valer a pena recordar tristezas e rasgar as cartas logo que as encontrei.
Partindo do princípio de que não precisava de recordações do que não pretendia esquecer, deixei de escrever. Os Natais sucederam-se sem retribuir “Boas-festas”; os amigos ouviam-me pelo telefone; as conversas de ocasião multiplicavam-se; pegar na caneta, nem pensar.
Um dia, acontece por acaso, uma história numa tarde de Biblioteca Infantil, depois tento outra e mais outra…
Então, num qualquer momento com a Esmeraldina, submersas no mar de dias que os seus (muitos) diários testemunham, uma frase baila-me nos olhos “o gato da vizinha está com cio”. Rio-me com vontade e num misto de ingenuidade e confusão, a minha mente recria a noite de insónia de uma amiga a que as necessidades de um gato dão um cunho humorístico.
Não sofrendo de insónias e não havendo gato ou cão na minha vizinhança, no dia 20 de Março de 1990, comprei um caderno. Ter-me-á outro gato arranhado a inércia?