Mario Benedetti (Poeta uruguaio)
(Chau Número Tres)
Tradução: Celina Portocarrero
É assim que se cumpre a minha circunstância: Adivinhar na lonjura o Cavalo Verde...
Porquê "HORIZONTE SEM HORAS"? Gosto de me passear por uma paisagem larga, com água por perto. Usufruindo da beleza que me cerca, estruturo o pensamento na mistura de sons e cheiros de que as manhãs são férteis. Sim! Gosto de caminhar de manhã, como se possuísse o tempo. Não aquele que se convencionou medir pelo relógio mas o meu, feito de vagares, de esperança, de magia...
Mario Benedetti (Poeta uruguaio)
(Chau Número Tres)
Tradução: Celina Portocarrero
É assim que se cumpre a minha circunstância: Adivinhar na lonjura o Cavalo Verde...
"O topónimo principal da freguesia sugere ser um local onde são ou foram comuns as tocas ou buracos onde se recolhem lagartos." (De acordo com o desdobrável supra)
Fomos recebidos numa casa situada num pequeno largo, onde nos serviram o pequeno almoço: leite, café, pão e broa quente com mel e queijo fabulosos. Nessa praça iniciava-se a Rua dos Verdes. Pensava encontrar ruas de outras cores, mas essa foi ao longo de toda a manhã a cor predominante para repouso dos olhos e alegria da alma.
Daqui partimos, deliciando os ouvidos com o som da passarada, o nariz com o cheiro das flores e os olhos nos cambiantes de verde, onde todas as cores do arco-íris tomavam a forma de flores.
Até as batateiras estavam maravilhosas!
Em qualquer canto havia flores que pareciam crescer espontaneamente.
E os malmequeres estendiam-se por alguns metros de terreno.
Havia maias, orquídeas, sargaço, bocas de lobo...
Eis senão quando aparece a 1.ª lagarta! Que susto! E um crocodilo! Que medo... Ou seria um dragão? E aquele atrás, o gnomo do arco-íris? E o pote! Onde está o ouro?
Chegados à Igreja de Sto António, todos entraram. Uns solicitando amores novos, outros talvez renovação dos amores antigos...
Uma linda imagem da Virgem; não me souberam dizer qual.
O altar. Fiquei fascinada com este Sto. António, que não é careca. Tem um lindo caracol no alto da cabeça.
Os homens fizeram-lhe perder quase todo o cabelo. Se conservou algum foi porque optou por pregar aos peixes...
Será que as alcachofras vão florir a tempo das fogueiras dos Santos Populares?
Há aí alguém com gripe? Chá da erva das sete chaga é remédio santo...
O Santo António ficara para trás, mas eu não resisti; peguei um e comecei: mal-me-quer, bem-me-quer... Nada feito, mal-me quer!
O teu pai é careca?
Indecisão... Seguir em frente?! O letreiro não augurava nada de bom... mas lá fomos.
Para logo encontrarmos estas ovelhas "new wave"
Quem pela hera passou e uma folha não apanhou... do seu amor não se lembrou!
O percurso não era fácil, ao chão de cascalho acrescentava-se o declive acentuado. Havia uma senhora que ficava sempre para trás por causa das fotografias (não digo quem é, porque não me acuso)
Fotografei os figos, as nozes, as uvas, a promessa de amoras que as silvas exibiam, as oliveiras fabulosamente floridas, mas só aqui ficam as cerejas que hão-de vir a ser frutos vermelhos e suculentos.
Há quantos anos não via uma amoreira? No recreio da Escola Primária de Sismaria da Gândara, que frequentei, havia uma, à qual trepava para colher folhas para alimentar os bichos da seda. Nesta, as amoras eram grandes, mas ainda estavam verdes.
Altar da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios
Como se chamará a quintarola? Da Vista? Do Olho? Responda quem souber.
De qualquer pedra brotavam flores.
Aqui, já tinham colhido os jarros.
Onde estarão as tartarugas? Disseram-nos que estariam lá, mas primaram pela ausência.
Da Igreja Matriz, em honra de S. Domingos, só aproveitei a foto deste delicioso baixo relevo particularmente cosmopolita , que retrata a Sagrada Famíla, num dia, lá por alturas do século dezassete ou inícios do dezoito, em que terá ido à cidade comprar botas para o Menino e para S. José. A tarde solarenga tê-los-á apanhado desprevenidos e terão adquiridos estes fabulosos chapéus de três bicos. Achei uma ternura.
E a originalidade deste vaso? O André viria com os pais passar o fim-de-semana. Viriam no Sábado e ficariam para Domingo. A tia, de férias em Porto Santo, chegaria só para o almoço de Páscoa.
Entre as preocupações com a ementa, em que sempre impera o desejo de proporcionar mimos a todos, havia a vontade de oferecer algo diferente ao André. Na Páscoa, nada melhor que um ovo.
Comprei um ovo de chocolate e dois carrinhos dos Gormitis que comprei, não por saber o que simbolizavam, mas porque tinha visto um rapazinho pela idade do meu neto, no supermercado, encantado junto da prateleira onde estavam os ditos veículos e preparei a surpresa.
Depois dos efusivos cumprimentos da chegada, informei o André de que o coelhinho da Páscoa tinha passado cá por casa e tinha escondido um ovo que seria dele caso conseguisse encontrá-lo. “Onde é que o escondeu?” quis saber de imediato. “Penso que terá sido lá para o quarto da tia, mas não tenho a certeza” respondi, mas o André nem ouviu tudo, tal era a pressa!
“Avó, tens de dar pistas”. E quando eu ia para explicar que diria “quente” ou “frio” conforme ele estivesse mais próximo ou mais afastado do sítio, já o André tinha achado o ovo e os carrinhos, escondidos debaixo dos almofadões da cama.
A mãe admirou-se. “Mas os coelhos põem ovos?!” E o André com o ar mais condescendente do mundo explicou:
- Só o coelhinho da Páscoa, mãe, mas não nascem coelhinhos, porque os ovos de chocolate são para comer. Os coelhinhos nascem dos outros coelhos que são mamíferos. E o coelhinho da Páscoa só põe ovos de chocolate, os carrinhos dos Gormitis foi a avó que pôs.
Garantiu-me quem viu, que a avó ficou de cara à banda!

Num qualquer Sábado, cruzei-me com a Carma à porta de minha casa. Quando eu vinha a chegar, ia ela a sair. “Assaltei-lhe a casa” proferiu sorridente levando na mão o saco do lixo que eu esquecera antes de sair; “estou a ver” retorqui apontando o saco e ela continuou “hoje só lhe trouxe flores” e eu pensei “ainda bem”. Pobre e mal agradecida, congratulava-me com o facto de não ter de passar o resto da tarde a migar couves para congelar, embora me saiba bem à carteira não ter de as comprar quando preciso de fazer sopa. A preguiça estava a falar alto! Despedimo-nos e entrei.
Na minha cozinha havia uma tal profusão de jarros e rosas que por um momento pensei que a Primavera tinha emigrado para o meu lava-loiça.
Não era difícil adivinhar. A Carma fora à Guia e trouxera flores. Muitas, imensas flores e repartia comigo a alegria que transportara do jardim.
Comecei por juntar as jarras e depois fui distribuindo as flores. Começo sempre pelas jarras das casas de banho.
De manhã, depois de saltar da cama e abrir a persiana do quarto adivinhando novos arco-íris, na luz rarefeita do outro lado das nuvens, as flores da casa de banho são as primeiras a desejar-me “bom dia”em cada novo dia.
