Após algumas voltas na cama tentando dormir mais um pouco, na tentativa frustrada de vencer o cansaço acumulado ao longo das últimas semanas, levantei-me calmamente. Em cada manhã, depois de acordar, não volto a adormecer. O dia espreita e a minha curiosidade é grande. Como será o dia de hoje? E não há nada como saltar da cama e começar a mexer. Só assim poderei ver como é para depois poder contar como foi.
Após os ritos matinais; visita à estomatologista. Há oito dias quando da consulta, esta verificara que tinha o céu-da-boca ferido. Pois não, queimara-me?! Sou daquelas pessoas estranhas que não gostam de bicas a ferver nem de chávenas escaldadas, o que me terá calhado, com a nefasta consequência de queimar a boca. A estomatologista não facilitou ”estas feridas têm de ficar bem saradas, volte cá para a semana, para eu verificar, com esta luz forte, como estará a mucosa” e eu, como sou bem-mandada, lá fui, cumpridos os oito dias sugeridos. Foi maior a espera que a consulta, mas vim com a certeza de que tudo estava bem.
“A manhã vai alta” reclamou o estômago quando saí do Centro Hospitalar de S. Francisco. Parei no Lidle, situado um pouco mais abaixo, para comprar uma banana para entreter a fome. “Em casa, a fruta deve estar a acabar”, lembrei-me então e como descendente de Eva que se presa, comprei também algumas maçãs “vá lá saber-se quando aparece o Adão?!”.
Numa corrida desci ao centro da cidade. Aproxima-se a passos largos o dia da estreia teatral. Este ano cabe-me “assassinar” a personagem “a actriz” da peça “O meu caso” de José Régio. Precisava de completar os acessórios da toillete. Faltavam os sapatos, porque resolvi, ainda sem dizer a ninguém, mudar a minha indumentária. O vestido inicialmente acordado é quente, não só para o calor que tem feito, mas também para actuar no palco do Teatro Miguel Franco, com os holofotes tão próximos de nós. Sei do que falo! É um palco que já pisei muitas vezes.
Comprados os sapatos, dos mais baratos que havia no “Guimarães” ainda fui adquirir lã para confeccionar uma mantinha para a minha neta, trabalho a que possivelmente passarei a dedicar-me entre as três e as sete da manhã…
E foi quando vinha para casa, ao passar junto ao café do Teatro, ao ver pessoas a comer na esplanada, que me perguntei “que vais almoçar, cabeça de vento?” e rir-me com vontade, num sorriso tão aberto que o senhor que se cruzou comigo, mesmo com um relógio no pulso perguntou-me as horas, quiçá supondo que me ria para ele. Mas não, viera-me à lembrança um amigo dos meus tempos de menina para quem, certo tipo de pessoas apressadas, só comia ovos estrelados com batatas fritas, menu que, por isso, se recusava a comer. A minha comida de recurso costuma ser constituída por douradinhos de pescada, com bolinhas de espinafres e castanhas assados em vinte minutos de forno, mas o provimento acabara-se no jantar de ontem. Que contraste com a festa num restaurante do Chacal, no fim-de-semana em Lisboa!
Sou professora aposentada, detesto batatas fritas, mas hoje o meu almoço foi um prato de sopa e um ovo estrelado com salada.
Aliada à pressa, a fome é o melhor dos temperos!