quinta-feira, 2 de junho de 2011

SAUDADES

O ensaio acabara tarde. Faltam muitos dias para o dia catorze, mas não podemos dispor do Teatro Miguel Franco quando nos apetece. Há que respeitar a calendarização! Então, como nos disponibilizaram a sala, para toda a tarde de hoje, tivemos que aproveitar; desde as marcações de cena ao ensaio geral, aconteceu tudo em tempo recorde. Eu estava cansada, estávamos todas cansadas, mas eu sentia-me feliz, porque representar diverte-me.

Saí e ainda fui ao Turismo cumprimentar as amigas que tinham acabado de inaugurar a mostra de alguns quadros. Um refresco, dois dedos de conversa; possivelmente até foram mais de dois, esqueci-me de contar e dispus-me a retomar o caminho de casa, não sem antes passar pela feira do livro, que ficava em caminho. Buscava, por conta de M., “A Ronda da Noite “ da Agustina. Azar! No último momento esquecera o nome e vim para casa de mãos a abanar, ou deveria vir…

Eram quase vinte horas, estava um fim de tarde fabuloso e eu deixei-me seduzir. Parei o carro perto do Estádio, disposta a passear-me pela margem do rio antegozando já o cantarolar da água junto ao açude.

Afinal a quietude era total. As comportas estavam fechadas e o caudal ia alto. Os patos mergulhando aqui e ali ofereciam aos meus ouvidos o único som cristalino que se justapunha a um ou outro motor de carro e eu ia seguindo inebriando-me de verde, de brilho da água e de luz, na calma deste fim de tarde.

Viu a L. e dei uma corrida, e lá fomos tecendo mais uns minutos de velha amizade. Ela ficou perto de casa e eu voltei. Olhos cheios, alma mimada, no silêncio da tarde.

Um dia hei-de morrer. Pensei cheia de pena. E os cambiantes de verde continuarão a repetir-se em cada ano, salpicados de arco-íris. Que saudades terei do rio Lis!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Já não tenho olhos de "mata-borrão", já não há avidez no meu olhar, mas sobra da criança que fui o mesmo encantamento pela vida.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

MAIS UMA VOLTA PELO JARDIM

Aproveitando todo o tempo que tive, andei investigando pelo jardim e fui descobrindo recantos maravilhosos, como este de que vos deixo testemunho.
Sentei-me por uns momentos, deliciando-me na sombra e enchendo os olhos de verde.
Este Acer tem uma folha muito original. Será destas belas folhas que o Olímpio está sempre a falar?
Os cactos estavam lindos. Que fabulosa flor cor de fogo!
E as piteiras cheiinhas de figos, fazendo-me lembrar as que havia nos terrenos arenosos junto da casa de minha avó Joaquina Joana. Contudo, os figos ainda não estavam maduros.
Sobre esta planta se derramou o sangue do dragão, que um cavaleiro andante matou em minha defesa...
Havia nenúfares brancos e
nenúfares fúcsia.
Eu gosto muito de nenúfares; lembro-me sempre da história do nenúfar e da libelinha...

sábado, 28 de maio de 2011

FUI AO JARDIM...

Aconteceu terça-feira, dia 24 de Maio.
Mal cheguei os meus olhos saltaram das fabulosas tílias para esta maravilha. O que era? Perguntei-me.
E... foi fácil encontrar as resposta.Mas, não pude deixar de registar esta magnífica tília amarela. Também fotografei a prateada, mas deixo-vos aqui esta.Deliciei-me com o cheiro da alfazema, das rosas... Lírios já não havia. Havia muitas mais flores que fotografei.Entretanto andei às rãs. Em abono da verdade, tenho de confessar que não me ligaram qualquer importância e pude fotografá-las viradas para a esquerda, para a direita e até a tomar banho.Até o pombo se saciava indiferente à objectiva...
E os insectos "namoravam" em lençóis de seda cor-de-rosa

Tudo sob o olhar condescendente do "Rapaz de Bronze"... Não! Que tolice! Da menina sua convidada.
A casa era grandiosa.
Quem adivinha onde fui passear?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ANDANÇAS

Quando era professora, costumava dizer que logo que me reformasse nunca mais escreveria nem o nome. Abriria uma tasca e venderia pasteis de bacalhau e taças de branco e tinto.
As amigas aplaudiram a ideia e não tardaram a sugerir que levasse uns pastelinhos de amostra para uma prospecção de mercado. Fiz os pasteis, dei-os a provar, garanti os clientes e quando reformada me dispunha a iniciar o negócio, descobri que alguém mais expedito me roubara a ideia. Azar dos azares! Vi-me obrigada a buscar outros interesses...
Aquele manifesto interesse pela culinária não passava de uma brincadeira.
Hoje, o compromisso com a causa pública obriga-me a caminhar para os Marrazes.
Muitas vezes vou a pé para gáudio dos sentidos. Inebrio-me de cores, sons e cheiros, enquanto percorro a distância entre a minha casa e a sede da Junta de Freguesia. No dia doze, fiz-me acompanhar da máquina fotográfica e sem engenho e arte lá fui fazendo alguns registos.
Bem perto ainda de casa, não resisti a estas flores, que descuidadas crescem junto ao poste da luz.
Logo no início da subida voltei-me para trás, porque a perspectiva me pareceu mais feliz. O cheiro desta trepadeira é inebriante.
E em frente o pormenor desta janela, cujo vitral merece ser apreciado ao natural, chama a atenção.
Aqui mora o número sete.
As nêspera ainda estão verdes, mas prometem...
E esta ternura de malva rosa e sardinheira?
As laranjas já se comem. Comeriam... se as pudéssemos colher.
Ainda desfolhei um malmequer. mal me quer ... bem me quer... mal me quer. A conclusão é sempre a mesma...
Alegrei logo os olhos nesta bela trepadeira.
Pode haver quem não goste, mas para mim, esta vivenda é a materialização de "A noite estrelada" de Van Gogh
Já não há camélias nestes jardins, mas as orquídeas estão lindas.
E este verde fabuloso e arrumadinho
Quem não gostaria de possuir esta buganvília?
A foto tem luz em excesso. Gosto de ver roupa estendida. Se um mercado nos mostra a alma de um povo; a roupa estendida diz-nos como esse povo resiste.
Dizem que nasce aos molhos no monte sem ser semeado, mas neste jardim, o alecrim também não falta.
Mais flores....
Alegres nos muros.
E rosas, muitas rosas, rosas por todo o lado.
A escola do primeiro ciclo.
E, para matar saudades, uma árvore a lembrar outra dum jardim da minha infância. Só que "a minha" tinha flores cor-de-rosa.
Bebi água, atravessei a rua e fui trabalhar. Horas mais tarde fiz o percurso inverso.
Por esta pequena amostra que dizem da minha freguesia? Não é linda?
Se gostaram, venham descobri-la, há muito, muito mais para conhecer.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

MÃOS

Agarrada àquilo que não é

Mas que sonho

Que seja

Alongo o afecto nos dias.


De mãos abertas

Ofereço um amor imenso.

E o silêncio

Fala da importância

De um umbigo

Que não é o meu.


Que rota terá a vida

Se a tua disponibilidade não é

O meu mar navegável?


E no tormento da deriva

Quando os olhos encontram

O sorriso do meu bisavô

No velho retrato de parede

Que encima o monitor deste PC

Eu sei o que nunca tive:

Mãos, mãos que enlaçam

Aquela outra Isabel.


Mãos

Que amparam,

Que protegem,

Que acariciam.


As tuas mãos …

…nas minhas mãos

terça-feira, 17 de maio de 2011

FAST FOOD

Após algumas voltas na cama tentando dormir mais um pouco, na tentativa frustrada de vencer o cansaço acumulado ao longo das últimas semanas, levantei-me calmamente. Em cada manhã, depois de acordar, não volto a adormecer. O dia espreita e a minha curiosidade é grande. Como será o dia de hoje? E não há nada como saltar da cama e começar a mexer. Só assim poderei ver como é para depois poder contar como foi.


Após os ritos matinais; visita à estomatologista. Há oito dias quando da consulta, esta verificara que tinha o céu-da-boca ferido. Pois não, queimara-me?! Sou daquelas pessoas estranhas que não gostam de bicas a ferver nem de chávenas escaldadas, o que me terá calhado, com a nefasta consequência de queimar a boca. A estomatologista não facilitou ”estas feridas têm de ficar bem saradas, volte cá para a semana, para eu verificar, com esta luz forte, como estará a mucosa” e eu, como sou bem-mandada, lá fui, cumpridos os oito dias sugeridos. Foi maior a espera que a consulta, mas vim com a certeza de que tudo estava bem.


“A manhã vai alta” reclamou o estômago quando saí do Centro Hospitalar de S. Francisco. Parei no Lidle, situado um pouco mais abaixo, para comprar uma banana para entreter a fome. “Em casa, a fruta deve estar a acabar”, lembrei-me então e como descendente de Eva que se presa, comprei também algumas maçãs “vá lá saber-se quando aparece o Adão?!”.


Numa corrida desci ao centro da cidade. Aproxima-se a passos largos o dia da estreia teatral. Este ano cabe-me “assassinar” a personagem “a actriz” da peça “O meu caso” de José Régio. Precisava de completar os acessórios da toillete. Faltavam os sapatos, porque resolvi, ainda sem dizer a ninguém, mudar a minha indumentária. O vestido inicialmente acordado é quente, não só para o calor que tem feito, mas também para actuar no palco do Teatro Miguel Franco, com os holofotes tão próximos de nós. Sei do que falo! É um palco que já pisei muitas vezes.


Comprados os sapatos, dos mais baratos que havia no “Guimarães” ainda fui adquirir lã para confeccionar uma mantinha para a minha neta, trabalho a que possivelmente passarei a dedicar-me entre as três e as sete da manhã…


E foi quando vinha para casa, ao passar junto ao café do Teatro, ao ver pessoas a comer na esplanada, que me perguntei “que vais almoçar, cabeça de vento?” e rir-me com vontade, num sorriso tão aberto que o senhor que se cruzou comigo, mesmo com um relógio no pulso perguntou-me as horas, quiçá supondo que me ria para ele. Mas não, viera-me à lembrança um amigo dos meus tempos de menina para quem, certo tipo de pessoas apressadas, só comia ovos estrelados com batatas fritas, menu que, por isso, se recusava a comer. A minha comida de recurso costuma ser constituída por douradinhos de pescada, com bolinhas de espinafres e castanhas assados em vinte minutos de forno, mas o provimento acabara-se no jantar de ontem. Que contraste com a festa num restaurante do Chacal, no fim-de-semana em Lisboa!


Sou professora aposentada, detesto batatas fritas, mas hoje o meu almoço foi um prato de sopa e um ovo estrelado com salada.


Aliada à pressa, a fome é o melhor dos temperos!