
quarta-feira, 8 de junho de 2011
A VÍRGULA

terça-feira, 7 de junho de 2011
NÃO VENHAS DEVAGAR
Não venhas devagar
com tanta pressa. Deixa
que derrame a fome
nos quintais e a maldição
suspeite do suave
aroma do delírio. Envia
o que te sobra
ou rouba
o mais pequeno passo
por um fio.
JOSÉ CARLOS SOARES
Este perder-se [de Areia de Same], edição do Autor, Porto, 2011.
Publ.em http://hospedariacamoes.blogspot.com/
A selecção foi da minha amiga A.P., a quem agradeço ter-me dado a conhecer este belo poema.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
DEZ COISAS DE QUE GOSTO (entre muitas outras)
S. Martinho do Porto, que mais que um lugar é um estado de espírito. É onde desato os nós da minha alma e onde os sonhos me parecem mais fáceis de concretizar.
Fazer teatro, melhor dizendo "armar barraca". Eis-me aqui, em 16-6-2010, no papel de Januário, na peça "Médico à Força". No palco do Teatro Miguel Franco. Como devem calcular Molière (pobre senhor) estava aos pulos no Além...
Conviver com os amigos. O jantar é um ritual obrigatório (ou quase) das sextas feiras, cujo testemunho não me atrevo a publicar sem a devida autorização dos presentes.
Livros. Gosto de ler e os livros vão-se amontoando na mesa de cabeceira, por falta de tempo, mas o prazer de comprar um livro... a expectativa das palavras não lidas ... Conversas adiadas que não se cansam de esperar...
Cheiros agradáveis, de preferência o cheiro quente fecundo das dunas de S. Martinho depois de uma leve chuvada seguida de uma tarde de sol.
Flores e texturas da Natureza. Que bela buganvília tem a vizinha! É uma ventura abrir a janela da cozinha em cada manhã de Primavera.domingo, 5 de junho de 2011
DEBRUCEI-ME...
Debrucei-me na “Varanda das Estrelícias” e o Álvaro Costa acenou-me:
Cuidado!
No olho do furacão
Nesse triângulo das Bermudas
Que se chama de paixão
Nessa vertigem de águas
Tem cuidado, coração!
Audaz, pois nem conheço o Álvaro, protegida pela distância informática e pelo silêncio da minha sala só quebrado pelo matraquear das teclas do PC, sinto-me incapaz de o deixar sem resposta.
Há paixão com cuidados? Há conformismos no amor?
Ele chegou qual Eróstrato. Traz o fogo no olhar, mas traz também mel nos lábios, suavidade nas mãos, ternura no abraço e em si a encantadora frescura do gesto, sempre diferente, sempre melhor, cada vez mais gostoso.
O encontro é rápido, como rápido é avançar na maré cheia. O mar acomete-os em ondas sucessivas e basta abrir os braços e erguer os pés para serem possuídos e gozarem a posse. Se não tiverem tempo de avançar, a onda rebenta-lhes em cima e leva-os à praia.
Ébrios de movimento erguem-se meio tontos e respiram fundo. Só então sentem no peito a vertigem do mergulho que já deram e apetece-lhes mais.
Tentam de novo, repetem o gesto.
Estão à beira-mar . Tentam respirar. Bem-vindos à vida!
Mais tarde, o Álvaro escreverá
Agora eu sou um pingo
Bem diferente dos demais
…………………………………
Poderei depois ser onda
………………………………
Desfeita em pingos, poalha
Espuma leve na praia
Que depois o vento espalha
E de mim nada na areia...!
Que o Álvaro Costa me perdoe a ousadia, a irreverência. Ele escreve coisas belas e sensuais. Merece ser lido. É fácil encontrá-lo em “Varanda das Estrelícias”.
sábado, 4 de junho de 2011
quinta-feira, 2 de junho de 2011
SAUDADES
O ensaio acabara tarde. Faltam muitos dias para o dia catorze, mas não podemos dispor do Teatro Miguel Franco quando nos apetece. Há que respeitar a calendarização! Então, como nos disponibilizaram a sala, para toda a tarde de hoje, tivemos que aproveitar; desde as marcações de cena ao ensaio geral, aconteceu tudo em tempo recorde. Eu estava cansada, estávamos todas cansadas, mas eu sentia-me feliz, porque representar diverte-me.
Saí e ainda fui ao Turismo cumprimentar as amigas que tinham acabado de inaugurar a mostra de alguns quadros. Um refresco, dois dedos de conversa; possivelmente até foram mais de dois, esqueci-me de contar e dispus-me a retomar o caminho de casa, não sem antes passar pela feira do livro, que ficava em caminho. Buscava, por conta de M., “A Ronda da Noite “ da Agustina. Azar! No último momento esquecera o nome e vim para casa de mãos a abanar, ou deveria vir…
Eram quase vinte horas, estava um fim de tarde fabuloso e eu deixei-me seduzir. Parei o carro perto do Estádio, disposta a passear-me pela margem do rio antegozando já o cantarolar da água junto ao açude.
Afinal a quietude era total. As comportas estavam fechadas e o caudal ia alto. Os patos mergulhando aqui e ali ofereciam aos meus ouvidos o único som cristalino que se justapunha a um ou outro motor de carro e eu ia seguindo inebriando-me de verde, de brilho da água e de luz, na calma deste fim de tarde.
Viu a L. e dei uma corrida, e lá fomos tecendo mais uns minutos de velha amizade. Ela ficou perto de casa e eu voltei. Olhos cheios, alma mimada, no silêncio da tarde.
Um dia hei-de morrer. Pensei cheia de pena. E os cambiantes de verde continuarão a repetir-se em cada ano, salpicados de arco-íris. Que saudades terei do rio Lis!


