quarta-feira, 8 de junho de 2011

A VÍRGULA

- Quero vender-lhe uma vírgula.
- Uma vírgula? - perguntei eu, pasmo. E ele completou:
- Sim, uma vírgula para que continue a escrever seus textos, pois um homem sem vírgulas é um homem sem história.
A partir desse momento, meus olhos se abriram. Descobri que sempre usara a teoria dos pontos finais e não a teoria das vírgulas. Alguém me frustrava? Eliminava-o, colocava um ponto final no relacionamento. Alguém me feria? Anulava-o. Enfrentava um obstáculo? Mudava de trajectória. Meu projecto estava com problemas? Substituía-o. Sofria uma perda? Virava as costas.
Eu era um professor-doutor que usava os livros dos outros em minhas teses, mas não sabia escrever o livro da minha existência. Meus textos eram descontínuos. Considerava-me um anjo, e os que me frustravam, demónios, sem jamais admitir que fora carrasco da minha esposa, do meu único filho, dos amigos e dos alunos.
Quem elimina todos ao seu redor um dia será implacável consigo mesmo. E esse dia chegara. Mas felizmente encontrei esse enigmático homem e entendi que é possível conviver, sem vírgulas, com cachorros, gatos e até com cobras, mas não com humanos. Frustrações, decepções, traições, injúrias, conflitos fazem parte do nosso cardápio existencial, pelo menos do meu e de quem conheço. E as vírgulas são imprescindíveis.



Augusto Cury, O Vendedor de Sonhos e A Revolução Dos Anónimos, Planeta, Lisboa, 2010


Intrigada. Busquei na bolsa a minha caneta preferida. Uma linda caneta em tom vermelho escuro, de tinta permanente, que alguém gentilmente um dia me ofereceu e questionei-me: terei vírgulas para continuar a escrever a minha vida, ou foi a escrever a vida que adquiri as vírgulas?


terça-feira, 7 de junho de 2011

NÃO VENHAS DEVAGAR

Não venhas devagar
com tanta pressa. Deixa
que derrame a fome
nos quintais e a maldição

suspeite do suave
aroma do delírio. Envia
o que te sobra
ou rouba

o mais pequeno passo
por um fio.

JOSÉ CARLOS SOARES


Este perder-se [de Areia de Same], edição do Autor, Porto, 2011.

Publ.em http://hospedariacamoes.blogspot.com/


A selecção foi da minha amiga A.P., a quem agradeço ter-me dado a conhecer este belo poema.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

DEZ COISAS DE QUE GOSTO (entre muitas outras)

Fui ao blog da Carol e vi que me havia sido lançado um repto. Postar aqui dez coisas de que gostasse.
Pois bem aqui estão, dez coisa de que gosto muito, das que gosto mais.


A gente que eu amo. Espero que não me ralhem por ter divulgado aqui as suas caras.


A vida, que as circunstâncias me proporcionaram...


S. Martinho do Porto, que mais que um lugar é um estado de espírito. É onde desato os nós da minha alma e onde os sonhos me parecem mais fáceis de concretizar.
As ondas, mesmo na maré alta, são uma carícia para os ouvidos.
A brisa afaga-me a face e retempera-me o espírito.


Fazer teatro, melhor dizendo "armar barraca". Eis-me aqui, em 16-6-2010, no papel de Januário, na peça "Médico à Força". No palco do Teatro Miguel Franco. Como devem calcular Molière (pobre senhor) estava aos pulos no Além...


Conviver com os amigos. O jantar é um ritual obrigatório (ou quase) das sextas feiras, cujo testemunho não me atrevo a publicar sem a devida autorização dos presentes.


Livros. Gosto de ler e os livros vão-se amontoando na mesa de cabeceira, por falta de tempo, mas o prazer de comprar um livro... a expectativa das palavras não lidas ... Conversas adiadas que não se cansam de esperar...


Cheiros agradáveis, de preferência o cheiro quente fecundo das dunas de S. Martinho depois de uma leve chuvada seguida de uma tarde de sol.
O cheiro de terra molhada...



Flores e texturas da Natureza. Que bela buganvília tem a vizinha! É uma ventura abrir a janela da cozinha em cada manhã de Primavera.



Sons, todos os sons harmoniosos. Desde o chilrear dos pássaros às diferentes entoações da voz humana. E o silêncio! O silêncio cheio de doce intimidade...



Descobrir coisas novas, andar a pé, viajar. E porque não? Ficar assim: a saloia a olhar para o balão!

domingo, 5 de junho de 2011

DEBRUCEI-ME...

Debrucei-me na “Varanda das Estrelícias” e o Álvaro Costa acenou-me:

Cuidado!

No olho do furacão
Nesse triângulo das Bermudas
Que se chama de paixão
Nessa vertigem de águas
Tem cuidado, coração!

Audaz, pois nem conheço o Álvaro, protegida pela distância informática e pelo silêncio da minha sala só quebrado pelo matraquear das teclas do PC, sinto-me incapaz de o deixar sem resposta.

Há paixão com cuidados? Há conformismos no amor?

Ele chegou qual Eróstrato. Traz o fogo no olhar, mas traz também mel nos lábios, suavidade nas mãos, ternura no abraço e em si a encantadora frescura do gesto, sempre diferente, sempre melhor, cada vez mais gostoso.

O encontro é rápido, como rápido é avançar na maré cheia. O mar acomete-os em ondas sucessivas e basta abrir os braços e erguer os pés para serem possuídos e gozarem a posse. Se não tiverem tempo de avançar, a onda rebenta-lhes em cima e leva-os à praia.

Ébrios de movimento erguem-se meio tontos e respiram fundo. Só então sentem no peito a vertigem do mergulho que já deram e apetece-lhes mais.

Tentam de novo, repetem o gesto.

Estão à beira-mar . Tentam respirar. Bem-vindos à vida!

Mais tarde, o Álvaro escreverá

Agora eu sou um pingo
Bem diferente dos demais
…………………………………

Poderei depois ser onda
………………………………
Desfeita em pingos, poalha
Espuma leve na praia
Que depois o vento espalha
E de mim nada na areia...!

Que o Álvaro Costa me perdoe a ousadia, a irreverência. Ele escreve coisas belas e sensuais. Merece ser lido. É fácil encontrá-lo em “Varanda das Estrelícias”.

sábado, 4 de junho de 2011

ROSAS


Serão as rosas, o meu contentamento?

quinta-feira, 2 de junho de 2011

SAUDADES

O ensaio acabara tarde. Faltam muitos dias para o dia catorze, mas não podemos dispor do Teatro Miguel Franco quando nos apetece. Há que respeitar a calendarização! Então, como nos disponibilizaram a sala, para toda a tarde de hoje, tivemos que aproveitar; desde as marcações de cena ao ensaio geral, aconteceu tudo em tempo recorde. Eu estava cansada, estávamos todas cansadas, mas eu sentia-me feliz, porque representar diverte-me.

Saí e ainda fui ao Turismo cumprimentar as amigas que tinham acabado de inaugurar a mostra de alguns quadros. Um refresco, dois dedos de conversa; possivelmente até foram mais de dois, esqueci-me de contar e dispus-me a retomar o caminho de casa, não sem antes passar pela feira do livro, que ficava em caminho. Buscava, por conta de M., “A Ronda da Noite “ da Agustina. Azar! No último momento esquecera o nome e vim para casa de mãos a abanar, ou deveria vir…

Eram quase vinte horas, estava um fim de tarde fabuloso e eu deixei-me seduzir. Parei o carro perto do Estádio, disposta a passear-me pela margem do rio antegozando já o cantarolar da água junto ao açude.

Afinal a quietude era total. As comportas estavam fechadas e o caudal ia alto. Os patos mergulhando aqui e ali ofereciam aos meus ouvidos o único som cristalino que se justapunha a um ou outro motor de carro e eu ia seguindo inebriando-me de verde, de brilho da água e de luz, na calma deste fim de tarde.

Viu a L. e dei uma corrida, e lá fomos tecendo mais uns minutos de velha amizade. Ela ficou perto de casa e eu voltei. Olhos cheios, alma mimada, no silêncio da tarde.

Um dia hei-de morrer. Pensei cheia de pena. E os cambiantes de verde continuarão a repetir-se em cada ano, salpicados de arco-íris. Que saudades terei do rio Lis!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Já não tenho olhos de "mata-borrão", já não há avidez no meu olhar, mas sobra da criança que fui o mesmo encantamento pela vida.