sexta-feira, 24 de junho de 2011

O RAPAZ DA GASOLINEIRA

Apetecia-me passear. Ir até S. Martinho era a ideia, mas o carro não anda a água – forte pena!

Fui abastecer. No acto do pagamento o empregado perguntou “tem cartão?” Não, não tinha. “Então ofereço-lhe este envelope. Se tiver facilidade com a NET, ganha imediatamente quinhentos pontos ao aderir.”

Sorri. “Muito obrigada.”

“Não estou a perguntar-lhe se tem NET em casa, estou a perguntar se tem facilidade em mexer na NET.”

Alarguei o sorriso. “Sim, tenho.”

“Mas tem de concordar que há muitas pessoas, por volta dos quarenta e tal, cinquenta anos que têm dificuldade. Por exemplo: os meus pais…”

Interrompi com um sorriso ainda mais amplo. “É por isso que me recuso a fazer mais de trinta e cinco.”

O jovem corou, mas não se atrapalhou. “Oh! Mas a si, não dava mais de vinte e sete anos.”

Decididamente, o rapaz da gasolineira vale quinhentos pontos!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O DIA DOS PRODÍGIOS

A Isabel regressara de férias e com o seu regresso findara a minha obrigação de presidir interinamente à Junta de Freguesia.

Entregue a “pasta”, na manhã de terça-feira, rumei a S. Martinho do Porto. Foram quinze dias tão “entretidos”, tão trabalhosos, que nem sequer me apetecia “entreter o tempo” como sugere Mário de Sá-Carneiro ao relatar o amor louco de Raul Vilar por Marcela. Quem leu A Loucura lembrar-se-á deste binómio entreter-se/entreter o tempo? Que pormenores me prendem a atenção! Bom, eu precisava de parar o mundo e sair um bocadinho (a quem pertence a ideia? A um dramaturgo francês de que não me lembro o nome), repousando os olhos na vida, absorvendo-a devagarinho, gota a gota, que os últimos tempos foram excessivos. Muito movimento para quem, como eu, gosta de saborear a vida gole a gole, cheirar, adivinhar aromas, apalpar texturas, como quem se regala com um bom vinho. A preocupação não é quanto, mas o quê!

Estava baixa-mar. Já sabia quando saí de casa. Tinha consultado o horário das marés na NET, na semana anterior – sonho antecipado – portanto a alteração não seria grande em relação ao horário conhecido. Confirmou-se.

Passeei-me pela praia, de ponta a ponta, com a despreocupação de quem se equilibra na borda da concha onde guarda a vida que sabe que é sua, como um tesouro aberto à vista de todos que sabe que ninguém vê. Estava sol, mas havia vento. Em S. Martinho sopra quase sempre um vento bom para me desatar os nós do pensamento e me restituir a sensação de liberdade, que a cadência das horas tantas vezes me rouba.

Alma liberta, regressei ao mundo. A esfera voltou a girar.

Foi a meio da tarde, através do telemóvel: “estamos aqui, queremos ver-te”. “Aqui, onde?”. “À tua porta”. E fui de imediato.

Um encontro rápido, vertiginoso, apetecido, conversa louca e num instante quantos anos tínhamos? O tempo a andar sem tino em qualquer direcção…

“Trazemos a tua prenda de anos.” “Onde vão os meus anos…” – contrapus. “Não nos vimos na altura, veio hoje” “Qualquer tempo é bom para mimos… (como se de mimos não tivesse havido já fartura)” e abri o presente.

Da caixa saiu um relógio. Um relógio daqueles que me arrancam sempre um sorriso, daqueles que por brincadeira classifico como “próprios para pessoas inteligentes”: um mostrador negro e dois ponteiros, sem pontinhos que indicassem as horas. Basta um leve conflito com a amplitude, um olhar de lado, uma distracção enviesada e o tempo será o nosso tempo…

“Como tal prenda me assenta bem!” – ri-me – “Nem sei ver as horas neste relógio! Que boa desculpa para não chegar a horas a lado nenhum!”

Quando me aposentei, farta de correr à frente das horas, pus em cada relógio um tempo diferente. Que importavam as horas? Mais minuto, menos minuto tanto faria. Haviam cessado as obrigações e com elas os horários rígidos.

Partiram e voltei à Junta. O Tó Lis, um dos vogais, fazia cinquenta e cinco anos, quis juntar a minha voz ao coro das felicitações.

Quando entrei, uma das funcionárias reparou: “Que lindo CK traz no pulso!” “Bonito será, mas não tem horas” – respondi e ri-me, inexplicavelmente é o único relógio que possuo a marcar o tempo certo.

O tempo certo dos afectos.

Terça-feira, foi o dia dos prodígios.

terça-feira, 14 de junho de 2011

JURO

Quando ensinava crianças do primeiro ciclo do Ensino Básico, começava normalmente, pelo primeiro ano de escolaridade e acompanhava-as até ao quarto ano. Por esses tempos, já lá vão alguns anos, havia necessidade de socializar as crianças, o que se fazia desenvolvendo o discurso oral (e não só), problemática que cabe hoje ao Jardim de Infância resolver.



Tendo em conta a prossecução do objectivo atrás referido, entre muitas outras, uma vez por semana, eu realizava com as crianças uma actividade a que chamava pomposamente desfuncionalizar objectos. Era “um faz de conta” planificado em que eu dava o mote, que poderia ser por exemplo: “hoje vamos pescar”. Caberia então a um dos alunos escolher um objecto que tivesse à mão, por exemplo, o lápis e dizer “eu levo esta cana de pesca”, outro mostrando a afiadeira, acrescentava “eu coloco este anzol que é bom para pescar sardinhas” e assim íamos através de associações criando um texto oral colectivo, desenvolvendo a imaginação e conversando uns com os outros (hoje a dificuldade é conseguir que oiçam!).



É claro que ao longo da escolaridade as actividades deste tipo, fossem elas para proporcionar aprendizagens ou para catarse da minha loucura (como eu gostava de promover tais estratégias!), iam progredindo, passando da invenção de histórias a partir de gravuras, até culminar no nonsense das “histórias sem pés nem cabeça”, sem esquecer, eu nunca esqueci, a aprendizagem da redacção, entendida como texto que obedece a um plano, como texto estruturado, com princípio, com meio e com fim.



No domingo fui a Ourém. Imaginam qual não foi o meu espanto quando à entrada da zona histórica, onde me dirigia, me deparei com o que os vossos olhos podem testemunhar?!





Eu juro, juro e volto a jurar que não tenho nada a ver com este carrinho de rolamentos!
Mas que a banheira andava depressa...isso garanto! Ah! E o travão, aplicado nas rodas traseiras até funcionava!

Afinal há "loucos" que não foram meus alunos!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

CENTO E CEM

“Andava a cair da boca, aos cães” como ironicamente diria meu pai. Aliás esta expressão era ouvida, mesmo muito ouvida, na casa de minha avó Joaquina Joana a propósito da necessidade de tratar fartamente tanto quem cavava a terra andando “à jorna” como “a merecer”. Era uma obrigação alimentar bem os trabalhadores e, além de comida forte fornecia-se vinho farto. “Não quero ninguém a cair da boca aos cães” dizia a minha avó, porque, penso eu, não quereria ninguém faminto. O trabalho era duro!

Talvez pela boca de meu pai, foi a expressão levada para as vindimas de minha avó Isabel, onde o trabalho, na altura todo manual, também difícil, só contava no transporte das uvas com a ajuda dos bois que, pachorrentos, puxavam os carros onde antes se fixavam as pesadas dornas onde se levavam as uvas para o lagar.

A expressão, de tanto uso, tomou raízes. Assim, quando o esforço dispendido começa a ser superior à força disponível, surge para definir o estado à beira do caótico “anda a cair da boca aos cães”.

Era assim que eu me sentia quando da última vez levei a minha mãe à consulta médica. “Doutor, estou mal. Depois de oito horas bem dormidas, sinto-me um saco de batatas sem mercadoria. Mal me ponho em pé, sinto vontade de desabar.” Confessei com vergonha de resumir o meu estado de cansaço com a gíria em moda cá em casa.

E assim, sem mais aquelas, encontro-me a tomar duas “feijocas” ao almoço, dizem que de vitaminas, que me devolveram à velocidade vertiginosa dos “cento e cem”.

Se não afrouxo, ainda me estampo numa curva!

sábado, 11 de junho de 2011

É HOJE

Há dias a Alice telefonara: “queres ir a Alcongosta?”. Num relâmpago pensei: quer enfiar-me naquela caneca que vi não sei onde. Sim, eu tinha lido aquela palavra numa linda caneca e não sabia o que significava. Afinal o cenário era outro. Estava a perguntar-me se queria ir à Festa da Cereja lá para os lados do Fundão, no dia dez de Junho. Bendita ignorância! Anui, pensando que se tivesse juízo aproveitaria o dia para deixar o esqueleto sossegado em cima do colchão e combinámos que no dia aprazado estaria à sua porta, cerca das sete e quarenta e cinco minutos.

Ao fim da tarde do dia nove, fui à inauguração da II Semana Gastronómica da Boa Vista (quem resiste a convites onde a franca camaradagem se mistura com a inigualável qualidade do leitão?) e cheguei a casa às zero horas do dia dez. Daí a umas horas teria de estar à porta da Alice, que se situa uns metros mais abaixo, mas antes prometera ir buscar outra amiga que mora mais longe.

Àquelas lindas horas fiz pataniscas de bacalhau para o farnel (havia prometido que levava) e lá me deitei, tarde e más horas para me levantar às seis e meia dessa mesma manhã.

O despertador tocou e eu não atinava com as teclas para o fazer calar. De olhos fechados é difícil, mas não foi impossível e foi ainda de olhos fechados que cheguei à banheira onde a água do chuveiro mos começou a abrir. Acho que ainda não estariam completamente abertos quando me sentei na camioneta.

Alcongosta cumpriu-se. No horizonte desse dia adivinhava-se uma noite descansada.


Tenho por hábito dizer, quando algo não me corre a contento, “apetece-me atirar ao rio”, mas tenho o cuidado de acrescentar “só não o faço porque a água está molhada”. Na verdade muitas vezes o motivo nem chega a ser esse, pois a água é tão pouca que “nem está molhada” e eu correria o risco de partir a cabeça.

Pois esta manhã aconteceu o impensável. O silvo agudo do despertador, onde eu me esquecera de anular a marcação do dia anterior, interrompeu o melhor dos meus sonos.

É hoje, é hoje que me atiro ao rio. Daqui a bocado tratarei disso, mas levo a castanhola de cana que comprei em Alcongosta, não pensem os patos que dormem, se eu não pude fazê-lo!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A VÍRGULA

- Quero vender-lhe uma vírgula.
- Uma vírgula? - perguntei eu, pasmo. E ele completou:
- Sim, uma vírgula para que continue a escrever seus textos, pois um homem sem vírgulas é um homem sem história.
A partir desse momento, meus olhos se abriram. Descobri que sempre usara a teoria dos pontos finais e não a teoria das vírgulas. Alguém me frustrava? Eliminava-o, colocava um ponto final no relacionamento. Alguém me feria? Anulava-o. Enfrentava um obstáculo? Mudava de trajectória. Meu projecto estava com problemas? Substituía-o. Sofria uma perda? Virava as costas.
Eu era um professor-doutor que usava os livros dos outros em minhas teses, mas não sabia escrever o livro da minha existência. Meus textos eram descontínuos. Considerava-me um anjo, e os que me frustravam, demónios, sem jamais admitir que fora carrasco da minha esposa, do meu único filho, dos amigos e dos alunos.
Quem elimina todos ao seu redor um dia será implacável consigo mesmo. E esse dia chegara. Mas felizmente encontrei esse enigmático homem e entendi que é possível conviver, sem vírgulas, com cachorros, gatos e até com cobras, mas não com humanos. Frustrações, decepções, traições, injúrias, conflitos fazem parte do nosso cardápio existencial, pelo menos do meu e de quem conheço. E as vírgulas são imprescindíveis.



Augusto Cury, O Vendedor de Sonhos e A Revolução Dos Anónimos, Planeta, Lisboa, 2010


Intrigada. Busquei na bolsa a minha caneta preferida. Uma linda caneta em tom vermelho escuro, de tinta permanente, que alguém gentilmente um dia me ofereceu e questionei-me: terei vírgulas para continuar a escrever a minha vida, ou foi a escrever a vida que adquiri as vírgulas?


terça-feira, 7 de junho de 2011

NÃO VENHAS DEVAGAR

Não venhas devagar
com tanta pressa. Deixa
que derrame a fome
nos quintais e a maldição

suspeite do suave
aroma do delírio. Envia
o que te sobra
ou rouba

o mais pequeno passo
por um fio.

JOSÉ CARLOS SOARES


Este perder-se [de Areia de Same], edição do Autor, Porto, 2011.

Publ.em http://hospedariacamoes.blogspot.com/


A selecção foi da minha amiga A.P., a quem agradeço ter-me dado a conhecer este belo poema.