Os lobos solitários uivam para chamar os iguais. Escolhem os sítios altos para que o som se expanda, por isso, uivam à noite quando o tempo vai alto e o ar rarefeito. Mesmo assim o tempo tem muito tempo… e se os iguais não acodem, entretêm-se a observar.
É quase igual para as lobas. Digo quase, porque para elas, o tempo ainda tem mais tempo… recolhem mais cedo.
Quando a minha casa e a de minha prima M. distava cerca de cento e cinquenta metros, num quase perfeito ângulo recto e as minhas filhas e o filho dela, seis meses mais novo que a minha filha mais velha, eram pequenos, juntávamo-nos ao fim-de-semana, em sua casa. Nas noites de sexta-feira (nas outras a garotada estava na cama obrigatoriamente às vinte e uma horas), muitas vezes, cerca da meia-noite, fazíamos um piquenique na marquise. Começávamos por escolher a receita do bolo, que as crianças ajudavam a confeccionar, nada de varinhas mágicas, para que todos tivessem trabalho e depois deste cozido, enquanto arrefecia, fazíamos o chá.
Um dia a I. descobriu “mamã, fazemos o piquenique a esta hora porque as formigas estão a dormir, não é?” “Claro!” – Respondi – “Assim deixamos-lhes umas migalhas que comerão sem nos incomodarem.”
E o piquenique das sextas-feiras, com um pé na madrugada de Sábado, virou um hábito nas nossas vidas, até que a prima M. mudou de casa. Depois mudámos nós.
Após a loucura daqueles piqueniques em que o Sol era a nossa boa disposição e a alegria das crianças, eu tinha de voltar para casa com as filhotas. M. perguntava “não tens medo?” e eu ria ”medo de quê?”. À esquina, bem no vértice do ângulo formado pelos segmentos de recta que separavam as nossas casas, estavam os “cavaleiros da noite”, entre os quais o meu primo, marido de M., falando de lutas com moinhos de vento. Os lobos uivavam juntos! Conhecia todos, tínhamos crescido na mesma alcateia. Se precisasse de ajuda, aquela legião de cavaleiros andantes desembainharia a espada e correria em meu auxílio. A loba recolhia à toca com as crias. Os lobos continuavam uivando ao luar.
Cresceram as crianças. A vida divergiu. E a loba continua só, mais só ainda, com as filhas longe.
Só? Quando? Pergunta cada uma per si. “Em casa não te apanho, se ligo para o fixo” – reclama uma – “quando ligo, estás num jantar, numa reunião, ou vais a caminho de alguma coisa” – reclama a outra.
Mas há tempo, sempre muito tempo, esse que me entretém, do qual as filhas reclamam e o outro, aquele que eu entretenho, por isso até chegar às redes sociais, foi um pulo bem pequeno. Comecei com o Hi5, por conta dos meus amiguinhos do curso de Solicitadoria, depois outra e mais outra, embora não ache muito interessante andar a espalhar aos quatro ventos, coisas da minha vida.
No Hi5, “ralho” com as amiguinhas, quando as suas publicações me parecem exceder o razoável. Ainda há dias aconteceu. Uma das melhores alunas do meu curso, de longe a mais trabalhadora e a que melhores relações de entreajuda estabeleceu com todos os colegas, também a mais jovens de todas, apareceu numa publicação que poderia prejudicar o seu futuro profissional e eu contestei. Ela zangou-se. Mandou-me de seguida quatro comentários, cada um mais azedo que o outro, aos quais não respondi. Ela precisava de verter a raiva pelas dificuldades com que se depara na luta pela vida, mas… apagou a foto. Não se lembrarão estas jovens que o possível empregador pesquisará na NET o que há sobre as suas vidas? Por sua vez a minha filha mais nova ralha comigo “tens alguma coisa a ver com a vida das miúdas?” E eu reconheço que são as minhas vísceras de professora e mãe (nem sei qual a verdadeira ordem delas…) que desnecessariamente estão sempre a funcionar.
Presentemente descobri na NET um fenómeno que me fascina. Tendo em conta a definição não sei se poderei falar em fenómeno social, mas o caso não deixa de ser interessante para uma leiga como eu.
No meu deambular pelas redes sociais, foi-me dado observar o seguinte:
· . . Muitos homens publicam fotos da juventude em vez de fotos que correspondam à idade real, o que me parece não acontecer com as mulheres;
· . . Muitos homens criam páginas diferentes com fotos de fases da vida diferentes e com nomes diferentes, o que nunca me apercebi que as mulheres fizessem;
· . .Muitos homens (não fora o meu desejo de rigor e diria quase todos) publicam fotos desactualizadas nas páginas das redes sociais.
E creiam que fiz outras observações que reservo por não caberem no âmbito do texto que me proponho.
Perante tais evidências pergunto:
Serão os homens mais vaidosos que as mulheres?
É o instinto da caça que os leva a lançar as armadilhas das diferentes páginas com diferentes nomes e diferentes fotos?
Será que os lobos se estão a transformar em hienas?
Ter-se-á alguém lembrado que o assunto talvez desse óptima tese de mestrado?
Estava eu a escrever este texto, com o Outlook Express aberto, como é meu hábito, quando recebo uma mensagem do Badoo cujo texto tomo a liberdade de vos transcrever por me parecer interessante.
Carlos jorge — 10:56
...Pensei.....e se ontem fui o Guilherme e hoje sou Carlos...pouco ou nada mudou...e...assim...decidi.....vou deletar o meu perfil...criei amizades virtuais...e...até amigas reais!! ...MAS...Agradeço a vossa simpatia... Um caloroso beijinho..."MENSAGEM ENVIADA A TODAS AS AMIGAS"
Isabel — 10:57
O que leva um homem a apresentar-se com personalidades diferentes numa rede social?
Isabel — 10:58
e por vezes até com fotos de idades diferentes?
Carlos jorge — 10:59
deixa lá...xau
Isabel — 11:00
gostava que respondesses para satisfação da minha curiosidade
Isabel — 11:00
está assim com tanta pressa?
Eu queria mesmo a resposta que o dito Carlos Jorge não estava interessado em fornecer-me e, fui rapidamente à sua à página “gostaria de andar de balão com uma garota” aproveitei a ideia.
Isabel — 11:01
A tua ideia de andar de balão é originalíssima
Carlos jorge — 11:04
pois...costumo ir para o Alentejo...voar de balão..quanto às mudanças de nome...apenas foi uma forma de me defender de uma amiga...impossível..
Carlos jorge — 11:04
Queres ir andar de balão?
Isabel — 11:04
Nunca andei, mas a ideia é sedutora.
Carlos jorge — 11:10
deixa aqui um contacto alternativo...que eu faço convite formal....
Isabel — 11:10
Isso é o que eu chamo velocidade supersónica. Ainda nem respondeste às minhas perguntas.
Isabel — 11:12
Usas gasolina de avião? Isso não são octonas a mais? (lol)
Estava mesmo a usar gasolina de avião, já tinha levantado voo com outra que dera corda ao motor. Eu fiquei em terra para vos contar a história.