sábado, 30 de julho de 2011

S. MARTINHO DO PORTO

PASSEIO AO FAROL
Da janela do meu quarto era fácil: Oh, pst! Mande-me a bica, Faxavori!
Descia o cestinho de verga por um cordel, montado na varanda com um velho carrinho de linha a servir de roldana e lá ia o café fumegante a espalhar o cheirinho por ali acima! (assim como é mentira, poderia ser verdade :) )
Já no morro do farol, que objectiva resistiria a esta prova irrefutável de que a terra é redonda?!
Farol à vista! Não é o mar que pesa mais de um lado do que do outro. É a minha máquina que é meia torcida... A povoação ao fundo é Salir do Porto.
Debrucei-me para ver melhor...
A barra. No morro em frente (dunas de Salir do Porto) situam-se as ruínas da Capela de Santa Ana e a pequena concha é a praia de S. Romeu, que se situa do lado oposto à foz do rio de Salir.
Esta foto foi só para registar o pouco que resta do muro do farol. A última vez que aqui tinha estado ainda havia muro em toda a volta. Deve ter caído recentemente... (lol)

Tal com previa o Fernão Capelo Gaivota não quis nada com a minha objectiva. Aliás o contrário é que seria de admirar pois não regulei a máquina para instantâneos. Talvez num próximo encontro consiga convencê-lo a pousar para mim.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

CRÓNICAS DE S. MARTINHO DO PORTO

FÉRIAS DE 23 A 29 DE JULHO

I – Causas Remotas


Dia quinze de Junho, quando estacionava o carro no Largo da República vi a “Carol” do outro lado, em frente à Câmara Municipal.

Chamei e pude comprovar que ouve bem, mesmo com o barulho do trânsito olhou para trás e veio ao meu encontro. Cumprimentámo-nos e rimos, porque de risos se fazem sempre os nossos encontros.

Expliquei-lhe que andava a correr feita tolinha de um lado para o outro, sem jeito de chegar a “sítio certo”. “Vê tu, que hoje apeteceu-me comer peixe ao almoço, peguei numa posta de peixe congelado e cozi-a tal como estava”.

A “Carol” riu-se. “Mas isso é o que eu dou aos meus gatos.”

Foi aí que percebi: já nem me alimentava, comia para matar a fome!

Com alguns bons propósitos de mudança a fervilhar na mente separámo-nos. E segui apressadamente para a Festa de Encerramento de Actividades da Academia de Cultura e Cooperação.

“Tive tanto receio que não pudesses vir…” comentou a minha professora de Filosofia dos idos tempos de Liceu, que, pelos vistos, ainda não estará farta de me aturar. “Lastimo desiludi-la, mas a Senhora não se livrará de mim facilmente.” – Brinquei.

“Preciso de férias.”

A ideia começara a desabrochar na minha mente.

II – Causas próximas

1 - Mesmo achando que precisava de férias continuei no mesmo ritmo. Horários loucos, rotinas desfeitas.

Depois de ingerir aquele iogurte líquido, de prazo expirado há mais de oito dias, esquecido algumas horas numa tarde quente sobre a minha secretária, sobreveio a gastroenterite que quase me virou do avesso.

E a crítica velada das amigas ”como é que uma coisa destas acontece contigo?” E eu sem coragem para confessar que só reparara na data do iogurte depois de a médica ter perguntado se não estaria fora de prazo…

A que ponto chegara a confusão!

“Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga”, a conclusão é velha e sobejamente comprovada.

Decididamente, precisava de férias.

2 – A minha amiga I. A., não aquela com quem convivo diariamente na JFM, mas outra, colega de Liceu, dos anos de adolescência, tentava convencer-me “se saísses daqui, ia uns dias de férias contigo” “Uma semana” – sugeria ela.

Tanto insistiu que acabei por anuir: “Para onde queres ir?” “Pode ser S. Martinho do Porto” – disse-me.

Ora ali estava acabada de proferir a locução substantiva própria dos meus encantos.

“Não tens que fazer, pega no telefone e marca”. E acrescentei à laia de aviso prévio: “Não há almoços em “A Casa”, nem na “Royal Marina”. “Só uma vez.” – Pediu I.A. “Nada disso” – garanti – “e antes de confirmares a marcação submetes os preços à minha aprovação”. A entrada seria a 23 e saída a 29, porque teria de voltar a casa com tempo de preparar tudo para a estada em Lisboa. Sim, porque a partir do dia um de Agosto vou sentar-me a perscrutar o céu. Quero ver chegar a cegonha: Express mail de Paris com a Rita pendurada no bico.

O André diz que não é assim que vai acontecer “Ó avó (ele abre o “a”) não percebo essa conversa da cegonha. A Rita está na barriga da mãe”. Pois, mas a avó não abre não da poesia!

Aí vinham as férias…

CRÓNICA ZERO

Antecipei as minhas férias uma semana, pois em princípio e com alguma relutância seriam só no mês de Agosto. Digo com relutância porque os outros elementos do executivo também precisam de descansar e o mês de Agosto é o mais pretendido, por isso foi com um certo pudor e uma grande conversa com todos que marquei os vinte e dois dias seguidos, mas a chegada da Rita…

A Rita e o André são a justificação de todas as loucuras da avó, pelo facto desta desconhecer em que medida será necessária à filha para além do prazer de se quedar a admirar os netos…

Marcadas as férias, na Pensão Atlântica, I.A. desistiu. “Arranjei quem me leve a Melgaço e só poderá ser nessa semana”.

Tudo bem, com companhia ou sem companhia eu iria para S. Martinho.

CRONICA PRIMEIRA

Sábado, 23 de Julho

Acordei cedo, como sempre acontece e enfiei a na mala a roupa que na noite anterior dispusera sobre a cama de um dos quartos vagos.

Convidara Z., a minha filha mais nova, para passar o fim-de-semana comigo e ela aceitara.

Admitira a hipótese de almoçarmos juntas em S. Martinho do Porto, mas quando fui despedir-me de minha mãe ao Lar, cerca do meio-dia, senti-a tão velhinha, tão desprotegida … “qual é a pressa?” questionei-me e resolvi ficar mais um pouco para lhe dar o almoço. Ela tem dificuldade em levar a colher à boca e não espera pacientemente que tratem dela. Não gosta de se render às suas incapacidades.

A quem sairei eu, mais teimosa que o burro que o meu pai nunca teve?

Telefonei a Z. “Almoço em Leiria” “Já vou a caminho” – respondeu – “encontramo-nos lá”.

Mais tarde recebi uma sms “Já cheguei e não é que está sol?!

O humor cáustico do Luís Soares a dizer gracinhas pela boca da neta.

CRÓNICA SEGUNDA

Domingo 24 de Julho

Despertei e mantive-me quietinha no leito esperando que Z., a dormir na cama ao lado, acordasse.

Depois dos cuidados habituais da manhã fomos tomar o pequeno-almoço. O café com leite avisou que o meu aparelho digestivo ainda não estava bem. Andei com o estômago atravessado na garganta toda a manhã; só à hora de almoço o consegui engolir com umas colheres de sopa.

Z. desafiou-me e fomos até ao Farol. Há quantos anos não ia ali? Não tenho dedos que cheguem para contar!

As gaivotas planavam desfiando o meu amadorismo fotográfico e eu bem tentei, até com a máquina de Z., mais moderna que a minha, mas acho que não consegui qualquer registo digno de nota. A Fernão Capelo não apetecia pousar para a minha objectiva!

Enchi os olhos de mar e os cabelos de vento e regressei com a certeza de que um dia, levada pelo meu cavalo verde, planarei melhor que Fernão Capelo Gaivota. A ternura, o carinho, a intimidade, o sentido do outro, serão mais azuis que o firmamento ensolarado desta manhã de Verão.

CRÓNICA TERCEIRA

Segunda-feira, 25 de Julho

A Z. foi embora ontem, às vinte e uma e trinta e eu fiquei comigo.

Vi dançar o rancho de nem sei que zona que se exibia no palco perto da pensão e passeei por aí. A noite estava agradável. Muito diferente do fim de tarde ventoso.

Entretive tão bem o tempo que nem notei que passou e acabei por deitar-me cerca da uma hora.

Abençoada imaginação.

Hoje o dia amanheceu ensolarado. Único “senão” esqueci-me de encomendar as férias com a baixa-mar de manhã e fui passear até Salir pelo passadiço das dunas quando prefiro ir pela areia molhada.

No regresso vinha eu a pensar em amores-perfeitos: já me ofereceram tantas flores, ramos tão originais, outros tão sofisticados e nunca me ofereceram um ramo de amores-perfeitos… Talvez o meu cavalo verde traga um preso na orelha… e na curva do passadiço, à saída de Salir, um senhor mete conversa comigo. “Quarta-feira, já não teremos vento” “Fraco consolo!”- sorri – “Vou embora na sexta” “Ainda gozará dois dias de calor” e ali ficámos uns minutos à conversa por conta do vento do nosso descontentamento.

A solidão tem destas familiaridades!

CRÓNICA QUARTA

Terça-feira, 26 de Julho

Não sei se choveu de noite se o nevoeiro foi muito denso. Esta manhã estava tudo molhado.

Tardei mais na cama e, depois do pequeno-almoço, passeei pela parte alta da vila. Entrei na igreja. A. diz que gosto de ”papar igrejas”, mas eu gosto é de arte e sobretudo da paz que aí se respira. Este S. Martinho é único. Não conheço outro oficial romano cujo manto seja verde. Como não hei-de gostar dele?

Embrenhei-me pelas ruelas estreitas e, sem saber como, vi-me em frente ao primeiro prédio onde, segundo conta minha mãe, pernoitei pela primeira vez em S. Martinho, tinha então seis meses de idade.

Desci ao cais e encaminhei-me para Salir, o meu passeio de afectos tantas vezes percorridos. Em manhãs como a de hoje a duna e a brisa envolvem-me num cheiro quente que me delicia os sentidos e fui caminhando pelo passadiço, sem pressas, absorvendo a quietude da manhã a que o denso nevoeiro dava um toque de mistério. Depois da curva do passadiço, quando este se torna paralelo ao rio, parecera que alguém cuidadosamente estendera um manto de silêncio para que a vida pudesse repousar.

Havias gaivotas pousadas nas pedras que se viam no meio do rio, algumas pessoas deslocavam-se na margem esquerda, como em câmara lenta, pelo sopé da duna, um cão entrou na água direito às gaivotas, para logo se deter como que arrependido de perturbar tal sossego, o ar mais rarefeito dava ao ambiente um aspecto etéreo e, quando de repente ouvi chamar: “Maria” – pensei que era S. José procurando N. Senhora.

O Paraíso terá de ser assim!

CRÓNICA QUINTA

Quarta-feira, 27 de Julho

A manhã estava ensolarada como a tarde de ontem deixava adivinhar. Só o vento norte não tinha partido como prometera o senhor de Segunda-feira.

A pequena diferença no horário das marés ainda não permitia o gostoso passeio pela areia molhada.

Voltei mais uma vez a Salir pelo passadiço das dunas, desta vez gozando a vista prodigiosa da baía iluminada pela luz forte da manhã.

À volta, por alturas em que a regularidade do passadiço dá lugar às chulipas; penso que na fronteira entre as duas freguesias S. Martinho e Salir, ambas do Porto, uma voz clama: “Miguel trava. Isto é montes a descer. A mãe vai com a mão no travão”.

O Miguel, talvez uns três anos de gente, equipados a preceito, com capacete e tudo, montado numa bicicleta com rodinhas, pára, vira-se para trás e pergunta: “Mãe o que é montes a descer?”

Depois há pessoas (poderia dar exemplos, mas não me acuso) que clamam contra o acordo ortográfico, porque gera dupla grafia!!!!

E se fossem andar de bicicleta para aprenderem uma dupla linguagem?

CRÓNICA SEXTA

Quinta-feira, 28 de Julho

Estava eu no Ocean Place, banqueteando-me, frente ao mar, com um dietético cozido à portuguesa quando os meus olhos tropeçam no LCD colocado na parte de cima do pilar da esquerda.

Um senhor ministro, cabelos brancos muito penteadinhos, fato a preceito, engravatado como manda a etiqueta, falava sem que o ouvisse, mas em rodapé pude ler a brilhante expressão: “As coisas podem não ir bem, mas também não vão mal”.

Eu passara a manhã na praia, a rir-me com a minha amiga Zinda por conta das peripécias dos tempos em que trabalháramos juntas na Escola de Ortigosa, que ela narra com tal mestria que quem a ouve julga ser anedota o que aconteceu de facto, fruto da nossa juventude e boa disposição. Talvez por isso veio-me à memória a amiga, algo desbocada, casada com um senhor oficial aviador (da academia) que desejava que ela se exprimisse com vocabulário mais elaborado.

Pois certa vez, na presença do marido e referindo o gosto duvidoso de um superior hierárquico, que não o nosso querido J.P., homem de gosto requintadíssimo, ela, que se ia exprimir em português vernáculo, conseguiu emendar a tempo: “ Trazia um fato cor de … cor de… cor de caca de galinha”.

Pois Senhor Ministro, parafraseando a minha amiga C.C., deixe que lhe diga: “As coisas podem não ir bem, mas também não vão mal, vão uma grande caca de galinha”.

CRÓNICA SÉTIMA

Sexta-feira, 29 de Julho

Estou de volta a casa.

Tinha à minha espera “O HOMEM DE LÁBIO TORCIDO” que saltou de A MINHA (DELE) TRAVESSA DO FERREIRA. E vinha acompanhado com “queijinhos” do Henriquamigo!

Muito obrigada Henriquamigo, pelo livro e pelos “queijinhos”. Faça mais concursos lá pela Travessa “cagente” gosta de ler. Queijinhos também para si.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

FIM-DE-SEMANA


Quem quer dar um mergulho?
(Praia de S. Martinho do Porto vista do alto da duna de Salir)

domingo, 17 de julho de 2011

AMOR-PERFEITO

A música inconfundível do telemóvel ecoou cedo na manhã de Sábado.

Era A. “olá” atendi eu. “Tenho uma notícia muito triste” – disse-me. Fiquei expectante; seguiu-se uma pausa. “Triste para mim” – acrescentou. “Então?” – encorajei-o – “que te aconteceu, rapaz?” “A minha mãe morreu” e senti que do outro lado se desfizera em lágrimas…

A. é um “rapaz” da minha idade. Conhecemo-nos em plena adolescência, aí pelos treze anos, em S. Martinho do Porto, num Verão em que a tia, de nome Amélia, como minha mãe e o primo, também da minha idade, foram meus vizinhos de barraca. O tio, militar de carreira, a cumprir mais uma missão no Ultramar, conhecê-lo-ia mais tarde. Os pais de A. conheci-os nesse mesmo Verão, num passeio à fabulosa quinta dos tios, situada entre S. Martinho e Nazaré, num espaço que se estendia até ao mar, onde a costa era batida por ondas altas. Ondas fabulosas que eu aproveitava para admirar quando o caseiro me obrigava a dar descanso ao burro que não me cansava de montar.

É raríssimo ver A., mas de vez em quando ouço-lhe a voz: “Está tudo bem? A tua mãe? Só queria saber como estavam.” Manda-me beijinhos para a despedida e a conversa fica por ali, até uma próxima oportunidade em que acontecerá exactamente igual.

Sábado foi diferente. Assim, hoje, logo pela manhã, fui à florista e composto o ramo cujo destino era acabar desfeito e repartido pelos três: por ele, por mim e pelo primo, para o lançarmos à sepultura na derradeira despedida, pus-me a caminho.

Celebradas as exéquias, a caminho do cemitério, seguindo a pé, dois passos atrás de A. curvado pela dor e mimado pela companheira, perguntei-me onde estava o homem destemido que findo o curso de electricidade partiu à aventura para o Médio Oriente, pouco mais sabendo de inglês do que dizer yes. E enterneceu-me reparar que a curvatura daqueles ombros simbolizava o que vale na vida de um filho o amor incondicional da mãe.

Amor porque sim, desinteressado, inesgotável, amor de que nem nos apercebemos, enquanto dele podemos usufruir, porque se dele déssemos conta, sufocávamos.

Foi para estabelecer a analogia que Deus inventou as flores: o amor de mãe é um amor-perfeito.

À minha frente, A. seguia vergado por não ter mais o amor incondicional de sua mãe. Tanto lhe pesava o vazio!


(Nem todos os homens gostarão de flores, mas a comparação é igualmente verdadeira para os pais.)

sábado, 16 de julho de 2011

O PENSAMENTO MÁGICO

Alguém, a propósito de uma decisão tomada há dezenas de anos escrevia: “sobre isso não falo, porque ainda me dói” e eu sorri porque àquela distância a névoa trouxe-me umas bochechas rosadas que só encontram paralelo nas do meu lindo neto e só consegui vislumbrar naquela névoa os seus joelhos “avó fiz dói-dói” e o impulso foi afagar-lhe a face e dar beijinhos no sítio magoado.

Sempre que tenho de tomar uma decisão, analiso a situação de todas as formas possíveis e imagináveis, pondero prós e contras de forma aberta e esclarecida, oiço quem me parece ser de ouvir, muitas vezes até quem me parece não ser, angustio-me (ó se me angustio), até optar e responsavelmente sigo em frente pelo caminho menos caminhado, porque isso faz a diferença, convicta de que farei o melhor que sei, o melhor que posso, de que essa é para mim a melhor maneira de continuar, porque essa, para mim, é a melhor escolha. Uma escolha que fiz em liberdade, com amor, com dedicação, com empenhamento e sobretudo com sentido de responsabilidade.

Quantas vezes errei nas opções? Quantas vezes tive de refazer a rota? Que importa a resposta?! O que importa é a força, a força de seguir em frente na busca do que quero, sem abdicar do sonho.

Nunca fui tentada por isso a olhar para trás e pensar “E se em vez de ter feito assim tivesse feito… “ Isso é o pensamento mágico. O traiçoeiro canto de sereia do nosso subconsciente insatisfeito. Isso é vã tortura. O tempo não volta para trás. E, se em determinadas alturas da vida fizéssemos opções diferentes das que fizemos, também hoje não seriamos quem somos, seríamos outras pessoas, que não nós.

A vida toca-se para a frente e enquanto estivermos vivos temos de nos sentir vivos e não ficar amorfamente a pensar num hipotético passado que nunca foi nem seria, mesmo que pudéssemos voltar atrás. Se as coisas não estão bem de uma maneira, terão de ser feitas de maneira diferente.

Gostaria de deixar aqui a mensagem de que o sentido da vida está na luz das estrelas quando a vislumbramos acordados, em pleno dia e não no facto de soprarmos as velas rotas de moinhos do passado.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

LOURIÇAL

Ontem, teve lugar a última caminhada desta época, promovida pelo INATEL. Foram sete quilómetros a pé, em passo largo entre Fonte da Pedra e Louriçal num percurso, primeiramente entre pinheiros e eucaliptos, algumas vezes quase a corta mato, depois à sombra dos choupos perto da linha de água o que, à mistura com o cheiro dos campos, tornou a caminhada muito amena.

No Louriçal, as cegonhas abundam. Deixei-me encantar a tal ponto que perdi o grupo de vista. E quando cheguei aos arrozais esqueci completamente se haveria algum porto onde tinha de arribar.

Numa curva do caminho lá estava a “minha” Carma. Ela também tinha ido e vendo que eu ficara “sabe Deus onde” resolvera esperar até que eu aparecesse.

Andámos às amoras e até provámos umas uvas “desprotegidas” que encontrámos no caminho.

Enchi os olhos de verde e os ouvidos com o chilrear dos pássaros. Fotografei o que me apeteceu e segui sem pressas.

Chegámos com mais de trinta minutos de atraso em relação ao pelotão da frente, mas ainda chegámos cedo. Havia quatro pessoas perdidas que, embora caminhassem no meio do grupo, não se tinham apercebido que o percurso estava marcado com fitas. Felizmente havia familiares entre os presentes e foi fácil encontrá-las com o apoio dos monitores locais.

Seguiu-se o almoço. A actuação do Grupo de Cavaquinhos do Louriçal e a visita ao Convento das Carmelitas e aos Monumentos que já conhecia e de que aqui já dei notícia a propósito de um outro passeio.

Saímos de Leiria e chegámos ao parque de merendas de Fonte da Pedra. Aqui foi servido o pequeno-almoço: pão com mel, café, leite e biscoitos de azeite. O Sr. Presidente da Junta fez o discurso de boas vindas, ofereceu-nos um boné, uma garrafa de água e começou a caminhada.

Antes de tudo isso ainda tive tempo de me deliciar com o deslizar dos patos do lago artificial do Parque de merendas e
dar dois dedos de conversa com este senhor que aguardava que o forno estivesse com a temperatura certa para cozer o pão cuja massa se encontrava a bom recato neste alguidar.
Ainda indaguei o que se cozinharia no pequeno forno que se situava uns metros mais à frente, de onde exalava um delicioso cheiro a louro queimado e quando soube que seria javali assado com batatinhas estive vai não vai para desistir da caminhada e ficar por ali a "fazer exercício" ... outra modalidade...

Eis a fonte que deu o nome ao lugar.
O trilho não se via muito bem... Ou seriam as minhas lentes embaciadas...
Van Gogh passou por aqui?
Primeira paragem: Ribeira de Santo Amaro. Havia imensa gente a encher garrafões e garrafões de água. A questão é que se era a ribeira que vi que alimenta a fonte e deverá ser, esta encontra-se coberta de "não me esqueças". Não será isso pronúncio de poluição? De excesso de químicos na água?
Parte do percurso, já perto do Louriçal, junto à linha de água.

Palavras para quê? O letreiro diz tudo - Louriçal
Nas margens do curso de água, este fabuloso manto de umbelas. Esta inflorescência é usada no Norte para enfeitar andores (à mistura com outras flores).
À chegada ao Louriçal. Não é a igreja que está torta. Isso é um efeito artístico de quem é pouco habilidoso com a máquina fotográfica (eu sei quem é mas não me acuso)
Começou aqui a "loucura" das cegonhas. Neste ninho, que se situava muito longe, divisavam-se quatro aves.
Atenção, muita atenção! Para aquele lado fica a terra onde (por acidente ) nasci. Quem adivinha onde foi?
Na década de sessenta do século passado, nos manuais do 4.º ano de escolaridade, os pássaros eram usados para transmitir todos os valores relacionados com o lar, com a vivência em família, como exemplo de tudo o que de bom haveria na relação entre pais e filhos.
Com a foto desta cegonha bebé a espreitar do ninho eu garanto que se podem alargar os conceitos.
Aqui está um bom exemplo de como se podem rentabilizar os recursos. Estão a ver como se pode ter a casa iluminada sem pagar a factura? Não é preciso dizer mais...
Mas se aquela imagem não chega, aqui deixo o exemplo da vizinha do lado...
Foi aqui que me atrasei. Não era muito mais interessante que a localidade se chamasse "Casais do Além". Mania de baptizarem as terras sem me perguntarem a opinião!
E o grupo lá ia e eu cá atrás de boca aberta a olhar para as cegonhas...
Quem não se fascinaria com estas heras a treparem pelos eucaliptos?
Que ave é esta no meio do arrozal? Digam-me que eu não sei.
Há quantos anos eu não via destas plantas? Também já nem sei o nome (que vergonha, que ignorância!)
O verde maravilhoso destes arrozais!
O Grupo de Cavaquinhos do Louriçal que actuou para nós após o almoço. Foi óptimo. Mereceu os nosso melhores aplausos.
Árvores do adro da Igreja de Santiago. Igreja Matriz do Louriçal.

sábado, 9 de julho de 2011

PONTES

Sou a filha mais nova, muito mais nova de um casal com dois filhos. A cegonha deixou-me escorregar pela chaminé na madrugada de um longínquo Domingo, doze anos, doze dias e doze horas depois de meu irmão ter nascido; isto nos anos comuns, nos anos bissextos os dias passam a treze.

A minha mãe nunca fez segredo: não pretendia ter mais do que um filho, mas eu apareci e fui bem-vinda; do meu pai nunca soube a opinião, nunca se manifestou sobre o assunto. Honestamente, acho que a minha mãe também deveria ter guardado a opinião para si e eu nunca deveria ter sabido, porque o conhecimento de tal facto, numa criança como eu, com um mundo interior tão vasto e uns olhos de mata-borrão para as minúcias do mundo, à mistura com um ou outro gesto de impaciência de minha mãe, que seria impossível não acontecerem, geraram o sentimento de carência, que ainda hoje conservo bem guardado no fundo do peito.

Nunca me senti suficientemente amada e isso deriva do facto de saber que o meu irmão foi o filho preferido. Na verdade ele era um hino à simpatia: extrovertido, brincalhão, uma história a propósito de tudo e uma vida curta em ritmo acelerado que terminou ao terceiro enfarte do miocárdio, ainda bem novo.

O meu pai dizia muita vez “não tem juízo, não se cuida, há-de dar-me o desgosto de morrer antes de mim”. E aconteceu: morreu cerca de quinze meses antes de meu pai que, acamado devido a um AVC, não teve a capacidade de se aperceber do facto.

À dor provocada pela morte de meu irmão, que eu estupidamente (nem há outro advérbio), mesmo vendo-o terrivelmente doente achava que nunca ocorreria, juntou-se a dor de minha mãe, absolutamente desfeita, numa mágoa tal que só quem tenha passado pelo mesmo desgosto saberá avaliar, numa raiva absolutamente incontida, numa revolta tão dura contra tudo e contra todos, que um dia vi-me obrigada a olhá-la nos olhos e dizer-lhe “mãe, por muito que o desejasse, não poderia morrer no lugar do meu irmão. Ninguém poderia!”.

Poupo os pormenores, mas foi a partir desse dia que acalmou e pôde estabelecer a ponte, a sua ponte e começar o luto. Não era uma ilha isolada na dor; havia mais quem amasse e sofresse com a morte do seu filho, havia quem estivesse disposto a ouvi-la; havia quem entendesse o que sentia.

E não será isso o que inconscientemente todos procuramos? Não queremos todos estabelecer pontes que terminem com o nosso isolamento? O problema não estará no facto de não sabermos o que nos isola? De não termos consciência de que facto ou factos da nossa vida nos magoaram ao ponto de nos fazerem cortar a comunicação com os outros?

Quantas vezes pesa em nós o silêncio da noite? Quantas vezes nos sentimos incapazes de ouvir a voz das nossas próprias mágoas?

Será por isso que nos entretemos nas redes sociais, fingindo comunicar, pervertendo o sentido da palavra AMIGO?