sexta-feira, 9 de setembro de 2011

AINDA

Falava-lhe do tempo. Queixava-me. Implacável não se compadecia com o meu ritmo. Não esperava por mim. Passava. Ia sem que sentisse.

O amigo olhou-me, com aquela ternura de que só os amigos são capazes e comentou “ainda és capaz de fazer perder a cabeça a um santo”.

“Quando encontrar um santo, verei se tens razão”. E ri-me, ri-me com vontade. A gentileza do amigo nem repara que a advérbio “ainda” confirmava o meu discurso.



E agora ó Deuses que vos direi de mim?

Tardes inertes morrem no jardim.

Esqueci-me de vós e sem memória

Caminho nos caminhos onde o tempo

Como um monstro a si próprio se devora.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

ROTINAS

Recomecei, Segunda-feira, as minhas caminhadas pela beira-rio, no diálogo ameno das manhãs que as férias haviam feito esquecer: o chilrear dos pássaros, o grasnar dos patos nadando no rio, o vento a sibilar de mansinho por entre a folhagem das árvores e o ronronar mais ou menos apressado dos carros, a que os bons-dias daqueles com quem me cruzo dão o toque de humanidade por que a minha alma anseia.

Começam a instalar-se as rotinas.

Nem o par de velhotas, Testemunhas de Jeová, faltou ao encontro, caminhando em passos lentos, irregulares, num para-arranca-conversa, que os joanetes não permitem pressas “posso dar-lhe este papel que a ensina a ser feliz?” Estendo a mão para um pequeno desdobrável. “Se gostar de ler, dou-lhe esta revista”. Recuso com o melhor sorriso “para não levar na mão” adianto como desculpa esfarrapada metendo o desdobrável no bolso das calças e continuo em passos largos a minha caminhada, depositando o desdobrável, longe da vista das velhotas, num recipiente de lixo.

Sorrio irónica: “Como queres ser feliz se desprezas os ensinamentos?”


E, Terça-feira, no Diário de Leiria, por Vera Xavier, o horóscopo: “Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias” (Fernando Pessoa) Hoje é dia de sentir, de ouvir e de falar com o seu coração.

Terça-feira e todos os dias. As previsões são válidas ad aeternum. Como o óbvio pode ser original! Vou passar a ler o horóscopo todos os dias (que me lembre).


E Quarta-feira, a amiga tão doente, a garra a apertar-me o peito e a noite sem lado para me virar… sem mão para agarrar a minha.

sábado, 3 de setembro de 2011

O TIO PATINHAS

A manhã de Sexta-feira era de chuva e eu saí, com destino à cabeleireira. Levava guarda-chuva aberto e óculos escuros protegendo o olhar. Os acessórios poderão parecer contraditórios, mas ninguém compra um raio de sol, ele simplesmente surge em cada manhã e, ou se vislumbra no céu, ou se sente na alma e, quer num caso quer noutro, é nos olhos que a luz se reflecte.

Como vestira um vestido azul-escuro, optara por calçar uns sapatos vermelhos, fechados, de salto fino que, arrumado o carro no parque de estacionamento do “meu amigo droguinhas”, me fizeram caminhar pela rua fora evitando enfiar os saltos no pobre arremedo de calçada portuguesa de que é feito o passeio.

Contrastando com o escuro do alcatrão ela brilhou coberta de água: pequenina, circular, perfeita, e eu baixei-me…

Quando a unha do meu indicador direito, impecavelmente pintada com verniz Clarins (Paris), adquirido numa loja Balvera, por preço pouco apetecível, mesmo tendo em conta a promoção de trinta por cento, tocou o chão, explodi numa gargalhada: um único cêntimo despertara o Tio Patinha latente em mim!

Deste gesto incontido, aos mergulhos numa piscina cheia moedas, já não faltava tudo…

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ACABARAM-SE AS FÉRIAS

Cá estou eu, metida por Setembro fora, se me é permitido plagiar Eugénio de Andrade e só não digo “a caminho do fulgor das maçãs” porque o engenho humano ávido de sensações, ansioso de vivências, sem paciência ou tempo para esperas, alongou por todo o ano os cheiros e sabores de cada época, sem questionar o valor dos referentes do tempo e do lugar, ignorando o facto de pouco a pouco ir perdendo a própria identidade.

Depois de uma semana em S. Martinho do Porto, imersa em nevoeiro, sem conseguir comprovar o Princípio de Arquimedes e gritar "eureka", não ao emergir da banheira, mas da neblina matinal, dos chuviscos, do mau tempo, e gozar o Sol; sem vislumbrar D. Sebastião, nem tão pouco acalentar a esperança de ver surgir o meu "cavalo verde", rumei a Lisboa.

A Rita nasceria dia dois de Agosto e a minha mãe em simultâneo decide adoecer. A minha mãe! Só ela, fragilizada por uma pneumonia nos seus noventa e três anos a pedir que não me informassem de que estava internada no hospital de Leiria, pois era mais necessária em Lisboa que junto dela. Seguiram-se uns dias a acelerar na A8, partilhados com a filha mais nova, a meias com a tarefa de velar pelo André, que aguardava impaciente o regresso a casa, da mãe, do pai e da irmã recém-nascida.

Dispensada de trabalhos pelas melhoras da mãe e depois de fazer o que todas as avós fazem aos netos, nomeadamente aos acabadinhos de nascer: mexer, pegar, dar beijinhos, enternecer-se, ver se “funcionam”, fiquei “no desemprego”.

Com uns dias ainda para gozar, avisei as amigas que iria até S. Martinho do Porto e levaria quem me quisesse acompanhar. Elas aceitaram e divertimo-nos imenso.

Foram-se as férias. À excepção da última semana de Julho, passei-as na A8, num vai e vem que o carro quase fez de cor. Os dias de Sol foram muito escassos, mas boa disposição houve em abundância e esquecida a preocupação da doença da minha mãe e a ansiedade do nascimento da Rita, confesso que não me lembro de alguma vez me ter rido tanto como neste mês de Agosto.

Uma “bolachinha” com meia dúzia de cabelos ruivos predispôs de tal forma o meu coração para a vida que nem dei pela falta do Sol. Os netos são a oitava maravilha do mundo!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

DIA INTERNACIONAL DO BLOG

“Mergulhei” em O MAR DO POETA (cambetabangkokmacau.blogspot.com) e fiquei a saber que era o DIA INTERNACIONAL DO BLOG, estabelecido informalmente, por a data 31/08 se assemelhar com a palavra Blog (na letra que uso, nem por isso, mas com um esforçozinho, até resulta…)

Possivelmente, devido a tal circunstância, logo pela manhã fui informada que um grupo que se auto denomina “O ATAQUE DO POLVO” pretendia chantagear-me, dando à estampa, neste mesmo espaço, determinado "documento".

Mulher temerária, prima direita do SUPERHOMEM, garanto, sem pretender gabar-me, que polvo que apanhe acaba comido em salada, “à lagareiro”ou enrolado em arroz.

Sem qualquer receio, o dito "documento" aqui fica.

Vêem do que são capazes as filhas?


terça-feira, 23 de agosto de 2011

OH, M!!!!!!!!!!!

Foi num dia treze! Só não era Sexta-feira! Foi na Quarta-feira, dia treze de Julho, com uma simples frase: Assim me voo… As nuvens, um M no céu… deixando ainda uma composição musical que dizia merecermos.

Quarenta e um dos trezentos e oitenta e nove seguidores, entre os quais me inclui, pensaram que partira de férias e expressaram os seus melhores votos.

Estranhando-lhe a ausência, as férias tão longas, mas sobretudo sentindo-lhe a falta, voltei, uma, outra vez, até que com mais tempo, hoje… só esta manhã… ouvi a composição musical que desconhecia.

Volta M., como puderes e quiseres "cãopanheiro", mas volta.

Sentimos a tua falta.

Um abraço

sábado, 20 de agosto de 2011

O DOCE E A BOLACHINHA

Primeiro vieram as filhas. Duas bonecas ruivas, que fizeram de mim uma mãe ditosa.

Acontece o mesmo a todas as mães: sentem-se únicas. Acham que só elas têm filhos, as mais bonitas crianças do “mundo e arredores”. Do mundo dos afectos de cada uma de nós e sobretudo dos arredores de todos os mundos passados, presentes e futuros, versos únicos de um mesmo poema: tempo, a que vulgarmente chamamos vida. A nossa vida!

Nada mais é igual. A multiplicidade do Eu, que os filósofos apregoam, ganha uma dimensão inusitada. Começa a tecer-se uma teia de afectos, como intrincado ponto de tricote: aqui ponto de meia, ali ponto de liga, aumenta uma, passa outra, dá uma laça, torce duas e por aí fora fazendo crescer em humanidade e cidadania, corrigindo equívocos, voltando atrás para poder continuar seguramente em frente.

Ah! Mas depois, sim, depois de termos transformado a fragilidade que aconchegávamos nos braços embrulhadinha em mantas coloridas, num cidadão ou cidadã de plenos direitos, temos a melhor das recompensas: os netos.

Há cinco anos nasceu o André. Um sorriso lindo e quente que me enche a alma de ternura e pronuncia a palavra avó abrindo o “a”, num jeito especial que soa como música aos meus ouvidos.

“Quem é o doce da avó Belita?” “o Andé” foi a resposta que antecedeu o uso dos pronomes. “Mamã, ao pé desse rapaz, pareces tolinha” reclamou um dia a filha a quem não estava a ser dada a atenção devida. “Não pareço, sou. Apresenta a reclamação à tua mãe. Aqui só está a avó do André. O balcão das reclamações abre no horário da sesta do petiz.”

Um dia o André reclamou: “Não quero mais beijinhos, nem abracinhos. Ó tia!” E veio a tia qual D. Quixote afrontando os moinhos de vento: “Cansas a criança. Deixa-o.” E logo o André “Avó, brincas comigo às lutas?”. O afecto também passa por encarnarmos o papel do monstro mau com três vidas que é vencido pelo forte que tem cinco. A nossa cultura no âmbito da Banda Desenhada, cromos e afins é que às vezes nos deixaria ficar mal vistos, não fora a benevolência daqueles com quem brincamos…

Ao fim de cinco anos de “Doce”, veio finalmente a “Bolachinha”.

Contrariando a tradição familiar que faz com que os recém-nascidos se apresentem ao mundo com uma farta cabeleira (que nunca chega a cair, como acontece com a maioria dos bebés) e obriga a que entre os sete e os nove meses de idade se tenha de recorrer ao serviço de alguma especialista da tesoura para que corte decentemente tanto cabelo, “a Bolachinha da avó Belita”, cidadã do mundo, a que foi dado o nome de Rita, nasceu careca. O pai garante que vai ser loira, mas, aqui para nós, a tal avó Belita, mal a viu desfez-se perante os encantos de mais uma ruiva.

“E os dedos?” - perguntam todos – “A quem sairá ela com uns dedos tão compridos?” e a avó Belita quando levanta os olhos do PC, pousa-os na imagem do bisavô Joaquim “Quelimanas”, o tal “marinheiro dos sete mares andarilho” cujo retrato, enlaçando ao colo a neta Isabel, lhe sorri da parede do escritório e retribuindo ternamente o sorriso, mentalmente pergunta: “A quem será?”


“E cravam-se no Tempo como farpas

As mãos que vês nas coisa transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.”

O Canto e as Armas, Manuel Alegre, 1967