sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A MULHER-BOMBA

Segunda-feira, cumprindo um preceito anual, consultou o cardiologista.

“Tem um pequeno bloqueio cardíaco” “não quero saber nada disso” “só estou a avisá-la””diz-me o mesmo todos os anos. Não vou preocupar-me com isso. Venho cá para que o senhor se preocupe””só posso vigiar”



Ela vestia umas calças brancas e uma blusa vermelha com bolinhas, feita possivelmente de um pedaço de trapo subtraído ao vestido da Minnie. Tinha um ar estival que se enquadrava bem naquele dia de sol.

Pelo decote da blusa, prodigamente cortado em V divisavam-se uns círculos esbranquiçados seguros com adesivo anti-alérgico e de entre os seios nasciam em ondulações irregulares dois fios pretos que se ligavam aos dísticos superiores.

Ao nível do estômago notavam-se saliências irregulares; do lado esquerdo um molho de fios atado também com adesivo e do direito uma caixa, um paralelepípedo rectangular, que bem poderia ser a carga de explosivos.

“Chegou a mulher-bomba.” Avisava quando se aproximava dos amigos. “E vai explodir?””Ao menor toque” e riam todos.


As vinte e quatro horas em que carreguei o Holter foram divertidas.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

DOCES

Eu mergulhara em açúcar. Primeiro misturara-me com as cerejas, logo depois com as ginjas e surgiram os néctares.

Passada essa primeira fase apareceram os figos. Colhera-os a Carma da figueira do quintal da tia. E cá em casa há figos em calda e doce que resultou dos mais maduros.

A Carma também trouxe marmelos. Fiz marmelada.

E no meio de tanto doce chegou o poema, enviou-mo a Amélia Pais http://barcosflores.blogspot.com

Fazer compota em julho



Uma mulher a fazer compota em julho
revela-se resignada a viver com o marido.
Não vai fugir às escondidas com o amante.
Se assim não fosse, de que serviria cozer fruta com açúcar?
E vejam como ela o faz de boa vontade,
como um trabalho feito com amor,
mesmo que o espaço tenha um valor excessivo
e não haja sítio para armazenar os boiões.

Uma mulher a fazer compota em julho
está a preparar-se para ficar por aqui durante uns tempos.
Pretende aquartelar-se e hibernar
para atravessar os desconfortos do inverno.
Se assim não fosse, por que razão - e, notem,
sem que haja nisso qualquer dever -
gastaria ela o verão tão breve
a limpar restos de compota.

Uma mulher a fazer compota em julho
no meio do caos de uma cozinha cheia de vapor
não se está a preparar para fugir para o Ocidente
ou para comprar um bilhete para os EUA.
Essa mulher há-de escapar aos desmoronamentos da neve
salva pelo sabor da fruta.
Na Rússia quem faz compotas
sabe que não há saída.

Inna Kabish

DE Luís Parrado a partir da tradução inglesa de Fay Marshall e Alex Marshall reproduzida em An anthology of contemporary russian womem poets, selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, p. 69).

Cá para mim, quem, sem marido, faz compota em Setembro, vive no Ocidente, num país onde a neve não constitui um perigo e não pensa emigrar para os “States”, vai “obrigar” os amigos a comer tudo o que andou a confeccionar.

Sim, falta espaço para armazenar os boiões e o doce de abóbora ainda nem está feito…

terça-feira, 13 de setembro de 2011

SILÊNCIO

Fechos os olhos e esqueço-me de mim. Plano alheada do mundo, inebriada dos sons que me rodeiam. O silêncio não é absoluto, mas a quietude é um estado de graça.

“Como podes viver nesta casa onde nada se ouve?” – perguntou tanta vez a minha mãe. É precisamente por nada se ouvir que vivo nela. Oiço-me melhor a mim, se estou calada. Oiço melhor o pensamento.

Os sons encantam-me. Oiço-os em conjunto e separo-os na mente para voltar a reconstruir as partituras com que a natureza me brindou. “Será que vou ouvir outra vez?” e fico expectante. Espero que o som se repita... O exercício distrai-me.

Gosto de brincar com os sons, como quem joga ao agarra-e-foge.



“Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco” Mia Couto , Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Maio de 2008


Será?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

AINDA

Falava-lhe do tempo. Queixava-me. Implacável não se compadecia com o meu ritmo. Não esperava por mim. Passava. Ia sem que sentisse.

O amigo olhou-me, com aquela ternura de que só os amigos são capazes e comentou “ainda és capaz de fazer perder a cabeça a um santo”.

“Quando encontrar um santo, verei se tens razão”. E ri-me, ri-me com vontade. A gentileza do amigo nem repara que a advérbio “ainda” confirmava o meu discurso.



E agora ó Deuses que vos direi de mim?

Tardes inertes morrem no jardim.

Esqueci-me de vós e sem memória

Caminho nos caminhos onde o tempo

Como um monstro a si próprio se devora.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

ROTINAS

Recomecei, Segunda-feira, as minhas caminhadas pela beira-rio, no diálogo ameno das manhãs que as férias haviam feito esquecer: o chilrear dos pássaros, o grasnar dos patos nadando no rio, o vento a sibilar de mansinho por entre a folhagem das árvores e o ronronar mais ou menos apressado dos carros, a que os bons-dias daqueles com quem me cruzo dão o toque de humanidade por que a minha alma anseia.

Começam a instalar-se as rotinas.

Nem o par de velhotas, Testemunhas de Jeová, faltou ao encontro, caminhando em passos lentos, irregulares, num para-arranca-conversa, que os joanetes não permitem pressas “posso dar-lhe este papel que a ensina a ser feliz?” Estendo a mão para um pequeno desdobrável. “Se gostar de ler, dou-lhe esta revista”. Recuso com o melhor sorriso “para não levar na mão” adianto como desculpa esfarrapada metendo o desdobrável no bolso das calças e continuo em passos largos a minha caminhada, depositando o desdobrável, longe da vista das velhotas, num recipiente de lixo.

Sorrio irónica: “Como queres ser feliz se desprezas os ensinamentos?”


E, Terça-feira, no Diário de Leiria, por Vera Xavier, o horóscopo: “Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias” (Fernando Pessoa) Hoje é dia de sentir, de ouvir e de falar com o seu coração.

Terça-feira e todos os dias. As previsões são válidas ad aeternum. Como o óbvio pode ser original! Vou passar a ler o horóscopo todos os dias (que me lembre).


E Quarta-feira, a amiga tão doente, a garra a apertar-me o peito e a noite sem lado para me virar… sem mão para agarrar a minha.

sábado, 3 de setembro de 2011

O TIO PATINHAS

A manhã de Sexta-feira era de chuva e eu saí, com destino à cabeleireira. Levava guarda-chuva aberto e óculos escuros protegendo o olhar. Os acessórios poderão parecer contraditórios, mas ninguém compra um raio de sol, ele simplesmente surge em cada manhã e, ou se vislumbra no céu, ou se sente na alma e, quer num caso quer noutro, é nos olhos que a luz se reflecte.

Como vestira um vestido azul-escuro, optara por calçar uns sapatos vermelhos, fechados, de salto fino que, arrumado o carro no parque de estacionamento do “meu amigo droguinhas”, me fizeram caminhar pela rua fora evitando enfiar os saltos no pobre arremedo de calçada portuguesa de que é feito o passeio.

Contrastando com o escuro do alcatrão ela brilhou coberta de água: pequenina, circular, perfeita, e eu baixei-me…

Quando a unha do meu indicador direito, impecavelmente pintada com verniz Clarins (Paris), adquirido numa loja Balvera, por preço pouco apetecível, mesmo tendo em conta a promoção de trinta por cento, tocou o chão, explodi numa gargalhada: um único cêntimo despertara o Tio Patinha latente em mim!

Deste gesto incontido, aos mergulhos numa piscina cheia moedas, já não faltava tudo…

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ACABARAM-SE AS FÉRIAS

Cá estou eu, metida por Setembro fora, se me é permitido plagiar Eugénio de Andrade e só não digo “a caminho do fulgor das maçãs” porque o engenho humano ávido de sensações, ansioso de vivências, sem paciência ou tempo para esperas, alongou por todo o ano os cheiros e sabores de cada época, sem questionar o valor dos referentes do tempo e do lugar, ignorando o facto de pouco a pouco ir perdendo a própria identidade.

Depois de uma semana em S. Martinho do Porto, imersa em nevoeiro, sem conseguir comprovar o Princípio de Arquimedes e gritar "eureka", não ao emergir da banheira, mas da neblina matinal, dos chuviscos, do mau tempo, e gozar o Sol; sem vislumbrar D. Sebastião, nem tão pouco acalentar a esperança de ver surgir o meu "cavalo verde", rumei a Lisboa.

A Rita nasceria dia dois de Agosto e a minha mãe em simultâneo decide adoecer. A minha mãe! Só ela, fragilizada por uma pneumonia nos seus noventa e três anos a pedir que não me informassem de que estava internada no hospital de Leiria, pois era mais necessária em Lisboa que junto dela. Seguiram-se uns dias a acelerar na A8, partilhados com a filha mais nova, a meias com a tarefa de velar pelo André, que aguardava impaciente o regresso a casa, da mãe, do pai e da irmã recém-nascida.

Dispensada de trabalhos pelas melhoras da mãe e depois de fazer o que todas as avós fazem aos netos, nomeadamente aos acabadinhos de nascer: mexer, pegar, dar beijinhos, enternecer-se, ver se “funcionam”, fiquei “no desemprego”.

Com uns dias ainda para gozar, avisei as amigas que iria até S. Martinho do Porto e levaria quem me quisesse acompanhar. Elas aceitaram e divertimo-nos imenso.

Foram-se as férias. À excepção da última semana de Julho, passei-as na A8, num vai e vem que o carro quase fez de cor. Os dias de Sol foram muito escassos, mas boa disposição houve em abundância e esquecida a preocupação da doença da minha mãe e a ansiedade do nascimento da Rita, confesso que não me lembro de alguma vez me ter rido tanto como neste mês de Agosto.

Uma “bolachinha” com meia dúzia de cabelos ruivos predispôs de tal forma o meu coração para a vida que nem dei pela falta do Sol. Os netos são a oitava maravilha do mundo!