segunda-feira, 3 de outubro de 2011

HORIZONTE... SEM HORAS...

Horizonte ….
O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidéreo
‘Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa ---
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte ---
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa





…Sem horas

O tempo ficou sem horas enquanto estive em teus braços;
Passou em câmara lenta,
Noutro tempo, espaço, dimensão.
Potencializado.
(ou não );
Será mesmo que existiu?
Indago mirando meus olhos, com tanto brilho,
Espelhado.
Sei lá!
Necessário precisar?
Nem sei exprimir.
Ah!
Mas também
Quem disse que se divide o tempo?
E se tempo nem existir...
Se existem horas
E horas
Que aquela fique de fora,
De imprecisa interpretação
Que se torne invisível
Que permaneça então na lembrança
Nesse diálogo interno atemporal, indivisível,
Eterno,
Inesquecível!

Marlene Edir Severino

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O CÚMULO DO OPTIMISMO

Depois de passar o dia inteiro, em "amena cavaqueira" com a Rita que ainda não tem dois meses de idade, o cúmulo do optimismo consiste em pensar que, ao fim da tarde, se ganha a luta dos Gormitis, apesar de ter escolhido encarnar um que tem sete vidas.

domingo, 25 de setembro de 2011

DOMINGO

Passeei-me por aí.Era um sítio aprazível,
verde, muito verde...
um regalo para os olhos, um bálsamo para a alma.

Havia flores.
Os patos nadavam no lago,
em convívio ameno com as tartarugas.
Mas de repente... um encontro estranho... Que susto!
Outro susto!
E mais outro!
Basta! "As árvores morrem de pé!"
Saí porta fora.
Não sem antes pendurar a roupa...
Subi as escadas e vim embora.
Ah! Mas ainda arranjei tempo para escolher a toilette para a próxima soirè.

Quem adivinha por onde passeei?

sábado, 24 de setembro de 2011

COMO UM CARRO SEM TRAVÕES

O meu pai dizia tantas vezes “pareces um carro sem travões por uma ladeira abaixo”.

Mudava a entoação e a expressão servia para tudo: elogiava-me na celeridade da acção; incentivava-me à persistência, perante alguma situação difícil e criticava-me o excesso de verborreia em que tantas vezes me mostrava pródiga, nos momentos de “refilisse”.

Desde cedo, ensinaram-me a ter opinião e eu treinei-me bem no exercício desse direito; inconscientemente no seguimento da velha máxima “mandaram-me vir, agora aturem-me” e nem o receio de que me caísse em cima um tabefe, alguma vez me deteve.

A vida cumpre-se e o “carro” vai andando. Todas as “panes” têm tido arranjo, não houve avaria que o detivesse, porque herdei, sei lá de quem, aquela característica que me impede de, perante a adversidade, em vez de me lastimar “ai, ai, ai, aconteceu-me esta desgraça!” questionar de imediato “ como é que vou sair desta?

Mas a gasolina… a gasolina, às vezes, já parece que tem menos octanas…

As amigas e os amigos já vos ofereceram todas as compotas possíveis, marmeladas fabulosas e sei lá que outros doces. Resta-me convidar-vos para um BRINDE À VIDA, que milagrosamente acontece todos os dias, seja qual fora a "velocidade". Tendes à escolha: Zabelinha, Zabelinha Borrachona e Zabelinha Princesa, os mais finos licores feitos no Laboratório Zabeleiria SA. Qualquer dos três, um óptimo Elixir da Longa Vida, que tira pregas do peito e rugas do colarinho.

GRACIAS A LA VIDA! VIVA!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O VESTIDO COR-DE-ROSA

A Z. ficara mergulhada numa chávena de chá preto, envolta numa nuvem de leite, na companhia de meia torrada. Eu optara por dar uma volta a pé pelas proximidades. Não fui longe. Voltei depressa. “Preciso da tua ajuda para comprar um vestido” “não és capaz de o comprar sozinha?” “com a fluência do meu inglês ainda acabo comprando a loja, a pensar que adquiri um lenço de assoar”. Lanchámos e fomos às compras, na tal loja londrina.

Ele tinha-se “rido” para mim, da montra. Vesti-o. A empregada simpaticamente emprestou uns sapatos para que avaliasse melhor a peça e curiosa perguntou qual era a ocasião especial “porque o compra?” “Porque me apetece”- respondi sorrindo. Paguei ultimando o contrato de compra e venda e fiquei proprietária de um bonito e garrido vestido cor-de-rosa.

Usei-o poucas vezes, uma delas num dos jantares comemorativos do Centenário da República. Então, Zé A., com o à vontade que a amizade permite, comentou “não gosto do teu vestido. É muito colorido.” “Que não seja isso a fazer-te infeliz. Dispo-o já”, mas aí intervieram a Nini, cuja toilette em tons de cinza fora eleita a mais bonita pelo mesmo “júri” e a Paula, vestida em cores neutras, a impedirem-me o gesto, com receio de se sentirem ofuscadas pela minha voluntária sessão de striptease, naquele glamouroso jantar.

E lá ficaria todo o Verão, pendurado e esquecido num dos roupeiros, não fora o comentário da minha amiga “carol” postado a propósito do texto: As avós.

Hoje, segunda feira, saltei da cama às sete horas. Passei a ferro a roupa que ficara desde sexta a aguardar que a vontade me chegasse, enquanto no forno do fogão se assava o coelho e as castanhas que, com a couve lombarda já estufada, iria comer ao almoço. Depois cuidei-me: banho, creme, perfume de alfazema e o vestido cor-de-rosa. Optei pelos óculos de sol “Carrera” de aros brancos que costumo usar na praia, completei a toilette com um sorriso alegre e saí para a rua.

Ah! Nesta manhã pré-outonal, em que o Sol brilhou, eu fui a Primavera em flor.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

MANHÃ DE DOMINGO


Às vezes o telefone toca às oito horas: “bom dia, com alegria” – desejam-me, com entusiasmo, mal levanto o auscultador - “bom dia, também para ti” e rio-me contagiada pela força que aquela voz me transmite.

Domingo de manhã, acordei mais tarde. Vagueei pela casa, ou melhor “reginei”. “Reginar” é um verbo familiar, inventado em “honra” de uma amiga das minhas filhas que passava o tempo em “fralda de camisa”.

Após o pequeno-almoço lembrei-me que há muito não sabia do meu amigo J. M. e liguei eu, plagiando a saudação.

Nem sei como, a não ser estabelecendo aquela velha analogia das palavras com as cerejas, que mal nós puxamos uma vem logo outra agarrada, acabei falando de um assunto recente que não estaria bem resolvido. Eu! Que gosto de tudo bem maduro! Que só gosto de falar dos puzzles depois de saber onde se encaixam as peças! Fiquei de vidro! Mesmo em ponto de rachadura!

Saí porta fora e fui andar. Aliás a ideia já era essa, mas até fui mais ligeira, porque quando não estou bem sinto uma necessidade enorme de dar distância ao pensamento. É assim que desato os nós. Se o meu amigo e colega de liceu P.C.S., que chegou a ser meu médico, ainda fosse vivo, não deixaria de comentar ”que sorte a tua, há quem fique em casa a curtir a telha!”

Cheia de pena de mim apetecia-me chorar; nem sabia se conseguiria ir dar almoço à minha mãe, que lê em mim melhor que num livro aberto (aí o tamanho das letras pode dificultar); mas achava que numa manhã tão bonita em que soprava um vento outonal sibilando uns decibéis acima do habitual, fazendo rodopiar as folhas muitas delas já vestidas de tons avermelhados, isso seria um desperdício. “Há-de aparecer alguém com quem me apeteça rir!”

Então, aparece um casal amigo com quem me costumo cruzar, só que a minha amiga comprou há muito tempo o catálogo das doenças…

Cumprimentámo-nos. “Nem te via” diz-me ela “venho sempre a olhar para o chão” “Isso é para ver se encontras a nota de quinhentos euros que acabei de perder” brinco ”não, as minhas cataratas fazem-me ver as caras das pessoas assim” e mimoseou-me com um esgar “Ah! Mas isso é divertidíssimo!”

Despedimo-nos e continuámos em direcções opostas, mas a minha manhã estava salva. A partir daquele encontro fui imaginando como a minha amiga veria as caras das pessoas com quem me cruzei.

A quem interessar: fui dar o almoço à minha mãe e tudo correu às mil maravilhas. 

sábado, 17 de setembro de 2011

AS AVÓS

Quando eu era menina, as avós eram umas senhoras muito doces, com um sorriso nos lábios, e braços abertos sempre prontas para amar toda a gente. Que saudades tenho da pele fina e macia do rosto da minha avó Isabel! “Avó deixa-me brincar com a tua pele” e ela sentava-se comigo ao colo deixando-me afagar-lhe as rugas da cara e do pescoço. Que saudades tenho da voz pausada com que a minha avó Joaquina Joana mandava em toda a gente e mais alguém, parecendo sempre pedir licença para falar, mais conferindo a execução das tarefas do dia do que ordenando que se fizessem.

Vestiam de preto ad aeternum, após o falecimento dos maridos e, em casa, teciam calmamente os dias preocupadas com a família, bebericando chá e comendo torradas.


Ela aceitou o convite para jantar. Mais um! Os convivas estavam distribuídos por várias mesas. Escolheu o que desejava comer e discutiu a escolha do vinho numa mesa de oito pessoas em que cinco eram homens. Gosta de um vinho subtil, encorpado que se beba suavemente. “Olho de Mocho Rosé nem pensar! Esse bebe-se fresco. Ainda se fosse “Olho de Mocho” branco, ia bem com o polvo à lagareiro…” “Vale da Mata, porque é da região” alvitraram os cavalheiros. “Não, é melhor o Rocim tinto, tem mais alma. Não é da região, mas é do mesmo produtor. Fica tudo em casa”. E foi mesmo esse que se bebeu! Onde já se viu tamanho desaforo?! As avós em jantares políticos a contestarem as decisões dos cavalheiros, no concernente a vinhos?!

Antes das vinte e quatro horas retirou-se. Só excepcionalmente se deita tarde.

E em cada lado da noite, o “polvo à lagareiro”! Malvado bicho!

A manhã aconteceu cedo. Apetecia-lhe vestir uma roupa alegre, mas não podia. Esperavam-na as exéquias do pai de um amigo. O carro precisava de gasolina e ela de comprar flores e “voar” pela A8, para chegar, pelo menos, com uma hora de antecedência para mimar o amigo.

Carregando no acelerador, olhava o marcador do consumo de gasolina que indicava um terço a mais que o habitual. Na sua cabeça ecoava “cortes” “cortes” e ela já nem sabia se o eco se referia ao local do jantar da noite anterior se às contenções propaladas pelo ministro, que o consumo excessivo de combustível fazia lembrar… mas continuava com o André Rieu laboriosamente agarrado ao violino, tocando quase só as três primeiras faixas do CD, por serem as que mais gosta de ouvir. Nem havia tempo para escolher outro…

Uma avó… sozinha em plena auto-estrada, conduzindo feita louca…

E voltou à mesma velocidade. Tinha o almoço marcado: balanço da actividade política da Junta de Freguesia. Mas onde se viu as avós mandarem noutra coisa que não em tachos e panelas, limpezas de casa, rendas e bordados?

Já não se fazem mais avós como antigamente!

Ah! Mas eu garanto que mantêm o mesmo sorriso de beatitude quando olham os netos, a mesma amplitude do abraço e a mesma certeza de que cada neto é único no seu mundo de afectos. Sentem o mesmo amor imensurável e possuem a mesma infinidade de beijos para distribuir.