Tenho um amigo do qual me separam umas centenas de quilómetros, mas não é por isso que deixa de estar presente na minha vida.
Telefona ao fim-de-semana. “Que fazes em casa Isa?”- nem Isabel, nem Belita, como todos os outros – e antes que eu responda ordena “Vai para a rua”, “Vai conversar com as amigas”. E eu respondendo que irei mais logo, penso, invariavelmente, que este homem sabe quantos quilogramas pesa a palavra solidão.
Conhecedor das minhas andanças semanais entre Lisboa e Leiria, telefona à segunda-feira de manhã a desejar-me boa viagem: “Vai devagar, para chegares depressa”. Eu rio-me e a minha alma aconchega-se porque o meu pai não diria melhor. “Pois, terei de ir devagar para poupar gasolina” - respondo fingindo não ter percebido a recomendação. “Também por isso. Não ultrapasses as três mil rotações, senão… “ e mimoseia-me com uma onomatopaica engraçadíssima que nem sei reproduzir, com a qual pretende dizer-me que o consumo do veículo disparará.
E, a conversa vai acontecendo, segunda-feira após segunda-feira, quase igual.
Uma qualquer semana, parti mais tarde para Lisboa, mas a hora a que teria de chegar era a mesma. Ao entrar na auto-estrada pensei: “Lá se vão as recomendações…” e sorri. Sorri, porque é aconchegante lembrar os cuidados de quem se preocupa connosco, mesmo quando não pretendemos seguir as suas recomendações.
No percurso destes quase cento e cinquenta quilómetros que separam a minha casa, da de minha filha mais velha, as ideias multiplicam-se, as palavras fluem a uma velocidade vertiginosa e eu elaboro mentalmente textos intermináveis que depois nem sequer passo a escrito porque se o tentasse já não escreveria esses, mas outros diferentes. Muitos desses textos esquecidos são hilariantes, outros nem tanto e por vezes, um ou outro serve para chorar as mágoas.
Pois dessa vez, logo à saída de Leiria, a questão foi: “Como manter as três mil rotações sem deixar de carregar no acelerador?”
Atirado ao esquecimento o que era um motor de explosão a quatro tempos, acabei por admitir a hipótese de que a única solução seria um calce no ponteiro do mostrador do conta-rotações, à semelhança do que acontece com a bússola, quando não está a ser utilizada. Depois desta brilhante conclusão, começaram a desfilar na minha mente todas as máquinas caseiras às quais foi sendo feita a respectiva análise. À máquina de lavar loiça, possivelmente por ser um modelo barato, não veio acoplado o robot que arruma os pratos e panelas nos armários, no fim dos programas de lavagem. Acessório semelhante, mas à prova de água, encontra-se igualmente em falta na máquina de lavar roupa. Até os electrodomésticos menores, como a varinha mágica, o ferro de engomar, o aspirador, o leitor de CD tinham avarias que fui mentalmente resolvendo com o objectivo de rentabilizar os recursos. Era um dedo nuns, um braço noutros e seria tudo a trabalhar e eu a descansar, à imagem do velho slogan publicitário do Tide.
Pois ontem, espojada no sofá, lembrei-me deste inventário de loucura. Havia passado a manhã a fazer comer, algum para trazer para Lisboa, outro para congelar. À tarde deu-me a birra e fiquei em casa agarrada à televisão, mais propriamente ao AXN, único sítio onde os crimes se desvendam e os criminosos são punidos em tempo útil. Sozinha, só perto das dezoito horas fui visitar a minha mãe.
A questão acabou por surgir: Será que a única coisa verdadeiramente avariada cá em casa não serei eu, que todo o dia me senti a mesma “sem vontade com que rasguei o ventre de minha mãe”?