terça-feira, 20 de dezembro de 2011

NATAL

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).

Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre


FELIZ NATAL

sábado, 17 de dezembro de 2011

FICA A "SODADE"



De pé, um aplauso a CESÁRIA

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

É O FADO

Um amigo, que já não via há imenso tempo, telefonou. Que ia ser operado ao olho direito, que queria ver-me enquanto me via bem, pois poderia ficar cego e ficar a ver-me só pela metade. Além disso, no Verão vira ginjas à venda, lembrara-se de mim, comprara, pusera-as em infusão em aguardente e pretendia dar-mas, para que eu fizesse licor.

Sugeri que viesse merendar comigo no Domingo, se queria olhar para um cromo em vez de esperar pela hipótese de ficar a ver mal e depois imaginar-me uma estampa e que trouxesse as ginjas na aguardente que eu tinha “Zabelinha Borrachona” e “Zabelinha Princesa”, dois dos afamados licores produzidos no Zabeleiria Laboratórios - SA, para a troca.

Apareceu com dois sacos de plástico. “Costumam dar-me lâmpadas para a empresa, como sei que compras, trouxe-te algumas”. Eram dois sacos porque umas tinham casquilho grosso e outras fino. Agradeci.

Pusemos a conversa em dia, comemos torradas e bebemos café com leite. Dei-lhe dos meus licores e uma taça de marmelada para levar.

Depois do meu amigo partir, quando ia arrumar as lâmpadas lembrei-me do candeeiro do escritório. No escritório, a que a minha filha mais nova sempre chamou pomposamente "quarto azul", talvez por a cor existir parcamente na decoração, há um candeeiro de tecto com cinco túlipas. Desde que inventaram a moda das lâmpadas economizadoras que o dito nunca mais dispôs de lâmpadas iguais, porque, por sovinice, recuso-me a comprar de uma vez todas as necessárias, que ainda por cima dão uma luz que detesto. Assim cada vez que compro uma lâmpada nunca recordo o desenho das que já tenho, resultando por isso, que o candeeiro tenha, desde há algum tempo, cinco lâmpadas diferentes, o que constitui motivo de riso para quem repara no pormenor. Eu justifico-me como posso “será que sabiam que existia tantas espécies de lâmpadas? Isto não é descuido, é informação, é cultura”, mas, justificavelmente, ninguém acredita nas minhas boas intenções.

No saco das lâmpadas de casquilho grosso escolhi cinco lâmpadas iguais, mas… não havia. O meu amigo dera-me conjuntos de quatro.

O candeeiro lá continua no tecto do quarto azul, desta vez com quatro lâmpadas de nove e uma de onze, são todas torcidas muito pomposas, só que a de onze tem mais uma volta. Não são todas iguais, mas são parecidas.

Má sorte ser candeeiro em minha casa! É fado ter lâmpadas diferentes!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

À SEMELHANÇA DE FREI TOMÁS

Numa quarta-feira, única manhã em que disponho de umas horas livres, em Lisboa, espreitei na loja do pequeno Centro Comercial onde costumo comprar algumas peças de roupa e encantei-me com umas calças de ganga. Azar! Já não havia o número.

Chegada a Leiria, no feriado de quinta-feira passada, convidei a minha amiga P, para ir comigo a uma localidade próxima, onde sei haver uma loja que vende aquela marca de calças e onde costumamos ir passear algumas vezes, quer queiramos ou não adquirir alguma coisa.

A minha amiga P. é a mais consumista de todas as minhas amigas e assume o facto com a maior naturalidade. “Gosto de coisas boas e bonitas” costuma dizer. “Quem não gosta?”- pergunto eu. Pois com imensa piada a minha amiga P. há uns tempos para cá, assumiu-se como o amplificador de som da Troika e não pára de fazer a todos os amigos discursos sobre as necessidades de contenção, coisa que ela, na prática, nem sabe o que é.

Na quinta-feira, passada inquirida sobre a compra que pretendia realizar, ouvi o discurso. Porque eu quase nem visto calças de ganga, porque com frio já nem sabe bem vestir as ditas e a estes, outros argumentos se juntaram, demonstrando que o investimento seria desnecessário. Eu fui rindo e explicando que ainda estávamos na meia estação, que o modelo era giríssimo e que as calças de ganga que possuía estavam velhas e gastas.

Antes de nos dirigirmos à loja pretendida ainda passámos por outra onde eu experimentei um casaco que ia muitíssimo bem com “o meu tom de pele” e foi a minha deixa para entrar naquele coro de lamentações “nem pensar, em tempos de crise” “mais caro que o ordenado mínimo!?” “Compro-o depois nos saldos” e saí porta fora, aplaudida pelos elogios da minha amiga: “Fazes muito bem. Com os tempos que correm sabe-se lá se o dinheiro não fará falta para outra coisa? E a cimeira deste fim-de-semana? Nem sabemos se não teremos de ir segunda-feira, logo de manhã, ao banco levantar quanto dinheiro temos”.

Subimos a escada rolante de um lado e descemos do outro, mais uns metros de corredor e estaríamos onde eu pretendia ir, mas antes… “Espera, esta loja está com reduções e tem coisas giríssimas. Vou entrar”. E a minha amiga entra e dirige-se, direitinha, ao expositor dos seus encantos, comigo atrás. Mexe, apalpa, experimenta…

Enfim, eu continuo sem calças, mas a minha amiga possui mais duas camisolas e um casaco…

“Mas as coisas são lindas, lindas, lindas.”- Comenta a P. quando, por eu ter contado aos amigos, todos brincamos com o facto.

“À semelhança de Frei Tomás, façam como ela diz…”

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O QUE AS AVÓS FAZEM

O André será o Feiticeiro Verde, na Festa de Natal. “Só poderia ser o Verde” – pensou esta avó e abismou-se em divagações sem ouvir que a filha pretendia ideias para o fato. Pela NET poder-se-iam encomendar fatos de todas as cores, menos verde. E a avó achou natural. As preocupações da filha eram mais palpáveis. Que modelo confeccionar? Que tecido comprar?

A avó desceu das nuvens. O neto explicou que o Feiticeiro Verde, no fim, roubava o ouro todo. A avó achou a história duvidosa e pensou que isso só poderia aconteceu por uma boa causa, mas não insistiu e sugeriu uma capa de cetim verde com luas e estrelas amarelas e, completando o conjunto, um chapéu bicudo, igualmente verde, decorado com os mesmos motivos.

A filha acalmou. O neto foi para o colégio. Os dias dessa semana cumpriram-se tão iguais como se vêm cumprindo desde Setembro.

No fim-de-semana, quando reparou no número de chamadas da filha que não atendera, apercebeu-se que haveria pânico. Já equipada para apagar o fogo, ligou. A filha pretendia saber que porção de tecido deveria adquirir, mas já havia feito a compra.

Foi assim que, na semana passada, me confrontei com cetim verde e amarelo em quantidade suficiente para uma capa para o neto e um tailleur para a avó. Armei-me de tesoura, cortei a capa, alinhavei a lua e as estrelas depois de coladas em entretela e deixei tudo pronto para entregar à costureira que faria o resto. Por resto entenda-se coser as estrelas e as luas a ponto ziguezague, debruar a capa a amarelo e colocar uma tira no pescoço com tamanho suficiente para dar um laço, que deveria ainda levar uma estrela em cada ponta.

Novo fim-de-semana. Novo pânico. Mais telefonemas. “A senhora do atelier do Continente, não faz a capa, porque dá muito trabalho. Se eu pedir a máquina emprestada à F., tu fazes a capa do André?” “Eu?!” – balbuciei – “Nunca cosi numa máquina dessas.” Em minha casa existe uma máquina de costura de marca Singer que pertenceu à minha avó Isabel, peça antigamente obrigatória no enxoval das noivas e que perfaz actualmente mais de cem anos, único objecto onde, tirando as bicicletas, alguma vez pedalei. “Se a F. é capaz, tu também és”.

E acrescida a tarefa de costureira, não prevista, ao meu actual “contrato de trabalho”, apresentei-me esta Segunda-feira ao serviço.

Estes dias, não só me tenho passeado com a Rita entre a montra de brinquedos, que são as prateleiras da estante do quarto do André e a paisagem da janela da cozinha, de onde se avista um ou outro Bob, como confeccionei a capa do feiticeiro verde mais bonito do mundo, do meu mundo de afectos.

Eu nem sabia que era tão habilidosa!

Ainda falta o chapéu (SOCORRO!!!!!!)

Nota de autor: Bob (plural: Bobs) é a designação pela qual, em léxico familiar, são conhecidos os trabalhadores da construção civil. A autoria do vocábulo é da responsabilidade do André, por analogia com a Banda Desenhada que, em tempos, fez os seus encantos. Para mais informações consultar o próprio, que a cultura da avó não passa de uma amálgama de saberes aglutinados uns com saliva, outros com cola de sapateiro. O assunto em questão pertence ao primeiro grupo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A SOPA DA RITA

A Rita completou quatro meses no passado dia dois, do corrente mês.

Depois da prevista visita à pediatra, começou, na quinta-feira da semana passada, a comer as primeiras refeições sólidas: umas coloridas sopas de puré de batata em que umas vezes se mistura cenoura e outras abóbora, seguidas de papa de fruta.

Hoje, aconteceu almoçarmos as duas. Aproveitei para explicar à Rita que devemos socializar com as pessoas que nos acompanham à refeição, conversando com os que estão à direita e à esquerda e, a título de exemplo, contei-lhe a história daquele senhor que, de relações cortadas com o companheiro que lhe calhara num dos lados da mesa, optara por lhe ir recitando a tabuada para que a dona de casa não se sentisse embaraçada ao aperceber-se da “gaffe” que cometera sentando-os ao lado um do outro.

A Rita, numa extraordinária manifestação de inteligência, qualidade que só pode ter herdado da avó Belita (modéstia à parte), fazendo jus ao meu discurso, começou a falar de brinquedos. Eu, embora preferisse falar da crise económica, numa tentativa de, perdendo o apetite, fazer dieta, condescendi. Estamos no Natal…

Então a Rita contou-me que pedira uma mota ao Pai Natal, mas que gostaria de uma daquelas de escape livre. E vá de fazer repetidas demonstrações, com a boca cheia.

No fim do almoço, propus um mergulho no Rio Tejo. Tomávamos banho e lavávamos a roupa, que os tempos vão difíceis e os vinte e três por cento de IVA não estão para leviandades, mas ela recusou. “A sopa de abóbora é muito indigesta”- contrapôs e tombou no melhor dos sonos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

AVARIAS

Tenho um amigo do qual me separam umas centenas de quilómetros, mas não é por isso que deixa de estar presente na minha vida.

Telefona ao fim-de-semana. “Que fazes em casa Isa?”- nem Isabel, nem Belita, como todos os outros – e antes que eu responda ordena “Vai para a rua”, “Vai conversar com as amigas”. E eu respondendo que irei mais logo, penso, invariavelmente, que este homem sabe quantos quilogramas pesa a palavra solidão.

Conhecedor das minhas andanças semanais entre Lisboa e Leiria, telefona à segunda-feira de manhã a desejar-me boa viagem: “Vai devagar, para chegares depressa”. Eu rio-me e a minha alma aconchega-se porque o meu pai não diria melhor. “Pois, terei de ir devagar para poupar gasolina” - respondo fingindo não ter percebido a recomendação. “Também por isso. Não ultrapasses as três mil rotações, senão… “ e mimoseia-me com uma onomatopaica engraçadíssima que nem sei reproduzir, com a qual pretende dizer-me que o consumo do veículo disparará.

E, a conversa vai acontecendo, segunda-feira após segunda-feira, quase igual.

Uma qualquer semana, parti mais tarde para Lisboa, mas a hora a que teria de chegar era a mesma. Ao entrar na auto-estrada pensei: “Lá se vão as recomendações…” e sorri. Sorri, porque é aconchegante lembrar os cuidados de quem se preocupa connosco, mesmo quando não pretendemos seguir as suas recomendações.

No percurso destes quase cento e cinquenta quilómetros que separam a minha casa, da de minha filha mais velha, as ideias multiplicam-se, as palavras fluem a uma velocidade vertiginosa e eu elaboro mentalmente textos intermináveis que depois nem sequer passo a escrito porque se o tentasse já não escreveria esses, mas outros diferentes. Muitos desses textos esquecidos são hilariantes, outros nem tanto e por vezes, um ou outro serve para chorar as mágoas.

Pois dessa vez, logo à saída de Leiria, a questão foi: “Como manter as três mil rotações sem deixar de carregar no acelerador?”

Atirado ao esquecimento o que era um motor de explosão a quatro tempos, acabei por admitir a hipótese de que a única solução seria um calce no ponteiro do mostrador do conta-rotações, à semelhança do que acontece com a bússola, quando não está a ser utilizada. Depois desta brilhante conclusão, começaram a desfilar na minha mente todas as máquinas caseiras às quais foi sendo feita a respectiva análise. À máquina de lavar loiça, possivelmente por ser um modelo barato, não veio acoplado o robot que arruma os pratos e panelas nos armários, no fim dos programas de lavagem. Acessório semelhante, mas à prova de água, encontra-se igualmente em falta na máquina de lavar roupa. Até os electrodomésticos menores, como a varinha mágica, o ferro de engomar, o aspirador, o leitor de CD tinham avarias que fui mentalmente resolvendo com o objectivo de rentabilizar os recursos. Era um dedo nuns, um braço noutros e seria tudo a trabalhar e eu a descansar, à imagem do velho slogan publicitário do Tide.

Pois ontem, espojada no sofá, lembrei-me deste inventário de loucura. Havia passado a manhã a fazer comer, algum para trazer para Lisboa, outro para congelar. À tarde deu-me a birra e fiquei em casa agarrada à televisão, mais propriamente ao AXN, único sítio onde os crimes se desvendam e os criminosos são punidos em tempo útil. Sozinha, só perto das dezoito horas fui visitar a minha mãe.

A questão acabou por surgir: Será que a única coisa verdadeiramente avariada cá em casa não serei eu, que todo o dia me senti a mesma “sem vontade com que rasguei o ventre de minha mãe”?