sábado, 31 de dezembro de 2011

ANO NOVO

Recomeça…

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

NATAL 2011



Primeiro veio o Feiticeiro Verde e com ar simpático levou o ouro todo. A expressão não condizia com o gesto… mas depois percebeu-se. O Natal não se faz de brinquedos, presentes, doces, coisas materiais… E, lembrou-se o Menino que está na origem de tudo o que muitas vezes esquecemos: o amor, a solidariedade, a esperança, a amizade, valores que foram aparecendo pendurados na Árvore de Natal.
Nem sabemos ao certo quando nasceu o tal Menino e festejamo-lo nesta data independentemente de, tal como diz o poeta, o Natal ser quando o homem quiser.
Mas, não será todo o tempo, tempo de amor?



Este ano, à ceia, éramos só duas, mas o ritual cumpriu-se do mesmo modo. “Convidaste o Regimento de Infantaria, para comer connosco?” “Precisamente. E acabaram de telefonar a dizer que não viriam, preferiam jantar no quartel. Terás de ser tu a comer tudo.”
Calmamente fomos saboreando o menu, até que, a certa altura, a Z. exclamou: “Alto! Isto não me está a saber bem!” “O quê?” - balbuciei confusa - “as velas, já se viu jantar de Natal sem velas acesas?” “E se em vez de quase me engasgares, as tivesses acendido?” “Não tinha graça!” E lá acendi as cinco velas que boiavam no centro do arranjo…
Depois de jantar, telefonámos para Portimão. “O Pai Natal já passou por aí?” “Não, já falei com os duendes pelo telefone e disseram que ainda está demorado”- explicou o André - “Aqui também ainda não apareceu. Hoje é uma noite de muito trabalho…”
E ficámos todos à espera das prendas, desejando que, já que não há ouro, o Pai Natal nos brinde com Esperança, Paz, Coragem e Amor, com todo o Amor a que temos direito.

domingo, 25 de dezembro de 2011

POEMA DO MENINO JESUS

O PRESENTE DA MINHA AMIGA AMÉLIA P.







Maria Bethânia, Poema VIII de O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro (excerto)


Poema VIII de O Guardador de rebanhos



Num meio-dia de fim de Primavera (s.d.)



Num meio-dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.



Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas -

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.



Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!



Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.



A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.



Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou -

«Se é que ele as criou, do que duvido.» -

«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

Mas os seres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres.»

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.



......



Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.



E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.



A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.



A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.



Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.



Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.



Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do Sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.



Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.



Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.



......



Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.



......



Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há-de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?



"O Guardador de Rebanhos".



In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).

"O Guardador de Rebanhos". 1ª publ. in Presença, nº 30. Coimbra: Jan.-Fev. 1931

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

CHEIA DE NÃO PRESTA

Ontem pusera-me a pensar no Natal. Distraidamente, deixei que a memória espreitasse as ceias em que éramos muitos, reunidos em volta da mesa e veio-me à lembrança o ano em que a minha cunhada, resolvendo dar a todos os homens peúgas CD, sem saber que números calçavam, originou, entre eles, a negociação para acerto do tamanho das peúgas com o dos pés que as deveriam calçar. Dos argumentos empregues por cada um, para convencer o outro, estilo “conversa para promoção de banha da cobra” resultaram cenas hilariantes, absolutamente indescritíveis.

E ri-me, ri-me ao recordar o bom humor, as brincadeiras, a minha filha mais nova, pequenina, a roer os laços das prendas… mas bateu-me uma saudade no peito, uma dor pela ausência do meu pai e do meu irmão, que associada à decrepitude de minha mãe me deixaram com a alma pesada de mágoa e solidão.

“Filha, ando doida desta cabeça. Não atino com o dia dos anos.” “Está esquecida, mãe. Eu também ando assim.” “Por favor, não me digas que a tua cabeça está como a minha, ou fico louca de vez.” É o relógio a andar sem se deter, é a magia enfeitiçante do tempo que passa de mansinho, mas firme e rapidamente. Parece que nem pousa e vai escrevendo em nós as coordenadas por onde navegámos e sobretudo aquelas por onde as dificuldades não nos permitiram navegar.

E foi preciso dar almoço à Rita. Brincar para que levantasse a cabeça e abrisse a boca para comer a sopa e depois a fruta. Fiz aranhiços com os dedos, cantei e até imitei o chilreio dos passarinhos. A Rita, em vez de comer, ria. Ria de boca aberta e a sopa a cair. “Menina, feche a boca. Sorria apenas” E a Rita ria, possivelmente pensando que parente não se escolhe e que terá de aturar as tolices desta avó que lhe calhou em sorte.

A amargura, aquele sentimento de falta, foi-se.

Hoje, acordei “cheia de não presta”. Como se hoje fosse um daqueles dias que a minha filha mais velha define como bons para “andar de burro e comer ameixas verdes”, mas a vida arrebatou-me e uma vez mais explicou que os dias se fazem da dialéctica entre a angústia e o bem-estar. É no equilíbrio que está a felicidade.

A saudade só existe para sentirmos com ternura a falta de quem amamos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

SILENT NIGHT




Noite Feliz! Noite Feliz!
O Senhor, Deus de Amor,
pobrezinho, nasceu em Belém.
Eis na lapa Jesus, nosso Bem.
Dorme em paz, ó Jesus!
Dorme em paz, ó Jesus!


Noite Feliz! Noite Feliz!
Eis que no ar vêm cantar
aos pastores os Anjos dos céus
anunciando a chegada de Deus,
de Jesus Salvador!
De Jesus Salvador!


Noite Feliz! Noite Feliz!
Ó Jesus, Deus da luz,
quão afável é Teu coração
que quiseste nascer nosso irmão
e a nós todos salvar!
E a nós todos salvar!


Letra Joseph Mohr
Música Franz Xaver Gruber
(25 de Dezembro de 1818)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

NATAL

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).

Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre


FELIZ NATAL

sábado, 17 de dezembro de 2011

FICA A "SODADE"



De pé, um aplauso a CESÁRIA