Que venha dois mil e doze escrevia eu a trinta e um de Dezembro. E, aquela frase escrita assim, até poderia parecer um desafio, com uns laivos de ameaça, uma fanfarronice, uma bravata de quem pretende fazer-se forte e destemida, sem o ser.
E, dois mil e doze veio, não se fez esperar. Ano Novo vestido de palavras velhas. Votos de felicidade, saúde, alegria, que todos trocam com todos, envolvidos em sorrisos simpáticos e carinhosos. E eu, que passei estes últimos meses dividida entre Lisboa e Marrazes, onde teimaram em não me substituir, comecei o ano já cansada, mas afrontando destemida a incerteza que, tal como a espada de Demócrito, paira sobre as nossas cabeças.
Dia três, de coração partido, acabei o meu “contrato de trabalho” de “ama seca” da Rita, deixando igualmente para trás as brincadeiras com o André. Já não vou andar no vai e vem dos últimos meses, mas não me espera menos trabalho. Quando o meu amigo A.B. simpaticamente me disse, citando Shakespeare, que há mais estrelas no céu que aquelas que posso divisar, para concluir, à laia de consolo, que não me deveria esgotar no trabalho de avó, já estava a contar comigo para a organização do congresso. Porque será que ao longo da vida nunca encontrei uma alma caridosa que sugerisse que me deitasse à sombra da bananeira a dormir a sesta? Será por causa da aranha armadeira?
Retomei os passeios pedestres na margem do Lis. Na primeira manhã contei todas as vértebras da região lombar: uma, duas, … e quando chegava a cinco, porque não havia mais, voltava ao princípio, ritmando a contagem com a grunhido das articulações sacro ilíacas, ao compasso do músculo reto femoral de cada coxa. Como foi possível em tão poucos meses acumular tanta ferrugem? Na segunda manhã já tudo parecia ter voltado ao normal: passada rápida, vértebras e músculos ausentes. Não fora o excesso de chocolates do Natal e tudo estaria bem.
E dois mil e doze vai caminhando, devagarinho mas com passada certa, rindo-se desta invenção tola a que o Homem chamou tempo, baralhando as estações, proporcionando-nos dias de tardes luminosas e quentes como se estivéssemos na Primavera e não no Inverno.
O conceito de tempo é uma ilusão? A minha coluna vertebral diz muitas vezes que não, mas o meu espírito garante que, se não fossem as obrigações, nem sequer precisaria de saber qual era o dia da semana, bastar-lhe-ia o vai e vem das marés para marcar a cadência da vida.