sexta-feira, 5 de abril de 2013

AH, AS AMIGAS!


Estacionara no Largo da República e seguia passeio fora, desgrenhada, cheia de frio, tão enrugada, tão triste, “tão fora de esperar bem”, tão necessitada de que me engomassem… Pensava no dia vinte de Março “Ah! Onze horas e dois minutos?! Mas que prima terá chegado? A vera não foi de certeza. Por onde andará a primavera?”

E o vento soprava fortemente… e os meus cabelos, acabados de pentear na cabeleireira, digladiavam-se irados sem que se vislumbrasse qualquer hipótese de trégua e eu continuava agarrada à parka mais leve que vestira, saudosa da mais quente que deixara em casa.

“A Ilda só não falhará Bach, porque sabe a música de cor”- pensei, sentindo-me a Madame Mim da banda desenhada e lembrando o concerto desta noite onde a minha amiga Ilda Coelho, atuará num palco baixo, havendo a hipótese de encarar as pessoas que a escutarão.

 Cruzo-me com a A.V. “Isabel, nem te conhecia, cada vez estás mais nova. Estás mesmo boa.”E não perguntava, afirmava. “Mulher, tira os óculos” – proferi azeda - ela seguia, tal como eu, de óculos escuros. “Não tiro não, que vejo muito bem. Estás ótima. Adorei encontrar-te.”

Ah! Não há como as amigas para nos levantarem o astral! Sobretudo nos dias de vento gelado quando seguimos, passeio fora, mal agasalhadas.
.   

quinta-feira, 4 de abril de 2013

IRREVERÊNCIA


Há dias a minha amiga facebookeana AR estava com “os nerves”, escrevia ela, por conta da filha de dez anos e eu ri com o comentário publicado. Conversámos depois, a propósito do assunto através do chat e só após terminarmos a conversa me recordei do episódio que passo a descrever.

Jantávamos, eu e as minhas duas filhas sentadas em volta da mesa redonda daquela sala de refeições contígua à cozinha, na casa onde então residíamos, quando a mais nova, que tinha na altura oito anos, manifestou pela primeira vez a sua pretensão:

- Quando for grande quero ser tradutora de CEE e vou trabalhar para Londres.

Eu achei a ideia hilariante e em vez de corrigir o erro, retorqui:

- Ai que bom! Já tenho quem me pague umas férias em Inglaterra.

- Não, mamã, eu pago-te é o bilhete de Londres para Lisboa.

A mais velha, onze anos de olhar maroto, achou por bem interferir:

- E eu pago o bilhete de Lisboa para Londres.

Eu ri com vontade. Era a costela, do meu lado materno e paterno, homogénea e precocemente misturadas a falarem na sua forma predileta: a ironia.  

- Como gostam de mim! As duas a querem ver-me pelas costas!

E depois do que vos conto, digam-me: quando as vossas filhas arrebitarem o nariz ainda vão considerar-se com o monopólio da irreverência?

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A IDA AO MÉDICO


UMA BREVE EXPLICAÇÃO

Há um tempo que penso seriamente dar algum espaço ao meu blogue. E quando escrevo: dar algum espaço, tenho em mente, evidentemente, a não publicação de textos meus.

Algumas questões se me têm posto. Uma dela prende-se com o título: HORIZONTE SEM HORAS. Será que ainda se justifica? Na verdade continuo a gostar de me passear por uma paisagem larga, com água por perto. Gosto do cheiro das manhãs. Gosto de caminhar sem cuidados, como se possuísse o tempo e de facto até possuo. Possuo o meu tempo, o que já vivi e o que me resta, seja lá quanto for também será incontestavelmente meu e feito de vagares. Continuo a gostar do marulhar fininho das ondas na baixar mar, mas naquela paisagem onde me saciava de esperança, morreu o sonho do cavalo verde. Foi sofrido…

Bom e andando eu numa de escrevo não escrevo, a que se juntaram as férias da Páscoa, a estada do neto em Leiria e a saída da filha mais nova para o estrangeiro, ainda tive tempo para dar uma saltada até à minimaratona de Lisboa e andar com tonturas (para além da tonteira de que sofro habitualmente), com o mar nos ouvidos e os cardumes de todos os oceanos à cabeça.

Pois hoje uma amiga abordou-me “Isabel, há tanto tempo que não escreves no blogue! Todos os dias vou ver se tens algo novo publicado. Gosto tanto de te ler. Vê lá se voltas a escrever.”

Eu sorri e limitei-me a confirmar: “De facto, não tenho publicado.”

Desde pequena que me questiono que falta faria se não tivesse nascido. Há quem garanta que todos temos um papel específico a desempenhar. Cá para mim parece-me que isso é conversa de quem nos quer de bem com a autoestima. Eu creio que se não tivesse nascido o mundo passaria bem sem mim. Uma vez disse isto a um amigo e ele zangou-se: “já contaste quantos alunos ensinaste a ler? Quantos alunos-mestres ensinaste a ensinar a ler? A quantos professores ensinaste a melhorar as práticas letivas?” “ Conversa. Se não fosse eu, era outra qualquer”. E ele ia-me batendo. Bom, mas já que nasci e ando por cá e sem qualquer vontade de me “pôr a andar”, sinto-me com algumas obrigações para as amigas e feliz e útil se, durante segundos, lhes amenizar o dia.

Então para quem gosta de me ler, cá vai uma história verídica, de que me lembrei por ter consultado recentemente o médico. Quem me conhece bem acredita que aconteceu mesmo.


A IDA AO MÉDICO

Quando as amigas ou os amigos combalidos se queixam recomendo sempre uma ida ao médico “se os remédios se inventaram são para serem tomados quando precisamos deles” costumo pregar-lhes assisadamente, contudo, não é o que faço. Quando sou eu que me sinto mal, espero que passe. E a situação vai-se arrastando e nunca passa sem uma consulta.

Sou, reconheço, uma péssima doente. Aliás, filha de minha mãe, não teria muitas hipóteses, ou seria tal como ela de cuidados extremos, para não dizer excessivos ou o seu contrário. Pois saí o contrário.

Detesto mesmo ir ao médico, porque, não sei como, acabo muitas vezes no papel do clínico e no fim eu pago a minha consulta e o médico não me paga a dele. A minha mãe diz que é por eu não passar receita. Possivelmente será por isso. Bom, eu sou daquelas pessoas que até me automedico, confesso, mas cumpro as visitas anuais que o bom senso impõe que se façam. 

Uma dessas visitas é, como acontece com todas as mulheres, a ida ao ginecologista. Há cerca de dois anos, mal entrei no consultório, o meu ginecologista estava muito indisposto “Ai Sra. Dona Isabel estou muito doente. Estou muito mal do estômago. Daqui a um ano já cá não estarei para a consultar.” “Porquê? Deixa de dar consulta?” “Não. Já devo ter morrido. Estou muito mal do estômago.” E continuou a lamuriar-se, aiando e contorcendo-se, dizendo-se tão doente que eu confesso-me sem arte para exprimir tal dor, tão terrível mal. Em cima da secretária a chávena da bica bem curta que a Teresa, a empregada, tinha trazido do café que se situa no rés-do-chão.

Eu ouvi, ouvi, ouvi… e quando o médico repetia já não sei por que vez que ia morrer eu levantei-me da cadeira em que estava sentava à sua frente, com a secretária de permeio debrucei-me sobre ele com o indicador direito bem espetado no seu nariz e disse: “Livre-se! Por que pensa que escolhi um médico mais novo que eu? (ele tem seguramente menos dez anos) Julga que estou para andar a mudar de médico?  Está proibido de morrer antes de mim. Pare de beber café que melhora logo. E agora chame a Teresa e trate de me ir observar que tem a sala de espera cheia de gente, que tem mais que fazer que estar ali à espera que morra.” Ele obedeceu. Eu não precisei de passar receita para que as melhoras fossem imediatas.

Agora digam-me, quem é que merecia os setenta euros da consulta?
  

sexta-feira, 29 de março de 2013

NÃO RESISTI


Sócrates,os outros e ele próprio

por FERREIRA FERNANDES
Então, Sócrates voltou. Vou zurzi-lo. Um ex-primeiro-ministro de Portugal não dá explicações sobre como pode ir estudar dois anos para Paris. Parolos podem parolar sobre isso, mas gente da classe média que já teve filhos a estudar durante cinco anos em Paris sabe que isso é honestamente possível. Não se explica tal a um Octávio Ribeiro, diretor do CM, que insiste há meses com esse tema. Olha-se-lhe é para a cara dele e à pergunta que nela vem estampada ("E V. Exa toma mais alguma coisinha?") e responde-se: "Não, só a conta." E não se lhe deixa a gorjeta de uma explicação numa entrevista com jornalistas decentes. Tirando esse deslize, Sócrates foi moderado, criticou no PR falhas de solidariedade institucional. Ora com Cavaco um animal feroz levantaria outra coisa: aquele que é hoje o Presidente de Portugal ganhou de um banco, num ano, mais do dobro do que lá tinha depositado - e, depois de ter sido provado que o banco era de bandidos, não devolveu as mais-valias. Essa é a questão-chave, porque reconhecida e aceite, do desconforto dos portugueses com os seus políticos. Já com os chefes do Governo e da oposição, Sócrates limitou-se a mostrar, em contraexemplo, que Passos tem sido uma cucurbitácea, lá fora, e Seguro, um banana, cá dentro. Daí as minhas críticas por ele ir para essa coisa falsa que é político comentador político. Um político assim deveria ir ao congresso do seu partido e lutar pelo seu lugar.

segunda-feira, 25 de março de 2013

MINI MARATONA DE LISBOA

Este ano convidei uma amiga para me acompanhar na mini maratona de Lisboa, cujo aliciante é passar a Ponte 25 de Abril a pé. Ela aderiu à ideia com grande entusiasmo.



Na semana anterior à prova, marcada para o dia 24 de Março, ela todos os dias treinou percorrendo o percurso entre Belas e Alfornelos numa tentativa de conseguir chegar em tempo recorde ao local marcado para o nosso encontro. Como a melhoria não foi significativa, ela decidiu pernoitar no local combinado, com medo de chegar atrasada. Ei-la na Praça Teófilo Braga à entrada do Metro. 


 Entretanto, Domingo, dia 24, apareço eu...


E depois de tanta pressa, fez-me esperar que abrisse o talho porque queria levar morcelas para o farnel. As minhas barrinhas de cereais não a satisfaziam.

Seguimos de metro até Sete Rios e daí continuámos de comboio até ao Pragal, acomodadas como sardinhas em lata de conserva.


Receção na estação do Pragal em honra da minha amiga Albertina...


e toca a andar que todos os caminhos vão dar à linha de partida e ainda faltavamm cerca de dois quilómetros (tudo para mais nada para menos)

Um olhar distante sobre a linha de partida... Havemos de chegar lá... Já não falta tudo...

Ele há cada maduro!!!



O mais perto possível da partida verificámos que houve quem fosse de Ferrari...





Começou o aquecimento... 



E a minha amiga não brinca em serviço, mesmo correndo o risco de perder parte da vestimenta...




Eis os responsáveis pela animação.

Mas o calito... começava a incomodar.


Tiro de partida e toca a andar...


Há quem se desfaça da roupa para ir mais leve...


 E Lisboa da outra banda...


E o vento era tanto... E a ponte abanava... Ah! A minha amiga nem deu por isso. Tal era o entusiasmo!


E o Tejo ali, era só estender a mão e pegar...


 Contei os barcos. Não fosse faltar algum...


Vasco da Gama também assistiu.


E já havia gente lá em baixo... "Mas qual é a pressa?" (Onde é que eu já ouvi isto?)


 Olhei para trás...


A vaidosa mudava de sapatos...


Depois percebi porquê... Fora da bailação no almoço da escola... estava com calcanhares de quem fora a pé a Fátima...



A abelha maia também fora à mini maratona...


Houve quem levasse o bobby,,,


E aqui está a prova inequívoca de que aconteceu na primavera.


E rufaram os tambores...


O Francis Obikwelu tinha acabado de desistir porque a Albertina vinha em primeiro lugar...


Entretanto, agarrei-a pelo braço. "Então?! Qual é a tua? Deixa a miúda ganhar isto." Ela parou E foi assim que a Adriana Costa do S.C. Braga ganhou. Honra lhe seja feita.


A  minha amiga atirou-se às bananas do Jardim e eis a prova do estrago que provocou. Depois saboreámos um gelado, o novo do Magnum.



Para memória futura aqui fica esta foto com as medalhas que ganhámos.



Pormenor da medalha






O "reverso" da medalha



Já depois do café e perto da Praça da Princesa, onde esperámos que o príncipe nos viesse buscar


Foram dez quilómetros, mais ou menos...

quinta-feira, 21 de março de 2013

DIA MUNDIAL DA POESIA

Depois de uma quarta-feira para esquecer, rendi-me ao betaserc. Deixei de ter o mar nos ouvidos, passou-se me a cabeça para as nuvens.

Quão mais fácil não era ser a menina que brincava aos caranguejos, do que a velhota que queria ser búzio!

E hoje, dia Mundial da Poesia, peço a ajuda de Beryl Cook e Ary dos Santos para vos dedicar esta bela sinfonia.








Nona Sinfonia

É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas    sagradas    impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.

Ary dos Santos, in 'O Sangue das Palavras'

DIA MUNDIAL DA FELICIDADE




Ontem, regressara do concerto de Jazz, que aconteceu uns decibéis acima do recomendado para a sala intimista que é a do Teatro Miguel Franco e chegada a casa, ficara em ameno cavaqueio com um amigo no chat do Facebook. Ele reconhecido intelectual cá do burgo concedeu-me o privilégio de ler, em primeira mão, um dos seus poemas, acabado de escrever:

- Meu Deus! Estás triste? – quis saber. Como resposta enviou-me um poema de amor:

- Zangas-te se “mandar bocas”? – perguntei, achando estar a falar de amor “sob as tílias” quem talvez nunca tivesse amado em tal sítio.

Sugeri algumas alterações, deixando espaço e tempo para que quem lesse o poema se apoderasse dele e saboreasse o beijo como lhe apetecesse.

- E a mancha gráfica?

Eu disso gostava, mas não enjeitei a ocasião de referir que detestava o fim que entretanto lhe acrescentara, confessando humildemente que quem sabe, escreve e quem não sabe, opina acerca daquilo que os outros escrevem.

- Deixa-te de merdas – escreveu ele – conhecemo-nos há anos de mais para cerimónias. Se não quisesse a tua opinião não perguntava.

De facto somos amigos desde garotos, mas eu naquele momento não sabia se o meu amigo queria mesmo a minha opinião, se a minha companhia, num momento de solidão que talvez não lhe apetecesse  e se não perguntaria só para me manter ali, conversando mais uns minutos . Daí o meu pudor opinativo.

E neste vai e vem de versos deitei-me às duas horas da manhã.

Invariavelmente, acordo um pouco antes das oito e assim aconteceu hoje. Como era quarta-feira, dia da Carma vir limpar a casa, deixei-me ficar na cama até que a ouvi abrir a porta da rua. Então, pulei fora da preguiça.

Acordara com o "mar nos ouvidos", um cansaço enorme na alma e uma vontade ainda maior de me “atirar ao rio”.

- Hoje não pode ser – garantiu a Carma – temos de ir a minha casa buscar um saco de terra para os vasos e tem de me ajudar a mudar as flores.

E quem pensa que na minha casa mando eu, que se desiluda. Quando a Carma dá ordens, refile eu o que refilar, não me resta senão obedecer. O temporal levara as malvas-rosas das floreiras da varanda e a ela decidira substitui-las por amores-perfeitos que trouxera do viveiro da prima. “E toca andar que a manhã é curta” - não disse, mas pairou implícito e eu obedeci.

A tarde, passei-a debruçada sobre a má disposição, fechada em casa, a receber mensagens lembrando a vinda a Leiria de António José Seguro e só por volta das dezanove horas fui ao Continente às compras, para depois jantar e ir ouvir o líder.

O P da C veio cumprimentar-me mal me viu aproximar da entrada de ESECS e eu brinquei:

- Não precisavam de vir todos receber-me.

- Bastava vir eu, não era?

Entrei, atravessei o átrio, cumprimentando sem me deter e dirigi-me ao anfiteatro onde pacatamente tomei assento, esperando o início da sessão.

Era o Dia Mundial da Felicidade, mas eu não sou feliz por decreto.