terça-feira, 3 de setembro de 2013

É SETEMBRO

“Venham amanhã” - sugeriram as amigas e os amigos que anualmente encontro naquela fila de barracas, em S. Martinho do Porto, no mês de agosto, quando, com as amigas de Leiria, me despedia disposta a partir. “A Patrícia oferece-nos o dia de bónus” – acrescentaram. A Patrícia é a concessionária que nos aluga a barraca de praia. “Não! Mês e meio de S. Martinho, chega! E despedimo-nos. “Adeus. Até à Festa da Senhora do Fetal” – Disseram, tal e qual como haviam dito o ano passado, para só nos voltarmos a encontrar, este ano, em pleno mês de agosto, na praia.

Antes o Rui fora a Turquel buscar queijadas à fábrica do pai e aconteceu outra confraternização. Tirámos fotos e viemos. Os outros ficaram. Possuem lá casas, não precisam de respeitar o calendário, mas para mim, já é tempo de repor as rotinas.



Desci até ao centro. A cidade continua despida, quase não há gente nas ruas, talvez por ser domingo, um domingo de sol, sem vento. E eu gosto da cidade despida da fauna habitual. Lembro-me sempre da cantilena “Que é que você vai fazer domingo à tarde?... Passear por aí, numa rua qualquer da cidade…” a cadência é triste e a canção fala de solidão, mas eu gosto de deambular pela cidade despida de quotidiano, olhá-la na nudez dos fluxos que lhe dão vida, como se a visse lamber-se nas feridas para sarar-se  de mágoas e encontrar um novo sentido, esquecidos interesses. E sinto-me a fada madrinha que estalando os dedos ilumino os sítios mais cinzentos, planto malvas-rosas em todas as janelas e deixo que os gatos se espreguicem ao sol.

Não ia calçada para grandes passeios, mas não foi isso que impediu que me alongasse pelo rio, cidade fora. Subi a ponte pedonal, que ainda não conhecia e debrucei-me sobre o rio. “Que pena” – pensava – “não haver dinheiro, para a limpeza do leito. Para a recuperação das casas junto à margem…” e detive-me. Detive-me enamorada daquela velha casa com escadas para o rio onde tanto desejei morar, quando menina. Ri-me à lembrança dos tratos que dava à imaginação no sentido de convencer a minha mãe a deixar-me tomar banho no rio, se algum dia ali morasse. E da forma simples como me consolava: “se não me deixar tomar banho, vai deixar que me sente no degrau com os pés de molho”. Hoje a água já nem chega aos degraus e quem, para além dos patos, quereria tomar banho neste rio tão pouco convidativo?!

As ruínas falam de abandono, de outros interesses, de vidas que foram, já não são. Aquela casa projeto Korrodi a cair aos bocados…

E eu calmamente a regredir no tempo, contrariando o curso do rio, anos a fio em tão poucas horas, a sorrir ao que foi e feliz por poder voltar para trás e seguir em frente na expectativa do que virá depois.

É setembro.

sábado, 10 de agosto de 2013

UMA VEZ MAIS


Ramalho Ortigão definiu-o como o local onde o inverno vinha passar o verão. Eu garanto que é o sítio onde sonho melhor.
S. Martinho do Porto, um pedaço do paraíso.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

RETRATO DE MULHER TRISTE

Como terão adivinhado que hoje acordei assim?



Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles, in Poemas (1942-1959)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

JANELAS


Castelo de Vide



Marvão



Pormenor da foto anterior


Viana do Castelo

Aquele que olha de fora através de uma janela aberta, não vê nunca tantas coisas quanto aquele que olha uma janela fechada. Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais radiante do que uma janela iluminada por uma candeia. O que se pode ver à luz do sol é sempre menos interessante do que o que se passa por detrás de uma vidraça. Neste buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.

Para além do ondular dos telhados, avisto uma mulher madura, já com rugas, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai. Com seu rosto, com sua roupa, com seu gesto, com quase nada, refiz a história desta mulher, ou melhor, sua lenda e, por vezes, a conto a mim mesmo chorando.
Houvesse sido um pobre velho homem, teria refeito a sua igual facilidade.

E me deito, feliz por ter vivido e sofrido em outros que não eu mesmo.

Vocês talvez me digam: "Tem certeza de que esta lenda é a verdadeira?" Que importa o que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou e o que sou?

Charles Boudelaire

terça-feira, 9 de julho de 2013

AQUELA CAIXA DE TRUFAS

Olhei a caixa, elegante nas proporções e no negro de que é feita. Se é certo que o preto significa ausência de cor, não é menos verdade que tal característica dá asas à imaginação deixando adivinhar, antes de qualquer estímulo, que todas as sensações serão possíveis. Foi com esta promessa que avancei.


 Acariciei a caixa. A diferença de texturas misturou-me no tato uma leve rudeza com a finura dos cachos de uvas do Rocim.



Levantei a tampa. Saltou-me à vista, num branco translúcido a explicação de "DELICIOSAMENTE DOCE" e neste contraste da ausência de cor exterior para o branco da mensagem, cor que resulta da mistura de todas as outras, reforçou-se a promessa de excelência.






Quando venci a última barreira, levantando mais uma tampa, ficou-me nas mãos, em proporções perfeitas, a lonjura da planície alentejana e bem no centro, qual tanque de pisa, o tesouro que procurava. Com os desvelos que a terra merece, as trufas, simbolizando os torrões toscos da Herdade do Rocim, esperavam, acondicionadas em celofane, que eu as descobrisse e extraísse delas o sabor do excelente vinho que essa terra produz. 







O cheiro forte e quente contrastava com a sonoridade do celofane, que me remeteu para o crepitar da lenha na lareira, para quietude do lugar.

No paladar não me detenho, já outros, com finura e engenho, o fizeram antes de mim, só me resta confirmar o já descrito. Em cambiantes de gosto, a trufa desfaz-se-nos na boca, como a terra acariciada se desfaz entre os dedos.

Estas trufas só "pecaram" (falta minha!) por não terem sido saboreadas do alto daquele terraço que encima a adega, virado à entrada, onde a sugestão do feminino, com uma velada ideia de fecundidade faz com que qualquer mulher se sinta inteira, mesmo antes de descer ao interior, à "catedral" de altas colunas onde todas as sonoridades são possíveis. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

PRAXÁGORA



(…) O que tenho a fazer é pôr a coroa na cabeça e encarregar-me, eu, da vossa defesa.

Aos deuses suplico que levem a bom termo os nossos projetos. Esta terra é tanto minha como vossa. E aflige-me, dá-me engulhos, ver a podridão que vai por essa cidade. O mal está em que a vejo sempre deitar mão a governantes da pior espécie. Se por um dia que seja, aparece um que se aproveite, a fim de dez fica igual ao anterior. Confia-se noutro e é pior a emenda que o soneto. Sem dúvida que é difícil abrir os olhos a gente cabeçuda como esta.

Dos que vos são dedicados, vocês têm medo; dos que não querem nada convosco, andam atrás deles que nem cordeirinhos.

Se um fulano se cose com as massas cobrem-no de elogios; se não se aproveita, diz-se que quem procura ganhar a vida como membro da assembleia merece a morte.

E são vocês, meu povo, os culpados de tudo. Quando recebem em salário os fundos do Estado, só pensam no próprio interesse. É ver quem se enche mais! E o Estado lá vai tem-te-não-caias. Mas acreditem no que vos digo, ainda se podem salvar. É às mulheres, na minha opinião que se deve confiar a cidade. Tanto mais que, nas nossas casas, é a elas que entregamos a administração doméstica.
Que os hábitos delas são melhores do que os nossos é o que passo a demonstrar.


Fazem os seus grelhados sentadas, como dante; trazem fardos à cabeça, como dantes; cozem bolos, como dantes; estafam os maridos, como dantes; metem os amantes em casa, como dantes; compram gulodices, como dantes; gostam de uma boa pinga, como dantes; pelam-se por fazer amor, como dantes. Por isso é a elas, meus senhores, que temos de confiar a cidade, sem mais discussão, sem sequer nos preocuparmos com o que pensam fazer. Dêmos-lhes carta-branca para governarem.  Consideremos apenas estes pontos:

Primeiro, que se são mães, vão dar tudo por tudo para salvarem os soldados;

Segundo, no que respeita a comida, quem mais solícito que uma mãe para reforçar uma ração?

Ninguém mais furão que uma mulher para arranjar umas massas; no poder não há quem lhes faça o ninho atrás da orelha, porque a fazer o ninho atrás da orelha quem é que lhes leva a palma?! Bom, adiante! Vão pelo que vos digo, que ainda hão de levar uma vidinha regalada.

Aconteceu no Teatro Miguel Franco, a 18 de Junho de 2013, pelas 15h 30m

As Mulheres no Parlamento, Aristófanes

Introdução, versão do grego e notas de Maria de Fátima Sousa e Silva, JNIT - Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1996



Bléfiro, Teresa Sá Pessoa, "meu marido", eu e Cremes, Manuela Figueiredo



"São as mulheres a governar! São as mulheres a governar!"
Da esquerda para a direita: Eu; Alda - outra mulher; Lurdes Frazão - primeira mulher e homem, Esmeralda Sapinho - escrava; Manuela Figueiredo - Cremes; Teresa Sá Pessoa - Bléfiro; Altina - segunda mulher, que não se vê nesta foto


Com a Dra. Isabel Aragão, a professora de teatro e encenadora e Dra. Helena Carvalhão - Presidente de Sempraudaz - Associação Cultural


A Altina - segunda mulher, contracenando comigo

TRANSPARÊNCIAS





A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Fernando Pessoa