sábado, 1 de fevereiro de 2014

MAIS E MENOS

No amor, regras que contem,
Há uma só que não é vã:
Amar hoje mais do que ontem
Mas bem menos que amanhã

E eu num fado que isto guarde
Também acrescentaria
Amo-te mais cada tarde
Do que amei nascendo o dia

E cada vez muito mais
Do que antes, mas tais requintes
São muito menos, ver vais
Do que nos dias seguintes

Com resultados tão plenos
Como somar dois e dois:
Muito mais e muito menos
Conforme "antes" e "depois"

No amor, regras que contem,
Há uma só que não é vã:
Amar hoje mais do que ontem
Mas bem menos que amanhã

Vasco Graça Moura

Homenageado e condecorado pelo Presidente da República a 31 de Janeiro. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

FESTA DA ALBERTINA (2012)



Captação de imagens: Filhas da Albertina;
Montagem: Albertina, a professora de informática que dá aulas pelo telefone.

NUM DIA EXCESSIVAMENTE NÍTIDO

Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.

Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas idéias.


A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.

 Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, poema XLVII"

domingo, 26 de janeiro de 2014

UN SOUVENIR



Vídeo e montagem de autoria de António Nunes

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

SER QUE NUNCA FUI

 Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava


Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gesto que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

DOMINGO: MANHÃ, MAS QUE LINDA MANHÃ


Há talvez uns quatros dias que acordo com a cabeça cheia de música, desta música, de cuja parte instrumental gosto muito:



Esse facto tem feito com que passe os dias inteiros a trautear a canção. Possivelmente por isso, porque não sei cantar, recomeçou a chover. Ao terceiro dia, nem as nuvens aguentaram a desafinação. Ah! mas não há hipóteses do tempo melhorar. Eu continuo a cantar de manhã à noite, sem que a voz me doa. 

Domingo, contudo, último dia em que a atmosfera resistiu, à minha melodia, esteve mesmo uma linda manhã. Saltei da cama cantarolando e tratei de me pôr a caminho depois dos cuidados habituais de cada novo dia.

Desci a ladeira a pé.


 Atravessei a porta...


E eis-me na ponte a atravessar da margem direita  para a esquerda, que é como quem diz a virar costas a Marrazes e a caminhar em direção a Leiria, com o olhar virado à foz, enchendo-me desta linda e calma paisagem de inverno.


Caminhei pelo Marachão até ao centro da cidade


E voltei para trás. "Ah! mas nunca fotografei a Ponte do Bairro dos Anjos, deste lado."

E fui tirando fotos...


à medida que me aproximava.

 Na outra margem, o café onde, com a Paula Miguéis, costumava estudar Direito Penal. Agora tem um ar desolador, mas mal chega a primavera torna-se um local muito aprazível.


De repente uma folha tardia lembrou-me que o inverno começara há pouco tempo...


Vai um passeio de avião?


Os técnicos verificam as condições do voo.


Tudo nos conformes. Toca a levantar voo.


Mas quem tiver medo de voar, pode optar por um passeio de barco. Não há barco, mas há gare 
fluvial. Já não falta tudo...


Preferi continuar a pé, em ameno cavaquear com o sol e a paisagem. Encantei-me com as heras...


...no seu caminhar lento e seguro envolvendo o tronco das árvores.


E fui andando, andando...


... e regalando a vista. Não havia verde. A natureza dormia para só voltar a acordar na primavera


Antes da Ponte Europa, atravessei para os Marrazes e comecei o regresso pela margem direita.


Olhei para trás. Que lindo o rio correndo devagarinho para a foz!


Mas os peixes Senhor? Porque lhes dais tanta dor? Por que padecem assim?


Enchi os olhos de amarelo nestes malqueres que à luz do sol refulgiam. 


Voltei a passar a Porta, desta vez em sentido contrário. Subi calmamente a ladeira e cheguei a casa. 

Domingo: manhã, mas que linda manhã!

domingo, 29 de dezembro de 2013

O PAI NATAL

Quando era pequenina... pois é verdade, também já fui pequenina... diziam que era o Menino Jesus que me dava as prendas no Natal.

Eu colocava o sapatinho na chaminé, já em camisa de dormir, prontinha para entrar na cama e a curiosidade tomava conta de mim naquela noite de vinte e quatro para vinte e cinco de dezembro, até conseguir a muito custo adormecer, para só de manhã me aquietar e comover com a generosidade do Menino Jesus.  

Eu achava o Menino Jesus altruísta. Na verdade, nem sabia que a palavra existia, mas achava-O muito bonzinho, porque Ele, um Menino que gostaria de brincar, dava os brinquedos a todos os outros. Parece-me até, que foi graças a este conceito de generosidade, que minha mãe conseguiu que eu desse, com o coração em chaga, todos os brinquedos a uma menina da Carreira, de que nem lembro o  nome, quando ela entendeu que eu não tinha idade de brincar com eles. Foi pois com dor, que aprendi a dar aos outros, se calhar acontecia o mesmo em cada Natal ao Menino Jesus. E a minha mãe, bem na linha de minha avó Isabel, sempre foi assim: capaz de dar até a camisa, desde que achasse que ela servia alguém, que ela tinha uma função social ao serviço do próximo.

Nunca entendi muito bem como é que o Menino Jesus transportava tanto brinquedo e os distribuía pelas chaminés de cada casa, mas como o serviço aparecia feito e bem, nunca me preocupei muito em desvendar o mistério.

Muito mais tarde, o Menino Jesus, talvez devido ao cansaço, fez-se substituir pelo Pai Natal. Este vinha de trenó, puxado pelas renas e distribuía as prendas. Como figura mais possante, percebia-se melhor que aguentasse a trabalhar a noite inteira sem enganos e canseiras.




Mas as chaminés foram sofrendo alterações. Encheram-se de antenas e algumas até de heras. "Como entrar?" - questionava-se o Pai Natal.



Optou por escadas de corda...
 tentou subir a pulso...


Aprendeu até aquele novo desporto urbano, que a ignorância não me permite saber o nome, e pulou até à varanda desta casa...

Noutras usou o trapézio do Circo Moderno que está lá em baixo no espaço da Feira de Maio, para dar um ou outro espetáculo, na esperança de que o içassem para dentro.

O Pai Natal, embora com muitas horas de ginásio, não tinha preparação física à altura do esforço exigido. Ao fim de tantos anos por aí  numa azáfama destas, os músculos não são o que foram e ele é contra as substâncias artificiais com que muitos obtêm aquele aspeto de "dinamite".

Creiam, foi um desepero esta Noite de Natal.




Desesperado, caindo de cansaço, perdeu o saco e acabou enforcado, em indecente e má figura, na varanda do primeiro andar esquerdo do prédio onde habito.

Eu moro no segundo direito... Percebem agora por que fiquei sem prendas?