segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

DE MÃOS DADAS COM O SOL (Primeira etapa: A caminho)


No domingo, acordei com uma vontade quase irreprimível de escrever, mas o bom tempo convidava a um passeio a pé.
Assim, depois de almoço, desci as escadas e saí do prédio.


 Encontrei de imediato a primavera


 E seguimos da mãos dadas, a primavera e eu, com o sol meio envergonhado daquela tarde de inverno, em que a chuva nos dera tréguas.


Colhemos narcisos. E a primavera e sol estenderam-me, repousando na tarde e eu continuei.


  Detive-me junto às ervas daninhas da beira da estrada. Alguém provou a seiva desta flores amarelas ou fui só eu que em garota fiz tolices?


Mais dois passos e não resisti...

    

Colhi um trevo... Sou eu que faço a minha sorte.



          A Natureza resplandecia.  Até as silvas floresciam com uma pujança para mim desconhecida.                                                                                                                           


E a brincadeira infantil: "O teu pai é careca?" E eu-menina a soprar as sementes ao vento: "É careca!"



 Será que outra Isabel reconhece alguma destas varandas? Ou serei eu que estou confundida?


 Continuei o passeio, pela Rua Comissão da Iniciativa.


 Detive-me para dois dedos de conversa com AS MULHERES DE LEIRIA - escultura de Pedro Anjos Teixeira, inaugurada a 22 de Maio, no âmbito das comemorações do IV centenário de elevação de Leiria a cidade.


 Mais uns passos e a curiosidade permitiu que encontrasse a Porta Verde. Está velha, desbotada e gastas porque, em cada amanhecer, é por ela que passam biliões de pessoas antes de pôr o pé no novo dia.


 Atenção ao aviso!


E aquilo o que seria, mesmo ali do lado esquerdo desta porta sem vidros? 


Tinham-me dito que eram raros... Ah! Em Leiria há muitos! Mesmo à mão de colher, nas floreiras do edifício sede da Junta de Freguesia.


 Colhi um branco, tal como quero para mim. Branco com sinónimo de sincero, verdadeiro. Newton provou que o branco é a mistura de todas as cores... e eu quero o arco-íris.


Tropecei em tristeza e desolação


E detive-me a VER.A.CIDADE.


Alguém sabe o que foi esta horta? Nada mais nada menos que a cerca onde brincavam as meninas que frequentavam o Liceu Nacional de Leiria. Era o logradouro do Anexo do Liceu. 


Sinto-te a falta, amiga.


Pois é!


E o ato revolucionário surgiu a dois passos.


O "Ferro de Engomar" lembrou-me que havia trabalho que me esperava...


Mas que importava?! Amor ainda se escreve com pétalas de rosa.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

MAIS E MENOS

No amor, regras que contem,
Há uma só que não é vã:
Amar hoje mais do que ontem
Mas bem menos que amanhã

E eu num fado que isto guarde
Também acrescentaria
Amo-te mais cada tarde
Do que amei nascendo o dia

E cada vez muito mais
Do que antes, mas tais requintes
São muito menos, ver vais
Do que nos dias seguintes

Com resultados tão plenos
Como somar dois e dois:
Muito mais e muito menos
Conforme "antes" e "depois"

No amor, regras que contem,
Há uma só que não é vã:
Amar hoje mais do que ontem
Mas bem menos que amanhã

Vasco Graça Moura

Homenageado e condecorado pelo Presidente da República a 31 de Janeiro. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

FESTA DA ALBERTINA (2012)



Captação de imagens: Filhas da Albertina;
Montagem: Albertina, a professora de informática que dá aulas pelo telefone.

NUM DIA EXCESSIVAMENTE NÍTIDO

Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.

Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas idéias.


A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.

 Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, poema XLVII"

domingo, 26 de janeiro de 2014

UN SOUVENIR



Vídeo e montagem de autoria de António Nunes

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

SER QUE NUNCA FUI

 Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava


Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gesto que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

DOMINGO: MANHÃ, MAS QUE LINDA MANHÃ


Há talvez uns quatros dias que acordo com a cabeça cheia de música, desta música, de cuja parte instrumental gosto muito:



Esse facto tem feito com que passe os dias inteiros a trautear a canção. Possivelmente por isso, porque não sei cantar, recomeçou a chover. Ao terceiro dia, nem as nuvens aguentaram a desafinação. Ah! mas não há hipóteses do tempo melhorar. Eu continuo a cantar de manhã à noite, sem que a voz me doa. 

Domingo, contudo, último dia em que a atmosfera resistiu, à minha melodia, esteve mesmo uma linda manhã. Saltei da cama cantarolando e tratei de me pôr a caminho depois dos cuidados habituais de cada novo dia.

Desci a ladeira a pé.


 Atravessei a porta...


E eis-me na ponte a atravessar da margem direita  para a esquerda, que é como quem diz a virar costas a Marrazes e a caminhar em direção a Leiria, com o olhar virado à foz, enchendo-me desta linda e calma paisagem de inverno.


Caminhei pelo Marachão até ao centro da cidade


E voltei para trás. "Ah! mas nunca fotografei a Ponte do Bairro dos Anjos, deste lado."

E fui tirando fotos...


à medida que me aproximava.

 Na outra margem, o café onde, com a Paula Miguéis, costumava estudar Direito Penal. Agora tem um ar desolador, mas mal chega a primavera torna-se um local muito aprazível.


De repente uma folha tardia lembrou-me que o inverno começara há pouco tempo...


Vai um passeio de avião?


Os técnicos verificam as condições do voo.


Tudo nos conformes. Toca a levantar voo.


Mas quem tiver medo de voar, pode optar por um passeio de barco. Não há barco, mas há gare 
fluvial. Já não falta tudo...


Preferi continuar a pé, em ameno cavaquear com o sol e a paisagem. Encantei-me com as heras...


...no seu caminhar lento e seguro envolvendo o tronco das árvores.


E fui andando, andando...


... e regalando a vista. Não havia verde. A natureza dormia para só voltar a acordar na primavera


Antes da Ponte Europa, atravessei para os Marrazes e comecei o regresso pela margem direita.


Olhei para trás. Que lindo o rio correndo devagarinho para a foz!


Mas os peixes Senhor? Porque lhes dais tanta dor? Por que padecem assim?


Enchi os olhos de amarelo nestes malqueres que à luz do sol refulgiam. 


Voltei a passar a Porta, desta vez em sentido contrário. Subi calmamente a ladeira e cheguei a casa. 

Domingo: manhã, mas que linda manhã!