quinta-feira, 23 de outubro de 2014

SEMPRAUDAZ - ASSOCIAÇÃO CULTURAL


Sonhei com lúcidos delírios
À luz de um puro amanhecer
Numa planície onde crescem lírios
E há regatos cantantes a correr.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Uma mulher comprometida com o conhecimento sonhou. Sonhou transmitir o saber para além dos anos para os quais a sua profissão de professora de Filosofia lhe permitira fazê-lo, no ensino público. Incapaz de permitir que a vida se esvaísse no corredor da esperança, Helena Moreira Duarte Carvalhão, figura incontornável da história de Leiria, na segunda metade do século XX, soube imprimir movimento ao sonho e, após a aposentação, fundou no início de 1999 a primeira Academia Sénior da cidade de Leiria. Nascendo assim, da sua vontade férrea e do voluntariado de várias professoras e professores amigos a Academia de Cultura e Cooperação, com o apoio da Câmara de Leiria e da Misericórdia de Leiria, entidade que cedeu as instalações onde, durante treze anos, funcionaram as diferentes atividades que, entre vários objetivos, tinham o fim de arrebatar ao isolamento, mantendo ativas e fazendo sentir-se úteis pessoas com idade superior a cinquenta anos. 

Com a promessa de uma sede própria formou-se posteriormente uma nova associação. Em 13 de Outubro de 2012, a Câmara Municipal de Leiria, através do Presidente Dr. Raul Castro, assinou com a Dra. Helena o protocolo de cooperação e atribuiu como sede própria o Edifício - Praça Eça de Queiroz à instituição recém-criada: Sempraudaz - Associação Cultural, da qual a Dra. Helena Carvalhão é a Presidente.


Dois anos são passados. A festa aconteceu segunda-feira. Do programa constou a conferência sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, proferida pela Professora Teresa Vieira, a declamação de poemas pelo grupo de teatro e a partilha do bolo de aniversário, entre os convidados e associados.

Para a Sra. D. Helena, a quem admiro o extraordinário dom de antecipar o futuro e que por motivos de saúde não pode estar presente, deixo, com os sinceros votos de rápidas melhoras, as palavras de Sophia:

Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida.
Isabel Soares
Jornal de Leiria, 16 de Outubro de 2014, modestamente na página 18.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

DÚVIDAS

Numa qualquer sexta-feira, fui ao médico.

“Não estou doente.” – disse ao clínico, um jovem pela idade da minha filha mais velha ou talvez nem tanto.  Ele levantou os olhos do PC. Agora os médicos interagem mais com os computadores do que com os doentes. E eu, para que não me tomasse por arrogante, ou presumida, ou como me quisesse chamar, emendei: “Bom! Penso que não estou doente. Isso terá de ser o doutor a avaliar, pois recai no âmbito das suas competências. O médico voltou a interessar-se pelo PC.

“Venho por uma questão que se prende com a qualidade de vida” – continuei – “nem tão pouco sei se poderei encontrar o que pretendo numa caixa de comprimidos.” O médico escrevia e eu desfiava o rosário das minhas ideias, pretensões, dúvidas, ou lá o que se queira chamar ao discurso que ininterruptamente proferia.

Quando me calei, o doutor desviou o nariz do PC, olhou-me, e num tom surpreendido sentenciou: “É uma senhora castiça, característica a que sabe muito bem aliar a inteligência.”

Eu sorri à leitura subjetiva que fiz do que acabava de ouvir, que não vem ao caso e lá vim com uma receita de pílulas que continuo na dúvida se devo ou não adquirir. No fim paguei setenta e cinco euros de consulta.

Conclusão: Castiça poderei ser, quanto à inteligência… tenho sérias duvidas. Pregar aos peixes ter-me-ia saído muito mais barato.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

A CARTA DE CONDUÇÃO


“Por que não tiras a carta de condução?” Não havia quem não perguntasse. E alguns até acrescentavam: “Uma rapariga tão despachada como tu…” Ela ria-se. “Ora, gosto mais de acelerar nos sofás da sala.” - e dava a conversa por terminada. Só que a questão voltava a ser-lhe posta. Ninguém entendia as suas razões que, verdade seja dita, ela também não revelava. Era um “porque não” implícito, que ninguém aceitava: “Hoje a carta é uma necessidade e não um luxo” – havia quem sentenciasse. E ela sorria. O sorriso substituía o esclarecimento que negava.

Ela tinha um segredo. Ora todos sabemos o que é um segredo. Só não sabemos, como ninguém sabia, qual era o seu segredo. Nem sequer havia quem suspeitasse que existia um segredo. Tão alegre, tão faladora, tão espontânea! Segredos?! Nem pensar. Pois havia mesmo um segredo! E se era segredo, como o poderia revelar? Era por não poder responder que sorria. Sorria e calava a razão pela qual nunca pensara aprender a conduzir um automóvel. Aquele motivo, segredo inconfessado até à mãe, era uma limitação que ela aceitou, como aceita tudo o que a vida lhe proporciona e não sabe ou não pode alterar. Era a sua circunstância e tratou de ser feliz com ela.

Como o tempo não para, a vida foi acontecendo.

Desde pequena que usava óculos, melhor dizendo, deveria usar. Se os cuidados da mãe se aligeirassem, esquecia-se de os colocar. Já em adulta, brincava: “Sem óculos vejo o ordenado inteiro, se os coloco fico com metade”. Ela sofria de hipermetropia e achava que via muito melhor sem óculos do que com eles, o que até era verdade. Possuía uma extraordinária visão de longe e de perto, só após muito esforço é que os olhos lacrimejavam. Para quê os óculos?!

O oftalmologista insistia: “Use os óculos. Ao longe, com eles colocados, vê tanto como uma pessoa com visão normal” “mas vejo menos” - respondeu naquele dia. O oftalmologista, com ar fechado, encarou-a e sentenciou “mas tem problemas por não usar os óculos.” Ela olhava-o desafiadora e o médico continuou “nunca lhe aconteceu, à noite, quando viaja de carro, não saber para que lado é a curva da estrada?” Ela quase pulou da cadeira “o seu segredo!” Num misto de espanto e alívio, confessou ao oftalmologista que sentia essa limitação. “Por isso nunca pensei aprender a conduzir um automóvel.” “Pois então use os óculos, vai notar a diferença.”

Passaram muitos anos após esta consulta de “adivinho”. Garante quem sabe que ela tirou a carta de condução com o número mínimo de lições de código e de condução exigido por lei, que, até hoje, não sofreu qualquer acidente rodoviário e aprendeu que, na vida, até o irremediável deve ser questionado.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

INQUIETAÇÃO


O cenário era o da mata dos Marrazes da sua infância. Aquele dos tempos dos piqueniques organizados pelo Atlético Clube da Sismaria, pelo dez de Junho. Não sabe a que propósito acontecia a festa, mas todos estavam animados. Vestia a sua idade atual e estava contente, como todos os que a rodeavam e eram muitos. Não sabe quem estaria responsável pelo bar: se o Sr. Chico, se o Silva Gante, se outro membro da direção do ACS daquela época.

Quis pagar, nem sabe que despesa. Meteu a mão na carteira, sem olhar. Como ao tato faltou o porta-moedas, prestou atenção: “Fui roubada.” - concluiu num misto de indignação e insegurança. “Pagar a conta! Como? – Preciso de dinheiro.” Não podia ir ao Multibanco – os cartões de débito haviam desaparecido com o porta-moedas. “A casa! Tenho de ir a casa!” Apressadamente procurou as chaves, mas nem a do carro, nem a da porta. Também a bolsa onde as guardava tinha sumido… Restava a Carma, a empregada que tem uma chave para entrar quando não está para lhe abrir a porta. Mas ela não sabia onde morava a Carma. Na paisagem onde tudo acontecia, o bairro onde reside a empregada, cem metros de ladeira a descer para o Sampão, não existia. 

“Como é que faço? Como é que faço?” Até os documentos de identificação haviam desaparecido...

"Ninguém me conhece. Como é que faço? Como é que faço?


“Não fazes de maneira nenhuma. Não precisas de fazer!”- ouviu-se a exclamar. Ido o pesadelo, com o sono por dormir, acabara de acordar.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

AMIGAS

A tia entrou e alongou-se pela sala, ocupando um lugar do lado direito. Ela encontrava-se já do lado esquerdo. Não se conheciam pessoalmente, mas sabiam da existência uma da outra.
Terminadas as exéquias, ela atravessou a sala. A tia era a única pessoa da família a quem ainda não apresentara condolências.

- Perdão.  – disse a senhora – Não estou a reconhecê-la.
- Chamo-me…
- Ah! Sei bem quem é… - (E os olhares acariciaram-se mutuamente.)
- Queria dizer-lhe…
- Sei que é uma pessoa alegre. Muito obrigada pelos momentos de alegria que proporcionou ao meu sobrinho.

Ela ficou sem jeito. Sorriu. Sorriu balbuciando:
- Gostei de a conhecer. Que pena ter sido nestas circunstâncias!
Depois, encaminhou-se para a porta e saiu atrás dos outros.

Ao sentimento de perda pela morte do amigo, aliava a falta daquela amizade que só não fora porque ela se esquivara a conhecer a família.
- Temos muito tempo. – dissera tanta vez.
Afinal o tempo fora escasso. Mas uma dor bastava, estrangulou aquele acréscimo de tristeza: “sabes lá se seriam amigas…”

Quanto tempo passou? Que importa?!

Há dias, aproveitando uma tarde amena, ela sentara-se na esplanada do café habitual e vagava pelas páginas de um livro. Alguém vindo por detrás enfiou-lhe os dedos nos cabelos acariciando-lhe o alto da cabeça. Nem se mexeu. Saboreou a carícia…

- Olá! – e a tia sorria – Há quanto tempo não nos vemos?!
Levantou-se e cumprimentou a senhora.

Seriam amigas, sim!



terça-feira, 27 de maio de 2014

LUGAR NENHUM


Espreitou por entre os vidros daquela janela larga… A chuva caía. Abundante, na tarde cinzenta, lavava tudo. “As plantas agradecem” – pensou. Fosse menina e escapar-se-ia aos cuidados da mãe para também ela se lavar, lavar a alma celebrando a chuva, no jardim. Só que então nem sabia que tinha alma e agora não tem jardim. 

As flores avulsas da varanda tremelicavam ao impacto das grossas gotas. Apeteceu-lhe movimento. Gosta da chuva. E então?! Há quem diga que tem mau gosto, mas ela sorri e responde resignada que há gostos para tudo.

Atravessou a casa e espreitou por outra janela a buganvília da vizinha no abraço bravio da ipomeia. Numa ponta do quintal, virada à rua, a nespereira sorriu no amarelo vibrante de seus frutos. Ela lembrou-se da velhota, que numa manhã de sol, puxava com o guarda-chuva as braças da árvore e se abastecia de nêsperas. “Fora hoje e já as levava lavadinhas, prontas a comer.” Sorriu. Nesse dia tivera pena da velhota e apetecera-lhe levá-la ao supermercado, mas ela sabia que não poderia oferecer-lhe nêsperas mais saborosas que aquelas que ela acabara de subtrair sorrateiramente à nespereira da vizinha.

Lembrou-se que também ela tinha nêsperas em casa, oferta de um amigo. “Hei-de semear um caroço, no vaso, para ver se cresce.” É assim com tudo, “para ver se cresce”, com os afetos como com as plantas, mas quantas vezes a terra do vaso é mais fértil que a bondade das almas…

Disposta a sair, vestiu um casaco e desceu as escadas. Enfiou-se no carro e partiu. Onde ia? Ia à chuva…

A musicalidade da água coloria a tarde parda. Ela conduzia devagar… Seguia para lugar nenhum. Lugar nenhum era o abraço que não tinha: “por mais que caminhe não sei como chegar à ausência” e conduzia estrada fora inebriando-se de verde, de um verde fresco, lavado do pó dos caminhos.


Parou frente ao mar a ver chover. Na beatitude da tarde, embalada pela chuva, aconchegada pelo oceano, adormeceu…

segunda-feira, 26 de maio de 2014

GOSTO

E, na linha de pensamento de Robert Boutroux (séc.XIX) que afirmou que ao contrário de França em que as elites eram tudo e o povo não valia nada, em Portugal o povo era maravilhoso e as elites deixavam muito a desejar... a crónica de Ferreira Fernandes, do Diário de Notícias de hoje:

Um povo que merecia melhores líderes
por FERREIRA FERNANDESHoje

Se os juros pedidos aos países não fossem baseados na tanga, Portugal, depois do dia eleitoral, deveria ter hoje banqueiros à porta - e não seria para resgatar dívidas mas a emprestar dinheiro. A custo zero, ou quase. Já tenho idade suficiente (tenho mais de três anos, vivi os bombardeamentos de 2011: "Chiu, não assustes os mercados...") para saber medir a nossa condição: Portugal é o país social e politicamente menos assustador da Europa. Não digo que isso seja bom em tudo (tanta calmaria também atrai líderes xoninhas, de olhos baços e bananas), mas em matéria de juros, merecia tê--los baixos. Ponto. Sobretudo quando à volta é o estilhaçar da Europa: no Reino Unido a surpresa é o UKIP que quer sair da UE, em França a sulfurosa FN ganha, na Grécia são vedetas o esquerdista Syriza e a extrema-direita Aurora Dourada, populistas austríacos e caceteiros húngaros marcam, é eleito um grupo de alemães anti-UE e, talvez, um eurodeputado neoazi, os espanhóis PSOE e PP afundam... Arraial doido enquanto os portugueses não se deixam iludir com sereias e insistem em não votar com a cabeça quente. Não é fidelidade, coisa de lacaios, é prudência, qualidade hoje rara nos povos. E se há povo que tenha sido sujeito a governos sem soluções e oposições sem alternativas, é este. Sujeito, pagando com dor e raiva - mas sem desespero, como ontem mais uma vez mostrou. Que sorte, que desmerecida sorte, têm estes partidos e líderes do centrão.