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terça-feira, 12 de março de 2013

ESCRITO DE MEMÓRIA


Formado em direito e solidão,
às escuras te busco enquanto a chuva brilha.
É verdade que olhas, é verdade que dizes.
Que todos temos medo e água pura.

A que deuses te devo, se te devo,
que espanto é este, se há razão pra ele?
Como te busco, então, se estás aqui,
ou, se não estás, por te quero tida?
Quais olhos e qual noite?
Aquela
em que estiveste por me dizeres o nome.

Pedro Tamen, in Tábua das Matérias

segunda-feira, 11 de março de 2013

DIA DA MULHER


Ela fora ver a peça de teatro em exibição na noite anterior e esquecera o telemóvel no silêncio. Na manhã seguinte, quando mudava os pertences para outra carteira, verificou que tinha duas chamadas não atendidas da mesma pessoa. Ligou. Ele, porque de um homem se tratava, recusou a chamada para ligar de seguida.

- Olá. Tentou falar-me esta manhã… – disse ela à laia de bons dias, desculpando-se o melhor que pode, por não ter atendido.

- Foi para lhe dar um beijinho. Hoje é o Dia da Mulher. – E de seguida informou-se do estado de saúde da mãe.

– Aguenta-se. – disse ela – um dia de cada vez.

- Hoje não é o seu dia.

- Como ?!

- Você é uma senhora, não é uma mulher. Eu não gosto de senhoras, gosto é de mulheres.

- Parece que está a dizer que não gosta de mim, mas eu não acredito. Se não gostasse não teria telefonado.

- Mas eu gosto de si, até gosto muito, mas você não é uma mulher, é uma senhora…

- Debaixo de uma senhora, há sempre uma mulher, não lhe parece?

- Mas você não deixa ver de baixo!

- A minha mãe não deixa. – riu-se.

O telefonema acabou com os despedimentos habituais e ela galgou as escadas em passo de corrida, já em cima da hora marcada na cabeleireira, concluindo como o humorista que a língua portuguesa é muito traiçoeira.

domingo, 10 de março de 2013

ENCONTRO

Esta manhã, vagueando pelo PC, encontrei-me num qualquer dia de um qualquer ano.
Aqui fica um fragmento. Para que não esqueça...

O que a vida nos faz… Ameaça e compensa. Estrangula e afrouxa o laço. Quase mata e reanima. E a felicidade está no equilíbrio entre a força com que enfrentamos a desdita e a esperança no que vem a seguir.


Palavras ditas, lembradas de mansinho, afugentaram a insegurança que ameaçava instalar-se dando espaço à doce expectativa de quem sabe que se já esperou tanto, pode esperar um pouco mais. A vida acontece em cada dia. Eu estou atenta. Alimento a felicidade de pequenas coisas, às vezes bem pequenas, com que a vida me premeia por entre todas as outras menos ditosas que vão acontecendo. Estas ajudam a valorizar as outras. Cada dia é um estado de graça. 



quarta-feira, 6 de março de 2013

SOCORRO


Mas alguma mulher se chamou, algum dia, Clináreta, Sóstata ou Filéneta?! Quando é que vou dizer os nomes sem gaguejar? Alguém se chamou Praxágora?! Que é feito das Marias, das Anas, das Margaridas, das Teresas, ou até das Isabeis?

Mas que sina é esta, a minha, que permite que um homem nascido há vinte cinco séculos ache por bem torturar-me? 

Não haverá um que frete um avião e me leve à ópera a Paris? Que contrate André Rieu e a sua orquestra para me deliciar com “Les Roses du Sud” enquanto subo a escadaria e atravesso o foyer do Palácio Garnier, para assistir ao espetáculo?

Aristófanes! Que mal fiz eu aos deuses? Que desassossego! Literalmente! O das tuas palavras, que à época lhe terão dado voz e o meu que não as decoro!

Socorro! Quem me acode?!

segunda-feira, 4 de março de 2013

AQUELA MENSAGEM


Aquela mensagem…

“ Não tentes contactar-me. Estou a ser muito pressionado.”

Era o ponto final num amor incondicional, feito de momentos, na grandeza dos afetos. Assim, sem mais nem menos.
Um amor que se alongara nos anos, sempre moço, sempre renovado. Pensara…
Ela apagou de imediato o e-mail. Não acreditava no que lia…



Eu pergunto: Ele pertenceria à CIA, à KJB, à Mossad?
Parece ficção…

Ao tomar conhecimento da situação, lembrei as palavras da minha professora de Teoria Geral do Direito Civil, sempre que eu reclamava apelidando de puramente académicos os intrincados casos que tínhamos de resolver nas aulas práticas: “Creia que a realidade é mais pródiga do que a minha imaginação lhe pode parecer.”

Eu possuo uma fértil imaginação. Será que alguma vez admiti como possível tal tirada? Garantidamente: não!

Como é que uma mulher sobrevive a uma mensagem como esta?
Sobrevivendo…

A cretinice do Homem nega a matéria de que é feito: Humanidade.

domingo, 3 de março de 2013

FOMOS


fomos

na tarde já tarde
fez-se dia
o rio desaguava
no terreiro
de cada rua
vinha gente
o caudal enchia
enchia

palavras e frases
dançavam
sorriam
gritavam
umas em sinfonia
outras desgarradas
em agonia

povo unido
jamais será vencido
gritava-se

terreiro ficou sem
espaço
passou a terreiro
do povo
com ar de revolução
de passos
exigiam a demissão

políticos
eram todos
partido nem um
a ordem era
o povo está em
luta
vem e trás
mais um

assim
nas mãos
nos braços
nas bocas
de um milhão
escorriam
todas as palavras
dignas de
indignação

joaquim vairinhos, 02/03/2013-terreiro do povo, Lisboa.

De um poeta e amigo virtual.

Que honra, a de pertencer a um povo que protesta cantando!


sexta-feira, 1 de março de 2013

FOI HOJE


Há muito que me apetecia sol e mar, cumprir a lonjura no marulhar fininho das ondas, caminhando pela areia, desafiando-lhes a espuma, que se desfaria a meus pés.

Não aconteceu terça-feira, por conta da Rita. Foi hoje. Ainda pensei convidar uma amiga, mas desisti. A amiga atravessa uma fase diferente da vida e é daquelas pessoas que enquanto não se adaptam, hostilizam quem as rodeia. Compreendo-a e aceito isso, pacientemente. Espero que lhe passe. Ela há de descobrir o ponto de equilíbrio. Eu hoje queria harmonia, precisava da harmonia daquela forma arredondada, tão recetiva da baía, qual útero materno, capaz de abrigar, para depois parir para as incertezas da vida todos que a ela se acolham, por aquela cloaca enorme que a barra, lá longe, onde ruge o mar, nos sugere, falando de incerteza, de desconhecido.

Conduzindo pela autoestrada, pareceu-me que a orla marítima estaria enublada mas, em vez de desanimar, mantive-me expectante. Galgava a distância em busca da luz, apetecia-me o reflexo do sol sobre o mar, tal como naquele poema que a adolescência escrevera: “Quero perscrutar o teu olhar e ver-me nele como o reflexo do sol sobre o mar”. Sonho de menina que se alongou no possível: este mar espelhado, vestido de prata, numa tarde de sol.

Desde Leiria, percorri os cerca de cinquenta quilómetros na companhia de Rodrigo Leão. Ah, aquela faixa dez! E eu imagino-me a abrir essa "Janela", estendendo os olhos por uma seara de trigo salpicada de papoulas e malmequeres. Deixo a janela aberta ao sol e saio, embrenhando-me campo fora. Ao que vou, não sei, talvez apanhar malmequeres e papoulas para florir a espiga dos Maios da minha infância. E a faixa tocou uma e outra vez e a seara ondulava ao sopro da minha imaginação…

Eis S. Martinho ensolarado, numa tarde magnífica. Arrumei o carro na marginal e dei a mão a Praxágora. As duas fizemo-nos à areia, caminhando pela borda da concha, naquele diálogo inventado quatro séculos antes da contagem dos que vivemos e ainda assim tão atual. “Ah! – desabafei – se conseguir cumprir-te nos dez ensaios de que disponho, considero-me a maior atriz da minha rua.” Praxágora riu-se: “Não há lá mais nenhuma…” “Por isso mesmo. Não pretenderias que insultasse, fosse quem fosse, com a minha fragilidade cénica e a ausência da professora”.

Sentei-me depois na esplanada do Bohémia e merendei. “Tenho de ir embora” – pensava – “mas tenho de ir embora porquê? Tenho algum compromisso, para além das rotinas inconsequentes com que entretenho o tempo?” Não, não tinha.

E deixei-me ficar até que o vento frio me mandou embora.