Há muito que me apetecia sol e
mar, cumprir a lonjura no marulhar fininho das ondas, caminhando pela areia,
desafiando-lhes a espuma, que se desfaria a meus pés.
Não aconteceu terça-feira, por
conta da Rita. Foi hoje. Ainda pensei convidar uma amiga,
mas desisti. A amiga atravessa uma fase diferente da vida e é daquelas pessoas
que enquanto não se adaptam, hostilizam quem as rodeia. Compreendo-a e aceito
isso, pacientemente. Espero que lhe passe. Ela há de descobrir o ponto de equilíbrio.
Eu hoje queria harmonia, precisava da harmonia daquela forma arredondada, tão
recetiva da baía, qual útero materno, capaz de abrigar, para depois parir para
as incertezas da vida todos que a ela se acolham, por aquela cloaca enorme que
a barra, lá longe, onde ruge o mar, nos sugere, falando de incerteza, de desconhecido.
Conduzindo pela autoestrada,
pareceu-me que a orla marítima estaria enublada mas, em vez de desanimar,
mantive-me expectante. Galgava a distância em busca da luz, apetecia-me o reflexo
do sol sobre o mar, tal como naquele poema que a adolescência escrevera: “Quero
perscrutar o teu olhar e ver-me nele como o reflexo do sol sobre o mar”. Sonho
de menina que se alongou no possível: este mar espelhado, vestido de prata,
numa tarde de sol.
Desde Leiria, percorri os cerca
de cinquenta quilómetros na companhia de Rodrigo Leão. Ah, aquela faixa dez! E
eu imagino-me a abrir essa "Janela", estendendo os olhos por uma seara de trigo
salpicada de papoulas e malmequeres. Deixo a janela aberta ao sol e saio,
embrenhando-me campo fora. Ao que vou, não sei, talvez apanhar malmequeres e
papoulas para florir a espiga dos Maios da minha infância. E a faixa tocou uma
e outra vez e a seara ondulava ao sopro da minha imaginação…
Eis S. Martinho ensolarado, numa
tarde magnífica. Arrumei o carro na marginal e dei a mão a Praxágora. As duas fizemo-nos
à areia, caminhando pela borda da concha, naquele diálogo inventado quatro
séculos antes da contagem dos que vivemos e ainda assim tão atual. “Ah! –
desabafei – se conseguir cumprir-te nos dez ensaios de que disponho,
considero-me a maior atriz da minha rua.” Praxágora riu-se: “Não há lá mais
nenhuma…” “Por isso mesmo. Não pretenderias que insultasse, fosse quem fosse,
com a minha fragilidade cénica e a ausência da professora”.
Sentei-me depois na esplanada do
Bohémia e merendei. “Tenho de ir embora” – pensava – “mas tenho de ir embora
porquê? Tenho algum compromisso, para além das rotinas inconsequentes com que
entretenho o tempo?” Não, não tinha.
E deixei-me ficar até que o vento
frio me mandou embora.