segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
A DIMENSÃO DAS COISAS
terça-feira, 7 de agosto de 2012
TRAGO O TEMPO
segunda-feira, 14 de maio de 2012
sábado, 31 de dezembro de 2011
sábado, 17 de dezembro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
AMÉLIA
A Amélia é uma Mulher que não precisa de apresentações. Quem não conhece aquela beirã pequenina e contestatária, visceralmente professora e com uma vasta obra dada ao prelo?
Pois a Amélia, após a aposentação, sem exército, mas cheia de força, continua corajosamente a esgrimir as armas defendendo a cultura em quatro frentes. Assim, como quem aplica às letras a técnica militar de Aljubarrota, ela envia a uma lista enorme de pessoas e para constar dessa lista basta mandar-lhe o endereço, as suas pesquisas: “A companhia do poeta”; “A prosa da semana”;”efeméride” e ainda denúncia os textos e pps que surgem nas nossas caixas de correio como sendo de Pessoa e que, sendo de alguma pessoa, nada têm a ver com o nosso Fernando. Também mantém activo o blog http://barcosflores.blogspot.com.
Hoje, bem cedo subordinado ao tema “efeméride” mandou-me um pedaço da minha adolescência. Aqui fica!
Atalho para: http://www.youtube.com/watch?v=IOd_5ZRPmFs
Querem cantar com ela?
Françoise Hardy, francesa, nascida em 17 de Janeiro de 1944
tous les garçons et les filles de mon âge
se promènent dans la rue deux par deux
tous les garçons et les filles de mon âge
savent bien ce que c'est d'être heureux
et les yeux dans les yeux et la main dans la main
ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain
oui mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine
oui mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime
mes jours comme mes nuits
sont en tous points pareils
sans joies et pleins d'ennuis
personne ne murmure "je t'aime" à mon oreille
tous les garçons et les filles de mon âge
font ensemble des projets d'avenir
tous les garçons et les filles de mon âge
savent très bien ce qu'aimer veut dire
et les yeux dans les yeux et la main dans la main
ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain
oui mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine
oui mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime
mes jours comme mes nuits
sont en tous points pareils
sans joies et pleins d'ennuis
oh! quand donc pour moi brillera le soleil?
comme les garçons et les filles de mon âge
connaîtrais-je bientôt ce qu'est l'amour?
comme les garçons et les filles de mon âge
je me demande quand viendra le jour
où les yeux dans ses yeux et la main dans sa main
j'aurai le coeur heureux sans peur du lendemain
le jour où je n'aurai plus du tout l'âme en peine
le jour où moi aussi j'aurai quelqu'un qui m'aime
Ah, Amélia, se tu não existisses, quem te poderia inventar?
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
MALDITA SOLIDÃO
Ontem, tirei a tarde para visitar doentes. Num dos sítios onde me dirigi encontrei C., uma senhora que não via há larguíssimos meses, talvez há mais de um ano. Depois de cumprimentar a doente, que felizmente se encontrava bem e muito animada, aconteceu a conversa do costume.
“Há quanto tempo não a via?! Como vai M.? Tanto ela como o marido estavam bem, mas que agora saía muito pouco, entretinha-se muito por casa a tratar dos animais.
“Animais?”, admirei-me, “agora tem animais?” Não é que falte espaço na vivenda de C., situada numa aldeia próxima da cidade, para criar bicharada, mas eu não estava a imaginar C., sem filhos, depois de alguns anos a abdicar de viagens e outros passeios para tratar devotamente da mãe, que falecida esta e conhecendo-lhe os gostos, ficasse presa àquele espaço por causa dos ditos animais.
“O M. está afónico.” “Já percebi,” respondi eu inconsequente, “resolveu dedicar-se à criação de animais exóticos e mandou-o à noite apanhar gambozinos”. C. riu-se, “não, está afónico comigo, já dissemos um ao outro tudo o que havia para dizer. Logo de manhã quando me levanto, trato dos animais, acarinho-os, eles acarinham-me e fazem-me rir e assim entretenho-me lá por casa”.
O que mantém as pessoas tão perto e tão longe? Questionei-me e mudando imediatamente de assunto, a conversa fluiu facilmente por outros temas, tendo em conta que além da doente, éramos mais quatro mulheres naquele quarto hospitalar.
Quando abandonei aquela instituição, a caminho de outra onde pretendia visitar mais uma amiga doente, questionava-me: Será sempre assim? Terá de ser mesmo assim? Porque há-de ser assim?
Somos a Carminho de “O Dia dos Prodígios” esperando o homem que dirá as palavras certas, que depois a vida implacavelmente arrebata, para ficarmos à espera que regresse montado no cavalo verde do nosso encantamento, vivendo afónicas o resto da vida?
“Na vida somos sempre livres e estamos sempre sós.” A expressão persegue-me desde que li Raymond Jean, A Leitora, mas eu ainda acredito que pode ser diferente, eu ainda acredito que o amor pode ser eterno na sua limitação terrena, acredito na cumplicidade de um olhar, no calor das mãos que se tocam, na doçura do abraço, na força das palavras ditas com ternura e que o silêncio entre dois, pode ser um momento sublime porque “há palavras impossíveis de escrever/ Por não termos connosco cordas de violino/ nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo da ar”.
A vida mostrou-me que os homens enrouquecem e vão perdendo a voz ao longo dos anos, mas a alma das mulheres permanece adolescente enquanto, no rosto, as rugas se acentuam.
Meu caro senhor, se está afónico, pegue nas palavras gastas pelo uso, separe as letras uma a uma, lava-as da sujidade dos dias e faça sopa. Coma duas refeições por dia. De preferência ao pequeno almoço e ao jantar. Verá que ao fim de algum tempo das letras, em combinações impensáveis, voltam a fluir facilmente palavras novas. Use-as ao desbarato, não as poupe.
Este remédio funciona melhor que o chá de casca cebola e mesmo que se sinta ridículo, continue. Eu garanto-lhe que a sua esposa achá-lo-á a oitava maravilha do mundo.
domingo, 9 de janeiro de 2011
O PAI NATAL
“Nunca mais vem o Pai Natal” suspirou o André recostando-se na cadeira que ocupava à mesa, durante o jantar de Natal. “Acho que só vem quando acabarmos de comer” explicou a mãe para acalmar a impaciência e todos sorrimos comentando uns com os outros que os “crescidos” são muito lentos a mastigar.
E o André continuou a tecer o tempo com o piscar das luzes da árvore de Natal intercalado de breves paragens “avó, as luzes pararam outra vez”, “as luzes são mágicas, se disseres perlim pim pim voltam a piscar”.
Os “crescidos” mastigaram o que havia para mastigar e chegou a hora do Pai Natal entrar em cena; mas este, no momento exacto teve uma birra e disse que não faria o papel. Pudera, da última vez a representação tinha sido um fiasco!
No Natal de 2008, tinha o André três anos acabadinhos de fazer, pois celebra o aniversário em finais de Novembro, a avó (convém lembrar que em relação aos netos são sempre os avós que alegremente se disponibilizam a encarnar os papeis de “o cavaleiro da triste figura”), vestiu-se de Pai Natal: fato vermelho, umas almofadas a aumentar a barriga, cinto preto a segurar, umas barbichas bancas, barrete enfiado até aos olhos e batendo na persiana da varanda da sala entrou com a estridência que se atribui ao velhinho de ar bonacheirão que já todos adoptámos. O André, com três anos, permito-me frisar, olhou o Pai Natal e antes de se interessar pelos presentes, como seria previsto, comentou “é a avó Buita”.
A avó Buita, que com a destreza da fala já ganhou o estatuto de avó Belita, é uma senhora que eu conheço, mas que obviamente nem vou dizer quem é, porque não me acuso, até faz teatro, ou como ela costuma dizer “arma barraca” o que significa que costuma “vestir” com mais ou menos à-vontade diferentes personagens, não se atrapalhando nada em “assassinar” Molière ou Gil Vicente, dramaturgos que adora torturar mas, nesse instante… a avó Buita sentiu-se perante um público exigentíssimo, no papel mais ridículo que alguma vez desempenhara. “Foram os olhos”, sentenciou a tia, “o olhar traiu-te”.
Então este ano o Pai Natal estava apressadíssimo, mais velhote, coitado, cada vez com mais prendas para entregar. Soaram os guizos das renas, ouviu-se bater na persiana, terá descarregado as prendas e quando acabámos de abrir dispostos a convidá-lo para entrar, perscrutámos a noite, queríamos contar as renas, mas já nem o trenó divisámos no céu, do Pai Natal nem rasto. Do mal, o menos! Havia prendas para todos.
Abertos os presentes, o André quis saber se o Pai Natal já teria chegado a casa da avó Lai, que mora longe, em Portimão. “O melhor é telefonar” e o pai ligou. Estavam todos bem e o Pai Natal estava mesmo, mesmo a chegar, naquele preciso instante. Que sorte! O André aproveitou a ocasião e falou com ele “gostei muito das prendas, mas pedi-te o porco comilão e não me deste” o telemóvel estava em alta voz e ouvimos a resposta ”talvez esteja aqui, vou deixar à avó Lai umas prendas para ti”, “eu estou em casa da avó Belita”, “ eu sei, mas quando aí passei esqueci-me de deixar todos os embrulhos”, “não faz mal eu brinco com estes brinquedos. Adeus, Pai Natal, obrigado”; “adeus, porta-te bem”.
Que bom ter cinco anos!
Até eu acreditei que era o Pai Natal que falava e não o tio Filipe a disfarçar a voz.
sábado, 8 de janeiro de 2011
AINDA UMA HISTÓRIA DE NATAL
Ao Agrupamento 127, SÉ – LEIRIA
No dia oito de Dezembro, recebi a notícia que considerei ser a melhor prenda do meu Natal de 2010, mesmo desconhecendo todas as que viria a receber. E ri-me, ri-me da alegria que a notícia provocou e ri-me por a vida não parar de me surpreender até como desta vez, nas instalações sanitárias, numa cidade do interior do distrito, a alguns quilómetros de casa, onde o sinal do telemóvel me apanhou.
No Sábado, dia dezoito, levantei-me da cama disposta a cumprir um capricho da minha mãe, sabendo que isso exigiria não só algumas horas, mas também muita paciência.
A minha mãe queria uns sapatos novos mas, aos noventa e dois anos e sentada numa cadeira de rodas devido a uma fractura do fémur e com o pé direito deformado pelos joanetes, não pretendia modelos “à velha” ou mesmo ortopédicos porque não é aleijada.
Nessa manhã, enquanto me cuidava, lembro-me de ter pensado que seria melhor levar uma dose extra de boa disposição, porque pela ordem natural da vida, sendo ela tão idosa, partirá antes de mim e eu, quando lhe sentir a ausência vou chorar o facto de não poder andar ainda de sapataria em sapataria a pedir sapatos do pé direito emprestados para levar ao Lar em que se encontra, para que os vá experimentando até acertar na escolha do que calçar melhor e achar mais bonito.
Confesso que muitas vezes perco a paciência com as ideias que tem, mas acabo quase sempre por lhe satisfazer os caprichos, não só porque acho divertida a forma como se agarra à vida, como vejo nisso um modesto tributo ao amor e paciência com que me terá educado.
Pois no momento exacto em que tínhamos acertado na escolha dos sapatos, depois de peregrinar por algumas sapatarias e de algumas idas e vindas entre a cidade e o Lar Emanuel, recebo a notícia de que uma nuvem muito negra pairava sobre a boa notícia que comecei por referir. Fiquei triste, profundamente triste.
E vergada pelo peso dessa tristeza, quando atravessava a Avenida Heróis de Angola, dirigindo-me à sapataria para ultimar o negócio, caminha para mim uma escuteira. Levantei a mão de imediato indicando indisponibilidade, mas ela não desistiu “não quero nada, a não ser dar-lhe este postal ”.
Peguei no postal e nem sequer agradeci, olhei e ali, no meio da rua, quase me desfiz em pranto.
Era o Presépio, com votos de Feliz Natal.
Eu sou crente. Ainda ao almoço tinha dito a uma amiga “Deus providencia sempre!”
Aquela jovem, que o meu gesto não intimidou, acabava de me dar a resposta:
“Deus providenciará que a nuvem se desfaça em água e tudo leve, ou que haja uma brisa benfazeja que a afaste.”
Às vezes, até os anjos se vestem de escuteiras para nos lembrarem que é preciso ter fé e saber esperar.
Às jovens do 127 o meu muito obrigada e os votos de um Feliz Natal. Sim, porque "o Natal é quando o Homem quiser", até pode acontecer em Agosto...
sábado, 11 de dezembro de 2010
NATAL

Há anos, numa qualquer tarde por alturas do Natal, seguia eu pela rua fora, absorta, como ando sempre, com o cérebro a fervilhar de ideias, quase sempre a sonhar de olhos abertos e pés assentes no chão, quando oiço “Isabel, Isabel, espere aí. Tenho um recado para si.”
Atento na realidade e atravesso a rua ao encontro da Milai.
A Milai é uma Senhora que todos conhecem, mas para quem possa andar distraído eu defino-a sem delongas, numa única palavra: Simpatia.
Beijinhos e os cumprimentos do costume, numa mistura de sorrisos em que a Milai é pródiga.
“Abra a mão” mandou ela. E eu abri, que as ordens são para cumprir!
“O Menino Jesus manda-lhe isto, com votos de Feliz Natal”.
E a Milai depositou na minha mão aberta uma pequenina estrela dourada.
A estrela não se vê nesta foto, mas há mais de dez anos que está pousada na almofada um pouco acima do braço direito deste Menino Jesus, que também um gesto de amizade trouxe para mim.
Às vezes, os anjos descem à terra e tomam a forma física dos nossos amigos só para nos lembrarem que o AMOR existe e a FELICIDADE é um estado de alma.
QUE ESTE SEJA MAIS UM NATAL SOLIDÁRIO PARA TODOS NÓS
NATAL
Desde há cinco anos que voltei a fazer o presépio com as figurinhas de barro.quarta-feira, 3 de novembro de 2010
NATAL DE 2004 OU 2005?
Ela aproximou-se da mesa onde eu jantava e no melhor dos seus sorrisos sentenciou “este ano não tens direito a prenda"”homessa!“ reclamei de imediato “obriguei cerca de cem velhinhas a atravessar a rua, mudei as fraldas ao Menino Jesus, escrevi atempadamente ao Pai Natal e vens tu agora com essa de que não tenho direito aquela malga jeitosa que o João Pedro anda aí a distribuir?! Como é que vou viver sem aquilo?"
Permitam-me um parêntesis - Acho que foi até por ter ouvido esta minha reivindicação que o publicitário (nem sei qual) inventou aquela “eu vivia sem isso, mas não seria a mesma coisa”.
Ela continuou a rir desenfreadamente voltou as costas e eu continuei a jantar e claro, tive direito à malga e ainda escolhi uma oval que achei mas original que a circular que me calhara em sorte, embora entre uma e outra bem pudesse ser o diabo a escolher. Convém acrescentar em abono da verdade que a beleza das prendas, a utilidade, ou o seu valor material é absolutamente irrelevante, importante é o Conselho Directivo do Agrupamento da Escola se lembrar dos colegas e por isso se dar ao trabalho de adquirir uma lembrança, de a embrulhar e enfeitar com um lacinho. A malga, oval ou circular, bonita ou feia simbolizava gentileza, simpatia, dedicação, entrega, disponibilidade, sentido do outro. Isso sim é relevante, isso sim é louvável.
Mas no fim do jantar ela voltou à carga “larga a malga, que não a mereces” e eu, “pois, queres duas é para poupares nos presentes deste ano” e ela ria e eu nem achei o riso desproporcionado à piada, porque os professores quando confraternizam brincam como se fossem adolescentes.
“Foste má para o Diomar e ele não merecia.” E continuava rindo.
“Má?! “ Eu cada vez percebia menos e a Piedade explicou que quando eu chegara e cumprimentara o Diomar, este gentilmente dissera “estás um pão, Isabel”, ao que eu respondera prontamente, para notória decepção dele “duro!”.
Reconheço que qualquer outra senhora teria agradecido com um sorriso simpático. Era o que eu deveria ter feito, mas eu sou neta da minha avó Joaquina Joana que adorava rir-se dela e ainda herdei o humor cáustico do meu pai e depois se eu tivesse dito “que gentileza, muito obrigada” de que se teria rido a Piedade durante dias e dias a fio? De que estaria eu escrevendo agora? E o Hotel Cristal, da Marinha Grande teria para mim algum significado especial?
É com este sorriso alegre que a minha resposta intempestiva pôs na face da Piedade que eu vou guardar a sua imagem.
Até sempre amiga!
O Diomar era um bom amigo que mesmo depois de deixarmos de trabalhar juntos arranjava tempo, todos os dias, para me enviar e-mails. Certa manhã de Domingo, tinha acabado de lhe enviar algumas piadas, quando recebo um e-mail da Cila “ O Diomar está mal. Disseram-me que deu entrada no hospital” e ainda eu não tinha acabado de redigir a resposta a tentar saber mais alguma coisa, quando recebi outro “ O Diomar morreu”. E assim abruptamente fiquei com menos um amigo.
Que descanses em paz!
domingo, 31 de outubro de 2010
E VÃO DOIS ANOS...
Não sei em que curva do caminho, aboli do meu vocabulário a palavra saudade. Não é por isso que gosto menos das pessoas que passaram na minha vida ou dos lugares que serviram de cenário à forma como me fui tecendo, mas o sentimento de saudade é um contra-senso que a minha paixão pelo existencialismo não consegue aceitar. A vida, quanto a mim, toca-se para a frente, de acordo as circunstâncias sociais, políticas, económicas e culturais de cada um e ninguém pode ter a veleidade de trazer ao momento presente o que aconteceu no passado, porque as circunstâncias por muito próximas que sejam, na verdade, nunca se repetem.
Quando dos anos que o meu bilhete de identidade diz que tenho e que eu não há meio de acreditar possuir, olho para trás não me sinto mal porque acredito que em cada momento eu decidi o melhor que sabia, o melhor que podia, da melhor maneira que poderia decidir, que aquela era, nas minhas circunstâncias a melhor escolha e que agi sempre em liberdade, com responsabilidade, com amor, com dedicação e com empenhamento.
Ah! Mas aquilo que não depende de mim, aquilo que não posso ser eu a decidir, aquilo em que não posso interferir…. Que dor! Que raiva! Que frustração!
Há dois anos, mesmo no fim de Agosto, a Piedade suicidou-se. Como não poderia deixar de ser, eu estava em S. Martinho do Porto, onde era hábito juntarmo-nos, com mais algumas colegas para saborearmos uns gelados “este ano, sou eu que pago os gelados” dissera-me ela num encontro rápido no estacionamento do Continente num dia em que vim a Leiria visitar a minha mãe. Não a voltei a ver. Eu não gostava dos gelados, mas gostava de conviver e gostava sobretudo do sorriso afável da Piedade.
E no dia do seu funeral, a que me recusei assistir, instalou-se na minha alma um sentimento de solidão de uma grandeza tal que ainda não me consegui libertar dele.
Que dor! Que raiva! Que frustração!
A Piedade nasceu livre. A Piedade era livre. A Piedade tinha o direito de fazer da vida o que quisesse, mas eu também tinha o direito de continuar a usufruir da sua amizade.
Dois meses depois, no dia dois de Novembro, suicidou-se a Esmeraldina.
A Esmeraldina era uma mulher com quem se poderia falar sem “rede”. Com ela podíamos falar de tudo sem receio de que nos repetisse ou criticasse. Era uma sonhadora. Muitas vezes lhe disse que se pintasse o seu retrato lhe enfiaria cabeça numa nuvem e lhe deixaria os pés acima do chão. Acho que adivinhava o seu anseio pelo voo, sem contudo saber exprimir a tristeza que sinto por sabê-la par’Além naquele salto temerário do sétimo andar. Até nisto tinha de ser diferente.
Também ela era livre de fazer da vida o que quisesse, mas também eu era livre de continuar a usufruir da sua amizade.
E vão dois anos de dor, de raiva, de frustração, de não ter podido evitar o inevitável, de não poder continuar a usufruir o sorriso de uma, a amizade de ambas e de não possuir a certeza de lhes ter transmitido o carinho que ambas me mereceram.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
A OVELHA COR-DE-ROSA
S. Martinho do Porto, 25 de Agosto de 2010
De uma cortina de banheira adquirida numa loja chinesa, para ser utilizada com fim diferente daquele para que fora concebida, sobraram as doze argolas com que o André brincava.
“Sabes o que é isto avó?” Ele abre o “a” tornando a palavra tão sonora que eu ao ouvi-la sinto na alma o som vibrante de um campanário em paisagem idílica. Nesse breve instante sou a única avó do mundo na ternura deste neto igualmente único. A modéstia aliada ao bom senso faz-me acrescentar ao “mundo” os arredores e reconhecer que tudo se situa sobretudo aí, nos arredores, na latitude exacta do meu mundo de afectos. Todas as avós são assim e se alguma me ler saberá que falo verdade. O mundo de uma avó cabe inteirinho no olhar do neto.
Olhei para as suas mãos que seguravam as argolas da cortina entrelaçadas e respondi “uma corrente” “e sabes o que tenho aqui na corrente?” A alegria de ter acertado na resposta à primeira questão esvaiu-se. Acabado de acordar, ele vestia ainda o pijama cuja camisola simbolizava um enorme cão com a língua de fora. “Na ponta da corrente está este cão preso” retorqui puxando a língua vermelha pendurada na camisola do pijama e fazendo-lhe cócegas na barriga. “Não avó, na ponta está uma ovelha”. “Uma ovelha?”. Admirei-me. “Tu tens uma ovelha?” “Tenho uma ovelha cor-de-rosa”.
Sem achar graça ao devaneio, a mãe questionou-se de onde viria a ideia da cor porque a da ovelha teria sido importada da visita a uma quinta pedagógica, lá para os lados da capital, realizada poucos dias antes.
“Ora, se a avó tem um cavalo verde cavalgando mundo fora, porque é que o neto não poderá ter uma ovelha cor-de-rosa e de preferência presa nas argolas de uma cortina de casa de banho?!”
Naquela manhã a minha filha mais velha não estava para devaneios e a conversa morreu. O facto não impediu o André de continuar a brincar com a ovelha cor-de-rosa e o meu cavalo verde de continuar a cavalgar ”sabe Deus por onde”.
Hoje, no passeio matinal que a baixa-mar vem tornando possível, num canto da memória, vislumbrei a ovelha cor-de-rosa “olha a ovelha do André?!” exclamei à laia de cumprimento. Não, aquela passeava-se por um prado azul, perto de um moinho de velas coloridas…
Quando era criança, teria cinco anos, quase seis, adoeci com sarampo e logo de seguida com escarlatina o que fez com que estivesse doente muito tempo, obrigatoriamente enfiada na cama devido à febre muito alta.
Recordo desse tempo os horrores das zaragatoas que o enfermeiro me ia fazer ao fim da tarde, os protestos sem qualquer resultado com que o recebia e mais do que tudo, a forma como o meu irmão conseguia fazer-me esquecer a doença.
Entre os brinquedos espalhados pela cama havia uma boneca de que já não vislumbro as feições e um fio de lã cor-de-rosa.
O meu irmão, doze anos mais velho, teria então dezassete anos e muita paciência à mistura com o amor que me dedicava. A minha mãe para seu alívio, na terrível tarefa de me entreter, ensinara-lhe a enfiar cinco malhas numa agulha e a tecer em ponto mousse, até ao fim, aquele fio de lã cor-de-rosa transformando-o numa tirinha de cerca de três centímetros que eu de imediato desfazia para ele voltar a tecer, sem beliscar a sua masculinidade.
Num qualquer dia, farto talvez de fazer malha, cortou um trapo e coseu na saia azul da boneca um lindo moinho de velas coloridas.
A morte do meu irmão é uma mágoa que transporto no peito há catorze anos e que ainda não consegui chorar de vez.
Aquele fiozinho de lã estava perdido num canto da minha memória. E o fio de lã cor-de-rosa só pode ser feito do pelo da ovelha igualmente cor-de-rosa que pasta junto ao moinho na saia azul da minha boneca.
Foi preciso o André ensinar-me que as ovelhas cor-de-rosas são gestos de amor-perfeito (porque desinteressado e incondicional) para eu reparar como tenho descuidado o meu rebanho!
A partir de hoje, não vou chorar mais o meu irmão. Com as lágrimas temperarei as azeitonas daquele enorme alguidar em que me fez cair. O amor do meu irmão foi um privilégio. É disso que quero alegrar-me.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
A PAIXOA
Ainda tive outra “avó”. Morava no rés-do-chão direito do prédio onde nós ocupávamos o primeiro andar esquerdo.
Este prédio, que ainda hoje existe, situa-se muito perto da linha férrea, na estação dos caminhos-de-ferro de Leiria e era destinado ao uso e fruição de determinada classe de funcionários da CP. Como o meu pai era ferroviário em desempenho de funções na dita estação e o Sr. Paixão também, ambos incluídos nesse grupo, tinham direito à moradia. É claro que a Paixoa, era assim que eu, sem cerimónias, a tratava (para desespero da minha mãe), era a D. Arlete, esposa do Sr. Paixão.
Na traseira do prédio, virada à linha havia um pequeno jardim com uma fonte enfeitada com conchas, que tinha um repuxo, e arbustos de flores brancas na Primavera, daquelas em que mal tocando, as pétalas se desprendem como papelinhos de carnaval que se esqueceram de colorir. O espaço deslumbrava-me mas, nunca pude brincar aí. A linha estava a cerca de cinco metros e a minha mãe achava que não havia recomendação que acautelasse a minha curiosidade. Assim brincava à rédea solta pelo espaço murado, em frente do prédio, virado à estrada e pertença de todos os moradores, onde na parte que lhe coube, o meu pai mantinha uma pequena horta que o “Coquelimoque” cuidava. O “Coquelimoque” não falava bem, daí a alcunha, mas sabia cavar e fazer direitinhos os regos onde se plantavam as couves e isso é que importava. Este espaço tinha um portão de acesso à linha, feito de ripinhas cruzadas e sempre fechado à chave que me permitia ver o comboio aos quadradinhos.
Mas ver chegar e partir os comboios aos “quadradinhos” era coisa que não me entusiasmava. Eu gostava de os ver inteiros, com as carruagens a desfilar linha fora e fazia-o empoleirada no tronco do pessegueiro, onde cheguei a ficar pendurada pelo bibe, com a minha mãe na varanda a gritar em dó maior repetidamente “ai que ela mata-se”"ai que ela mata-se", achando que “segurar-me” com os olhos evitaria a queda. Nesse dia valeu-me a Paixoa que, quando o bibe se rasgou, estava em baixo de braços abertos para me acolher.
Recordo da casa da Paixoa apenas a fotografia de um jovem de caracóis e ar angélico, tocando violino, que ela tinha na mesa-de-cabeceira dizendo ser o filho e que eu achava que não correspondia de forma alguma ao pai do Tó, seu neto e meu amigo predilecto e a mesa da cozinha.
A Paixoa passava a ferro na cozinha, cuja porta dava para o quintal. Nas tardes em que se cumpria o ritual, abria uma pesada tábua de madeira que servia para o efeito e ia passando a roupa e contando histórias que eu ouvia deitada debaixo dessa mesa, num estrado de madeira que hoje as mesas já não têm mas que na altura era uso.
Eu adorava esta senhora a tal ponto que, quando o Sr. Paixão foi promovido a chefe e foram morar para a Estação de Monte Real, a minha mãe levou-me a visitá-la logo na primeira semana, com medo que eu adoecesse com saudades. E fiz uma bandeira! Um trapo de tafetá que a minha mãe, a pedido, me cedeu e que atava nas grades da varanda sempre que ela vinha a Leiria. A quem passava na estrada, eu gritava da varanda ”está cá a Paixoa”.
A D. Arlete morreu quando eu tinha nove anos. O Tó, mais novo que eu dois anos, andaria então na segunda classe e, penso que talvez por isso, todas as crianças da escola acompanharam por alguns metros o funeral. Recordo a dor feita raiva com que olhava o caixão e desejava gritar “não gosto de ti, não gosto de ti", mas a voz não saía e fiquei calada, olhando o cortejo e odiando aquela caixa que a levava.
A morte da D. Arlete foi a primeira partida que a vida me pregou.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
O GUIGUI
Cada pessoa que passa pela nossa vida deixa a sua marca. Umas marcam-nos mais profundamente do que outras mas, na vida de cada um, para além dos familiares mais próximos, há pessoas incontornáveis.
Para mim, uma dessas pessoas é o Guigui! Álvaro de seu nome, nem sei como terá ganho tal epíteto; morava perto de nós, com a mãe e a irmã (não lembro se ainda teria pai) num primeiro andar, por cima da D. Beatriz “dos gatos”. Sendo um pouco mais velho que o meu irmão, era contudo seu amigo.
O Guigui era ardina. Vendia, por conta de outrem jornais diários, que transportava pendurados ao ombro num grande saco azul, quase do seu tamanho, correndo pela gare da estação dos caminhos-de-ferro de Leiria, à hora dos comboios. “Olhó diário!” gritava ele para os passageiros, chegando mesmo a entrar nas carruagens, nos curtos períodos de paragem. Vendia, não vendia e o comboio continuava, e o Guigui permanecia, à espera do próximo horário, para repetir os mesmos gestos apressados.
O Álvaro, a minha mãe nunca deixou que lhe chamássemos Guigui, era e é, pois continua vivo (o meu irmão é que já faleceu), um homem pequenino, na época muito magro, ao nascimento de quem a fada que distribuía a beleza, tal como a que distribuía as prendas que tornam um homem interessante, mesmo sendo feio, não chegaram a tempo. Para compensar, a fada-madrinha brindou-o com um sonho de excelência. O Álvaro queria ser bailarino!
Juntou a custo a quantia necessária e comprou um pequeno gira-discos. O primeiro gira-discos portátil que vi. A caixa fechada tinha a forma de um paralelepípedo, lembro, sem grande certeza, que seria de uma cor azul acinzentada com uns vivos claros nas arestas das faces menores e abria separando a tampa, mostrando o prato onde desandavam os discos e o braço com a cabeça, onde uma agulha os fazia tocar, quando ligada à electricidade. Não sei se a tampa teria algum préstimo para além da utilidade que o próprio nome lhe confere: tapar. Que coisa longínqua e complicada perante os actuais leitores de CDs!
Como todas as divisões da casa onde morávamos, o quarto do meu irmão era enorme. E, o Álvaro, que “fazia” a automotora das catorze, a das dezassete e o comboio-correio das vinte horas, vinha logo ao início da tarde com o seu pic up.
A minha mãe sempre franqueou a porta da nossa casa, tanto aos amigos do meu irmão como aos meus, sem qualquer obstáculo por parte do meu pai que, dizendo possuir uma espingarda para matar o primeiro com juízo que por lá aparecesse, se limitava a comentar a cada novo amigo ”ainda não é este que será morto”. Por isso, estando a minha mãe, o Álvaro vinha, quando queria ou podia, quer o meu irmão estivesse ou não, para treinar os bailados que escolhia. Descalçava os sapatos e, em peúgas era vê-lo em bicos dos pés tentando dançar em pontas ou rodopiando tentando piruetas, naquele quarto-feito-palco, onde tantas vezes, frustradas as tentativas, acabava caído em cima da cama.
Sem qualquer tipo de aprendizagem, daquela deselegância e falta de jeito resultavam cenas caricatas de que todos riam abertamente, mas ele persistia ” vocês riem-se mas, hei-de conseguir”. E a minha mãe respeitava aquele sonho! “ A vida não basta” dizia ela citando Pessoa sem saber.
Claro que não conseguiu! Progrediu no negócio mas continua a vender jornais e revistas, talvez por conta própria, numa carripana que coloca ao Rego d’Água.
Apareceu-me, há dias, tentando vender “a sorte grande”, num restaurante em que, incluída num grupo de professoras, jantava em Marrazes; ”começas a ter rugas!” exclamou como se isso fosse uma coisa impensável, “é a velhice, acontece a todos”, retorqui sorrindo, “vê mas é se te cuidas” recomendou partindo para outra mesa, com o sonho nas mãos, agora o da fortuna. Eu fiquei a olhar para ele “sonhar-se-á ainda o príncipe das histórias dos bailados que dançava?”
Foi também o Álvaro que me ofereceu, num aniversário, uma malinha de cartão com uns livros de histórias: “O Capuchinho Vermelho”, “Os Sete Cabritinhos” e nem sei que mais, nem recordo se seriam quatro ou seis, pois gastaram-se de tanto manuseio. As histórias pertenciam ao universo das muitas que me eram contadas mas, por aqueles livrinhos, eu quis saber ler.
Foi o som roufenho daquele gira-discos que despertou os meus ouvidos para a música clássica. Foram aqueles livrinhos de histórias que despertaram em mim o gosto pela leitura. Foi a vida dura deste homem que me ensinou que a utopia engrandece a alma.
“Pelo sonho é que vamos” “Chegaremos, não chegaremos?”O Álvaro materializou o meu encontro com Sebastião da Gama.
A atitude da minha mãe ensinou-me que, em qualquer esquina da vida, nos deparamos sempre com a realidade. A vida acontece, não é preciso ter pressa.
E o meu cavalo verde?! Leva-me a trote pela vida!
“Partimos. Vamos. Somos.”
sexta-feira, 2 de julho de 2010
A AVÓ JOAQUINA JOANA
A minha avó Joaquina Joana possuía uns lindos olhos claros, a que os anos foram tirando o brilho e a luz. Usava o cabelo grisalho, que dividia num risco ao meio, preso em duas tranças, artisticamente entrelaçadas na nuca. Era uma mulher bem-disposta a quem nem a cegueira nos últimos anos de velhice tirou a vontade de cantar ou de agir.
Falava pausada mas firmemente e nunca a ouvi dar ordens, só me lembro de a ouvir perguntar, de forma mais declarativa que interrogativa, se estava feito “Lucinda já trataste das vacas” “Lucinda já deste comer à criação” Lucinda para aqui, Lucinda para ali…. E a Lucinda, esposa do tio Zé Henriques e mãe de cinco filhos, lá ia cumprindo os dias, ao ritmo das perguntas da minha avó, que serviam mais para conferir a execução das tarefas do que para lembrar que precisavam de ser feitas.
De seis irmãos, a minha tia Lucinda fora a única que ficara a viver junto da mãe, depois da morte da irmã Maria, tia que nem cheguei a conhecer, mas que vim lembrar, pois nasci, anos mais tarde, no dia do seu aniversário.
É difícil falar da minha avó Joaquina Joana. Sinto que falar dela é quase desnudar a alma. Lembrá-la remete-me para o cheiro dos loureiros, para o murmúrio das águas de rega, para a sonoridade da corrente de água límpida do ribeiro, hoje completamente poluído, que serpenteava perto de sua casa.
Sem conhecer Kant ou ter lido Sartre foi ela, na sua rusticidade, que me ensinou que o tempo e o espaço são conceitos que ajudam a situar as circunstâncias da vida e que esta se faz de escolhas, ponderadas, por vezes com tanta angústia, e que as opções, depois de tomadas, geram responsabilidade e compromisso.
Herdei das suas características a forma como se ria do mundo, a maneira de enfrentar as dificuldades e a esperança sempre renovada de que a vida se cumprirá a contento, haja o que houver, aconteça o que acontecer. A sua memória transmite-me força, determinação, diria mesmo, sem qualquer tipo de pudores, uma certa dose de virilidade originada na rapidez de decisão e na forma de enfrentar a rudeza da vida.
A avó Joaquina Joana é a coluna firme, o cais seguro a que ainda hoje aporto nos momentos de aflição.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
A AVÓ ESPÍRITO SANTO
A avó Espírito Santo era uma velhinha redondinha com neve, muita neve nos cabelos, com uma cara redonda onde morou sempre um sorriso doce que me acolhia quando, sem cerimónias, lhe entrava pela porta dentro.
Naqueles tempos, lá pela Ribaldeira, as portas estavam só no trinco e, se alguém batia, não se perguntava “quem é” dizia-se “entre” e depois se veria com que visita a ocasião nos brindava. Todos eram bem-vindos!
A avó Espírito Santo deslocava-se com dificuldade, agarrada a uma linda bengala de madeira escura “como é que uma bengala poderá ser bonita?” pois eu achava aquele manípulo polido, onde ela colocava a mão, um bicho fabuloso, já nem me lembro como era mas, sei que fazia os meus encantos. Com a avó Espírito Santo vivia a prima Toninha, órfã de mãe e criada pela avó desde pequenina; o pai, genro da avó Espírito Santo, era um homem alto, polícia em Lisboa, que, com um ar simpático e maneiras finas, alterou o meu conceito de autoridade, aparecia muitas vezes para visitar a sogra e mimar a filha.
A prima Toninha tinha um lindo cabelo preto de ondas largas, igualzinho ao daquelas imagens dos postais ilustrados que havia em minha casa, trocados entre o meu pai e a minha mãe nos tempos de namoro. Era pela idade do meu irmão, talvez até um pouco mais velha, por isso não brincava comigo, mas facilitava-me o acesso aos bolos da avó Espírito Santo. Adorava vê-la num vestido de riscas largas coloridas, apertado na cintura fina com um cinto, que por vezes usava lá por casa.
A casa da avó Espírito Santo era pequena, pelos desaires da fortuna, soube mais tarde mas, parecia um ovo recheado de coisas lindas, muito bem arrumadas pela prima Toninha, coisas que só um diabrete como eu, ocasionalmente, tirava do lugar. Como qualquer criança “mexericava” em tudo o que era novidade e aquela arrumação, reconheço hoje, de objectos cujos contornos tão bem conhecia, proporcionava-me leituras estéticas que ainda recordo mas que gostava de alterar para voltar a imitar. Pude sempre mexer em tudo, arrumar e desarrumar a meu belo prazer e ver até respeitadas por algum tempo, as minhas “opções estéticas”.
O tio Joaquim era filho da avó Espírito Santo, morava com a mulher, a tia Joaquina, igualmente uma ternura de criatura, na adega contígua à casa da Avó Espírito Santo, que a má cabeça do tio Joaquim fizera transformar em habitação. A tia Joaquina, com chita colorida e imaginação, havia transformado aquela “amplitude” numa habitação de três assoalhadas.
O tio Joaquim, homem seco de carnes e curtido pelo sol, era de poucas falas e vivia agarrado à enxada, cavando na vinha de escassos metros a amargura e o pouco que ainda lhe cabia em sorte. Mesmo assim, ainda teve tempo, paciência e a feliz ideia de me montar um baloiço nas raízes das figueiras do quintal da minha avó Isabel que caiam abruptamente sobre a sua pequena propriedade, situada em terreno desnivelado, uns metros mais abaixo.
O que a minha imaginação voou no “vai e vem” daquele baloiço!
A Avó Espírito Santo morava perto da avó Isabel, só que… a avó Espírito Santo não era minha avó, era, isso sim, avó da prima Toninha que também não era minha prima e o tio Joaquim e a tia Joaquina, que eram tios da Toninha, também não eram meus tios!
Abençoado contexto social dessa aldeia de vinhedos, maçã reineta e pêra rocha! Usufruir de tanto afecto era para mim uma coisa natural. E aquelas visitas de Setembro ajudaram a moldar a alma rústica que possuo.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
A AVÓ ISABEL
Herdei de minha avó materna o nome completo. Coube-me, como única originalidade, acrescentarem Maria depois de Isabel e terminarem com Soares, que é o apelido de meu pai.
E é a vivência com essa velhinha que recordo hoje. Era uma mulher frágil, muito doce, com o coração do tamanho do mundo e amor “para dar e vender”.
Todos os anos, em Setembro, na altura das vindimas, passávamos férias em casa da minha avó Isabel, até no seu último Setembro…
Aqueles dias eram de encantamento. No quintal, separado da casa por uma serventia pública, havia figueiras retorcidas com troncos por onde cavalgava a minha imaginação. O espaço era só meu… e os figos também! Personalizei-os como amigos, inimigos, guerreiros, cavalgando naquele tronco meio deitado que foi o meu cavalo verde.
Quando a intelectualização me começou a entrar na vida, com mais força que a aprendizagem através dos sentidos e me vieram com aquela de que o cavalo verde simbolizava a Morte, só consegui pensar “Estão doidos!” e continuei a sonhar com o meu cavalo. Na adolescência, pretendi mesmo que, montado nele, chegaria o homem dos meus sonhos. E não é que anos mais tarde vi a ideia materializada num filme, cujo actor principal até ganhou o Óscar?! Sentada confortavelmente na sala de cinema só conseguia pensar ”Graças a Deus ainda há loucos!”
A Elisabete (que será feito de ti?), filha do “Zé Grigó” morava perto, mas a vida obrigava-a a cumprir tarefas de que a falta de tempo da mãe se não compadecia; contudo foi na melancolia dos finais de tarde que com ela aprendi a andar de burro. E se eu gostava de passear no burro do Zé Grigó… Da Elisabete, cuja circunstância de vida obrigava a ser adulta, com a minha idade, recordo a paciência com que aturava as minhas excentricidades.
O “Zé Grigó” era um homem pequenino, cuja deficiência na fala o impedia de pronunciar devidamente o nome: Gregório! Da mulher só recordo o silêncio e o deslizar suave pela resignação dos dias que deveriam ser outros e não aqueles que lhe couberam em sorte.
E a minha avó?!
No primeiro dia de férias, feito o transporte das malas no burro do Zé Grigó, desde a estação de Dois Portos até à Ribaldeira, dava-me um saco de dinheiro, tudo em moedas de tostão. Sim, porque eu não gostava de dinheiro, gostava era de brincar com as moedas e as de tostão eram as únicas que não interessavam ao meu irmão, doze anos mais velho do que eu e logicamente com interesses “outros”, a quem, nem o facto de caber bem maior quantia impedia de cobiçar a minha e, logo nesse dia, ia comigo apanhar amoras.
E nas alturas do mimo, farta de cavalgar na figueira ou de apanhar bichos para dentro de uma garrafa (que aflição quando fiquei com o dedo médio da mão esquerda debaixo de um pedregulho enorme! E que dores! Até tive direito a uma unha nova!), eu, roçando-me por ela, pedia “Avó, deixa-me brincar com a tua pele”. E, a minha avó sentava-se numa cadeira comigo ao colo e deixava-me acariciar-lhe as rugas do rosto e do pescoço.
E, ainda hoje, quando o silêncio não me apetece e não há palavras ternas nem gestos de carinho suficientes para o preencher eu fecho os olhos, traço com os dedos o contorno daquele rosto e sinto nas mãos o conforto da sua pele fina.