Depois de almoço, quando saía de casa, não pretendia
passear pela margem do rio, mas levava comigo uma vontade irresistível de me
deliciar com a paisagem.
Havia pegado na máquina
fotográfica, descido as escadas e enfiado no carro, na firme disposição de ir a
pé, pelo Marachão, o caminho mais longo até ao Centro Cívico, para cumprir as minhas
horas de voluntariado.
Parei o carro junto às piscinas,
como habitualmente, só que em vez de caminhar em direção à Ponte Europa, virei
para a cidade.
Fiz o primeiro registo.
Há muito tempo que não nos cruzávamos. Aconteceu: "Posso oferecer-lhe uma coisa para ler?" "Claro que pode" - respondeu o meu melhor sorriso, à vista da pagela. " A senhora é tão simpática! Posso oferecer-lhe também esta revista?" pergunta a amiga. "Com certeza!".
E segui carregada com aquela literatura que remetia para a Bíblia (aviso das senhoras- apóstolas de Jeová), dobradinha no bolso da parka que transportava no braço, à espera de um caixote de lixo distante, que não lhes entristecesse as feições.
O sorriso, às vezes, prega-nos partidas.
"Será que vou encontrar o monge budista, na camisa de xadrez azul com a gravata amarela? Será que hoje veste a camisa de xadrez verde com a gravata castanha? Por que chão estenderá agora os livros que não vende?" Saberia depois, que não. Ainda não foi desta.
Passei com habitualmente por baixo da ponte que liga Leiria e Marrazes olhando para o alto, como sempre faço.
E a voz da minha mãe, que tanto se preocupa com as minhas passeatas pelo rio - "vê lá se escorregas e cais à água... " E eu a rir: "Ora, sei nadar!"
Deixei que o casal se afastasse, para fazer o registo, porque me apeteceu caminhar para algum lado que não existe, também assim, com alguém ao meu lado. Quem visse haveria de dizer: "Levava asas leves e brincos na alma" (Alice Brito,
As mulheres da Fonte Nova, pág 111)
"No chão, tapetes de folhas secas acusavam a madureza do tempo à espera do Inverno." (Alice Brito,
As mulheres da Fonte Nova, pág 175)
E eu sub-repticiamente a caminhar, mal levantando os pés, feita pássaro no movimento que imprimia às folhas.
Olhei para trás... A beleza afirmava-se
E afirmar-se-ia mais ainda, olhando em frente, à vista do Parque...
E fui andando... materializando o infinito no ponto, ao fundo, com que a perspetiva me enganava. E eu deixava que me enganasse. Estava ali para isso.
A ponte chinesa, a minha preferida. "Justapõe-se" dirão alguns... e daí? Que leveza!
Olhei para o lado. Gosto de olhar em todas as direções. Os referentes ajudam a fixar a rota.
E a vida, força a acontecer em qualquer lado, inegavelmente, com um pingo de água e uma réstia de sol. Somos iguais: basta-nos pouco para desabrocharmos...
Praça Eça de Queiroz... As horas cumpriram-se...
Um olhar à esquerda, naquele fim de tarde.
E à direita...
E aquela sensação de liberdade mesclada de ausência a percorrer-me o corpo, trouxe-me de volta.