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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

S. MARTINHO DO PORTO




Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto? 


                                        Uma tarde de Outono, Olavo Bilac, in Poesias


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

JÁ NÃO HÁ RESPEITO


A Rita e o André vieram à praia, passar a tarde com a avó.

A Rita, que pela primeira vez vinha a banhos, não gostou da areia. O André brincou com a alegria, com que só uma criança de seis anos sabe brincar. A avó, encantada, brincava ora com um ora com outro, dividindo o tempo entre a beira-mar, onde se dedicava à apanha de algas com o André e a barraca, onde a Rita teimava em não sair da toalha.

“Deixa o rapaz ir à água sozinho e sossega” disse a mãe “estou a vê-lo. Com esta idade, eu ia a pé, sozinha, para a escola” “mas tu eras minha filha e ele é meu neto. A ti educava-te e a ele só amo”.

A minha filha entendeu. Nestes curtos anos, já descobriu como é difícil ser mãe. Gerir amor e ensino/aprendizagem da vida é um trabalho de génio, meticuloso e sofrido, que uma reza, em surdina, dirigida às divindades, acompanha: “que não venha um vendaval que me arrase a sementeira…” porque a ação de educar é como a de cultivar um campo: a terra poderá ser ótima, a semente de primeira, o fertilizante adequado, o agricultor bom conhecedor do ofício, mas nunca há garantias em relação à colheita, para a qual não estão previstos seguros, nem subsídios do estado. Também já pôde observar como é fácil ser avó: amor sem medida e sem cuidados, mergulho inconsciente em afetos, irremediável excesso de velocidade em todas as curvas da vida… Pois! E lá andei ontem, dividida entre a beira-mar e a barraca, num vai-e-vem imparável, saboreando aquelas delícias de netos.

A minha filha registou o acontecimento com algumas fotos e eu adverti: “não te esqueças de mas enviar”. Não esqueceu. À noite abri o PC e deparei-me com o email, que foi enviado para mim e para a irmã, que não pudera ir. Transcrevo o texto que acompanhava as fotos, com o fim de solicitar a vossa ajuda:

From:
Date: 2012/8/9
Subject: Olha o Chapéu
To:

Nana,

A tua mãe afinal não alugou barraca,... comprou um chapéu....


Alguma vez se viu tamanha desfaçatez? Já não há respeito?! Como meter esta filha na ordem? Sim amigos, para esta, antevejo ainda algumas hipóteses de sucesso, quanto à outra, pela resposta dada à irmã, de que  teve o cuidado de me dar conhecimento, pude concluir que é um caso perdido…



quinta-feira, 9 de agosto de 2012

MIMOS


Ligeira, descia as escadas, quando o telefone tocou. Prometera encontrar-me com a GM às onze horas e tencionava cumprir.

- É o meu. – Pensei, continuando a descer.

E o telefone tocava… numa corrida, voltei atrás. Antes de atender olhei o número. Quem era, havia ligado de manhã cedo, prometendo visitar-me brevemente, com a companheira.

- Teria acontecido alguma coisa? – Interroguei-me. - Então, que se passa? – Questionei ao atender.

– É bom ter-te de volta. Já tinha saudades. Ainda bem que acabou a hibernação.

- Tradutor! – Exclamei - Preciso de tradutor. Não entendo o que me estás a dizer.

- Fui ao teu blog. Voltaste a escrever. Que bom! Fazia-me falta ler- te.

- Amigo, no início deste ano, todas as rifas que tirei tinham prémio. - E desfiei o rosário de desgraças por que passei, nos primeiros seis meses. - As dores não matam, mas amolentam. A quem apeteceria escrever?

- Mas, não disseste nada…

- Aborreceria os amigos e as dores não passariam. Felizmente, melhorei.

- Nota-se. Que bom voltar a ler-te!

Agradeci a gentileza e a boa amizade que lhe merecia, procedemos aos despedimentos do costume e a conversa ficou por ali.

Corri pelas escadas, sorrindo. Não há mimo de alma que não ilumine uma manhã, apesar do sol. Nem sonhava os que ainda iria receber. A GM, esgotado o assunto que nos fizera juntar, ofereceu-me mais, a PS, quando nos encontrámos, mais tarde, levava também alguns para me dar e já noite, três frases, só três, fecharam uma ferida que tinha aberta no meu peito.

Terá sido, ontem, o dia nacional dos miminhos d’alma?

Os amigos que nos falam devagar, com “um sorriso desenhado nas palavras soalheiras” são como a água fresca num dia de calor: matam a sede aos afetos.   

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O PRÉMIO

“Queres ir ao Shopping?” Telefonava-me uma amiga, há largos dias. “Não quero, mas preciso de ir”. Combinámos o encontro, peguei na lista das compras e pus-me a caminho.

Passeámo-nos pelos corredores do Continente, eu empurrando o carrinho, ela colocando as compras nele, adquirindo os precisos de uma e outra, conversando e rindo de tantas banalidades, que acabei esquecendo o que anotara em primeiro lugar: pilhas para a escova de dentes. Não foi por isso que veio mal ao mundo; há uma loja do Pingo Doce aqui tão perto…
Feitas as compras, distraída e desejosa de sair do Centro Comercial, surge, como que do nada, a minha “fada-madrinha” que, tal como nós, pretendia fazer uns investimentos de capital, para júbilo do Tio Belmiro.

A minha “fada-madrinha” é a professora JS, mais jovem que eu, que à data em que fui monitora dos adultos na Escola Amarela, em regime de acumulação com o trabalho na Escola Branca e com a supervisão de estágios pedagógicos, se encontrava destacada no Ensino Recorrente. Eu ganhava por esse trabalho a extraordinária verba de dez mil escudos, que pagavam o meu trabalho diário de duas horas, cinco dias por semana, ou seja quarenta horas mensais. Para que não tenham o trabalho de fazer a conta, eu esclareço que recebia a avultadíssima quantia de dois escudos e cinquenta centavos, por cada hora. A minha empregada doméstica ganhava muito mais! Além de pagar mal, o estado nunca pagava atempadamente. Nunca se sabia quando chegava o cheque, mas quando aparecia a JS telefonava a informar-me de que já havia dinheiro. Foi assim que passou a ser a minha “fada-madrinha”. Quando ela telefonava eu já sabia que se alguma vez fora pobre, a partir daquele momento, deixara de ser…

Não sei como, a conversa derivou para a escola. Ter-lhe-ei perguntado se já estaria aposentada? Não recordo. Sei que me falou de trabalho, do sonho de uma pesquisa de cariz pedagógico/didático em que um dos instrumentos a analisar seria o livro de leituras da 1.ª fase do Ensino Primário de que sou coautora: “Rebola a Bola”. Manifestando admiração por um trabalho de meados da década de setenta do século passado, possuir textos que não encontrou em manuais da década de noventa. Não me dei ao trabalho de explicar que os manuais talvez se inserissem em propostas metodológicas diferentes, limitei-me a saborear o elogio, enquanto me batia no peito uma vontade imensa de voltar aos trabalhos de cariz pedagógico.

“Sabe que Eduardo Perestrelo ganhou um prémio com a ilustração do seu livro?” Soubera e já esquecera, mas hoje, assim que saí da cama, nem sei se terei sonhado com isto, dirigi-me à estante e tirei da prateleira o único manual que possuo, aquele por onde a minha filha mais velha aprendeu a ler. Passei as folhas uma a uma, lentamente, deleitando-me com o traço firme, cheio de cor e movimento de Eduardo Perestrelo. Além do prémio de ilustração, o artista deveria ser premiado pela forma ímpar como entendeu a essência do trabalho que lhe confiei.


Uma vez mais, porque nunca é de mais, bem-haja Eduardo Perestrelo! A sua extraordinária mestria fez daquele manual uma obra de arte.










terça-feira, 7 de agosto de 2012

TRAGO O TEMPO


À distância de um ano repetia-se a ceia da noite de S. Silvestre e eu fora, de novo, convidada. Como era costume os amigos mais chegados levarem comer para diversificar o menu, eu informei, os que iam de Leiria, de que levaria bacalhau com natas, para o jantar e as passas, separadas em grupos de doze, para serem comidas nos últimos momentos da noite.

Não acredito na tradição das passas, tal como não creio em muitas outras coisas, mas cumpro o ritual porque é importante para os outros. Como as passas sem nada desejar. Possivelmente é por isso que sou feliz, como não tenho expectativas, tudo o que a vida me proporciona é uma dádiva e a primeira de todas, que se vem repetindo diariamente, é ver amanhecer.

No ano anterior, também levara passas e sem saber se eram precisas, deixara-as ficar no saco, para só as distribuir perto da meia-noite quando o dono da casa reconheceu que se esquecera desse pormenor. “Eu trouxe” e os presentes suspenderam as lamúrias, quando comecei a distribuir bouquet a um, bouquet a outro.

Naquele ano, em que era convidada pela segunda vez, eu quis obsequiar o anfitrião; mas que oferecer a um homem que tem tudo e de que nem se conhecem os gostos? Pensei que se o presente não se poderia impor pela qualidade, teria de impor-se pela originalidade. Assim, decidi e comprei a prenda. Por saber que o senhor gostava de poesia, comprei uma agenda poética, intemporal, daquelas que podem ser usadas em qualquer ano, pois somos nós que escrevemos os dias e os meses.

Quando a ofereci ao anfitrião disse: escolhi uma prenda para si. Trago o tempo, porque é coisa que ninguém tem, em quantidade suficiente, para tudo o que quer realizar. Trago-o embrulhado em poesia, para que seja mais doce e custe menos a viver, poderá geri-lo como bem entender. Entreguei o embrulho, o senhor abriu e agradeceu.

O serão foi decorrendo, do meu bacalhau sobraram para além dos tabuleiros, os laços em tons de verde, com que os enfeitara.

O grupo era constituído por pessoas simpatiquíssimas. Falou-se de poesia e ouve quem declamasse e oferecesse rosas às senhoras, discutiu-se política, pretensamente solucionaram-se todos os problemas do país, brincou-se e riu-se facilmente. Cumpriu-se o que restou da noite com um sono curto, numa pensão que se situava perto e, no outro dia, após o almoço, todos regressaram a suas casas.

Referi-o há dias e não pude deixar de lembrar que, passado pouco mais de um ano, após aquela ceia festiva, o homem, a quem eu brincando oferecera o tempo, morria de cancro.

Nos curtos meses de doença, que antecederam a sua morte, vivi rezando para que não se lembrasse da brincadeira que, imprevisivelmente, a vida transformara numa cruel ironia.

Ainda hoje, não consegui racionalizar a dor que me provoca a dúvida: o meu gesto terá tornado ainda mais amargos os últimos dias daquele homem?

domingo, 5 de agosto de 2012

O NETO E A NETA

"Sou aquela que passa e ninguém vê" mas "o tempo não me apaga (rá)".

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A FOTOGRAFIA





“A mãezinha tinha os pés apertados” - disse o meu irmão olhando a fotografia. “Pudera! - confessou a minha mãe - Comprara os sapatos um número abaixo”.

Aquele tiro no escuro, dado pelo meu irmão, de olhos fechados, tinha acabado de acertar no alvo. Na verdade, a conclusão não tinha tanto mérito, como à primeira vista possa parecer; comprar os sapatos um número abaixo da medida devida era um hábito conhecido de minha mãe, no afã de conseguir ficar com os pés mais elegantes. Haverá mulher que não deseje ter os pés pequenos? A minha mãe nunca conseguiu o intento, mas que se esforçou, é um facto.

A partir de então fomos imparáveis nos comentários jocosos. Aos pés apertados de minha mãe, juntámos o nó à banda da gravata de meu pai; o chapéu, que não parecendo dele, só poderia ser emprestado; a falta  do chapéu-de-chuva para fazer riscos na areia (hábito igualmente conhecido de meu pai); o seu ar sério… “Parece mesmo o “chabanca”!

“Chabanca” fora o epíteto que meu irmão apusera a um dos tios, homem muito sisudo, nada dado a tiradas humorísticas. Ainda hoje me pergunto porquê, pois não sei o que é ser “chabanca”, nem tampouco me parece que o termo exista. Chibanca seria uma ferramenta, uma picareta, agora “chabanca”, realmente, só poderia ser aquele meu tio…

Tanto a minha mãe como o meu pai aguentaram estoicamente a nossa irreverência, não riam, não entravam no jogo, como de costume, mas também nunca se zangaram.

Existiam várias fotos iguais a esta. Nenhuma emoldurada. Aliás, em casa, não havia qualquer foto emoldurada, estavam todas guardadas mesmo as que se exibiam em molduras. Vá lá saber-se porquê… Talvez mercê do gosto minimalista de minha mãe.

Em mil novecentos e noventa e sete, o meu pai faleceu, um ano antes falecera meu irmão, e, cinco anos depois, em dois mil e dois, já com oitenta e quatro anos, a minha mãe decidiu ir para um lar de idosos. Abordou-me nesse sentido, pretendendo que eu fizesse as devidas diligências “Pois temos pena! - respondi – se quer ir para um lar terá de tratar disso sozinha; há quarto para si em minha casa, não a vou pôr em lar nenhum” “em tua casa não se ouve barulho e eu ficaria lá sozinha sem ter que fazer, enquanto trabalhas”. E a conversa ficou por aqui.

Pensando eu que o assunto estava arrumado, continuei a visitar todos os dias minha mãe, depois da escola, tal como já fazia. Como ficava em caminho, passava primeiro por casa de D. Julieta, que também vivia só e depois seguia, disponível para aquelas conversas, que algumas vezes nem ouvia, mas que tinham o mérito do afeto com que a fazia sentir viva e a mexer.

No fim do mês de Julho desse ano de dois mil e dois, minha mãe comunicou-me que, no mês seguinte, não iria comigo para S. Martinho do Porto. “Porquê?” Admirei-me. “Vou começar a integrar-me no Lar Emanuel, primeiro participando em atividades de dia e depois, se gostar, em regime de internamento.” Fiquei chocada, barafustei, mas ela foi inabalável.

O tempo cumpriu-se, com a indiferença habitual e a minha mãe, em meados de Setembro, entrou mesmo no Lar. Antes, entregara-me um envelope com fotografias: ”não quero que um dia a tua ex-cunhada se ria dos momentos importantes da minha vida, se não as quiseres, rasga-as, eu não sou capaz.” Abri o envelope e lá estavam todas as fotos. “Que tolice, mãe! Acha que o meu irmão não levou uma foto destas?” “Se a tua ex-cunhada (nunca a sua nora) já tem uma, não precisa de mais.”

Foi então que, apercebendo-me do valor estimativo daquela foto, me questionei porque seríamos, o meu irmão e eu, tão contundentes em relação à mesma.

Conclui que, sem consciência disso, sentíamos que aqueles não pareciam os nossos pais, porque a memória só nos permite regredir até aos seis anos de idade, excecionalmente até aos cinco, o que faz com que conservemos uma imagem familiar que percecionámos na idade da razão. Por ela, achamos estranhas as imagens anteriores e somos ainda levados a recusar o envelhecimento dos pais.

O registo fotográfico fora feito antes de nascermos. A fotografia não tinha qualquer correspondência com a imagem afetiva que meu irmão e eu tínhamos dos pais que, casados a vinte e cinco de Abril de mil novecentos e trinta e sete, se fizeram fotografar em Braga, no fim desse mês, em plena lua-de-mel.

Lua-de-mel?! Mas os pais casam-se? Dizem que sim, mas nós não vimos, esqueceram-se de nos convidar para a festa… Os pais têm sexo? Os pais não são aquelas pessoas assexuadas das quais nascemos por obra e graça do Divino Espírito Santo, tal e qual como aconteceu com o Menino Jesus?

O vestido granate com cravos bordados, perspetivando sem saber, outro Abril, de braço dado com o nó de gravata à banda e o chapéu às três pancadas, é o símbolo inabalável de um projeto de vida, que se cumpriu, longo no tempo e ainda mexe.