Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta AFETOS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta AFETOS. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 2 de julho de 2014

AMIGAS

A tia entrou e alongou-se pela sala, ocupando um lugar do lado direito. Ela encontrava-se já do lado esquerdo. Não se conheciam pessoalmente, mas sabiam da existência uma da outra.
Terminadas as exéquias, ela atravessou a sala. A tia era a única pessoa da família a quem ainda não apresentara condolências.

- Perdão.  – disse a senhora – Não estou a reconhecê-la.
- Chamo-me…
- Ah! Sei bem quem é… - (E os olhares acariciaram-se mutuamente.)
- Queria dizer-lhe…
- Sei que é uma pessoa alegre. Muito obrigada pelos momentos de alegria que proporcionou ao meu sobrinho.

Ela ficou sem jeito. Sorriu. Sorriu balbuciando:
- Gostei de a conhecer. Que pena ter sido nestas circunstâncias!
Depois, encaminhou-se para a porta e saiu atrás dos outros.

Ao sentimento de perda pela morte do amigo, aliava a falta daquela amizade que só não fora porque ela se esquivara a conhecer a família.
- Temos muito tempo. – dissera tanta vez.
Afinal o tempo fora escasso. Mas uma dor bastava, estrangulou aquele acréscimo de tristeza: “sabes lá se seriam amigas…”

Quanto tempo passou? Que importa?!

Há dias, aproveitando uma tarde amena, ela sentara-se na esplanada do café habitual e vagava pelas páginas de um livro. Alguém vindo por detrás enfiou-lhe os dedos nos cabelos acariciando-lhe o alto da cabeça. Nem se mexeu. Saboreou a carícia…

- Olá! – e a tia sorria – Há quanto tempo não nos vemos?!
Levantou-se e cumprimentou a senhora.

Seriam amigas, sim!



quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

DECIDIDAMENTE



Ela chegou no dia vinte quatro cerca das dezassete horas e trinta minutos. Bem-disposta nem se deu ao trabalho de abrir a porta. Tocou e esperou que lha abrisse. Voltei em corrida para o tacho do arroz doce que continuava ao lume e precisava de ser mexido constantemente para não pegar.

“Ouvi dizer que hoje, há aqui um jantar muito bom.” Olhei-a sem entender, tinha acabado de me cumprimentar e claro que o jantar seria bom, para além de ser véspera de Natal, dizem que herdei o jeito para a cozinha de minha avó Isabel, o que equivale a veladamente dizerem que cozinho bem, se não tão bem como ela, pelo menos fazendo-a lembrar, o que é muito bom.

“O menu é o que sugeriste” – respondi. “Nada disso: Telefonaram-me a informar de que havia um arranjo da Mata dos Marrazes, que tornará o jantar muito mais apetitoso”.

Ali estava ela, a mais nova, de conluio com a mais velha a rir-se de mim nas minhas bochechas. “Decididamente, estou velha!” – pensei- “Já me apanham assim, sem mais nem menos, na primeira curva da ironia, sem que me aperceba com antecedência, que caminhos trilham. Filhas!”

Ao início da tarde, a mais velha telefonara, no preciso instante em que eu chegava a casa, toda molhada, depois de uma incursão, debaixo de chuva torrencial, pela Mata dos Marrazes com a finalidade de apanhar uma pontas de pinheiro, uns ramos com bolinhas vermelhas e umas folhas de hera para fazer um arranjo de Natal. A isso acrescentara, depois, umas folhas de nespereira que apanhara ainda no quintal de uma casa que visitara, como Pai Natal.

“Já está na mesa” – informei – será que andaram a rir-se de mim nas minhas costas?” “Olha que ideia, lá éramos capazes disso. A hipótese de apanhares uma pneumonia ou de te cair um pinheiro em cima em troca desta obra de arte, foram riscos insignificantes. Leiria não esteve em alerta laranja?” Que sim, que estivera, lá confirmei. “Ah! Vou já mandar a foto à nana. Não quero que lhe caia mal o jantar da sogra, por lhe faltar esta visão magnífica.”

A filha a ralhar comigo! Onde é que já se viu? Trocaram-se os papeis? Estou velha! Decididamente velha... e o mais grave é que ainda nem tinha dado por isso.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

MORRESTE-ME

Morreste-me Amélia. Faz amanhã um mês. E eu sei que não deveria chorar-te. Não se chora uma mulher que viveu noventa e um anos. Deveria celebrar-te a vida, agradecer-te a aprendizagem longa que me proporcionaste. Mais que tudo, deveria celebrar os muitos anos que tive o privilégio de usufruir do teu amor-perfeito e não chorar por o ter perdido.

Os primeiros dias, Amélia, até correram bem. Tu sabes como sou. Aguento os primeiros impactos, mas depois, sempre que chego ao Lar a minha mãe pergunta: “Foste ver a Amélia? Como é que ela está? Estou tão preocupada”- acrescenta. E eu, invariavelmente respondo-lhe que sim, que fui e que estás muito doente. “Do coração?” – quer ela saber – “De tudo mãe. Do coração, do estômago, dos intestinos” E lembro-me do teu último almoço “deixa-me ajudar-te. Deste-me tantas vezes comer na boca. Deixa que hoje seja eu a dar-te a ti” e tu “não é a mesma coisa” e a entornares tudo e eu a pedir de mansinho “deixa que te ajude” e tu deixaste e dei-te o último almoço que comeste ali e quero voltar a ter-te ali ao pé de mim a entornar a sopa e eu a pedir por favor para ta dar.

Ficou palpável o teu afeto crochetado em quilómetros de linha fina, repousando nas minhas gavetas. “Se queres essa toalha, pede à Amélia que ta faça” disse minha mãe quando apontei um botão de rosa inscrito num quadrado de renda. E eu pedi e tu fizeste. Quando voltar a estender a toalha sobre a mesa resistirei às lágrimas?

Como detestavas que tricotasse passando a lã pelo pescoço! Achavas pouco elegante. E como estou arrependida de não me ter esforçado para aprender a fazê-lo com os gestos finos que em mim sonhaste!

As tuas sobrinhas tiveram a gentileza de te alindar com um lenço que te oferecera. “Ela leva um lenço que lhe deste” – disse-me a Nelinha. “Já viste?” perguntou a Lena. Olhei-te deitada serenamente no esquife. Não respondi. Há comoções que as palavras não descrevem.

A Felicidade ocupou o teu lugar na mesa de refeições. Que ironia! Pareces tu a dizer-me que a vida continua, mas eu estou cheia de pena de mim, de não te ter mais a gostares de mim assim, tal como sou. E penso "morreu-se-me outra Velha!" E choro desconsolada. A voz da razão bem me sussurra, celebra o facto de ainda te sobrarem duas, entre elas a tua mãe, mas a menina que em mim existe precisa da certeza do apoio e mais que tudo da certeza do carinho, da ternura e do amor, que a morte em ti me leva deixando-me cada vez mais só.

Nunca te direi adeus. Digo-te, como fazia diariamente: “Olá, Amélia” para que tu me possas retorquir como enquanto te beijava a magra face “Estás boa ou nunca o foste?” e eu, num ritual comum de risos “Ora! já sabes a resposta…” 

Não te preocupes. Todos os dias ao almoço dobro o guardanapo de papel da minha mãe como tu fazias. Ela, se soubesse, não deixaria que te esquecesse.


E no templo renovam-se as colunas…

sábado, 2 de novembro de 2013

TERIA SIDO MELHOR

Dia um de novembro, antes de ir dar o almoço a minha mãe, fui comprar o meu, ao Piu-Piu. A dona Maria cortava qualquer coisa na sala contígua à loja “bom dia. Mas o que é isso que está a fazer em vez de vir cuidar de mim?” –perguntei brincando, porque gosto de arreliar a dona Maria. “E a senhora que não refilasse. Bom dia. Ora diga lá” “Lá”- respondi a rir. “O que deseja?” – perguntou a dona Maria. Escolhi o que pretendia almoçar e jantar nesse dia, porque meia dose chega perfeitamente para duas refeições a quem, como eu, não é grande garfo, paguei os três euros e meio e já me vinha embora quando me ofereceu uma broinha doce “não quer bolinho?” Aceitei e saí.

Gulosa, com a desculpa de que ainda faltava muito para o meu almoço, resolvi comer a pequena broa. Surpresa! Tinha um sabor próximo das que costumo confecionar. E sem saber como, ali estava eu e a Clara no carro da Zinda, já de regresso da escola da Ortigosa, por altura da Ponte da Pedra, “Para! Para!” gritava eu sentada no banco de trás e a Zinda atarantada “mas paro porquê?” “porque vais virar para a esquerda” e ela cada vez percebia menos e a Clara também não percebia nada… “Vamos comprar um feixe de lenha e vamos amassar o bolinho para casa da dona Cipriana. Elas sabiam lá quem era a dona Cipriana…

Comprámos a lenha e depois na Sismaria, todos os ingredientes necessários. 

A Clara foi buscar as filha ao Castelinho e o meu pai as minhas ao Pinóquio, os respetivos Jardins de Infância que as crianças frequentavam. 

A dona Cipriana, amiga de minha mãe, gostava de mim e de há muito se habituara a aturar-me os “de repente” nas brincadeiras de infância com o filho que perdera há alguns anos, disponibilizou-se de imediato para nos ensinar a amassar as broas e foi o senhor Alberto, o marido, que, depois de chegar da Junta Nacional do Vinho, onde trabalhava, nos serviu de padeiro, no forno que mandara construir na divisão contigua à cozinha. Foi um resto de tarde alegre, divertidíssimo, para todos nós. Lanchámos, dividimos as broas, limpámos o que havíamos sujado e regressamos a casa felizes com as broinhas dos santos.

E ali esta eu, junto à churrasqueira Piu-Piu, a caminho do carro, muito mais de trinta anos após, com uma broa meia mordida na mão, cheia de saudades de mim, da minha força arrebatadora, da minha alegria de viver, frágil, sem saber se já perdi a força, se se desvaneceu a alegria, mas sobretudo doente de medo por não saber se já não tenho mais nada para provar a mim mesma, se já não sou capaz de provar mais nada e à beira de me quebrar.

Teria sido melhor não aceitar a broinha.  

terça-feira, 10 de setembro de 2013

PRECISAS DISTO?

Quarta-feira, como noutro dia qualquer, desloquei-me ao Lar Emanuel, à hora do almoço, para ajudar a minha mãe na refeição. Porque era quarta-feira e o lar é uma associação também é esse o dia da semana escolhido por um grupo de amigos para aí almoçarem. O grupo é aberto e todos os que aparecem são, no mínimo, meus conhecidos, de alguns sou amiga, e com muitos partilho até ideais de vida. Coincidiu, por isso que eu e o RPP, cujo destino era o referido almoço de amigos, chegássemos quase em simultâneo, com uma ligeira vantagem de décimas de segundo para mim. Saí do carro e esperei que arrumasse, para o cumprimentar.

“Vens almoçar connosco?” – perguntou-me. Não, não ia. Na verdade nunca confraternizei naqueles almoços. Vá lá saber-se porquê. Porque não! “Vou dar almoço à minha mãe”.

“Ah! Precisas disso? - perguntou RPP – “e quando não estás?” “Quando não estou, não venho. Há cá imensa gente que a cuida bem” – respondi e o meu cérebro fervilhava com a questão “preciso disto?” “Preciso disto?” Sem atinar com a resposta à questão que nunca se me pusera. 

O RPP continuava “a minha irmã era assim com a minha mãe” “Acho que precisamos as duas” ouvi-me a responder. Uma resposta de consenso que achei equivaler a responder coisa nenhuma. Tínhamos acabado de entrar na portaria. Cumprimentei o sr. H. brincando com a camisola vermelha que vestia e adiantei-me ao RPP que ficou na conversa com este. “Vou andando. Vemo-nos lá em baixo” - e desci até ao refeitório.

A pergunta não me largou nessa tarde “preciso disto?”, Que me perguntava o RPP? Afinal a que chamaria ele “isto”? “Isto” era a visita diária a minha mãe, a ser entendida como quê? Catarse? Rotina? Penitência? Ali havia qualquer coisa que não me soava bem…

Sem querer vi-me sentada naquela mesa do refeitório, meia de esguelha, entre as duas Amélias, minha mãe e aquela outra, de quem fora vizinha em pequenina e a quem, para desespero de minha mãe, tratara sempre por tu, coisa que nem acontece com ela e que acabara por ser minha madrinha de casamento. Vivíamos em pequenas vivendas geminadas e contam, eu era pequena de mais para me lembrar, que saía do meu jardim e batia-lhe à porta. “O que queres?” “Não gosto do comer da minha mãe. Quero o comer do Quinzinho”. O Quinzinho era o marido, que também nunca teve direito a tratamento cerimonioso. E a minha mãe passava-lhe o meu almoço pelo muro do quintal que ficava nas traseiras da casa e eu comia regaladamente “o comer do Quinzinho”. E era uma festa quando ele chegava, mas assim que este despia o casaco e ficava em mangas de camisa... eu saía imediatamente. Vá lá saber-se porquê.

No outro lado do quadrado está a Dona Felicidade, desdentada e bem-disposta. Mingaram os maxilares e não teve direito a novas próteses dentárias, come tudo passado. Está mal da mão esquerda. Está a fechar-se e por isso tem de segurar sempre um rolo de ligaduras para evitar que piore. Ajudo-a quando precisa, parto-lhe o pão aos bocadinhos para a sopa. Em troca ela encomenda-me a alma: “merece o céu” “é muito boa senhora” e diz aquilo com um ar tão convicto que eu quase me sinto tentada a acreditar…. E rio-me “eu trato bem a Felicidade para a felicidade não se esquecer de me tratar bem a mim”. E ela percebe a brincadeira e também ri “Deus a proteja e aos seus” “Muito obrigada. Há de proteger e a si também”. No outro lado da mesa está a dona Adelaide. Uma senhora triste, só sorri e o sorriso ilumina-se quando reparto com ela algum mimo que levo para minha mãe.

Afinal o que acontece é que é muito fácil criar laços... É uma questão de disponibilidade afetiva. Algo que acontece porque sim.

“Isto” como dizia o meu amigo, não é uma questão de necessidade, nem minha, nem de minha mãe. É uma questão de afeto. Entre mim e a minha mãe há laços absolutamente inquebráveis de amor que se criaram ao longo de muitos anos. A minha mãe é o último "amor-perfeito" que me resta. Quero mimá-lo bem enquanto dura. Porque sim!

sábado, 10 de agosto de 2013

UMA VEZ MAIS


Ramalho Ortigão definiu-o como o local onde o inverno vinha passar o verão. Eu garanto que é o sítio onde sonho melhor.
S. Martinho do Porto, um pedaço do paraíso.

terça-feira, 7 de maio de 2013

ANJINHO



O pai diz que sai à avó… mas ela tem duas. Não se sabe a qual…

A mãe garante que está velha, muito velha…

O irmão exclama: “Ai, ai, D. Rita!” E toda a gente corre. Há asneira pela certa! E da grossa… No mínimo, trepou a algum sítio estranho do qual se prepara para voar…

Cá para mim, acho que já não falta muito, para ganhar em tempo ao tio F. a correr no molhe de Peniche, com os olhos fechados, para não ter medo de cair à água.

É um anjinho de caracóis ruivos. Pois então! 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A MINHA AMIGA G.


Conhecemo-nos em casa da Albertina, num desses domingo em que nos juntávamos para dois dedos de conversa agarradas às agulhas do tricote ou do croché. Trazias três filhos pela mão, o outro nasceria anos depois, e um sorriso triste, cansado de vida.

“Há quanto tempo?!”- pasmou a Albertina, tua colega de escola. Que tinhas encontrado seu pai e que te lembraras de aparecer. Naquela tarde foste mais uma a partilhar as conversas inconsequentes, os risos, o chá e as torradas da merenda.

Depois partiste. “Era tão linda! E é tão infeliz no casamento!” – comentou a Albertina “Linda, ainda é. A infelicidade adivinha-se” – retorqui.

Não sei como, tornámo-nos amigas. Talvez a mania de proteção, a minha, despertada pela tua infelicidade, nos tivesse unido. Ironias da vida! Como se eu esbanjasse venturas… mas possuía dois ombros para encostares a cabeça e dois ouvidos para ouvir-te. Tu estavas dotada dos mesmos atributos e também me protegeste. Adotámo-nos uma à outra. Partilhámos tristezas e alegrias. O crescimento dos filhos, o nascimento do teu mais novo. Os passeios à praia, a garotada atrás. O teu incontornável Capri vermelho, com a alavanca de mudanças “amovível”, e nós a rir e o teu marido sem achar graça. Partilhámos ainda as tardes de Natal a cozinhar bolo-rei no forno da aldeia e os passeios pelo campo.

“Anda, vem daí”- dizias tu quando respondendo ao toque da campainha te abria a porta, nas manhãs de sábado – “A minha mãe vai cozinhar pato para o almoço.” E como eu gostava daquela canja, com aromas diferentes que tua mãe cozinhava: um ramo de salsa, alho e louro, massa pevide e carne desfiada. E a garotada, primeiro cinco, depois seis a chilrear à mesa, na sala de teus pais.

“Vem um homem regar os feijões. Vamos lá, que é perto, para que as tuas filhas vejam como se faz” – e a minha intuição a correr feita louca e a apanhar a Íris pelos folhos do vestido, no momento exato em que caía naquela presa de água, coberta de “não-me-esqueças”. “Que bonito!” – dizia ela ainda, quando lhe faltou o chão para pôr os pés e se sentiu suspensa pelo vestido, molhada, meio mergulhada no susto daquela água. E eu cheia de vontade de ralhar-te, a sorrir para não a assustar ainda mais: “tomaste banho, teremos de voltar, já não veremos regar os feijões”. E tu: “nunca pensei, Isabel…” “Pois devias. Somos “saloias” da cidade”.

E quando apareciam doentes e o teu marido não estava: “então de que se queixa?” Ah! Já sei o que lhe faz bem. Vou ver se há ali alguma amostra, no consultório… “ E eu a brincar: se não houver, passa a receita…” E tu rias: “Se pudesse, até passava…”
    
Depois o teu divórcio. A raiva, a angústia, a dor… e a vida a passar e a cumprir-se passando, como diz o poeta. Por fim o equilíbrio, mais tarde um novo amor.

Acabámos vizinhas. Na vivenda ficaram só os cães. E eu gostava de te saber no primeiro andar. Depois, desististe da nova vivenda para a qual já compraras o terreno e adquiriste novo apartamento: “tens dinheiro a mais” – comentei, cheia de pena de te ver partir, mas continuámos perto.

Agora estamos irremediavelmente longe.

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 
por ti

                      Alexandre O’Neill, Adeus Português

Sei que escolheste vestir branco. Comprei-te o  bouquet de rosas cor-de-rosa.

É sábado, vou a Casal dos Claros.

Até sempre, amiga.

domingo, 20 de janeiro de 2013

AINDA O NATAL

 Para o próximo ano terei de pensar noutra coisa. Já estou cansada de lacinhos. por acaso até já pensei... Não sei é se me apetecerá confecionar a nova decoração...






Antes de o André chegar, tirei todas as figuras do presépio, para que fosse ele a dispô-las como quisesse.

As ovelhas vão em fila ter com o pastor e atrás vai o carneiro para defender o rebanho. A avó nem havia reparado que havia um carneiro... ou se já reparara nem se lembrava...

Os Reis Magos já viram o Menino, podem voltar para o castelo que o cão está a guardar.

A camponesa leva um pato, mas não é a sério, é um pato para o Menino Jesus brincar.

-Ó avó, o anjinho o que é? Foi alguma pessoa que morreu? - E a avó sabia???





A Rita e a "tia" Chica

A Chica foi a irmã mais velha inventada pela Íris e pela Zara, para me fazer companhia quando não estavam em casa. Bem comportada, obediente e... amorfa. Era assim que a definiam. "É a tua filha preferida. Nunca refila."

Pois a Rita não gostou de partilhar o lugar com a tia Chica.

A quem sairá ela com este feitiozinho? 

domingo, 6 de janeiro de 2013

AMIGO


Os amigos acolhem-nos no coração e surpreendem-nos de forma tão inesperada... e quase sempre nos momentos em que a vida teima em fragilizar-nos.

Gostaria de saber fazer uma ligação ao blogue do meu amigo Rui Pascoal. Não sei. Enquanto espero que alguém me ensine... Fica aqui a sugestão

http://tintacompinta.blogspot.pt/ - Caracol, Caracol, Põe os pauzinhos ao sol...

Festejemos a palavra AMIGO!





terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O PRESÉPIO



A Carma entrou esbaforida. Ela não sabe entrar de outra maneira. Anda sempre em passo de corrida e por isso mereceu de minhas filhas o epiteto de “Furacão”. Antes de desejar  bom dia adiantou “está aqui o musgo. E olhe só a sua sorte! Este ano limpei o pinhal, nunca pensei que lhe arranjava musgo tão bonito para o presépio”.

“Então bom dia também para si” – brinquei eu, pensando que a minha sorte não era ter musgo, mas sim esta Carma, que à mistura com o musgo ainda trazia ovos, couves, alfaces, marmelos e que me satisfazia as vontades e me obrigava a satisfazer as delas. “Mais marmelos?!” – espantei-me eu – “e quem come a marmelada?” “Isso não sei. A minha prima tinha-os lá para si (e referia-se à Guia sua terra natal e minha também). Não os pode deixar estragar”. Estava proferida a sentença: Faz marmelada e cala-te!

E “toca” de fazer o presépio, que ela tinha mais que fazer do que aturar-me. Não foi dito, mas era a ideia subjacente à ligeireza com que se dirigiu à varanda e começou a desocupar a mesa, tirando os vasos mais pequenos. As figuras do presépio já lá estavam, debaixo da mesa, na caixa que trouxera na quarta-feira da garagem e eu tratei de as dispor sobre as placas de musgo com que entretanto forrara toda aquela superfície branca.

“Vá, saia daí que eu ainda limpo todo o lixo que fez” e eu obedeci. Restar-me-ia outra hipótese? “ Que cara é essa?” - a Carma acabara de surpreender o olhar analítico com que eu olhava, desde a porta da sala, a obra recém-acabada - “O presépio ainda não está bem?” - quis saber.

Então não está? Claro que está bem e estará muito melhor quando o André chegar e submeter as figuras a outra ordem e nos deliciar com outras leituras estéticas.

Para todos vós,
Feliz Natal 



O cato ainda não floriu, atrasou-se, mas está cheiinho de rebentos e as flores irão debruçar-se, em delicados tons de rosa, sobre a manjedoura.




terça-feira, 27 de novembro de 2012

OS MELHORES BEIJINHOS


Precisava de ir à Almoinha Grande, local que hoje todos identificam como Nova Leiria, privilegiando o nome da urbanização e não o do local. Enfiei-me no carro e desci a ladeira. Estacionei no parque próximo e fiz-me ao que ia.

Chuviscava e o pé dorido não permitia que as condições de marcha fossem as melhores, mas apetecia-me caminhar à chuva. Feito o que me levara ali, dirigi-me devagar até aos Jardins do Lis. Precisava de comprar uma lembrança para a G. que fizera anos no sábado e que eu iria encontrar, para o chá habitual, nessa tarde. Decorria aí, à semelhança de tantas outras vezes, a Feira do Livro que a Livraria Letras e Livros costuma promover, oferecendo a quem adquire livros, um desconto de vinte por cento.

O livro estava exposto na vertical, meio aberto e chamou-me de imediato a atenção pelo elefante azul que ilustrava a capa. Há algum tempo que amadurece na minha mente uma história, que a timidez não tem força para escrever: “O elefante azul e a formiga rabiga” (pelo menos já tem título e personagens definidas). Sorri e avancei… “Os Melhores Beijinhos”: o título saltava à vista, letra num dégradée de tons quentes, com corações a substituírem as pintinhas dos ii e o elefante azul, enorme nas orelhas abertas (nem cabe todo na capa), atento, vertendo ternura com a tromba, arredondada sobre o animal que nela se senta – uma ave? Sei lá qual… Um pinguim? A imagem transmite ternura, aconchego, proteção, pois a tromba do elefante, com o auxílio da orelha direita sugere uma caixa, em que a suposta ave, alegremente se instala. Os três pequenos corações desenhados nesse espaço, reforçam a ideia. Quase sinto o leve movimento da tromba! Apelo inconsciente à proteção do útero materno, acolhedor e não sufocante, porque os diferentes cambiantes de cor, mostram que o espaço é aberto. Quando não precisar de mimo, a ave poderá saltar do embalo daquele baloiço aconchegante e fazer-se à vida. E só com a imagem da capa, a ilustradora fizera-me capitular. Eu estava rendida de encanto, de ternura. Apetecia-me o livro.

Olhei a contra capa. O elefante estendia-se por lá e, ainda assim, não estava completo. Era mesmo o “meu” elefante, enorme, de porte poderoso, inabalável, mas ternamente condescendente com a tal formiga, irrequieta, rabiga… vivendo há algum tempo no meu cérebro, só lhe faltava sorrir, como o "meu" sorri. “Todos precisamos de beijinhos, por isso haverá coisa melhor que um livro cheio deles?” A sintaxe poderia não ser das melhores, mas a questão era feliz. "...este livro tem beijinhos para toda a gente.” Então vejamos… E dispus-me a folhear o livro…

Beijinhos… beijinhos… “Beijinhos inesperados que te fazem feliz.” “Quem gosta de dar beijinhos? ... E tu, Não queres experimentar?” E todos gostam de dar beijinhos… “Os enormes elefantes também” E as letras garrafais com que a ilustradora escreveu “os enormes” a tornarem ainda maior aquele elefante que não cabe em duas páginas. O “meu” elefante! Sim, eu sei de um elefante azul… Só não sei se ele gosta de dar beijinhos… Sorri e fui sorrindo e não parei de sorrir até…

O fim: “tive estes beijinhos todos…" numa panóplia colorida de duas páginas de bicharada, “mas os melhores do mundo” - e a ilustradora utilizou o negrito -  “são os teus beijinhos!” E o André, com quem eu passara o fim de semana num terno arrolo  e fazia sete anos nesse dia, aos pulos no meu peito. A Rita ainda não sabe dar beijinhos. Só recebe. E tantos… Larguei o livro e saí dali.

Procurava a prenda para a G. que ainda não encontrara. Ao fim de alguma demanda por coisa sugestiva de preço módico, adquiri-a. Estava de regresso ao carro e a casa, evidentemente. Voltara a chover. Encaminhei-me, de novo para o centro comercial Jardins do Lis e adquiri o livro para o André. Ele já está na fase das lutas dos “Gormiti” e eu este ano, optara por oferecer-lhe Bay Blates, no aniversário, pois ele perdera os seus num péssimo “negócio” que realizara na escola. O pai e a mãe não lhe davam outros para que aprendesse a cuidar do que possuía, mas consentiram que a avó os oferecesse, como prenda, para sarar a dor que o afligia.

Então porquê o livro? Porque o André há de crescer. E há de “partir a cara” na vivência dos afetos. Acontece a todos… Crescer dói. Para uns mais do que para outros, por conta da sensibilidade. A ele vai doer muito...  E depois de se crescer, dói a vida… tantas vezes… É agora que tem de sentir (repare-se: não escrevi aprender) que os seus beijinhos são os melhores do mundo, para alguém, nem que seja simplesmente para a avó Belita. 

Até eu gostaria de receber este presente.

"Quero um beijinho ao pequeno almoço, para começar o dia a sorrir. E um beijinho de boas noites antes de ir dormir."


Joana Walsh e Judi Abbot, Os Melhores Beijinhos, Civilização Editora, Porto,2010