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segunda-feira, 4 de maio de 2026

RECORDAÇÕES

Naquela manhã de setembro, viajando no navio Funchal a caminho da Ilha da Madeira, fui à proa do navio. Questionava-me sobre o que sentiriam os marinheiros portugueses nos tempos das descobertas.

O varandim da proa antecedia a cabine do piloto e ali, no local mais avançado, era eu e a imensidão do mar, na grandiosidade do céu. “Evidentemente!”

Eu, de pé, no centro daquele universo esmagador que a manhã luminosa revelava para mim, navegando, porque sabia que o navio se movia, numa vasta extensão de água, apontando a linha do horizonte que, a cada metro percorrido, continuava equidistante. “Evidentemente!” Num tempo sem idade, Tales de Mileto (624 a. C. – 546 a. C.) e Ptolomeu (70 ou 90 – 168) seguiam comigo de mãos dadas, nessa manhã de setembro. “Evidentemente!”

E eu ali, ser insignificante mergulhado em infinito, prisioneira do “evidente” que “mente” aos órgãos dos sentidos, justificando o geocentrismo de Ptolomeu, sabia-me liberta pela “mente”, porque mente não é só uma forma verbal, é também substantivo. E amparada pela mente esclarecida de séculos de interrogações, estudo, ciência e pensamento filosófico, dei graças pela sabedoria alcançada com o experimentalismo de milhões de anónimos e com a persistente e corajosa clarividência de outros, cujo nome, como o de Galileu Galilei (1564, Pisa – 1642) ecoarão no tempo, até à eternidade, enquanto, espantada, vivia uma epifania.  



 

quinta-feira, 8 de julho de 2021

COMO VI "A MARGEM DO TEMPO"

 

Fui ontem ao teatro ver a que é tida como a última representação de Eunice Muñoz e em simultâneo a passagem de testemunho à neta Lidia Muñoz, na peça “A Margem do Tempo”, de Franz Xaver Kroetz, com encenação de Sérgio Moura Afonso.

Expectante, questionava-me como estaria Eunice em palco, aos noventa e dois anos de idade. Quanto à neta, que vira já a contracenar com ela, no Teatro Experimental de Cascais, para aí há uma dezena de anos, admitia ter aprendido bem, com tal mestra, ao longo do tempo.

Silêncio, depois quebrado pela música do maestro Nuno Feist, e Eunice entra em palco, executando as rotinas de uma mulher só, num habitual fim de tarde. Sem palavras, falava a música, senti a solidão da velhice logo à sacudidela da imaginada mancha de pó, da manga do casaco que despira, depois no olhar que se alonga pela janela que entreabriu, não para ver a paisagem, mas para se centrar em si, como tantas vezes me acontece.

A neta entra em cena sacudindo a mesma mancha imaginária, repetindo os mesmos gestos e entre ambas vão executando as tarefas, até à exaustão repetidas, de alguém que chega a casa antes de jantar, prepara a refeição e organiza o dia seguinte, enquanto a juventude vai morrendo ou melhor, se vai suicidando aos poucos, na perspetiva de dias sempre iguais.

Vi em cena duas atrizes encarnando uma só personagem em momentos diferentes da vida, o que numa perspetiva cénica, achei fabuloso, mas vi também as rotinas perpetuarem-se ao longo dos anos, vi os dias repetidos a papel químico.

Tentando convencer-me, repetia-me mentalmente que as rotinas nos fazem felizes, mas por outro lado sentia que a segurança que oferecem é falaciosa e torna a vida tão triste e solitária.  

“O que a vida tem para oferecer a uma mulher só?” lembrei a questão lida numa qualquer apresentação do espetáculo e garanti-me que a questão não é essa, mas sim “Que hipóteses tem uma mulher de fazer diferente?” que, bem vistas as coisas, só altera o sujeito da ação.

Eunice incomodou-me, mas o aplauso vai para o maestro Nuno Feist, que falou e gritou de desespero.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

FANTASMAS

 Hoje, à tarde fui à cabeleireira.  Disse a mim mesma que era para começar a confinar bonita, já que vou ficar fechada em casa, pelo menos, por mais um mês.

Se é verdade que decidi, de há muito, que o medo de morrer não poderia impedir-me de viver, o que tem servido de justificação às minhas deambulações, mais do que as recomendáveis, nos dias que correm, confesso, também é certo que a inteligência manda adaptar-me às circunstâncias e obviamente seguir as normas que me salvaguardam a pele. 

Farta, como toda a gente, deste vírus que nos mantém reféns do medo e com a família longe, resto-me eu como companhia de mim, o que de momento me parece pouco embora saiba que as vídeo chamadas da neta não deixarão de me colorir a circunstância dos dias e que, se algo me acontecer, a empregada me encontrará, na quarta-feira seguinte.

Não se pense que passeio muito, gosto é de ter a liberdade de não o fazer.

Considerandos à parte, em abono da verdade só posso dizer que a minha ida à cabeleireira não foi para me pôr bonita, o que redundaria num trabalho inglório para a dita, independentemente da boa vontade e do empenho com que tentasse, foi sim a tentativa frustrada de negação da clausura que se avizinha.

Saí da cabeleireira, meio rabugenta “a poesia salvar-me-á” e em vez de seguir na direção do carro, fui à Bertrand.  Pretendia um livro de poesia e acabei saindo de lá sem poesia nenhuma e mais rabugenta comigo do que antes, arrependida de não ter optado por visitar o meu livreiro preferido, que, quando não tem os livros que me apetecem, inventa forma de os conseguir. “Decididamente, não será a poesia a salvar-me da monotonia dos dias de confinamento…” – pensei.

Subi a ladeira, estacionei à porta do prédio e mal saíra do carro fui abordada por uma adolescente, cara de susto, voz trémula “por favor ajude-me!” Aquele medo acordou em mim a mãe, a professora, a pessoa… a pequena estava mesmo assustada. “Então o que se passa?” “Perdi o autocarro para Leiria” em Leiria estava ela, pretendia, isso sim, descer ao centro, ou deslocar-se ao outro extremo da cidade, “quero voltar a casa e não consigo entrar no prédio porque aquele cão não deixa. Tenho medo dele”. O pensamento é rápido “cão?! Cão?!” Pela direção do olhar, a jovenzinha morava no outro lado da praceta…  A imaginação desenhou, de imediato, uma fera nas minhas costas.

O cérebro continuava a martelar… “cão?!” “como um cão?! Logo a mim que dou distância de bicho de quatro patas?!” Corajosamente voltei-me…

 “Cão?!” Lá estava o cão…

Em toda a vida só me relacionei com dois cães: o Torry, o pastor alemão dos vizinhos, que batia à porta da casa de meus pais com a prótese de uma das patas com a intenção de velar-me o sono de menininha, enfiando o focinho entre as grades da minha cama e mais recentemente a Yuka cadela meio rafeira, meio qualquer coisa, que corre para mim e me pula aos ombros mal me vê, numa amizade que até há bem pouco tempo não pensara possível.

“É aquele o cão?” sim era aquele. “Então vamos. Vou levar-te a casa”. Atravessámos a praceta. “Tens chave?” “A minha mãe abre a porta” e, ao aproximarmo-nos, ouviu-se o ruído da porta do prédio abrindo-se. A mãe estava atenta. “Entra que o cão está longe” “Obrigada, por me ajudar”.

O cão, o dito cão que a adolescente temia era, comparado com os dois que referi, menos de metade de bicho, não era, tampouco, um qualquer rafeiro, era um cão de raça, também ele a pretender entrar em casa, suponho, de onde haveria fugido, nem me pareceu haver reparado na jovem ou em mim.

Embora a situação possa parecer hilariante, em momento algum me apeteceu rir. Aquela adolescente, pelo medo demonstrado, precisará de mais ajuda do que a que lhe poderei, alguma vez, prestar. Fiquei, isso sim, a dever-lhe um agradecimento por me ter mostrado o poder dos fantasmas que inventamos se não os exorcizarmos.

Não vos vou falar dos meus fantasmas. Já de há muito nos habituámos à mútua companhia. Exorto-vos, isso sim, a encarar com bonomia o fantasma de um novo confinamento, mais essa limitação que se adivinha, na certeza que graças a ela poderemos sobreviver.

Viva a vida!

 

 

 

 

 

sexta-feira, 3 de abril de 2020

QUEM SOU?


Nada sei, só de mim falo
Tela obscura, curto espaço
Antes de mim outros pensaram
O que penso
E com todos aprendi como me faço

Quem sou?
Amálgama de tanto eu que desconheço
Tentando unir o que sei disperso
Serei NADA, perante o Universo!



sábado, 21 de março de 2020

APETECE-ME UM POEMA


Apetece-me um poema
cheio de palavras lavadas,
carinhosas, perfumadas

Apetece-me um poema
de palavras luminosas
ao ouvido murmuradas

Apetece-me um poema
cheio de sol e madrugada
feito de mar e de flores
de que me traga os odores

Apetece-me um poema…

Poema feito de brisa
Em manhã ensolarada
Poema feito de música
Do chilreio da passarada

Poema de tudo e nada
de vida já tão vivida
ora alegre
ora sofrida

Apetece-me um poema…

Poema por engomar
do tempo que ainda resta
poema que saiba amar
feito de mimo e de festa

Apetece-me um poema...

domingo, 15 de março de 2020

FOI EM NOVEMBRO


Naquela manhã chovia. Chovia muito.

Ela tem uma relação estranha com a chuva. Independentemente do ânimo, a chuva purifica-a, lava-lha a alma, solta-lhe as amarras, liberta-lhe o peito. É o céu que se solta em bênçãos lavando agruras, purificando o verde, filtrando o ar e fertilizando a terra. Água benfazeja!

Ela gosta de água. Equilibra-se no vai-e-vem das ondas pequeninas da baixa-mar desfazendo-se em poesia na areia da praia e ao longo do curso do rio, correndo mansamente para a foz, onde se miram vaidosas as copas das árvores, com o vento a assobiar movimento entre as folhas que o sol ilumina. Os peixes aplaudem. Mesmo que não haja peixes, ela sonha-os. Os peixes vivenciando o infinito, na distância da nascente à foz. A vida vogando ao sabor da corrente, ou contrariando-a, como ela gostaria de ser capaz de fazer, na verdade, como ela às vezes faz às circunstâncias.

Desde cedo sonhou soltar amarras e sentir a liberdade de se enfiar mar adentro. Ela nunca tentou. Acha mesmo que nunca seria capaz. Na Vieira, era o apito do banheiro que a fazia voltar. “Deixe-a ir”, dizia o irmão. E o banheiro consentia que desse mais duas ou três braçadas antes do apito soar mais estridente ainda, do alto das pedras junto à foz do Lis. Dissipava-se a sensação de liberdade e, sem vontade, regressava à praia. Mesmo sabendo que nadava melhor que o banheiro, fora ensinada a obedecer.

Em S. Martinho ninguém a impedia de arriscar, de adentrar-se no mar, “sempre em frente até chegar à América” - pensava, mas, a América não lhe interessava e por mais que nadasse, sempre se sentia mergulhada num útero protetor. No útero protetor da Mãe-Natureza! Foi assim até que num longínquo quinze de agosto de triste memória, o Marito desapareceu nesse mar de encanto. Percebeu-se depois que um barco a motor lhe batera na cabeça, quando mergulhava à beira mar. Só muitos anos mais tarde, as bóias definiram um espaço de proteção  para os banhos dos veraneantes. Ela não estava na praia. Fora passear com outros amigos, já não lembra onde, nem tampouco o ano… lembra, contudo que vestia um vestido de seda estampado em tons de amarelo e branco (as insignificâncias que a memória retém!). E ainda se vê a questionar o mar, “como foi possível?”

Na Foz do Arelho, já de mão dada com as duas filhas, banhavam-se na rebentação usufruindo, naquele perigosíssimo mar, o momento de elevação da onda. “Pulem que esta é grande!” E elas sem pé, as três feitas uma, sentiam na pele o arrepio da dúvida gerindo por segundos a incerteza de conseguirem manter-se à tona da água, à espera da onda seguinte. Vezes houve em que o mar as cuspiu. “Que temeridade! – pensa hoje… Estes banhos loucos, tornaram as filhas tão destemidas que, um dia, a mais nova, sem autorização e fora do alcance do seu olhar, entrou na “aberta” e um anjo protetor devolveu-lha de perfeita saúde. Nunca mais voltaram à Foz. Agora, S. Martinho do Porto é a praia ideal para as “aventuras” em que a neta se lança.

Num impulso irreprimível, exclamou “vou andar a pé!” O bom senso segredava-lhe que era melhor ter juízo. Era uma ideia tola caminhar num dia assim. Desceu a escada e enfiou-se no carro com a firme determinação de chegar à margem do rio.

Ao virar para a rua de Nossa Sra. do Amparo, apercebeu-se que uma jovem mulher caminhava à chuva com notória dificuldade. A velocidade a que seguia, embora não exagerada, e o fluxo descendente do trânsito não lhe permitiram parar em segurança, mas voltou atrás pela rua paralela.

Parou, então. “Parece-me que a senhora caminha cor dificuldade. Aceita que a leve a algum lado?” “Eu vinha a rezar, pedindo a Deus ajuda para subir a ladeira.” –  respondeu a senhora à laia de “bom dia”.

Então ela percebeu. O apelo da chuva fora o pequeno milagre na vida de alguém. 

sexta-feira, 12 de julho de 2019

QUISERA




Quisera que no meu peito fosse sempre verão
Que os goivos-da-praia perfumassem
cada dia
Que a noite me falasse de poesia…

E tu vinhas
envolto numa eloquência de estrelas
Pisando de devagar as pedras do caminho

Empurravas a porta entreaberta
Entravas de mansinho
E mimavas-me a alma com carinho

Imaginar-te sem saber-te
É um desatino

Sonhar-te sem ter-te
É o meu destino

A FITA MÉTRICA DO CHINÊS



Neste verão, que mal começou, tive a ideia de fazer uma nova toalha de praia. Arquitetei o plano e, ontem, para adquirir o material necessário resolvi deslocar-me ao chinês das Olhavas, por ser o que vende mais chinesices.

Escolhi o turco pretendido, a fita mais adequada para rematar o trabalho e dirigi-me à caixa para pagar. Quando chegou a minha vez, expliquei ao jovem que por trás do balcão ia faturando, que só levava o turco se tivesse mesmo um metro de largo e um metro e meio de comprido, como se assegurava na prateleira de onde o havia tirado. Ele abriu o turco, medindo-o por estimativa “tem, tem”. Em função desta afirmação categórica, informei-o de que também queria fita, sendo necessário que alguém fosse cortar dois metros da dita, já por mim escolhida... Vem uma menina, de olhinhos em bico, muito simpática mediu e zás! E eu voltei ao balcão com a fita na mão para pagar a conta que ficara suspensa.

Em casa, meio duvidosa da medição feita pelo chinês e desejosa de dar seguimento ao plano de execução da toalha, não fossem as férias apanhar-me desprevenida, verifiquei o tamanho do turco… 93cmx1,42m! Pasme-se!... faltava um bocadinho...

Almocei na paz do Senhor e, à tarde, voltei ao chinês das Olhalvas, armada de fita métrica. “Queres trocar?” perguntou-me sem que tenhamos andado na tropa juntos, nem nos conhecermos de qualquer outro lado… mas, mais importante que as subtilezas da linguagem, foi o facto de ter voltado a casa com um turco maior e mais caro também.

Hoje, quando finalmente ia ter uma toalha de praia nova e pretendia utilizar a fita de remate, para alindar o trabalho, verifico que a dita não chegava... em vez de 2m media 1,90m. Voltei ao chinês das Olhalvas que disse umas chinesices à chinesinha e mandou que se cortasse nova porção de fita.

Que conclusão poderei tirar depois destas andanças? A fita métrica do chinês é mesmo pequenina…

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

SONHEI CONTIGO, ESTA NOITE




Caminhámos de mão dada
rindo de tudo
e de nada.

Fugia p’ra me alcançares
desculpa p’ra me abraçares

Era o beijo que roubavas
Tu sorrias, eu corava
Numa primícia de amantes
que não fomos

eu sonhava

Não sei qual era o cenário
Na vastidão que eu corria
Só a alma possuía
Tal espaço p’ra te amar

Foi difícil acordar

Abracei-me ao teu sorriso
Que lembrava o paraíso

que brilhava, que brilhava


Essa luz me enfeitiçou
e nesta manhã nublada
foi o sol que me guiou

Sonhei contigo, acordada

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

TALVEZ UM DIA


Às vezes bate uma dor na alma… Não dói como se tivéssemos caído e esfolado o joelho, também não tem nada a ver com uma perna partida, nem tampouco com a picada de espinho da rosa que colhemos. É uma dor que nos desfaz por dentro, devagarinho, que nos mastiga o peito, rouba o ar dos pulmões e afoga os olhos. E nós sentimo-nos tão sós, tão profundamente abandonadas que apetece parar o mundo, sair e adquirir por uns tempos a existência etérea daquilo em que acreditamos e não entendemos ou mesmo ser ar que se respira, ser brisa que sopra, ser a maresia que o vento arrasta, ser cheiro a mar e som de onda miudinha que o tempo traz e desfaz na areia da praia, nas horas da baixa-mar.
 “Amanhã tenho natação.”
“Estarei louca?” “Como me fui lembrar da natação?”
É o apelo à vida a rir-se daquilo que não perdi, porque nunca tive, mas que almejei e não consegui alcançar.
“Quem sabe?! Talvez um dia… “– diria a minha mãe se me ouvisse hoje. Di-lo-ia, não para me consolar, mas por saber, que há na vida dias que valem muitos anos.

“Quem sabe?! Talvez um dia…”

domingo, 10 de dezembro de 2017

VICISSITUDES DE ME CHAMAR ISABEL SOARES


Para que serve o nome? Consagrado como um Direito Fundamental do individuo, o nome civil, assim se chama, identifica-nos desde o nascimento até para além da morte. É eterno. Citam-no enquanto nos lembrarem, depois fica esquecido, mas não deixa de ser nosso, mesmo depois de sermos pó e nada.

Já muitas vezes contei que herdei o meu de minha avó materna, tendo os meus pais, como única originalidade, intercalado Maria, o que fez de mim mais uma entre tantas e, no fim, acrescentado Soares para que constasse que eu era filha daquele homem e não de qualquer outro e pertencia a determinada família. Pena foi não ter herdado também todas as qualidades da avó, senhora doce, calma e sofrida sem queixume, até na morte. Se alguma coisa herdei dela foi a paciência que misturada com o otimismo e a raiva pelo incontrolável herdados de meu pai, fizeram de mim mais teimosa que o burro que o meu pai nunca teve. Dizia ele…

Que não se pense que o meu pai era uma pessoa violenta. Nada disso! A maior violência de que me lembro foi a de, num momento aziago, ter acertado com um tabefe, que me era destinado, na bochecha do meu amigo C-----tinho. Eu, ainda hoje estou profundamente agradecida ao C-----tinho por me ter feito esse favor, que a mão de meu pai era pesada… e embora eu classificasse o momento de aziago, na verdade, ao C-----tinho não fez mal nenhum levar a dita bofetada. Ele continua de perfeita saúde e, convenhamos, foi uma experiência nova, dado que em casa, só a mãe lhe acariciava o traseiro com o chinelo, enquanto o pai se entretinha a gerir o negócio. O pior foi mesmo a senhora sua mãe. A ela é que doeu… as mães têm destas aflições pelas bochechas dos filhos e não só… e eu estava a ver que por causa do tabefe mal entregue ainda se zangava toda a gente. Estava, com tal receio de não poder continuar a patinar por mais tempo no corredor encerado da casa do C-----tinho, com os chinelos de trapo que a mãe nos obrigava a calçar quando deixávamos os sapatos à porta, que até quis que ele me devolvesse o controverso tabefe. Tudo se resolveu em bem. As desculpas foram aceites e eu e o C-----tinho continuámos por muitos anos, mesmo até quando a idade dizia que já não o deveríamos fazer, a patinar no corredor, no espaço entre a passadeira e a parede, eu de um lado e ele do outro, levando à frente o bengaleiro e poupando o esforço à empregada doméstica de puxar o lustro ao chão.

Permito-me acrescentar que a mãe do C-----tinho me adorava, vendo em mim a filha que não tivera e eu retribuía essa estima. Recordo-a muitas vezes, tal como a todas as amigas de minha mãe, que nunca me regatearam afeto (há gostos para tudo...) e confesso que chego a gargalhar com a memória das coisas desses tempos em que fui tão feliz e nem sabia.

Voltando ao meu nome…

Eu já sabia, mas a Net confirmou que havia mais mulheres com  o nome de Isabel Soares. Descobri-o quando um dia recebo um email da Z---- queixando-se que estava com graves problemas com o patrão. E eu não percebia nada daquele desabafo apelando à lei, em que Z---- se dizia com problemas. Mas qual patrão? Eu conhecia muito bem a Z----. Ela era funcionária pública… depois abri os anexos e percebi. A Z----era outra e a Isabel Soares também. Apressei-me a devolver o email, pedindo desculpa por ter aberto os anexos e explicando que eu era outra e não aquela que se pretendia, sugerindo à tal Z---- que verificasse o endereço eletrónico com cuidado. De então para cá, nem queiram saber a correspondência que fui recebendo destinada a essa Isabel Soares, advogada lá por terras do norte do país.

Mais tarde apareceram uns mails diferentes, eram destinados a uma professora, também do Norte (para aquelas bandas deve haver muita mulher chamada Isabel Soares). Descobri isso ao abrir o anexo do primeiro email desta nova série. Deparei-me com uma planificação e… não resisti. Explicando que era especializada em Supervisão Educativa, pedi desculpa e confessando esperar ser útil, emendei o documento. Depois, tomei a mesma atitude, devolvê-lo e aos seguintes, à pessoa que os remetia explicando sempre que havia mais Marias na terra.

Pois hoje voltou a acontecer. Um senhor, AA de seu nome, enviou-me um mail, com duas fotos que diz serem suas e uma melodia “para me deliciar”, “não com as fotos” acrescentou, mas com a melodia, referindo a nossa amizade recente. Como não conheço ninguém chamado AA, embora o nome até seja bonito e o senhor apessoado, lá me vi na obrigação de explicar ao sr. AA que eu não seria a tal a quem pretendia deliciar, embora me tivesse abusivamente deleitado com a melodia à outra destinada.

“Isabel Soares?” – até aquele senhor se admirou (mais tarde seria Presidente da República). “Sim, contudo, o meu pai não se chama Mário, mas Luís”. “Pois não! Quando chegar a Lisboa vou contar a minha filha que encontrei, em Leiria, uma Isabel Soares como ela.”

Chamar-me Pancrácia ou qualquer outra coisa fora do comum não me obrigaria a devolver mail atrás de mail, mas ter-me-ia privado da oportunidade de conhecer o sr. Januário eletricista que tem um cão, grande, e é casado com uma linda jovem (mandou-me a foto de família não fosse eu pensar que estaria a ser vítima de uma abordagem duvidosa), nem tinha a melodia do sr. AA para me deleitar enquanto estou aqui, fechadinha em casa, à espera que a Sra. D. “Ana” Tempestade (suaviza o efeito darem nomes às tormentas) vá pregar para outra freguesia.  



terça-feira, 10 de outubro de 2017

TEMPERO


Hoje, almocei na Tasca da Gracinda. Fui despedir-me das sardinhas assadas, que a época em que sabem bem está quase ida. Sábado passado fora o dia escolhido pelos amigos para o efeito, só que nesse dia eu não pude comparecer. Tive outro almoço em que se celebrava a amizade de dois anos de curso, vividos entre estudo e falta dele, aflições e brincadeiras, na Escola do Magistério Primário de Leiria, já lá vão quarenta e sete anos… Não tive coragem de pedir aos amigos que adiassem as sardinhas para outro sábado. Sim, só há sardinhas ao sábado ou à terça, nos dias de mercado.
Cheguei cedo. Antes telefonara a confirmar o menu do almoço. Sentei-me sossegada num dos cantos e esperei pacientemente pelas sardinhas a que uma sopa de feijão com nabiças roubaria metade da vontade de saborear.

Ele chegou e cumprimentou os amigos, que lhe ofereceram lugar na mesa que ocupavam do outro lado da sala. Embora o espaço seja exíguo, só reparei porque aquele homem, muitos anos de leis e barra de tribunal (imaginei eu) chegara num gesto tão largo e tão sonoro que seria impossível passar despercebido. Não aceitou partilhar aquela mesa “não vale a pena ficarmos todos mal sentados” – ouvi, já desligada da cena que não chegara a interessar-me, mergulhada de novo nas sardinhas…

“Posso ocupar este lugar na sua mesa?” O cavalheiro acabara de me cair no prato… “Com certeza! Queira sentar-se” – retorqui. “As sardinhas estão boas?” “Ofereço-lhe a que está na travessa, para que possa avaliar” - que não, que viriam outras para si… “Como explicar a este homem que estou a brincar aos caranguejos?” – perguntei aos imaginados botões da camisa que não vestia. Em pequena escondia-me no quarto escuro, com a cabeça de fora, sonhando as formas das coisas que lá se arrumavam, depois habituei-me a mergulhar em mim, olhando a vida e ouvindo-a, não como ela é, mas como gostaria que fosse. (Agora que estou cronicando, reparo que fui uma criança estranha de que resultou uma adulta meio esquisita…)

Não sei como, ouvi-nos a falar do bacalhau de que a sua amiga finlandesa não gostava “e eu com isso?” (“frase idiomática” com que no vocabulário familiar dizemos que o assunto não interessa) - pensei, não disse… e lá fui respondendo e sorrindo à conversa de ocasião. A minha mãe, se visse, orgulhar-se-ia… Tão educadinha e simpática, que a sua filha estava a ser…
Afinal não havia mais sardinhas. “Fez mal por não ter saboreado a que lhe ofereci! A sardinha havia voltado para trás na travessa.
O senhor escolheu outro prato e eu, que acabara de almoçar, saí depois de lhe desejar uma excelente tarde.

A caminho do carro arrumado morro de São Gabriel acima, confirmei-me mergulhada noutra etapa da existência. Passara tantos anos entre angústias e medos de errar, vencendo desafios constantes muitas vezes a fazer o que não sabia naquela filosofia do que “se não sei aprendo”, que agora só o que me traz paz me dá felicidade. Homens como aquele nunca seriam bom tempero para as minhas sardinhas.


sábado, 26 de agosto de 2017

ALLEZ VITE





Agosto é um mês de sonoridades. As pessoas riem facilmente e falam alto, mais alto do que costumam, sem pensarem que pode haver quem não esteja interessado em ouvir. A alegria e o encantamento aliados ao desejo de que as férias não acabem geram a confusão.

É também o mês em que as conversas se vestem de linguagens-outras com forte predominância do francês. Os nossos emigrantes, depois de um ano mal dormido entre as labutas várias e hercúleas do quotidiano, saboreiam sofregamente o sol e o mar e falam “estrangeiro”. À exceção dos próprios, todos acharão um ridículo exibicionismo, mas não deixa de ser um fenómeno interessante. Que indicadores não nos daria um questionário bem elaborado acerca do conforto, da maneira de estar, do que é ser português no mundo, ou da nossa cultura?!

Certo sábado ou domingo de um qualquer verão, enfiei-me no carro e fui tomar café à praia da Vieira. A sorte brindou-me rapidamente com um lugar para estacionar. Saí do carro e deparei-me com um grupo de pessoas que, no passeio em frente, admiravam os esforços de uma criança, quatro anos talvez, às voltas com uma bicicleta. Alguém, possivelmente a mãe, incentivava:

- Allez! Vite, vite… Allez!

E o rapazinho, pois de um rapazinho se tratava, sem conseguir equilibrar-se não cumpria a ordem. Não havendo “allez” não se vislumbrava o “vite”.

A criatura insistia:
- Allez! Allez! Vite… vite…
E o rapaz, nada…

Então, em desespero de causa, a hipotética mãe, esticando o braço em frente, numa ordem irrefutável, exclama:

- Ó vacão, põe os pés nos pedais!

Ah! De então para cá, os meus meses de agosto nunca mais foram os mesmos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

ZA BELARTE: ROSAS DE CAIXAS DE OVOS

Tal como prometi, hoje vou ensinar-vos a fazer rosas com caixas de ovos, tal como a minha amiga Rosário Selada me ensinou.

1. Material necessário:

Caixa de ovos - dá para duas rosas;
Pistola de cola quente;
Lápis;
Pau de espetadas;
Tintas acrílicas ou guaches a gosto;
Pincel.



2. Separam-se as duas partes da caixa de ovos.
Arrancam-se os bicos centrais e reservam-se.



3. Separam-se os seis recipientes dos ovos.



4. Limpam-se das partes de cartão mais duras.



5. Rasgam-se como se vê na foto, para fazer as pétalas.



6. Enrolam-se as pétalas, uma a uma num lápis para dar forma.




7. Pega-se na pistola que se tinha ligado previamente e põe-se cola no meio. Cuidado para não se queimarem. Atenção que a pistola "baba-se". Não sei se acontece com todas, mas com a minha que é de fraca qualidade é um facto a ter em conta. Por isso na foto n.º 1 pode ver-se um pedaço de cartão por baixo, protegendo a pedra da bancada.



8. Depois da cola, coloca se outra parte por cima, com as folhas desencontradas e aperta-se bem, para colar. Repete-se a operação, Pois cada rosa leva três peças.



9. Aqui temos as rosas quase feitas. Cada uma já tem coladas 3 dos recipientes que formam a caixa de ovos, como referi antes.



10. Lembram-se dos bicos que se reservaram no início? Pois eles aqui estão e servem para terminar as rosas.



11. Rasga-se um pouco os quatro lados, como se vê na foto. Um já está encaracolado com o lápis, o outro, na minha mão está simplesmente rasgado.



12.  Eis como se podem colar: ou fazendo uma rosa ainda com botão.


13. Ou fazendo uma rosa já com todas as pétalas abertas.



14. Mas ainda há outra maneira de concluir as rosas.
Pega-se na tampa da caixa, que também se havia reservado.



15. Rasga-se ao longa da tampa uma tira da frente.



16. Limpa-se das partes mais duras.



17. Ficará mais ou menos assim.



18. Enrola-se no pau das espetadas para lhe dar forma.



19. E cola-se no centro da rosa.



20. Para finalizar pintam-se as rosa ao nosso gosto e por fim dão-se uma pinceladas de dourado.
Aqui temos uma rosa amarela, que envelheci com umas pinceladas de castanho e a que não deixei de dar uns toques de dourado. É uma rosa aberta que enfeitei com uns estames também dourados.



Esta é vermelha e terminei-a com a tira da tampa enrolada. Levou também uns toques de dourado.


Esta rosa termina em botão 





COMO FAZER AS FOLHAS DAS ROSAS


A minha amiga ensinou-me a fazer as rosas e eu arranjei forma de fazer as folhas...

1. Material necessário:

Palete de ovos (o que se vê na foto é o que resta de uma que me ofereceram);
Arame;
Alicate de cortar arame;
Pistola de cola a quente;
Tinta acrílica ou guache para pintar;
Pincel;
Papel próprio para cobrir as hastes das flores.



1. Separam-se os recipientes que formam a palete dos ovos e recortam-se, à mão  seis folhas (tal como se fez com as rosas). 


2. Cortam-se três pedaços de arame e colam-se como se vê na foto.

   


3. Enrolam-se os arames para formar a folha da rosa.



4. Depois pinta-se e dá-se um toque de dourado. Feito isso, que não é o caso do exemplo, enrola-se o tal papel próprio para cobrir as hastes das flores. É um papel que não necessita de qualquer cola e se enrola ao viés.



5. Aqui pode ver-se como fica o arame coberto.



6. Se se pretender fazer o pé da rosa pode usar-se um arame um pouco mais grosso, colocando-o primeiro na rosa e enrolando depois o papel próprio para cobrir, juntando a folha. Não é preciso cola nem qualquer produto. O dito papel segura a folha perfeitamente.
Na foto que se segue exemplifico com um pau de espetada, porque não tinha arame mais grosso do que o que usei nas folhas e também porque foi o material que utilizei num arranjo de flores que fiz há uns dias.



7. Na foto seguinte pode ver-se em pormenor a folha de uma das rosas do arranjo.



8. E aqui está o produto final, a que acrescentei uma flores de arame.
Metam mãos à obra e divirtam-se.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

UM DIA

É o mar
Este mar
mar de vagas
pequeninas
sussurrantes
Um mar-berço
de ternura
de afagos
O mar
que espelha o brilho
emprestado de teus olhos
Mar-redondo
onde me adentro
e te sonho
no embalo do abraço


Verde-Infanta
deito os olhos ao mar
a este mesmo-outro

Mar-tenebroso
vagas alterosas
perigo e abismo
Dúvida e desconhecido
em salpicos de espuma

Mar e céu
azuis
que a lonjura dilui

E eu
insignificante
pincelada de verde, sonho

Um dia
Um dia
serei azul

S. Martinho do Porto, 1 de Janeiro de
2015

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

SEMPRAUDAZ - ASSOCIAÇÃO CULTURAL


Sonhei com lúcidos delírios
À luz de um puro amanhecer
Numa planície onde crescem lírios
E há regatos cantantes a correr.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Uma mulher comprometida com o conhecimento sonhou. Sonhou transmitir o saber para além dos anos para os quais a sua profissão de professora de Filosofia lhe permitira fazê-lo, no ensino público. Incapaz de permitir que a vida se esvaísse no corredor da esperança, Helena Moreira Duarte Carvalhão, figura incontornável da história de Leiria, na segunda metade do século XX, soube imprimir movimento ao sonho e, após a aposentação, fundou no início de 1999 a primeira Academia Sénior da cidade de Leiria. Nascendo assim, da sua vontade férrea e do voluntariado de várias professoras e professores amigos a Academia de Cultura e Cooperação, com o apoio da Câmara de Leiria e da Misericórdia de Leiria, entidade que cedeu as instalações onde, durante treze anos, funcionaram as diferentes atividades que, entre vários objetivos, tinham o fim de arrebatar ao isolamento, mantendo ativas e fazendo sentir-se úteis pessoas com idade superior a cinquenta anos. 

Com a promessa de uma sede própria formou-se posteriormente uma nova associação. Em 13 de Outubro de 2012, a Câmara Municipal de Leiria, através do Presidente Dr. Raul Castro, assinou com a Dra. Helena o protocolo de cooperação e atribuiu como sede própria o Edifício - Praça Eça de Queiroz à instituição recém-criada: Sempraudaz - Associação Cultural, da qual a Dra. Helena Carvalhão é a Presidente.


Dois anos são passados. A festa aconteceu segunda-feira. Do programa constou a conferência sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, proferida pela Professora Teresa Vieira, a declamação de poemas pelo grupo de teatro e a partilha do bolo de aniversário, entre os convidados e associados.

Para a Sra. D. Helena, a quem admiro o extraordinário dom de antecipar o futuro e que por motivos de saúde não pode estar presente, deixo, com os sinceros votos de rápidas melhoras, as palavras de Sophia:

Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida.
Isabel Soares
Jornal de Leiria, 16 de Outubro de 2014, modestamente na página 18.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

DÚVIDAS

Numa qualquer sexta-feira, fui ao médico.

“Não estou doente.” – disse ao clínico, um jovem pela idade da minha filha mais velha ou talvez nem tanto.  Ele levantou os olhos do PC. Agora os médicos interagem mais com os computadores do que com os doentes. E eu, para que não me tomasse por arrogante, ou presumida, ou como me quisesse chamar, emendei: “Bom! Penso que não estou doente. Isso terá de ser o doutor a avaliar, pois recai no âmbito das suas competências. O médico voltou a interessar-se pelo PC.

“Venho por uma questão que se prende com a qualidade de vida” – continuei – “nem tão pouco sei se poderei encontrar o que pretendo numa caixa de comprimidos.” O médico escrevia e eu desfiava o rosário das minhas ideias, pretensões, dúvidas, ou lá o que se queira chamar ao discurso que ininterruptamente proferia.

Quando me calei, o doutor desviou o nariz do PC, olhou-me, e num tom surpreendido sentenciou: “É uma senhora castiça, característica a que sabe muito bem aliar a inteligência.”

Eu sorri à leitura subjetiva que fiz do que acabava de ouvir, que não vem ao caso e lá vim com uma receita de pílulas que continuo na dúvida se devo ou não adquirir. No fim paguei setenta e cinco euros de consulta.

Conclusão: Castiça poderei ser, quanto à inteligência… tenho sérias duvidas. Pregar aos peixes ter-me-ia saído muito mais barato.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

A CARTA DE CONDUÇÃO


“Por que não tiras a carta de condução?” Não havia quem não perguntasse. E alguns até acrescentavam: “Uma rapariga tão despachada como tu…” Ela ria-se. “Ora, gosto mais de acelerar nos sofás da sala.” - e dava a conversa por terminada. Só que a questão voltava a ser-lhe posta. Ninguém entendia as suas razões que, verdade seja dita, ela também não revelava. Era um “porque não” implícito, que ninguém aceitava: “Hoje a carta é uma necessidade e não um luxo” – havia quem sentenciasse. E ela sorria. O sorriso substituía o esclarecimento que negava.

Ela tinha um segredo. Ora todos sabemos o que é um segredo. Só não sabemos, como ninguém sabia, qual era o seu segredo. Nem sequer havia quem suspeitasse que existia um segredo. Tão alegre, tão faladora, tão espontânea! Segredos?! Nem pensar. Pois havia mesmo um segredo! E se era segredo, como o poderia revelar? Era por não poder responder que sorria. Sorria e calava a razão pela qual nunca pensara aprender a conduzir um automóvel. Aquele motivo, segredo inconfessado até à mãe, era uma limitação que ela aceitou, como aceita tudo o que a vida lhe proporciona e não sabe ou não pode alterar. Era a sua circunstância e tratou de ser feliz com ela.

Como o tempo não para, a vida foi acontecendo.

Desde pequena que usava óculos, melhor dizendo, deveria usar. Se os cuidados da mãe se aligeirassem, esquecia-se de os colocar. Já em adulta, brincava: “Sem óculos vejo o ordenado inteiro, se os coloco fico com metade”. Ela sofria de hipermetropia e achava que via muito melhor sem óculos do que com eles, o que até era verdade. Possuía uma extraordinária visão de longe e de perto, só após muito esforço é que os olhos lacrimejavam. Para quê os óculos?!

O oftalmologista insistia: “Use os óculos. Ao longe, com eles colocados, vê tanto como uma pessoa com visão normal” “mas vejo menos” - respondeu naquele dia. O oftalmologista, com ar fechado, encarou-a e sentenciou “mas tem problemas por não usar os óculos.” Ela olhava-o desafiadora e o médico continuou “nunca lhe aconteceu, à noite, quando viaja de carro, não saber para que lado é a curva da estrada?” Ela quase pulou da cadeira “o seu segredo!” Num misto de espanto e alívio, confessou ao oftalmologista que sentia essa limitação. “Por isso nunca pensei aprender a conduzir um automóvel.” “Pois então use os óculos, vai notar a diferença.”

Passaram muitos anos após esta consulta de “adivinho”. Garante quem sabe que ela tirou a carta de condução com o número mínimo de lições de código e de condução exigido por lei, que, até hoje, não sofreu qualquer acidente rodoviário e aprendeu que, na vida, até o irremediável deve ser questionado.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

INQUIETAÇÃO


O cenário era o da mata dos Marrazes da sua infância. Aquele dos tempos dos piqueniques organizados pelo Atlético Clube da Sismaria, pelo dez de Junho. Não sabe a que propósito acontecia a festa, mas todos estavam animados. Vestia a sua idade atual e estava contente, como todos os que a rodeavam e eram muitos. Não sabe quem estaria responsável pelo bar: se o Sr. Chico, se o Silva Gante, se outro membro da direção do ACS daquela época.

Quis pagar, nem sabe que despesa. Meteu a mão na carteira, sem olhar. Como ao tato faltou o porta-moedas, prestou atenção: “Fui roubada.” - concluiu num misto de indignação e insegurança. “Pagar a conta! Como? – Preciso de dinheiro.” Não podia ir ao Multibanco – os cartões de débito haviam desaparecido com o porta-moedas. “A casa! Tenho de ir a casa!” Apressadamente procurou as chaves, mas nem a do carro, nem a da porta. Também a bolsa onde as guardava tinha sumido… Restava a Carma, a empregada que tem uma chave para entrar quando não está para lhe abrir a porta. Mas ela não sabia onde morava a Carma. Na paisagem onde tudo acontecia, o bairro onde reside a empregada, cem metros de ladeira a descer para o Sampão, não existia. 

“Como é que faço? Como é que faço?” Até os documentos de identificação haviam desaparecido...

"Ninguém me conhece. Como é que faço? Como é que faço?


“Não fazes de maneira nenhuma. Não precisas de fazer!”- ouviu-se a exclamar. Ido o pesadelo, com o sono por dormir, acabara de acordar.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

AMIGAS

A tia entrou e alongou-se pela sala, ocupando um lugar do lado direito. Ela encontrava-se já do lado esquerdo. Não se conheciam pessoalmente, mas sabiam da existência uma da outra.
Terminadas as exéquias, ela atravessou a sala. A tia era a única pessoa da família a quem ainda não apresentara condolências.

- Perdão.  – disse a senhora – Não estou a reconhecê-la.
- Chamo-me…
- Ah! Sei bem quem é… - (E os olhares acariciaram-se mutuamente.)
- Queria dizer-lhe…
- Sei que é uma pessoa alegre. Muito obrigada pelos momentos de alegria que proporcionou ao meu sobrinho.

Ela ficou sem jeito. Sorriu. Sorriu balbuciando:
- Gostei de a conhecer. Que pena ter sido nestas circunstâncias!
Depois, encaminhou-se para a porta e saiu atrás dos outros.

Ao sentimento de perda pela morte do amigo, aliava a falta daquela amizade que só não fora porque ela se esquivara a conhecer a família.
- Temos muito tempo. – dissera tanta vez.
Afinal o tempo fora escasso. Mas uma dor bastava, estrangulou aquele acréscimo de tristeza: “sabes lá se seriam amigas…”

Quanto tempo passou? Que importa?!

Há dias, aproveitando uma tarde amena, ela sentara-se na esplanada do café habitual e vagava pelas páginas de um livro. Alguém vindo por detrás enfiou-lhe os dedos nos cabelos acariciando-lhe o alto da cabeça. Nem se mexeu. Saboreou a carícia…

- Olá! – e a tia sorria – Há quanto tempo não nos vemos?!
Levantou-se e cumprimentou a senhora.

Seriam amigas, sim!