domingo, 31 de outubro de 2010

E VÃO DOIS ANOS...

Não sei em que curva do caminho, aboli do meu vocabulário a palavra saudade. Não é por isso que gosto menos das pessoas que passaram na minha vida ou dos lugares que serviram de cenário à forma como me fui tecendo, mas o sentimento de saudade é um contra-senso que a minha paixão pelo existencialismo não consegue aceitar. A vida, quanto a mim, toca-se para a frente, de acordo as circunstâncias sociais, políticas, económicas e culturais de cada um e ninguém pode ter a veleidade de trazer ao momento presente o que aconteceu no passado, porque as circunstâncias por muito próximas que sejam, na verdade, nunca se repetem.

Quando dos anos que o meu bilhete de identidade diz que tenho e que eu não há meio de acreditar possuir, olho para trás não me sinto mal porque acredito que em cada momento eu decidi o melhor que sabia, o melhor que podia, da melhor maneira que poderia decidir, que aquela era, nas minhas circunstâncias a melhor escolha e que agi sempre em liberdade, com responsabilidade, com amor, com dedicação e com empenhamento.

Ah! Mas aquilo que não depende de mim, aquilo que não posso ser eu a decidir, aquilo em que não posso interferir…. Que dor! Que raiva! Que frustração!

Há dois anos, mesmo no fim de Agosto, a Piedade suicidou-se. Como não poderia deixar de ser, eu estava em S. Martinho do Porto, onde era hábito juntarmo-nos, com mais algumas colegas para saborearmos uns gelados “este ano, sou eu que pago os gelados” dissera-me ela num encontro rápido no estacionamento do Continente num dia em que vim a Leiria visitar a minha mãe. Não a voltei a ver. Eu não gostava dos gelados, mas gostava de conviver e gostava sobretudo do sorriso afável da Piedade.

E no dia do seu funeral, a que me recusei assistir, instalou-se na minha alma um sentimento de solidão de uma grandeza tal que ainda não me consegui libertar dele.

Que dor! Que raiva! Que frustração!

A Piedade nasceu livre. A Piedade era livre. A Piedade tinha o direito de fazer da vida o que quisesse, mas eu também tinha o direito de continuar a usufruir da sua amizade.

Dois meses depois, no dia dois de Novembro, suicidou-se a Esmeraldina.

A Esmeraldina era uma mulher com quem se poderia falar sem “rede”. Com ela podíamos falar de tudo sem receio de que nos repetisse ou criticasse. Era uma sonhadora. Muitas vezes lhe disse que se pintasse o seu retrato lhe enfiaria cabeça numa nuvem e lhe deixaria os pés acima do chão. Acho que adivinhava o seu anseio pelo voo, sem contudo saber exprimir a tristeza que sinto por sabê-la par’Além naquele salto temerário do sétimo andar. Até nisto tinha de ser diferente.

Também ela era livre de fazer da vida o que quisesse, mas também eu era livre de continuar a usufruir da sua amizade.

E vão dois anos de dor, de raiva, de frustração, de não ter podido evitar o inevitável, de não poder continuar a usufruir o sorriso de uma, a amizade de ambas e de não possuir a certeza de lhes ter transmitido o carinho que ambas me mereceram.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

S. MARTINHO DO PORTO

Aconteceu-me S. Martinho num longínquo Setembro, tinha então seis meses de idade e vai-me acontecendo em cada Verão, por períodos mais ou menos longos de acordo com as circunstâncias da vida.

S. Martinho do Porto é um sítio onde o mar me cabe todo no olhar com a promessa de que o Mundo fica do outro lado das dunas.

A areia fina, dura quando molhada, permite-me óptimos passeios pela praia, na baixa-mar, que gosto de fazer de manhã bem cedo, quer debaixo de um sol a adivinhar-se quente, quer na luz difusa das manhãs encobertas.

Caminho até Salir, pela areia ou pelo passadiço das dunas. Quando há sol, a sombra apressada caminha à minha frente. Talvez por em Salir estar sempre mais quente, tem pressa de chegar e, quando retomo o caminho de regresso, teima em ficar para trás para, só passado o farol, já percorrido grande parte do percurso, caminhar ao meu lado até ao cais.

Tantos são já os passos caminhados de um mesmo percurso que as palavras são escassas para as nuances dos estados de alma com que aconteceram.

Naquele dia de Junho, a tarde adivinhava-se chuvosa e foi prevenida com os habituais apetrechos para a chuva que cheguei a S. Martinho. Surpresa! A tarde estava linda!

Ultimado o assunto que ali me levara retomei ao carro disposta a regressar. A vontade era pouca! Porque não usufruir do espaço se era dona do tempo?

Em vez de virar à esquerda continuei em frente, na direcção de Salir. E, inopinadamente, ele, as tias, o tio, o primo e eu… quarenta e cinco anos atrás, num pequeno pinhal que a humanização da paisagem tornou ainda menor. Lembrar-se-á desse piquenique? O que mais vivamente tenho gravado na memória é a simpatia de uma das tias, o discurso da outra, a magreza do tio e a minha atrofiante timidez... o meu sentimento de menoridade perante a facilidade com que ele expunha, decidia, agia. Recordo ainda o banho que os três tomámos no rio, naquela manhã de maré cheia. E foi com o sorriso de beatitude, que a lembrança me colocou nos lábios que continuei o passeio até perto da água. Não estávamos lá, a maré estava a descer...

No regresso, não resisti à tentação de parar o carro na rotunda à saída de Salir, e passear a pé pelo passadiço que serpenteia sobre as pequenas dunas. A paisagem fervilhava de vida, graças à chuva da manhã. Das dunas, numa mistura de verdes com flores amarelas e cor-de-rosa, emanava um cheiro a quente fecundo. Ouvia-se o canto de um ou outro pássaro e um cão ladrou lá para o lado de Salir. As ondas pequeninas, pequeninas, desfaziam-se na areia bem devagarinho, quase em silêncio, não fossem quebrar o encanto e a baía era um imenso espelho emoldurado pelos cambiantes de castanho e verde a que algumas nuvens, aqui e ali, davam um tom mais escuro. O casario branco, que a distância apequenava, resultava ainda mais branco naquela luz de meia tarde.

A fina brisa que acariciava os meus braços nus trouxe-me à memória um poema que escrevera na adolescência: "Quero amar! / Quero possuir! / Quero dar! / Quero perscrutar ao pôr-do-sol o teu olhar/ e ver-me nele como o reflexo do sol sobre o mar/..."

Na beatitude da paisagem, com o pensamento mergulhado no tempo, o sol presenteou-me com o reflexo e estivemos lá. Mesmo sabendo que nunca houve aquele olhar vim para casa com a alma lavada.

Como duas horas de lembranças me deixaram feliz!