sábado, 21 de março de 2020

APETECE-ME UM POEMA


Apetece-me um poema
cheio de palavras lavadas,
carinhosas, perfumadas

Apetece-me um poema
de palavras luminosas
ao ouvido murmuradas

Apetece-me um poema
cheio de sol e madrugada
feito de mar e de flores
de que me traga os odores

Apetece-me um poema…

Poema feito de brisa
Em manhã ensolarada
Poema feito de música
Do chilreio da passarada

Poema de tudo e nada
de vida já tão vivida
ora alegre
ora sofrida

Apetece-me um poema…

Poema por engomar
do tempo que ainda resta
poema que saiba amar
feito de mimo e de festa

Apetece-me um poema...

domingo, 15 de março de 2020

FOI EM NOVEMBRO


Naquela manhã chovia. Chovia muito.

Ela tem uma relação estranha com a chuva. Independentemente do ânimo, a chuva purifica-a, lava-lha a alma, solta-lhe as amarras, liberta-lhe o peito. É o céu que se solta em bênçãos lavando agruras, purificando o verde, filtrando o ar e fertilizando a terra. Água benfazeja!

Ela gosta de água. Equilibra-se no vai-e-vem das ondas pequeninas da baixa-mar desfazendo-se em poesia na areia da praia e ao longo do curso do rio, correndo mansamente para a foz, onde se miram vaidosas as copas das árvores, com o vento a assobiar movimento entre as folhas que o sol ilumina. Os peixes aplaudem. Mesmo que não haja peixes, ela sonha-os. Os peixes vivenciando o infinito, na distância da nascente à foz. A vida vogando ao sabor da corrente, ou contrariando-a, como ela gostaria de ser capaz de fazer, na verdade, como ela às vezes faz às circunstâncias.

Desde cedo sonhou soltar amarras e sentir a liberdade de se enfiar mar adentro. Ela nunca tentou. Acha mesmo que nunca seria capaz. Na Vieira, era o apito do banheiro que a fazia voltar. “Deixe-a ir”, dizia o irmão. E o banheiro consentia que desse mais duas ou três braçadas antes do apito soar mais estridente ainda, do alto das pedras junto à foz do Lis. Dissipava-se a sensação de liberdade e, sem vontade, regressava à praia. Mesmo sabendo que nadava melhor que o banheiro, fora ensinada a obedecer.

Em S. Martinho ninguém a impedia de arriscar, de adentrar-se no mar, “sempre em frente até chegar à América” - pensava, mas, a América não lhe interessava e por mais que nadasse, sempre se sentia mergulhada num útero protetor. No útero protetor da Mãe-Natureza! Foi assim até que num longínquo quinze de agosto de triste memória, o Marito desapareceu nesse mar de encanto. Percebeu-se depois que um barco a motor lhe batera na cabeça, quando mergulhava à beira mar. Só muitos anos mais tarde, as bóias definiram um espaço de proteção  para os banhos dos veraneantes. Ela não estava na praia. Fora passear com outros amigos, já não lembra onde, nem tampouco o ano… lembra, contudo que vestia um vestido de seda estampado em tons de amarelo e branco (as insignificâncias que a memória retém!). E ainda se vê a questionar o mar, “como foi possível?”

Na Foz do Arelho, já de mão dada com as duas filhas, banhavam-se na rebentação usufruindo, naquele perigosíssimo mar, o momento de elevação da onda. “Pulem que esta é grande!” E elas sem pé, as três feitas uma, sentiam na pele o arrepio da dúvida gerindo por segundos a incerteza de conseguirem manter-se à tona da água, à espera da onda seguinte. Vezes houve em que o mar as cuspiu. “Que temeridade! – pensa hoje… Estes banhos loucos, tornaram as filhas tão destemidas que, um dia, a mais nova, sem autorização e fora do alcance do seu olhar, entrou na “aberta” e um anjo protetor devolveu-lha de perfeita saúde. Nunca mais voltaram à Foz. Agora, S. Martinho do Porto é a praia ideal para as “aventuras” em que a neta se lança.

Num impulso irreprimível, exclamou “vou andar a pé!” O bom senso segredava-lhe que era melhor ter juízo. Era uma ideia tola caminhar num dia assim. Desceu a escada e enfiou-se no carro com a firme determinação de chegar à margem do rio.

Ao virar para a rua de Nossa Sra. do Amparo, apercebeu-se que uma jovem mulher caminhava à chuva com notória dificuldade. A velocidade a que seguia, embora não exagerada, e o fluxo descendente do trânsito não lhe permitiram parar em segurança, mas voltou atrás pela rua paralela.

Parou, então. “Parece-me que a senhora caminha cor dificuldade. Aceita que a leve a algum lado?” “Eu vinha a rezar, pedindo a Deus ajuda para subir a ladeira.” –  respondeu a senhora à laia de “bom dia”.

Então ela percebeu. O apelo da chuva fora o pequeno milagre na vida de alguém. 

sexta-feira, 12 de julho de 2019

QUISERA




Quisera que no meu peito fosse sempre verão
Que os goivos-da-praia perfumassem
cada dia
Que a noite me falasse de poesia…

E tu vinhas
envolto numa eloquência de estrelas
Pisando de devagar as pedras do caminho

Empurravas a porta entreaberta
Entravas de mansinho
E mimavas-me a alma com carinho

Imaginar-te sem saber-te
É um desatino

Sonhar-te sem ter-te
É o meu destino

A FITA MÉTRICA DO CHINÊS



Neste verão, que mal começou, tive a ideia de fazer uma nova toalha de praia. Arquitetei o plano e, ontem, para adquirir o material necessário resolvi deslocar-me ao chinês das Olhavas, por ser o que vende mais chinesices.

Escolhi o turco pretendido, a fita mais adequada para rematar o trabalho e dirigi-me à caixa para pagar. Quando chegou a minha vez, expliquei ao jovem que por trás do balcão ia faturando, que só levava o turco se tivesse mesmo um metro de largo e um metro e meio de comprido, como se assegurava na prateleira de onde o havia tirado. Ele abriu o turco, medindo-o por estimativa “tem, tem”. Em função desta afirmação categórica, informei-o de que também queria fita, sendo necessário que alguém fosse cortar dois metros da dita, já por mim escolhida... Vem uma menina, de olhinhos em bico, muito simpática mediu e zás! E eu voltei ao balcão com a fita na mão para pagar a conta que ficara suspensa.

Em casa, meio duvidosa da medição feita pelo chinês e desejosa de dar seguimento ao plano de execução da toalha, não fossem as férias apanhar-me desprevenida, verifiquei o tamanho do turco… 93cmx1,42m! Pasme-se!... faltava um bocadinho...

Almocei na paz do Senhor e, à tarde, voltei ao chinês das Olhalvas, armada de fita métrica. “Queres trocar?” perguntou-me sem que tenhamos andado na tropa juntos, nem nos conhecermos de qualquer outro lado… mas, mais importante que as subtilezas da linguagem, foi o facto de ter voltado a casa com um turco maior e mais caro também.

Hoje, quando finalmente ia ter uma toalha de praia nova e pretendia utilizar a fita de remate, para alindar o trabalho, verifico que a dita não chegava... em vez de 2m media 1,90m. Voltei ao chinês das Olhalvas que disse umas chinesices à chinesinha e mandou que se cortasse nova porção de fita.

Que conclusão poderei tirar depois destas andanças? A fita métrica do chinês é mesmo pequenina…

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

SONHEI CONTIGO, ESTA NOITE




Caminhámos de mão dada
rindo de tudo
e de nada.

Fugia p’ra me alcançares
desculpa p’ra me abraçares

Era o beijo que roubavas
Tu sorrias, eu corava
Numa primícia de amantes
que não fomos

eu sonhava

Não sei qual era o cenário
Na vastidão que eu corria
Só a alma possuía
Tal espaço p’ra te amar

Foi difícil acordar

Abracei-me ao teu sorriso
Que lembrava o paraíso

que brilhava, que brilhava


Essa luz me enfeitiçou
e nesta manhã nublada
foi o sol que me guiou

Sonhei contigo, acordada

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

TALVEZ UM DIA


Às vezes bate uma dor na alma… Não dói como se tivéssemos caído e esfolado o joelho, também não tem nada a ver com uma perna partida, nem tampouco com a picada de espinho da rosa que colhemos. É uma dor que nos desfaz por dentro, devagarinho, que nos mastiga o peito, rouba o ar dos pulmões e afoga os olhos. E nós sentimo-nos tão sós, tão profundamente abandonadas que apetece parar o mundo, sair e adquirir por uns tempos a existência etérea daquilo em que acreditamos e não entendemos ou mesmo ser ar que se respira, ser brisa que sopra, ser a maresia que o vento arrasta, ser cheiro a mar e som de onda miudinha que o tempo traz e desfaz na areia da praia, nas horas da baixa-mar.
 “Amanhã tenho natação.”
“Estarei louca?” “Como me fui lembrar da natação?”
É o apelo à vida a rir-se daquilo que não perdi, porque nunca tive, mas que almejei e não consegui alcançar.
“Quem sabe?! Talvez um dia… “– diria a minha mãe se me ouvisse hoje. Di-lo-ia, não para me consolar, mas por saber, que há na vida dias que valem muitos anos.

“Quem sabe?! Talvez um dia…”

domingo, 10 de dezembro de 2017

VICISSITUDES DE ME CHAMAR ISABEL SOARES


Para que serve o nome? Consagrado como um Direito Fundamental do individuo, o nome civil, assim se chama, identifica-nos desde o nascimento até para além da morte. É eterno. Citam-no enquanto nos lembrarem, depois fica esquecido, mas não deixa de ser nosso, mesmo depois de sermos pó e nada.

Já muitas vezes contei que herdei o meu de minha avó materna, tendo os meus pais, como única originalidade, intercalado Maria, o que fez de mim mais uma entre tantas e, no fim, acrescentado Soares para que constasse que eu era filha daquele homem e não de qualquer outro e pertencia a determinada família. Pena foi não ter herdado também todas as qualidades da avó, senhora doce, calma e sofrida sem queixume, até na morte. Se alguma coisa herdei dela foi a paciência que misturada com o otimismo e a raiva pelo incontrolável herdados de meu pai, fizeram de mim mais teimosa que o burro que o meu pai nunca teve. Dizia ele…

Que não se pense que o meu pai era uma pessoa violenta. Nada disso! A maior violência de que me lembro foi a de, num momento aziago, ter acertado com um tabefe, que me era destinado, na bochecha do meu amigo C-----tinho. Eu, ainda hoje estou profundamente agradecida ao C-----tinho por me ter feito esse favor, que a mão de meu pai era pesada… e embora eu classificasse o momento de aziago, na verdade, ao C-----tinho não fez mal nenhum levar a dita bofetada. Ele continua de perfeita saúde e, convenhamos, foi uma experiência nova, dado que em casa, só a mãe lhe acariciava o traseiro com o chinelo, enquanto o pai se entretinha a gerir o negócio. O pior foi mesmo a senhora sua mãe. A ela é que doeu… as mães têm destas aflições pelas bochechas dos filhos e não só… e eu estava a ver que por causa do tabefe mal entregue ainda se zangava toda a gente. Estava, com tal receio de não poder continuar a patinar por mais tempo no corredor encerado da casa do C-----tinho, com os chinelos de trapo que a mãe nos obrigava a calçar quando deixávamos os sapatos à porta, que até quis que ele me devolvesse o controverso tabefe. Tudo se resolveu em bem. As desculpas foram aceites e eu e o C-----tinho continuámos por muitos anos, mesmo até quando a idade dizia que já não o deveríamos fazer, a patinar no corredor, no espaço entre a passadeira e a parede, eu de um lado e ele do outro, levando à frente o bengaleiro e poupando o esforço à empregada doméstica de puxar o lustro ao chão.

Permito-me acrescentar que a mãe do C-----tinho me adorava, vendo em mim a filha que não tivera e eu retribuía essa estima. Recordo-a muitas vezes, tal como a todas as amigas de minha mãe, que nunca me regatearam afeto (há gostos para tudo...) e confesso que chego a gargalhar com a memória das coisas desses tempos em que fui tão feliz e nem sabia.

Voltando ao meu nome…

Eu já sabia, mas a Net confirmou que havia mais mulheres com  o nome de Isabel Soares. Descobri-o quando um dia recebo um email da Z---- queixando-se que estava com graves problemas com o patrão. E eu não percebia nada daquele desabafo apelando à lei, em que Z---- se dizia com problemas. Mas qual patrão? Eu conhecia muito bem a Z----. Ela era funcionária pública… depois abri os anexos e percebi. A Z----era outra e a Isabel Soares também. Apressei-me a devolver o email, pedindo desculpa por ter aberto os anexos e explicando que eu era outra e não aquela que se pretendia, sugerindo à tal Z---- que verificasse o endereço eletrónico com cuidado. De então para cá, nem queiram saber a correspondência que fui recebendo destinada a essa Isabel Soares, advogada lá por terras do norte do país.

Mais tarde apareceram uns mails diferentes, eram destinados a uma professora, também do Norte (para aquelas bandas deve haver muita mulher chamada Isabel Soares). Descobri isso ao abrir o anexo do primeiro email desta nova série. Deparei-me com uma planificação e… não resisti. Explicando que era especializada em Supervisão Educativa, pedi desculpa e confessando esperar ser útil, emendei o documento. Depois, tomei a mesma atitude, devolvê-lo e aos seguintes, à pessoa que os remetia explicando sempre que havia mais Marias na terra.

Pois hoje voltou a acontecer. Um senhor, AA de seu nome, enviou-me um mail, com duas fotos que diz serem suas e uma melodia “para me deliciar”, “não com as fotos” acrescentou, mas com a melodia, referindo a nossa amizade recente. Como não conheço ninguém chamado AA, embora o nome até seja bonito e o senhor apessoado, lá me vi na obrigação de explicar ao sr. AA que eu não seria a tal a quem pretendia deliciar, embora me tivesse abusivamente deleitado com a melodia à outra destinada.

“Isabel Soares?” – até aquele senhor se admirou (mais tarde seria Presidente da República). “Sim, contudo, o meu pai não se chama Mário, mas Luís”. “Pois não! Quando chegar a Lisboa vou contar a minha filha que encontrei, em Leiria, uma Isabel Soares como ela.”

Chamar-me Pancrácia ou qualquer outra coisa fora do comum não me obrigaria a devolver mail atrás de mail, mas ter-me-ia privado da oportunidade de conhecer o sr. Januário eletricista que tem um cão, grande, e é casado com uma linda jovem (mandou-me a foto de família não fosse eu pensar que estaria a ser vítima de uma abordagem duvidosa), nem tinha a melodia do sr. AA para me deleitar enquanto estou aqui, fechadinha em casa, à espera que a Sra. D. “Ana” Tempestade (suaviza o efeito darem nomes às tormentas) vá pregar para outra freguesia.