quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Lembrando FERNANDO PESSOA

No septuagésimo sexto aniversário da sua morte.

SONHO. NÃO SEI QUEM SOU

Sonho. Não sei quem sou neste momento.

Durmo sentindo-me. Na hora calma

Meu pensamento esquece o pensamento,

Minha alma não tem alma.


Se existo é um erro eu o saber. Se acordo

Parece que erro. Sinto que não sei.

Nada quero nem tenho nem recordo.

Não tenho ser nem lei.


Lapso da consciência entre ilusões,

Fantasmas me limitam e me contêm.

Dorme insciente de alheios corações,

Coração de ninguém.


Fernando Pessoa, in Cancioneiro

sábado, 26 de novembro de 2011

ESQUECIMENTO

Acordei esta manhã, no calor da minha cama, mergulhada na escuridão do meu quarto e deixei-me ficar de olhos fechados saboreando a quietude do momento.

Tenho saudades de mim. Tenho saudades do tempo. Tenho saudades de me deixar estar, como que perdida no universo, flutuando em nada. Eu e as estrelas a sonhar com o Sol da manhã.

Esquecida que sou, nem eu me preocupo comigo.

E apeteceu-me alongar na paisagem e enrolar os pensamentos no marulhar das ondas de S. Martinho do Porto.

Lisboa cumprir-se-á hoje. Não há tempo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

PATRIOTA? NÃO: SÓ PORTUGUÊS

Patriota? Não: só português.
Nasci português como nasci louro e de olhos azuis.

Se nasci para falar, tenho que falar-me.


Alberto Caeiro, in "Fragmentos"

QUINTA-FEIRA

É quinta-feira. Está uma manhã de Sol.

Através da vidraça, a Rita e eu mergulhámos o olhar na luz do horizonte. Há menos trânsito que o habitual. Será da adesão à greve geral? A BT informou que as pessoas saíram todas muito mais cedo de casa. Na TV, a senhora ensina a pôr “corretamente” a mesa. A manhã vai acontecendo devagar.

Visto da minha janela, o dia parece primaveril, mas algures, as temperaturas estão baixas, disseram-me há pouco, pelo telefone, à laia de bons dias.

É tempo de frio, mas quem diria que há frio?!

O Sol brilha lá fora e a esperança cresce no meu peito.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

SEM TÍTULO

Nós temos cinco sentidos:
São dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?

David Mourão-Ferreira

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

ANDAIME

O tempo que eu hei sonhando

Quantos anos foi de vida!

Ah, quanto do meu passado

Foi só a vida mentida

De um futuro imaginado.


Aqui à beira do rio

Sossego sem ter razão.

Este seu correr vazio

Figura, anónimo e frio,

A vida vivida em vão.


A ‘sp’rança que pouco alcança!

Que desejo vale o ensejo?

E uma bola de criança

Sobre mais que minha ‘s’prança,

Rola mais que o meu desejo.


Ondas do rio, tão leves

Que não sois ondas sequer,

Horas, dias, anos breves

Passam – verduras ou neves

Que o mesmo sol faz morrer.


Gastei tudo que não tinha.

Sou mais velho do que sou.

A ilusão, que me mantinha,

Só no palco era rainha:

Despiu-se, e o reino acabou.


Leve som das águas lentas,

Gulosas da margem ida,

Que lembranças sonolentas

De esperanças nevoentas!

Que sonhos o sonho e a vida!


Que fiz de mim? Encontrei-me

Quando estava já perdido.

Impaciente deixei-me

Como a um louco que teime

No que lhe foi desmentido.


Som morto das águas mansas

Que correm por ter que ser,

Leva não só as lembranças –

Mortas, porque hão de morrer.


Sou já o morto futuro.

Só um sonho me liga a mim –

O sonho atrasado e obscuro

Do que eu devera ser – muro

Do meu deserto jardim.


Ondas passadas, levai-me

Para o alvido do mar!

Ao que não serei legai-me,

Que cerquei com um andaime

A casa por fabricar.


Fernando Pessoa - Cancioneiro

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

UM CASO DE POESIA


-Paulo, viu por aí o meu cavalo verde?

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

ESPERANÇA

Que quem possa ter ouvido a postagem anterior, não desespere. Após uma noite tenebrosa, o Sol traz a esperança de um novo dia.

UM CASO DE POLÍCIA

Mas onde estará?

Dei pela falta e fiquei numa aflição. Sumira o meu tesouro.

Onde estaria? Sumira o beijo que trocámos, as palavras que inventámos para dizermos que o nosso amor jamais se cansará de amar e até o calor da tua mão na minha, em cada lado da noite, levara descaminho.

Contratei o Sherlock Holmes, Monsieur Poirot, Maigret, Tom e Two Pences, Miss Marple, Jessica Fletcher e nem eu cruzei os braços. Após investigação cuidada e persistente, eis o que descobrimos:


Uma qualquer que se diz eu, de avental à banda, pretende o que me pertence, sem decoro.

Aqui d’el-rei! Chamem a polícia!

domingo, 13 de novembro de 2011

"MALES" DE AMOR

Entrei no carro e parti em demanda de gasolina.

Enquanto o gasolineiro abastecia o depósito, escolhi quem me acompanharia na viagem. Ainda pensei em Gabriela Mercury, mas a quem apeteceria “feijão com arroz” àquela hora da manhã? E, mais uma vez, fiel à paixão que me avassala, a escolha caiu sobre Michael Bublé.

Coloquei o CD no leitor do carro e... nada! Ele ficou mudo e quedo, não cantava.

- Estás zangado? Quis saber. E ele, nada. Continuava mudo e quedo.

-Trocaste-me por uma da tua idade? Eu compreendo – argumentei - mas ninguém te ama como eu. Elas andam a dizer na NET que tu és o Marco Paulo lá do sítio, que não exploras todos os recursos da tua voz; que garantes êxitos cantando antigos êxitos de outros e até o meu amigo C. diz que me deixa ouvir-te porque tu não és gay, mas eu, até esse quiproquó perdoaria à voz maravilhosa que possuis - lamuriava-me sem perder o folgo.

E ele nada. Continuava mudo e quedo, sem se comover com o meu choro apaixonado.

De repente, cantou...


Não foi tão de repente como isso… Tive de voltar o CD ao contrário e recolocá-lo no leitor do carro.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

"RECORDAMENTOS"


Quando olho para trás no tempo, não gosto de lembrar acções. Gosto de calma e beatificamente debruçar-me sobre momentos vividos como quem abre a janela numa tarde de Sol e fica a olhar a linha imaginária do horizonte, adivinhando o que fica para lá, do espaço e do tempo, seja qual for a dimensão da vida.

Por isso não gosto de recordações, mas adoro recordamentos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ILHA

Lá fora, a chuva cai de mansinho.
Na luz translúcida da manhã, apetece poesia.


Deitada és uma ilha. E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

David Mourão-Ferreira (1927-1996)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

FIVE O' CLOCK TEAR

Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada


Emanuel Félix (Angra do Heroísmo, 1936 - 2004) A Palavra O Açoite (1977)


Hoje, não há chá.

sábado, 5 de novembro de 2011

DE CANDEIAS ÀS AVESSAS

Um lápis e um bocado de papel; um vidro de janela onde o vapor se condensara e a ponta do dedo, às vezes até os lábios ou a ponta do nariz; um caule rico em seiva e a parede exterior do prédio; até mesmo um pau e o chão pouco pisado, serviam para dar largas à imaginação. Eu desenhava.

Como prémio, em função dos materiais usados, ganhei alguns castigos, uns mais dolorosos, outros menos, mas não foi isso que me impediu de desenhar.

Os lápis de cor não me entusiasmavam. Eram demasiado duros. Possivelmente as marcas não proliferavam e o espírito economicista de meus pais mandava que para “estragar” se comprasse material barato. Como uns lápis “Caran d’Ache”, a que só tive direito muitos anos mais tarde, em vez dos “Viarco”, teriam feito as minhas delícias!

Mesmo para escrever, só gostava de lápis N.º1 e ainda hoje, nas lapiseiras, uso minas B ou 2B em vez das HB, que toda a gente prefere. Sempre apreciei uma escrita vigorosa em que o traço acaricia o papel.

Entrei na escola primária e concluídos os primeiros anos, ensinaram-me desenho à vista, sem qualquer noção de perspectiva. Começou então, o meu enamoramento com a luz.

Um dia a Ditinha trouxe de Lisboa para o Tó um livro em que bastava passar um pincel molhado em água para as figuras adquirirem lindas cores. Descobertos os pincéis, foi uma festa ajudar a colorir a história, mas só aos dez anos fui dona e senhora de guaches e aguarelas, que pude manusear a meu belo prazer. É também, a partir desta idade, com a entrada no Liceu Nacional de Leiria, que passo a ter uma disciplina específica de desenho e a contar com professores excelentes, na área.

O meu primeiro professor de desenho, no primeiro e segundo ano do Liceu, foi o Arquitecto Tavares Nunes com quem aprendi o gosto pelas cores quentes e a liberdade de pintar dispensando pincéis, usando simplesmente as mãos. Com os dedos passei a pintar céus fabulosos e prados verdejantes. Desafio, quem nunca o fez, a experimentar a sensação de mergulhar as mãos na tinta e pintar com elas uma tela.

Seguiu-se lhe, no terceiro ano, o Arquitecto Célio Cantante. Então, aprendi o gosto pelo pormenor e encantei-me com a caricatura que anos mais tarde cheguei a tentar.

Aconteceu também no terceiro ano, ser aluna a História, do Dr. José Gonçalves. É ele que me alerta para a representação do movimento em arte a propósito da pintura egípcia.

Um dia, teria treze anos, ouvindo falar em pintura abstracta e não sabendo o que isso era, resolvi pintar um quadro. Entornei tinta cor-de-rosa, ainda não homogeneizada, sobre uma folha de papel, dei movimento à mancha, deixei secar, apus um título: “O menino e o cão” e fixei a obra, na parede do meu quarto, do lado direito da minha secretária. A minha mãe entrou, eu fingia que estudava, mas expectante aguardava, reparou na novidade, aproximou-se, leu o título e deu uma sonora gargalhada. Que frustração! Foi neste instante que a arte e eu ficámos de candeias às avessas.

E tendo tido desenho só até ao antigo quinto ano do Liceu, fechou a sequência o Dr. Padrão. Com ele aprendi a verdadeira técnica do desenho à vista. Finalmente, soube onde se situavam os focos e como se respeitava a perspectiva.

Aprendi, porque terá de ser assim que a obra nasce e não de outra maneira, que a cinco por cento de talento e outros cinco de inspiração se têm obrigatoriamente de somar noventa por cento de trabalho persistente.

Tinha jeito. Todos eram unânimes. Faltava o talento, tinha alguma inspiração, mas as inúmeras actividades por que repartia o tempo, não permitiam o tal trabalho persistente.

No sétimo ano deliciei o professor de ciências com os desenhos dos preparados das lamelas que espreitava ao microscópio, nas aulas de Trabalhos Práticos. Os preparados de botânica eram os que exigiam mais paciência, mas também eram os que mais me encantavam reproduzir pela exuberância das cores.

Na Escola do Magistério Primário fui aluna de D. Helena Silva e é com esta senhora que aprendo as mais variadas técnicas, muitas das quais ainda hoje identifico em trabalhos de pintores contemporâneos. Dará para acreditar que só então, aos dezoito anos, tive direito a uns lápis de cor e de cera de marca Caran d’Ache? Felizmente as outras marcas não eram suficientemente boas para permitirem as técnicas que éramos obrigadas a experimentar. É também com esta professora que sou treinada para ver para além do quadro como produto final e passo a tentar entender as opções de quem o realizou.

E a vida foi-se cumprindo, desenhando, pintando e fazendo outras coisas, muitas vezes mais funcionais, mas que mesmo assim permitiam que exercitasse a imaginação, que desmontasse conceitos e combinasse os atributos da forma desusada, ganhando os epítetos de habilidosa e criativa.

Há alguns anos a minha filha mais nova insistia “vai para a pintura”. Eu, mãe extremosa, retorquia “Não vou porque sou vossa amiga. Depois, quando morrer, ficarão para aí os monos e vós, em vez de os deitardes fora, ficareis com eles porque foi a mãe que os pintou. Não vos quererei a armazenar lixo”, mas a insistência foi tal que achei que a única forma de lhe pôr fim era mesmo pintar um quadro.

Pensei no mote, adquiri tela, pincéis e tinta e apresentei-me numa aula de pintura dizendo ao que ia. “Traz um postal com o Castelo de Leiria?” Não, não levava e para que seria? “Para ampliar” e eu sem entender porque teria de ampliar o castelo ele já não era suficientemente grande? “É capaz de o pintar sem o copiar de algum lado?” Aqui, eu já tinha perdido a paciência. Eu, uma fã incondicional dos impressionistas ter de ampliar o castelo de um postal…

Peguei nas tintas e nos pincéis e no que restava do tempo de aula fiz jus ao mote:

“Quanto é melhor, quanto há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não”

- Voltarei na próxima aula, pretendo, com o quadro já seco, pintar um nevoeiro cerrado.

Voltei, mas a senhora não soube ensinar-me a pintar o nevoeiro. Eu também não sabia. Tentei mas não resultou. Mesmo assim ofereci o quadro à filha, que fez o favor de o pendurar na parede e não mais insistir para que pintasse.

A arte e eu continuamos de candeias às avessas.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

CHUVA

Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece,
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.

Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer...

Miguel Torga, Poesia Completa