sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A CRÓNICA POSSÍVEL


“O meu ursinho, avó?””O meu está aqui. Perdeste o teu?” – respondo abraçando o André, a espreitar junto da minha cama improvisada, no seu quarto. Começava o dia. O último de agosto.

Levanto-me e abro a persiana do quarto ao lado, aquele onde deveria dormir. O branco das casas brilha na luz da manhã. Muitos carros já circulam na IC19. O vermelho das palavras Continente e Conforama saúdam-me. “Antes queria ver o Tejo” – penso, lembrando a antiga casa da sobrinha, situada uns metros mais à frente. É dia trinta e um de agosto. Poucas horas faltam para que o mês se cumpra.

Agosto e S. Martinho são indissociáveis. S. Martinho de novo, este ano, num vai e vem de tardes. E as amigas! “Já que ninguém nos cuida, temos nós de nos cuidar umas às outras” – costumo lembrar.

Dia um, fui sozinha: saber da barraca, levar as cadeiras e gozar de uma excelente tarde de praia. A maré alta é propícia a bons banhos. Gosto de me sentir como que perdida, na imensidão do mar, acariciada pela água e olhar para terra. Ali está o meu porto seguro. É como quem arrisca, sabendo que ganha. Meia dúzia de gestos, sem necessidade de que se enquadrem em qualquer estilo natatório e estou com os pés firmes, na areia molhada e dura. Só em S. Martinho a areia molhada é dura.

Dia dois, o primeiro passeio a Salir. “Avançamos? Voltamos para trás?” – (premonição...) e sorrio “voltamos”. Acabara de descobrir que a borda daquela imensa concha materializava a minha distância pessoal e que o mapa das “minas” com que a armadilhara era de fácil leitura. 

A partir de então as amigas estiveram presentes, não temos companhia, mas estamos acompanhadas e as tardes fizeram-se de risos e boa disposição.

Uma ida a Lisboa, para cuidar da neta. Um passeio a Viana do Castelo. “Nunca te cansas?” – perguntou a filha. Uma tarde de domingo a preguiçar, em casa, para retemperar e, de novo, S. Martinho.

E a maré alta a envolver-me e eu a nadar até às boias, a rodopiar dançando na água, a esvoaçar sentindo-me gaivota e, em vez de voar, nadando…

Dia vinte e seis, a mudança da maré. “Hoje, não toma banho?!” – admiraram-se os vizinhos de barraca, “a água não chega”.

“Anda daí, vamos a Salir apanhar conchas cor-de-rosa” “conchas cor-de-rosa?!” – admirou-se a amiga, para, depois, se encantar a apanhá-las. “Sempre a aprender! Não sabia que havia conchas cor-de-rosa…” “só em Salir” – esclareci.

À noite, o telefonema da filha: “preciso de ti”. E aqui estou. Cumprem-se os netos, por doença da mãe. Adiou-se, para o próximo ano, o concurso de ginjinha, agendado para a tarde do dia vinte e sete.

Cumpriu-se S. Martinho. Está quase a cumprir-se Agosto.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

AMOR E MAR

No fim deste magnífico mês de Agosto, a voz de Cesária, num misto de mel e maresia...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

ONTEM


“Esta noite vou ter contigo à cama”… Eu deixei-me seduzir por aquele sorriso luminoso. Mulher decidida avancei “não vou esperar por ti. Vou deitar-me contigo… na tua cama”.

Aconteceu. Foi na noite de ontem. Muita agitação… Braços e pernas num desatino… Por onde andaria o lençol? Uma noite em claro... De manhã estava exausta… 

“Não vais aos treinos…” – autocritiquei-me.

Vozes houve que se levantaram “não tenho pena, nenhuma. É muito bem feito” "era previsível. O que esperava?"

Amigas… não durmam com o neto de seis anos, fã de super-heróis, se não forem judocas de cinturão negro… ou praticantes de qualquer outra modalidade de defesa pessoal...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

LENÇOS DOS NAMORADOS




Dois destes lenços dos namorados foram bordados por mim, outro não.
Conseguirão adivinhar qual dos lenços não bordei?

domingo, 26 de agosto de 2012

A NOITE

A capela estava toda iluminada...







Na avenida também não faltava luz e cor...




Durante o dia olhara os lenços pendurados, "mal empregados" pensara, para à noite ver (olhar não é ver...) que simbolizavam os brincos do Minho.



FIM DE FESTA

sábado, 25 de agosto de 2012

VIANA DO CASTELO: o que eu andei...

Caminhando pela avenida...

O homem que vendia cabaças

Que lindas cabaças! Posso tirar uma fotografia? E a si Também?


O lenço dos namorados: "O nosso amor só pode acabar, se esta pomba voar"

E os barros coloridos...

Arte telúrica (poderei chamar assim?) - a Natureza no seu melhor...


Os palmitos da romeiras. Gosto mais dos outros, só em papel metalizado em ouro velho. Não havia.

Era uma janela virada para o mar...

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

SENHORA D'AGONIA

Oração de S. Bernardo

Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa protecção, implorando o vosso auxílio e reclamado o vosso socorro, fosse por vós desamparado. Animado, pois, com igual confiança, a vós, ó Virgem entre todas singular, como a Mãe recorro, de vós me valho e, gemendo sob o peso de meus pecados, prosto-me aos vossos pés. 
Não desprezeis as minha súplicas, ó Mãe do Filho de Deus humanado, mas dignai-vos de as ouvir propícia e de alcançar o que vos rogo.
Amém.



O Altar-mor 


E, depois da angústia... Senhora da Alegria

Oração

Senhora, dai-me a alegria de viver
Senhora dai-me a alegria e o Amor

Alegria de viver, para repartir pelos que não a têm
Alegria e Amor, para distribuir pelos que não a têm

Serás sempre o pilar da Vida
Serás sempre as raízes do Amor

Ajuda-nos a viver
Ajuda-nos a Amar

Por nós, pela família, por todos os que sofrem

Amém

E mesmo ao lado... S. Roque

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O DESFILE (apontamentos)

A jovem de vinte anos, que abrilhantou o cartaz das festas, vestia o fato que a avó Rosa usara em 1944, a propósito do mesmo evento.

E as crianças, Senhor... como suportaram bem o calor...

Tocavam muito bem. E as roupas, que bonitas!


Também gostei muito deste grupo. Havia quem fizesse maravilhas com o polegar nas pandeiretas. 


Nem o Infante D. Henrique faltou à festa...


Foi na festa da Senhora d'Agonia.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

OS GIGANTONES

Dizem que foram  importados da Galiza, em 1893, quando se pretendia definir o figurino das festas da Senhora d'Agonia (historiador António Abreu) e que têm origem na tradição germânica (António Abreu), nos gigantes dos contos infantis. 
Com os bonecos de cerca de quatro metros e com vinte ou trinta quilos de peso, importou-se também o nome "gigantones".
Os gigantones transportam-se ao ombro e balançam ao som da música. Como será difícil e cansativo carregá-los...
Estes foram os que vi, no sábado, dia dezoito, na Festa da Senhora d'Agonia.


Os gigantones encaminhando-se para o local do cortejo.


Elas seguiam à frente.

Eles... logo atrás.


Aqui, já no local do desfile, que iniciariam.


Já em pleno desfile.

A tradição manda que atrás dos gigantones sigam os cabeçudos. Bonecos mais pequenos, de grandes cabeças, que desfilam como a corte dos primeiros.

Não havia cabeçudos. Será a tradição que já não é o que era? 

Estes cabeçudos estavam à venda. Ninguém  os terá comprado a tempo?






Os gigantones, indiferentes à sua origem, vieram para ficar, ou não fora a romaria da Senhora d'Agonia a rainha das festas populares.

VIANA DO CASTELO

Sábado, dia 18 de Agosto, fui a Viana do Castelo.
Cheguei à hora do almoço.


Nossa Senhora e S. José tinham ido dar a papinha ao Menino Jesus.

Deleitei-me com as uvas...

Depois com os chocolates (a minha mãezinha ensinou-me que a etiqueta manda comer primeiro o doce e depois a fruta, mas eu quebrei a regra...)



Pedi perdão pelo pecado de gula...



Naveguei pela avenida... Milhas, muitas milhas de navegação...




Numa cara lindíssima, este sorriso acolhedor disse-me que era bem-vinda. 
Eu acreditei.



E rendi-me... 
Deixei que ternamente me enredassem nas curvas de corda dourada deste coração maravilhoso (o "ouro", no concernente a corações, é mesmo uma metáfora...).

Gostei de ir a Viana.

domingo, 19 de agosto de 2012

UMA FORMA DE OLHAR



O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”, 8-3-1914

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

ADIVINHA



Qual é coisa? Qual é ela?


- Não é botão de casaco de inverno;
- Não é ouriço apanhado na baixa-mar;
- Não é malha de jogar à cartola;

- Não é calhau caído das alturas;

- Não é roda de veículo;
- Não é OVNI;


O que é afinal?
Quem adivinhar tem direito a um igual.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

CHEGOU O INVERNO



Todas as tardes, cumprida a visita diária a minha mãe, rumo a S. Martinho do Porto, cerca das quinze horas. E o mês de Agosto vai acontecendo num vai e vem sem parança.

Há sempre amigas interessadas no passeio o que me faz trair Michael Bubllé, cujo CD, escolhido há imensos dias ainda não conseguiu fazer-se ouvir até ao fim. As canções começam a tecer-se nos curtos minutos que separam a minha casa da de PS, para se calarem assim que esta entra no carro. Que sorte! Quando a OC aparece à minha porta e me acompanha, nem sequer começam a ser ouvidas. A conversa leve e inconsequente com as amigas é bem mais interessante.

As tardes de praia, com sol quente e a preia-mar, têm resultado fabulosas para quem, como eu, gosta de tomar banho e espojar-se ao sol. Nado até às boias e por lá rodopio, sonhando-me Odete, livre da maldição do bruxo Von Rothbart e sem Siegfried que me perturbe.

O mar em S. Martinho é um lago calmo. A água fria, num tom esverdeado, envolve-nos, acariciando-nos a pele e qualquer gesto é suficiente para nos manter à superfície. “Que será feito do senhor Machado?” Lembrei-me há dias, quando, brincando sozinha junto às boias vi aproximar a Rute, a Laura e a Marta, jovens de quinze, treze e onze anos respetivamente. “Outra geração” – pensei. O senhor Machado, aos oitenta anos ainda me acompanhava nestas deambulações mar adentro, com a minha amiga Z., sua vizinha de barraca, na fila atrás da minha. Agora a Z. recompõe-se da doença, com que o inverno passado a vitimou e este é o terceiro verão em que nada sei do senhor Machado. A vida a caminhar a passos largos indiferente aos meus afetos!

As amigas que me acompanham desde Leiria, não gostam de fazer praia como eu. Normalmente passeiam, vão ao café e aparecem quando lhes apetece. Então, juntas, esperamos que a praia fique deserta. Os vizinhos de barracas, à medida que vão embora, recomendam “feche a praia bem fechada” e nós, hábito meu bem velho, deixamo-los partir com a promessa de que se dará três voltas à chave, para então estendermos os olhos, regaladamente, pelo espaço até Salir. Elas também gostam da paisagem…

Cerca das vinte horas, quando não é mais tarde, saímos da praia, jantamos no Ocean Place e depois rumamos a casa, onde nunca chego antes das vinte e uma horas, para, alguns dias, ainda ficar na conversa com a OC, à minha porta, atitude plenamente justificável pelo facto de não termos conversado nada (pouco) a tarde inteira.  

Hoje, havia vento, muito vento. “Vamos aos anéis” – decretei eu, mal chegámos. “não há como tu para adivinhar as coisas que me fazem falta” – brincou a OC, “avalio pelas minha próprias necessidades” - contrapus, “primeiro tomamos café” – exigiu a PS. Cumprido o programado café e, tendo cada uma, depois de voltarmos a loja do avesso, adquirido uma extraordinária joia, pela exorbitância de três euros, rumámos aos pastéis de nata. “Estão quentinhos!”- admirou-se a PS.  Claro que estavam quentinhos, há sempre pastéis de nata quentinhos, se fossem iguais aos que se comem em Leiria, não teria valido a pena levá-las ao “Cantinho II”.

Quando, finalmente, rumávamos à praia, a chuva começou a cair. “Quanto pagam para vos deixar ir debaixo do meu chapéu?” - perguntou a PS, exibindo a sombrinha que tirava do saco. “Quem te disse que desdenho andar à chuva?” – quis saber - “Os chuvisco de S. Martinho tornam as mulheres mais belas”, “receio que não sejam chuvisco…” lastimou a OC, caminhando á chuva, tal como eu. Mas foram e ficámos na praia até às vinte horas.

Como acontece em cada ano, o inverno chegara a S. Martinho para passar o verão, mas que nos importara? Fora, simplesmente, mais um veraneante.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

S. MARTINHO DO PORTO




Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto? 


                                        Uma tarde de Outono, Olavo Bilac, in Poesias